terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

A Meg e o Sr. M - IV

[Ver Partes I, II, III]

No domingo encontrei, por acaso, a F. e acabámos por tomar café juntas.
Falou-me sobre o facto de algumas pessoas ali no bairro terem considerado como um bom castigo o que acontecera ao Sr. M, já que, segundo elas dizem, "ele tratava muito mal a cadela". Parece ter havido, também, alguém que diz que o viu, certa vez, passar com uma das rodas da sua cadeira por cima de uma das patas da Meg.
A F. quis tirar tudo a limpo e perguntou-lhe se era verdade o que diziam, tendo ele respondido que não.
A verdade é que, também, eu nunca vi nada de anormal no tratamento que ele dava à cadela, muito pelo contrário! Nunca me hei de esquecer daquela imagem, numa noite em que chegava a casa mais tarde, quando o vi seguir na sua cadeira de rodas, com a Meg ao colo, a lamber-lhe a cara.
No entanto, as pessoas gostam sempre muito de falar e de dizer mal do que quer que seja. E o facto de o Sr. M não ter condições financeiras (ou outras -derivadas da sua própria história de vida) e viver na rua, juntamente com um grupo de toxicodependentes, é motivo suficiente para agora se vir dizer o que quer que seja sobre a forma como ele tratava a Meg.
De qualquer modo, não consegui evitar que uma ténue dúvida ficasse, também, a pairar na minha cabeça (talvez por saber que um dos meus maiores defeitos é ser demasiado crédula e acreditar em tudo aquilo que as pessoas me dizem).
Bem sei que as situações nunca são somente pretas ou brancas, existindo sempre uma tonalidade cinzenta que as deforma e descaracteriza perante o nosso olhar.
No entanto, também, nunca me hei de esquecer das palavras que o Sr. M proferiu, ao contar-me sobre o roubo da Meg... palavras demasiado sinceras e sentidas, para alguém que não gostasse da Meg, ou que a tivesse vendido (como já sugerem, agora, algumas pessoas).
Por outro lado, se o Sr. M não gostasse da cadela e tudo não passasse de uma farsa, provavelmente, não se teria empenhado tanto nas buscas, após o seu roubo. O maior problema, actualmente, é que, devido à própria situação física em que o Sr. M se encontra, tem medo de dar queixa do roubo da Meg na Polícia (entregando-lhes, também, todas as provas que já se conseguiu recolher), uma vez que já foi ameaçado.
A ver vamos, qual o final que esta história terá!...


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Ontem à tarde vi o Sr. M. Vinha a atravessar a rua, com uma garrafa de cerveja ao seu lado na cadeira de rodas e a fumar um cigarro. O rosto carregado e sorumbático. O estado do seu pai (que tivera um ataque cardíaco na 6ª feira passada) piorou.
- "Ando aqui a ver se faço alguns euros, para me meter no combóio, depois apanhar um táxi e ir lá ao hospital!"
Explicou-me que nenhum dos seus 7 irmãos se interessa pelos pais, e que ele é o único que ainda os ia visitar (segundo me contou a Dª. M, parece que a própria família do Sr. M não "queria saber dele"). O seu pai já estava com Alzheimer e esquecia-se de tomar os comprimidos, este já era o terceiro ataque cardíaco que tinha. A mãe estava internada num lar.
Depois disse-me que queria adoptar um novo cão, ou ir ao canil buscar um, porque já não tem esperanças que a Meg apareça (já lha tinham roubado uma vez anteriormente, mas "ela era esperta, conseguiu fugir e veio novamente ter comigo", explicou-me. "Mas, desta vez, quem a roubou, sabia o que estava a fazer").
Como forma de desanuviar um pouco a conversa, disse-lhe que, eventualmente, ele adoptava um novo cão e a Meg aparecia-lhe de novo.
- "Ah, mas isso ela vai ter sempre o seu lugar. Se voltar, tem ainda a caminha dela... e, onde cabe um, cabem dois!", proferiu.


