sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

A Meg e o Sr. M - II

[Ver: Parte I]


O Sr. M continua a desfalecer, a cada dia que passa.
Esta manhã, quando fui tomar o meu café e o vi, fiquei bastante apreensiva: - o seu rosto parece ter envelhecido 10 anos em apenas 2 semanas e o seu olhar está cada vez mais parado e triste.
No momento em que conversávamos, passou a Filipa (uma colega de trabalho e amiga, que, também, mora ali perto), com a sua filha mascarada de Minnie. Cumprimentámo-nos e falámos um pouco sobre o Carnaval e a fatiota nova da R.
Quando ela se foi embora, não pude deixar de reparar no sorriso nostálgico que, repentinamente, se esboçou no rosto do Sr. M, ao ficar a olhar para a pequena Minnie afastar-se ao colo da sua mãe (quiçá, trazendo-lhe esta imagem recordações de
uma vida passada).


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Costuma ouvir-se dizer que as pessoas que se dedicam de corpo e alma aos animais (daquele tipo que têm um número infindável de cães ou gatos ou as 2 espécies juntas, ou do outro género de não puderem ver um animal abandonado na rua que o apanham logo e tratam de arranjar quem o adopte) têm falta de algo nas suas vidas... seja porque as suas famílias não lhes dão muita atenção, seja porque não se realizaram pessoalmente em algum aspecto das suas vidas, seja porque motivo for.

Podendo, sem dúvida alguma, este raciocínio ter uma quota parte de veracidade, em meu entender, há algo de mais profundo nessa dedicação desmesurada aos animais: - o respeito por outro ser vivo.
Um sentimento que não deveria estar, unicamente, patente nas relações entre os homens, mas, também, entre estes e os restantes seres vivos que habitam este planeta.
"A grandeza de uma nação e o seu desenvolvimento moral podem ser julgados pela forma como os animais são tratados" (Mahatma Gandhi).
Talvez por as nossas sociedades terem atingido, nos dias que correm, um aperfeiçoamento tecnológico tão grande, a maioria dos indivíduos acredite ter uma qualquer força sobrenatural e tenha deixado de prestar atenção a outras coisas sobejamente importantes, como sejam o respeito pela natureza e pelos animais, passando a não lhes conferir a importância que efectivamente têm.
Afinal de contas, não tem sido o Homem, nos últimos tempos, o principal destruidor de tudo aquilo que o rodeia, na sua ânsia crescente por um poder ominipotente?!
Mas nem tudo é mau no "melhor dos mundos"... pois, felizmente, que ainda existem pessoas a preocupar-se com os animais (bem como com os homens) e a sua sorte!

Desde o desaparecimento da Meg, tenho vindo a conhecer uma série de pessoas que ainda se preocupam com esse respeito primordial pelo “Outro” e pelos restantes seres vivos.

A T. é uma dessas pessoas!
Foi a instigadora da recolha de fundos com vista à esterilização da Meg e, na loja onde trabalha, dá de comida a uma série de animais aqui do bairro.
Esta manhã, enquanto falávamos à porta da loja, entrou por ali adentro, como se já conhecesse os cantos à casa, um pequeno caniche preto (já meio cinzento, porventura, devido à sujidade), todo brincalhão.
Poucos minutos depois, surgiu o seu dono, o Sr. S, uma figura algo anacrónica, de cachimbo na mão, chapéu com pala (daqueles que os miúdos usam) na cabeça, com leves trejeitos de marinheiro.
A T. foi, prontamente, buscar comida para o pequeno caniche, enquanto este bebia água numa pequena taça (improvisada) de plástico, que se encontra sempre à porta de loja.
Enquanto isso, o Xibanga (nome do caniche) começou a “inspeccionar-me”, esticando as suas patitas nas minhas pernas... acabando por aninhar a sua cabeça nos meus joelhos.
O Sr. S pareceu surpreendido com a atitude do Xibanga e sorriu-me, segurando o seu cachimbo que se encontrava já na boca.
Parece que o pequeno Xibanga, caniche-anão, não costuma ser assim tão efusivo com as pessoas que conhece pela primeira vez... tendo já mesmo mordido alguém que, apenas, lhe tentare fazer uma festa.
Também se costuma ouvir dizer que os animais reconhecem institivamente (seja pelo cheiro, pela postura corporal ou pelo tom de voz) quem lhes quer bem!...
O Sr. S ficou todo contente e até se despediu de mim com um eloquente: - “Adeus menina!” (apesar dos meus 30 anos e 3 cabelos brancos!).
E eu, no meio desta saga toda pela busca da Meg, fiquei a conhecer mais um dos “personagens” aqui do bairro!...

