A primeira vez que os vi foi em meados de Dezembro do ano passado, quando atravessavam a Estrada de Benfica… ele, atrás, numa cadeira de rodas, e ela, à frente, sempre olhando para ver se ele a seguia.
Depois, começámos a conversar sobre ela, enquanto ele pedia esmola à porta do café onde costumo ir todas as manhãs, e ela brincava a seu lado, no chão. Emocionou-me a forma como ele demonstrava o seu amor por aquela cadela e como cuidava dela tão zelosamente.
Até que, fatidicamente, na semana passada, ele -o Sr. M- me contou que a sua cadelinha -a Meg- lhe tinha sido roubada.
Depois desta conversa, e durante quase uma semana, o Sr. M não voltou a estar parado à porta daquele café. E por mais que vos possa parecer estranho, durante todo esse tempo, fiquei bastante preocupada, pensando no que teria acontecido àquele homem -que nem sequer conhecia-, tal era a tristeza em que deveria andar por causa do roubo da sua cadelinha. Pensando sempre que, em cada dia seguinte, ao virar aquela esquina, o iria encontrar de novo acompanhado pela sua Meg.
Entretanto, na semana seguinte, o Sr. M voltou a estar no seu local habitual de todas as manhãs. Surgiram novas pistas sobre o paradeiro da Meg e chegou-se à conclusão que tinha sido, de facto, roubada por alguém: várias pessoas, no dia do seu desaparecimento, a viram ser colocada dentro de um carro cinzento, junto à Praça de Benfica, por alguém que conhecia a Meg.
Nessa altura, só me lembrei das suas palavras, quando um dia me disse: - “Grande Meg! (…) cães ou gatos, são todos iguais! Quanto mais os conheço, mais gosto deles! São fiéis, enquanto as pessoas…”.
A forma como o Sr. M fala, o cuidado que coloca nas palavras e os termos que utiliza, denotam tratar-se de alguém que não é, apenas, um pobre coitado, um mero mendigo sem eira nem beira... mas antes uma pessoa com instrução e educação.
Comecei então a interessar-me, cada vez mais, pela enigmática história daquele homem (nós, os antropólogos somos assim!... Não conseguimos mesmo evitá-lo, nem no nosso dia-a-dia). Mas, por respeito perante a sua dor, ou, talvez, com medo de parecer demasiado curiosa, nunca o questionei sobre nada... limitando-me, apenas, a encorajá-lo face à triste situação da perda da sua cadela.
Como é que alguém cai assim num estado de miséria e solidão tão extremos? O que teria acontecido na vida deste homem para o deixar assim?
O fio que nos separa da solidão e miséria profundas é tão ténue...
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