SPT # 10 - "All of Me"

Para terminar o desafio de Fevereiro do SPT, deixo aqui o meu último "ugly bit", um dos que me incomoda mais: - o meu pescoço, depois de ter tido hipertiroidismo (já falei sobre isso, aqui). Apesar da doença já estar controlada, o inchaço do pescoço (devido à glândula tiróideia trabalhar a mais, durante um certo período de tempo) permaneceu. Muito menos inchado do que estava em 2002, mas ainda se nota bastante... o que me deixa um pouco triste, pois como sou magra, antes de ter tido esta doença, tinha um pescoço muito bonito.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

Cidades Invisíveis

Paris, Maio 2001


“Em Cloé, grande cidade, as pessoas que passam pelas ruas não se conhecem. Ao verem-se imaginam mil coisas umas das outras, os encontros que poderiam verificar-se entre elas, as conversas, as surpresas, as carícias, as ferroadas. Mas ninguém dirige uma saudação a ninguém, os olhares cruzam-se por um segundo e depois afastam-se, procurando novos olhares, não param.
(...)
Uma vibração de luxúria move constantemente Cloé, a mais casta das cidades. Se os homens e as mulheres começassem a viver os seus efémeros sonhos, todos os fantasmas se tornariam pessoas com quem se poderia começar uma história de perseguições, de ficções, de malentendidos, de choques, de opressões, e assim acabaria o carrosel das fantasias.”

(Italo Calvino, in “As Cidades Invisíveis”)



Quem me deu a conhecer este maravilhoso livro, já lá vão uns bons 7 anos, foi o Rodolfo, um dos primeiros amigos que tive através da internet (juntamente com o Dragutin, o Alan, o Bruno e a Marija -tudo pessoas que conheci através da internet e se tornaram Amigos de verdade).
O Rodolfo e eu nunca nos chegámos a conhecer pessoalmente, mas penso poder dizer que fomos amigos. Falávamos sobre tudo e sobre nada, sobre os nossos problemas e crises sentimentais, sobre música, arte, livros e filmes. Ele, na altura, tinha uma banda alternativa, meio ao estilo Tindersticks, e frequentava bastante o "Bar com Imagens", no Castelo. E eu, tinha começado o meu curso de Antropologia.
Depois, já não sei bem porquê, acabámos por perder o contacto. Tive pena.
O mundo é pequeno, mas não tanto!...

Manias com os Livros


Podem chamar-me louca, mas a verdade é que tenho algumas manias com os livros. Aqui ficam elas:

1. Quando compro um livro, escrevo sempre no canto superior direito da 1ª página, na diagonal, a data em que foi comprado, colocando, também, a minha assinatura;

2. Detesto dobrar os cantos das folhas dos livros, como forma de marcar a página em que estou a ler;

3. Sublinho sempre a lápis as passagens que considero mais bonitas ou que, no momento em que li determinado livro, tinham um significado especial para mim;

4. Antes de começar a ler um livro, gosto sempre de ir à sua última página ler a última frase escrita. Depois, mais tarde, quando lá acabo por chegar, o entendimento que tenho dessa frase é sempre diferente;

5. Nunca consigo estar a ler apenas um único livro. Tenho que estar sempre a ler, pelo menos, dois livros... para que, consoante os meus estados de espírito e mudanças de humor, vá alternando entre um e o outro.

Sugestão do sítio do costume:



Um pouco por acaso, ontem à noite, na "2", descobri (já a meio) um excelente filme de animação: "Jasper Morello and the Lost Airship", inserido na trilogia The Mysterious Geographic Explorations of Jasper Morello, de um realizador australiano chamado Anthony Lucas.

Um filme neo-gótico, onde as personagens surgem sempre na penumbra como sombras, nunca se vislumbrando os seus rostos.
O filme conta a história de Jasper Morello, navegador de uma barca aérea, cuja noiva foi atacada por uma espécie de peste. Morello encontra um dirigível abandonado, que o conduz a uma ilha, onde acabará por descobrir uma estranha criatura, que pode muito bem ser a cura para a tal peste.
No regresso à civilização, Morello e os restantes tripulantes do dirigível passam por uma viagem repleta de horrores. Terminando Morello por descobrir que é o próprio Homem quem pode ser capaz dos piores horrores.
Ao longo da história, nunca se percebe muito bem se a acção se desenvolve no passado ou no futuro, pois todo o filme é composto por pequenos leimotivs de ambos os tempos.