Quanto aos cães e a esta minha necessidade impreteriosa de encontrar a Meg (para quem não saiba, é mesmo a primeira vez que me empenho tão a fundo numa questão deste género!)...
A minha relação com cães é muito parca, resumindo-se, essencialmente, a 2 casos: - o primeiro, o de um rafeirito que, em pleno Alentejo, quando era miúda, veio tentar brincar comigo e eu apanhei o maior susto da minha vida... pois, como não estava habituada a lidar com cães, não percebia muito bem as suas reacções;


Snoopy - 2004


- o segundo, já adulta, há cerca de 3 anos, quando fui trabalhar para o local onde me encontro actualmente, o caso de um rafeiro arraçado de perdigueiro português, o Snoopy. Adoptado por uma das famílias do bairro social (onde se encontra o meu local de trabalho), que, quando cresceu, teve o azar (como acontece a muitos animais, infelizmente!) de passar a viver somente na rua. Ou seja, tinha dono, mas não tinha!...
Comecei a dar-lhe comida, quando chegava ao emprego de manhã, acabando por me afeiçoar ao animal (que era de uma meiguice extrema e carente de afecto). Ainda tentei, através dos meus contactos, arranjar um dono em condições para o Snoopy... mas, depois, um dia, há cerca de 1 ano atrás, quando me encontrava de férias, os meus colegas de trabalho contaram-me que o Snoopy tinha deixado de aparecer. Imaginei logo o pior!... Que, num bairro como aquele, ou o cão tinha sido atropelado, ou então servira para as lutas de cães que por ali se realizam muito.
Algum tempo mais tarde, vim a saber que, afinal, a avó do dono do Snoopy o tinha dado a um empreiteiro, para servir de cão de guarda numa obra qualquer, ali para os lados de Carcavelos (mesmo tendo eu já dito, por inúmeras vezes, a esta senhora para ela não dar o cão a ninguém que eu lhe arranjaria um dono). Ainda me passou pela cabeça ir para Carcavelos, à procura do Snoopy, em todos os estaleiros de obra que por ali existissem... mas demoveram-me dessa ideia, ao considerarem que eu estava a ficar um pouco louca. Até hoje nunca mais soube nada do Snoopy!... Se está morto ou vivo, o que quer que seja... restam-me, apenas, as suas fotos... mas a incerteza é, de facto, o pior sentimento em que podemos viver.

Desta forma, talvez por a minha experiência com cães, até à data, não ter sido das melhores e por me sentir um pouco culpada por não ter podido encontrar um outro dono para o Snoopy, tenha acabado por me envolver tanto nesta “história” do desaparecimento da Meg. Para esse envolvimento, também, não pode ser alheio o estado de vida em que o Sr. M (dono da Meg) se encontra... Se me acontecesse o mesmo a mim, também, gostaria que alguém me estendesse a mão e me ajudasse na medida das suas possibilidades (note-se, no entanto, que esta minha última frase não tem nada a ver com uma eventual influência da minha educação católica enquanto criança –pois, há muitos anos, que sou ateia e não acredito no que quer que seja!). Para além disso, e como a minha mãe costuma dizer, eu tenho um jeitinho muito especial de me meter sempre em confusões... até parece que as atraio!

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