[Ver Partes I, II, III]
No domingo encontrei, por acaso, a F. e acabámos por tomar café juntas.
Falou-me sobre o facto de algumas pessoas ali no bairro terem considerado como um bom castigo o que acontecera ao Sr. M, já que, segundo elas dizem, "ele tratava muito mal a cadela". Parece ter havido, também, alguém que diz que o viu, certa vez, passar com uma das rodas da sua cadeira por cima de uma das patas da Meg.
A F. quis tirar tudo a limpo e perguntou-lhe se era verdade o que diziam, tendo ele respondido que não.
A verdade é que, também, eu nunca vi nada de anormal no tratamento que ele dava à cadela, muito pelo contrário! Nunca me hei de esquecer daquela imagem, numa noite em que chegava a casa mais tarde, quando o vi seguir na sua cadeira de rodas, com a Meg ao colo, a lamber-lhe a cara.
No entanto, as pessoas gostam sempre muito de falar e de dizer mal do que quer que seja. E o facto de o Sr. M não ter condições financeiras (ou outras -derivadas da sua própria história de vida) e viver na rua, juntamente com um grupo de toxicodependentes, é motivo suficiente para agora se vir dizer o que quer que seja sobre a forma como ele tratava a Meg.
De qualquer modo, não consegui evitar que uma ténue dúvida ficasse, também, a pairar na minha cabeça (talvez por saber que um dos meus maiores defeitos é ser demasiado crédula e acreditar em tudo aquilo que as pessoas me dizem).
Bem sei que as situações nunca são somente pretas ou brancas, existindo sempre uma tonalidade cinzenta que as deforma e descaracteriza perante o nosso olhar.
No entanto, também, nunca me hei de esquecer das palavras que o Sr. M proferiu, ao contar-me sobre o roubo da Meg... palavras demasiado sinceras e sentidas, para alguém que não gostasse da Meg, ou que a tivesse vendido (como já sugerem, agora, algumas pessoas).
Por outro lado, se o Sr. M não gostasse da cadela e tudo não passasse de uma farsa, provavelmente, não se teria empenhado tanto nas buscas, após o seu roubo. O maior problema, actualmente, é que, devido à própria situação física em que o Sr. M se encontra, tem medo de dar queixa do roubo da Meg na Polícia (entregando-lhes, também, todas as provas que já se conseguiu recolher), uma vez que já foi ameaçado.
A ver vamos, qual o final que esta história terá!...
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Ontem à tarde vi o Sr. M. Vinha a atravessar a rua, com uma garrafa de cerveja ao seu lado na cadeira de rodas e a fumar um cigarro. O rosto carregado e sorumbático. O estado do seu pai (que tivera um ataque cardíaco na 6ª feira passada) piorou.
- "Ando aqui a ver se faço alguns euros, para me meter no combóio, depois apanhar um táxi e ir lá ao hospital!"
Explicou-me que nenhum dos seus 7 irmãos se interessa pelos pais, e que ele é o único que ainda os ia visitar (segundo me contou a Dª. M, parece que a própria família do Sr. M não "queria saber dele"). O seu pai já estava com Alzheimer e esquecia-se de tomar os comprimidos, este já era o terceiro ataque cardíaco que tinha. A mãe estava internada num lar.
Depois disse-me que queria adoptar um novo cão, ou ir ao canil buscar um, porque já não tem esperanças que a Meg apareça (já lha tinham roubado uma vez anteriormente, mas "ela era esperta, conseguiu fugir e veio novamente ter comigo", explicou-me. "Mas, desta vez, quem a roubou, sabia o que estava a fazer").
Como forma de desanuviar um pouco a conversa, disse-lhe que, eventualmente, ele adoptava um novo cão e a Meg aparecia-lhe de novo.
- "Ah, mas isso ela vai ter sempre o seu lugar. Se voltar, tem ainda a caminha dela... e, onde cabe um, cabem dois!", proferiu.