Um filme fantástico que, no final, nos deixa mesmo boqueabertos... a relembrar os bons velhos tempos de Tim Burton.

domingo, 26 de fevereiro de 2006

Sobre a Necessidade de ter Estantes em Casa


Convite para almoçar em casa da mãe, com pequena alusão en passant sobre a necessidade impreteriosa de começar a empacotar os meus livros que lá ficaram... apesar de, em minha casa, ainda não ter estantes.
Tarefa aceite!...

Decidi começar por empacotar, num daqueles grandes caixotes de papelão (disponíveis aqui), os meus livros e fotocópias de livros utilizados durante a faculdade. Porque ficavam acomodados por baixo no tal caixote e assim seria mais fácil de colocar os restantes livros por cima.
Pois!...
O que eu não imaginava (ou já não me lembrava) é que 4 anos de curso de Antropologia, mais um para terminar (à vontade) a monografia final, conseguem mesmo fazer-nos acumular uma série de livros!
Resmas e resmas de fotocópias de livros encadernadas com argolas (sim, que já nessa altura, os livros eram caros!), os famosos livros de Antropologia de capa preta da Editora Presença (se não estou em erro! Agora, como já estão todos acomodadinhos dentro do caixote, já não dá para confirmar... mas estou certa que algum dos meus caríssimos leitores que seja antropólogo mo dirá!), uma série de artigos de Antropologia da Religião, já para não falar em alguns clássicos como Mircea Eliade e Lévi-Strauss... foram o suficiente para encher a tal caixa de papelão, e ainda ficar a abarrotar!
Isto para já não falar que os restantes livros (hors Antropologia) ainda lá permanecem, em 4 prateleiras, em casa da mãe!

Ou seja, há uns quantos posts atrás, já aqui tinha dito, que preciso mesmo de comprar umas estantes cá para casa, para poder arrumar os livros que me vão oferecendo (e que não tenho onde guardar, sem ser em sacos de papel reciclável)... Mas agora, a urgência é cada vez maior!!!
Felizmente que, como o carro do maninho continua na oficina, a tal caixa de papelão ainda não veio cá para minha casa (sim, que aquilo deve pesar bem uma tonelada!).

Por entre as arrumações, escondidas entre os livros da faculdade, descobri 2 preciosidades (de duas épocas bem distintas da minha vida):
- o meu exemplar d'"As Cidades Invisíveis" de Italo Calvino. Uma obra a redescobrir, porque gosto de reler assim livros passados alguns anos (neste caso, 7), para comparar as sensações que vamos tendo, consoante a idade avança;
- o meu "pequeno pónei"... que já não via há uma catrefada de anos (e ainda estou para descobrir o que fazia arrumado junto destes livros).




Dentro d'"As Cidades Invisíveis", a servir de marcador, encontrei ainda uma folha de papel A4 dobrada em 4 quartos, com estes excertos tão actuais:

"Nunca percebi quando se deixa de ser pequeno para se passar a ser crescido. (...) Provavelmente, quando nos tornamos tristes. Mas não tenho a certeza: não sei se sou crescido."

"Quando me pergunto o que fiz da minha vida suponho que devia antes perguntar-me o que fiz da vida dos outros.
Como só encontro paz se estou em guerra comigo não lhes trouxe certamente nem segurança nem felicidade. (...)
Não trouxe aos outros senão o sentimento de um provisório instável, ancorado na recusa definitiva de deixar de ser pacientemente inquieto."

"(...) dado que os acontecimentos nos ultrapassam finjamos termos sido nós os organizadores a olhar para o rio tentando como sempre transformar a melancolia em fantasia como se a vida, senhores, não fosse alegremente dolorosa e não nos deitássemos tanto do lado mau da felicidade."


(António Lobo Antunes, in "Livro de Crónicas")


E o mais engraçado é que, de momento, ando a ler o 3º livro de crónicas do Lobo Antunes!

sábado, 25 de fevereiro de 2006

A Meg e o Sr. M - III

[Ver : Parte I, Parte II]


Hoje estou cansada, cheia de dores de cabeça, triste e desiludida!...
E a chuva que tem caído, incessantemente, ainda me deixa mais deprimida.

As buscas pela Meg têm-se revelado infrutíferas!...
Foi roubada há cerca de 2 semanas e, desde então, todas as pistas de que se tem tido conhecimento sobre o seu eventual paradeiro têm sido muito vagas.
Na altura em que comecei a escrever sobre este caso aqui no blog, nunca mencionei essas pistas que existiam, pensando que, talvez, assim fosse melhor: não fazer muito alarido sobre o assunto, até que se descobrisse qualquer coisa de concreto. Mas, actualmente, da maneira que as coisas estão, o melhor mesmo é escrever, como forma de exorcizar tudo aquilo que tenho vivido nestes últimos dias!...


Pistas & Factos:

Depois do roubo, o Sr. M terá ido, por sua conta e risco, seguindo uma qualquer indicação, para Setúbal, onde se encontrou com um dos patriarcas ciganos, contando-lhe toda a sua história e a da Meg. O cigano terá chorado ao ouvi-lo, dizendo que, caso lhe fossem oferecer a Meg, a devolveria ao Sr. M.
Entretanto, surgiram alguns relatos de diversas testemunhas que viram a Meg ser enfiada à força dentro de um carro cinzento escuro, onde seguiam 3 ciganos, perto da Praça de Benfica. Não se sabe bem como ou devido a que outra pista, o Sr. M foi com dois amigos ao Bairro da Boavista... onde, perto de uns quintais, terá chamado pela cadela, ouvindo, em seguida, o seu latido, mas não a tendo visto. No dia seguinte, voltaram ao mesmo local e a cadela já não estava lá, tendo o Sr. M sofrido ameaças caso voltasse a entrar naquele bairro.
Posteriormente, na passada 5ª feira, um dos amigos do Sr. M disse à T. quem era o tal cigano já de idade, avô de uma das pessoas que foi vista dentro do carro que levou a Meg. Movida pela emoção, bem como pelo facto de já conhecer esse cigano ali de Benfica há mais de 30 anos, a T. dirigiu-se a ele, oferecendo dinheiro em troca da cadela e dizendo que a polícia já estava ao corrente de tudo.
Por outro lado, segundo parece, os primeiros ciganos que, há muito tempo atrás, tinham oferecido dinheiro ao Sr. M em troca da cadela (de acordo com o que lhe disseram na altura, porque a queriam oferecer a um avô, um patriarca cigano), tinham um carro cuja matrícula estava registada numa morada em Vale de Milhaços (Almada).


Vi-me envolvida no meio de toda esta história, pelo simples facto de, na passada 4ª feira, seguindo a indicação de uma amiga que tem experiência neste tipo de situações, ter resolvido telefonar para um dos números de telefone que vinha no anúncio de desaparecimento da Meg... para informar que, caso tivessem a certeza absoluta do local onde a cadela se encontrava, poderiam lá ir com a polícia, o Sr. M, 2 testemunhas e o médico veterinário que esterilizara a Meg, sendo as pessoas que tinham a Meg obrigadas a devolvê-la.
A partir desta altura, já não havia volta... e estava enredada na própria busca pela Meg!...

Na 6ª feira, a T. e a F. pediram-me para ir falar, de uma forma mais diplomática, com o tal avô cigano, com quem na véspera a T. tinha sido algo brusca. Por volta da hora de almoço, quando a Praça já tinha fechado e os feirantes se encontravam em arrumações das suas bancas, fomos procurá-lo, mas não estava lá.
Ficou, então, tudo re-agendado para hoje de manhã... sábado, fim do mês, quando a Praça está mais cheia de gente, inevitavelmente, ele teria que lá se encontrar.