No domingo encontrei, por acaso, a F. e acabámos por tomar café juntas.
Falou-me sobre o facto de algumas pessoas ali no bairro terem considerado como um bom castigo o que acontecera ao Sr. M, já que, segundo elas dizem, "ele tratava muito mal a cadela". Parece ter havido, também, alguém que diz que o viu, certa vez, passar com uma das rodas da sua cadeira por cima de uma das patas da Meg.
A F. quis tirar tudo a limpo e perguntou-lhe se era verdade o que diziam, tendo ele respondido que não.
A verdade é que, também, eu nunca vi nada de anormal no tratamento que ele dava à cadela, muito pelo contrário! Nunca me hei de esquecer daquela imagem, numa noite em que chegava a casa mais tarde, quando o vi seguir na sua cadeira de rodas, com a Meg ao colo, a lamber-lhe a cara.
No entanto, as pessoas gostam sempre muito de falar e de dizer mal do que quer que seja. E o facto de o Sr. M não ter condições financeiras (ou outras -derivadas da sua própria história de vida) e viver na rua, juntamente com um grupo de toxicodependentes, é motivo suficiente para agora se vir dizer o que quer que seja sobre a forma como ele tratava a Meg.
De qualquer modo, não consegui evitar que uma ténue dúvida ficasse, também, a pairar na minha cabeça (talvez por saber que um dos meus maiores defeitos é ser demasiado crédula e acreditar em tudo aquilo que as pessoas me dizem).
Bem sei que as situações nunca são somente pretas ou brancas, existindo sempre uma tonalidade cinzenta que as deforma e descaracteriza perante o nosso olhar.
No entanto, também, nunca me hei de esquecer das palavras que o Sr. M proferiu, ao contar-me sobre o roubo da Meg... palavras demasiado sinceras e sentidas, para alguém que não gostasse da Meg, ou que a tivesse vendido (como já sugerem, agora, algumas pessoas).
Por outro lado, se o Sr. M não gostasse da cadela e tudo não passasse de uma farsa, provavelmente, não se teria empenhado tanto nas buscas, após o seu roubo. O maior problema, actualmente, é que, devido à própria situação física em que o Sr. M se encontra, tem medo de dar queixa do roubo da Meg na Polícia (entregando-lhes, também, todas as provas que já se conseguiu recolher), uma vez que já foi ameaçado.
A ver vamos, qual o final que esta história terá!...
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Ontem à tarde vi o Sr. M. Vinha a atravessar a rua, com uma garrafa de cerveja ao seu lado na cadeira de rodas e a fumar um cigarro. O rosto carregado e sorumbático. O estado do seu pai (que tivera um ataque cardíaco na 6ª feira passada) piorou.
- "Ando aqui a ver se faço alguns euros, para me meter no combóio, depois apanhar um táxi e ir lá ao hospital!"
Explicou-me que nenhum dos seus 7 irmãos se interessa pelos pais, e que ele é o único que ainda os ia visitar (segundo me contou a Dª. M, parece que a própria família do Sr. M não "queria saber dele"). O seu pai já estava com Alzheimer e esquecia-se de tomar os comprimidos, este já era o terceiro ataque cardíaco que tinha. A mãe estava internada num lar.
Depois disse-me que queria adoptar um novo cão, ou ir ao canil buscar um, porque já não tem esperanças que a Meg apareça (já lha tinham roubado uma vez anteriormente, mas "ela era esperta, conseguiu fugir e veio novamente ter comigo", explicou-me. "Mas, desta vez, quem a roubou, sabia o que estava a fazer").
Como forma de desanuviar um pouco a conversa, disse-lhe que, eventualmente, ele adoptava um novo cão e a Meg aparecia-lhe de novo.
- "Ah, mas isso ela vai ter sempre o seu lugar. Se voltar, tem ainda a caminha dela... e, onde cabe um, cabem dois!", proferiu.
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