Com algum receio de uma primeira abordagem ao tal avô cigano (pois, nós os antropólogos não sabemos tudo!), ontem à noite falei com uma amiga e ex-colega de universidade, que se encontra, actualmente, a efectuar uma tese de doutoramento sobre a comunidade cigana.
Ao contar-lhe toda esta história, a Ana ficou algo estupefacta, sobretudo, por saber que os ciganos não caçam... logo, não teria sido pelo simples facto de o Sr. M andar sempre a valorizar a sua Meg, dizendo que ela era uma podenga pura, que a teriam roubado.
"Talvez alguém se tenha afeiçoado a ela, por já ter tido uma cadela parecida, ou por ser uma pessoa de idade que já esteja sozinha e precise de companhia", disse-me a Ana.
"O melhor é ires com calma, pedires-lhe ajuda e nunca o acusares. Nunca fales na polícia, nem em roubo, porque isso assusta-os. Mas pergunta-lhe o que é que poderá ter movido alguém a levar a cadela. Conta a história do Sr. M e enfatiza a necessidade que ele tinha da companhia da Meg, devido a tudo aquilo que já viveu. (...) Nunca demonstres medo ou nervosismo e repete-lhe o pedido de ajuda", prosseguiu a Ana.

Pareceram-me conselhos bastante sábios e esta manhã com o discurso de mediação na ponta da língua e, tal como combinado anteriormente com a T., apareci no café às 9h30, hora a que normalmente o tal avô cigano lá costuma, também, ir com a sua mulher, para tomarem o pequeno-almoço. E nada... Ainda por cima, de madrugada, o café tinha sido assaltado, e o ambiente que pairava no ar era meio estranho.
Esperei mais meia hora, uma hora, já à porta da loja onde a T. trabalha (do outro lado da rua, em frente ao café) e nada, não havia meio de o cigano aparecer. Ainda tive que ouvir os comentários estereotipados de quem passava, sobre a eventualidade da cadela estar a ser utilizada pelos ciganos para "lutas de cães"... e o esforço de tentar manter a calma, para o meu discurso de mediação diplomática.
Mesmo chuvendo a potes, resolvi então ir à Praça, dar uma vista de olhos, aproveitando a descrição física que a T. me fizera do senhor.
1, 2, 3 voltas à Praça, cá fora nas bancas dos ciganos e lá dentro, junto dos cafés e nada!...

Voltei à porta do café, onde o Sr. M se encontrava, a pedir esmola, para tentar confirmar com ele (que nada sabe a propósito destas nossas diligências) se, por acaso, já tinha visto passar por ali o tal avô cigano. Não, também, ainda não o vira.
Mas fiquei a saber que o pai do Sr. M, de 82 anos, tinha sofrido um ataque cardíaco na véspera, encontrando-se em estado considerado estável no hospital.
"Mais uma, para juntar a tudo o que me está a acontecer!...", disse-me o Sr. M.
Fiquei momentaneamente sem palavras, para de novo lhe voltar a falar da onda de solidariedade que se tem gerado em torno dele e da Meg.
"Eu não sabia que havia tanta gente a querer ajudar-nos. Só isso é que me faz continuar", respondeu-me.

No café, ainda, encontrei a F. que, de um momento para o outro, começou a desabafar comigo (dizendo que eu era uma pessoa "que tinha formação" e a iria compreender) a propósito da sua desmotivação perante as buscas, sobretudo pelo facto de, desde o início, ter sido ela a ir tirar as fotocópias a cores para o anúncio, andar de um lado para o outro com o seu carro e as "outras pessoas" nem sequer lhe perguntarem se precisa de ajuda... não se estando, necessariamente, a referir a mim. Mantive-me diplomática e disse que a ajudaria no que fosse preciso.
A F. tem a doença de Crohn, está desempregada e o seu pai faleceu há cerca de um mês. É uma mulher jovem, bonita e simpática, nascida numa família de classe média alta que noutros tempos viveu em Angola (pelo que me contou). A maioria dos seus familiares pertenceram à Marinha, e nota-se que ela prória teve uma educação rigorosa. No seu discurso dá muita importância ao facto de alguém ter um curso superior (apesar de ela própria o não ter) e sente-se que se encontra inferiorizada, não só por ter que estar em casa, mas, também, por ter de conviver com pessoas que já conhece desde miúda, mas "com uma outra formação", como ela própria diz.

Com a cabeça completamente esvaída, voltei à Praça, para mais uma volta em busca do avô cigano. Mais uma vez, nada!
Até que me decidi a ir falar com uma cigana de meia idade, a quem, de vez em quando, a minha mãe compra algumas coisas.
Reconheceu-me logo. Contei-lhe o caso, e ela só me disse: - "Ah, isso quem deve saber alguma coisa é a polícia, ou esses que dormem aí debaixo dos telheiros" (referindo-so, por último, aos toxicodependentes, que ali pernoitam).
Disse-lhe que a polícia não estava envolvida no assunto (mais tarde, a Ana viria a explicar-me que ela me estava a colocar à prova; comprovando-se, assim, a minha teoria de que ali junto dos feirantes da Praça todos sabem o que se passou e, eventualmente, onde estará a cadela).
Chamou uma velhota não cigana para lhe perguntar se sabia alguma coisa da cadela. Uma pessoa rude e mal educada, de mentalidade tacanha, que, apenas, me disse que quem levou a cadela, provavelmente, já não a devolve... e que não gostava de animais, que eram porcos e sujavam tudo.
Engoli em seco, respirei fundo (para não dar àquela velha a resposta que ela merecia) e agradeci à cigana.

Amanhã irá alguém a Vale de Milhaços (Almada), para sondar se a Meg lá está. Era uma das outras pistas.

Sinto-me cansada, cheia de dores de cabeça, triste e desiludida!...
Como medir a nossa própria capacidade de suportar sentir/ver o sofrimento dos outros?
Por causa do desaparecimento da Meg, tenho lidado mais de perto com uma série de pessoas que sofrem (como todos nós, em determinados momentos das nossas vidas) e que querem desabafar sobre isso.
E hoje eu já não aguento mais!...

Eu bem sei que não me devia envolver tanto nas coisas!... Mas, às vezes, até parece que as atraio, como diz a minha mãe.

Corners of My Home # 6


Para desanuviar um bocadinho o ambiente demasiado "pesado" que tenho imposto aos meus posts nestes últimos dias, aqui vos deixo mais um dos recantos de minha casa: - a janela da casa-de-banho.
Adoro este pequeno recanto, sobretudo, porque, em casa da minha mãe, não tínhamos janela no WC. Mas, também, porque, quando acordo de manhã, adoro ver a luz do sol a entrar por ali, quando ainda estou a tomar banho.
A placa publicitária de metal, do lado direito na foto, é a tal primeira (da colecção), que comprei numa viagem de trabalho à Alemanha, mais exactamente a Erfurt (ex-Alemanha de Leste).
O que está pendurado na janela é um daqueles pendentes chineses de bons augúrios para a casa... cada sino corresponde a um elemento: saúde, sorte, amor, felicidade... e já não me recordo qual é o 5º :)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

A Meg e o Sr. M - II

[Ver: Parte I]


O Sr. M continua a desfalecer, a cada dia que passa.
Esta manhã, quando fui tomar o meu café e o vi, fiquei bastante apreensiva: - o seu rosto parece ter envelhecido 10 anos em apenas 2 semanas e o seu olhar está cada vez mais parado e triste.
No momento em que conversávamos, passou a Filipa (uma colega de trabalho e amiga, que, também, mora ali perto), com a sua filha mascarada de Minnie. Cumprimentámo-nos e falámos um pouco sobre o Carnaval e a fatiota nova da R.
Quando ela se foi embora, não pude deixar de reparar no sorriso nostálgico que, repentinamente, se esboçou no rosto do Sr. M, ao ficar a olhar para a pequena Minnie afastar-se ao colo da sua mãe (quiçá, trazendo-lhe esta imagem recordações de
uma vida passada).


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Costuma ouvir-se dizer que as pessoas que se dedicam de corpo e alma aos animais (daquele tipo que têm um número infindável de cães ou gatos ou as 2 espécies juntas, ou do outro género de não puderem ver um animal abandonado na rua que o apanham logo e tratam de arranjar quem o adopte) têm falta de algo nas suas vidas... seja porque as suas famílias não lhes dão muita atenção, seja porque não se realizaram pessoalmente em algum aspecto das suas vidas, seja porque motivo for.

Podendo, sem dúvida alguma, este raciocínio ter uma quota parte de veracidade, em meu entender, há algo de mais profundo nessa dedicação desmesurada aos animais: - o respeito por outro ser vivo.
Um sentimento que não deveria estar, unicamente, patente nas relações entre os homens, mas, também, entre estes e os restantes seres vivos que habitam este planeta.
"A grandeza de uma nação e o seu desenvolvimento moral podem ser julgados pela forma como os animais são tratados" (Mahatma Gandhi).
Talvez por as nossas sociedades terem atingido, nos dias que correm, um aperfeiçoamento tecnológico tão grande, a maioria dos indivíduos acredite ter uma qualquer força sobrenatural e tenha deixado de prestar atenção a outras coisas sobejamente importantes, como sejam o respeito pela natureza e pelos animais, passando a não lhes conferir a importância que efectivamente têm.
Afinal de contas, não tem sido o Homem, nos últimos tempos, o principal destruidor de tudo aquilo que o rodeia, na sua ânsia crescente por um poder ominipotente?!
Mas nem tudo é mau no "melhor dos mundos"... pois, felizmente, que ainda existem pessoas a preocupar-se com os animais (bem como com os homens) e a sua sorte!

Desde o desaparecimento da Meg, tenho vindo a conhecer uma série de pessoas que ainda se preocupam com esse respeito primordial pelo “Outro” e pelos restantes seres vivos.

A T. é uma dessas pessoas!
Foi a instigadora da recolha de fundos com vista à esterilização da Meg e, na loja onde trabalha, dá de comida a uma série de animais aqui do bairro.
Esta manhã, enquanto falávamos à porta da loja, entrou por ali adentro, como se já conhecesse os cantos à casa, um pequeno caniche preto (já meio cinzento, porventura, devido à sujidade), todo brincalhão.
Poucos minutos depois, surgiu o seu dono, o Sr. S, uma figura algo anacrónica, de cachimbo na mão, chapéu com pala (daqueles que os miúdos usam) na cabeça, com leves trejeitos de marinheiro.
A T. foi, prontamente, buscar comida para o pequeno caniche, enquanto este bebia água numa pequena taça (improvisada) de plástico, que se encontra sempre à porta de loja.
Enquanto isso, o Xibanga (nome do caniche) começou a “inspeccionar-me”, esticando as suas patitas nas minhas pernas... acabando por aninhar a sua cabeça nos meus joelhos.
O Sr. S pareceu surpreendido com a atitude do Xibanga e sorriu-me, segurando o seu cachimbo que se encontrava já na boca.
Parece que o pequeno Xibanga, caniche-anão, não costuma ser assim tão efusivo com as pessoas que conhece pela primeira vez... tendo já mesmo mordido alguém que, apenas, lhe tentare fazer uma festa.
Também se costuma ouvir dizer que os animais reconhecem institivamente (seja pelo cheiro, pela postura corporal ou pelo tom de voz) quem lhes quer bem!...
O Sr. S ficou todo contente e até se despediu de mim com um eloquente: - “Adeus menina!” (apesar dos meus 30 anos e 3 cabelos brancos!).
E eu, no meio desta saga toda pela busca da Meg, fiquei a conhecer mais um dos “personagens” aqui do bairro!...

Quanto aos cães e a esta minha necessidade impreteriosa de encontrar a Meg (para quem não saiba, é mesmo a primeira vez que me empenho tão a fundo numa questão deste género!)...
A minha relação com cães é muito parca, resumindo-se, essencialmente, a 2 casos: - o primeiro, o de um rafeirito que, em pleno Alentejo, quando era miúda, veio tentar brincar comigo e eu apanhei o maior susto da minha vida... pois, como não estava habituada a lidar com cães, não percebia muito bem as suas reacções;


Snoopy - 2004


- o segundo, já adulta, há cerca de 3 anos, quando fui trabalhar para o local onde me encontro actualmente, o caso de um rafeiro arraçado de perdigueiro português, o Snoopy. Adoptado por uma das famílias do bairro social (onde se encontra o meu local de trabalho), que, quando cresceu, teve o azar (como acontece a muitos animais, infelizmente!) de passar a viver somente na rua. Ou seja, tinha dono, mas não tinha!...
Comecei a dar-lhe comida, quando chegava ao emprego de manhã, acabando por me afeiçoar ao animal (que era de uma meiguice extrema e carente de afecto). Ainda tentei, através dos meus contactos, arranjar um dono em condições para o Snoopy... mas, depois, um dia, há cerca de 1 ano atrás, quando me encontrava de férias, os meus colegas de trabalho contaram-me que o Snoopy tinha deixado de aparecer. Imaginei logo o pior!... Que, num bairro como aquele, ou o cão tinha sido atropelado, ou então servira para as lutas de cães que por ali se realizam muito.
Algum tempo mais tarde, vim a saber que, afinal, a avó do dono do Snoopy o tinha dado a um empreiteiro, para servir de cão de guarda numa obra qualquer, ali para os lados de Carcavelos (mesmo tendo eu já dito, por inúmeras vezes, a esta senhora para ela não dar o cão a ninguém que eu lhe arranjaria um dono). Ainda me passou pela cabeça ir para Carcavelos, à procura do Snoopy, em todos os estaleiros de obra que por ali existissem... mas demoveram-me dessa ideia, ao considerarem que eu estava a ficar um pouco louca. Até hoje nunca mais soube nada do Snoopy!... Se está morto ou vivo, o que quer que seja... restam-me, apenas, as suas fotos... mas a incerteza é, de facto, o pior sentimento em que podemos viver.

Desta forma, talvez por a minha experiência com cães, até à data, não ter sido das melhores e por me sentir um pouco culpada por não ter podido encontrar um outro dono para o Snoopy, tenha acabado por me envolver tanto nesta “história” do desaparecimento da Meg. Para esse envolvimento, também, não pode ser alheio o estado de vida em que o Sr. M (dono da Meg) se encontra... Se me acontecesse o mesmo a mim, também, gostaria que alguém me estendesse a mão e me ajudasse na medida das suas possibilidades (note-se, no entanto, que esta minha última frase não tem nada a ver com uma eventual influência da minha educação católica enquanto criança –pois, há muitos anos, que sou ateia e não acredito no que quer que seja!). Para além disso, e como a minha mãe costuma dizer, eu tenho um jeitinho muito especial de me meter sempre em confusões... até parece que as atraio!

O (Des)Aparecimento do Chá de Maracujá





Primita, é só para te dizer que, afinal, o carteiro não me ficou com o chá de maracujá!!! :)

Há alguns dias, a
Janinha tinha-me enviado 1 encomenda (via correio verde) com este maravilhoso chá. Mais tarde, através dos seus comentários aqui no blog, apercebi-me que deveria ter recebido 2 encomendas e não 1.

Hoje, como entrei em mini-férias, aproveitei para ir tirar esta história a limpo na estação dos
CTT aqui da zona.
E, basicamente, fiquei a saber que, não me encontrando em casa para receber a encomenda, o "excelente" carteiro que serve aqui a minha rua, decidiu deixar apenas 1 aviso para ir levantar 1 encomenda à estação, sem fazer menção de que se tratavam na verdade de 2 encomendas... ou deixando 1 outro aviso para levantar a 2ª encomenda.
Haja dó!!! Santa ignorância!...
Apesar das 2 encomendas virem do mesmo remetente para o mesmo destinatário, não teria mais lógica se ele tivesse deixado 2 avisos de levantamento, poupando-nos, assim, ao incómodo do desaparecimento de um dos chás?!
Mas são estes os belos serviços que nós temos em Portugal!!!

De qualquer modo, hoje reavi o meu cházinho de maracujá... que é divinal!
Muito obrigada, Janinha!
Ainda não senti foi o tal efeito relaxante (a esse nível, o Heath & Heather de Manga/Maçã é mais imediato), mas como hoje, também, tenho andado numa roda viva...
Aqui ficam algumas fotos para mais tarde recordar... entre as quais, uma da minha nova cafeteira especialmente desenhada para chá (oferecida pela minha mãe no Natal e made by
IKEA), que tem feito furor entre as minhas amigas maníaco-chá-dependentes ;)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

A Meg e o Sr. M

- Excertos de uma história (que está a acontecer) -


21/02/06

Tudo começara com o desaparecimento/roubo da Meg!…

Antes disso, algumas senhoras aqui do bairro tinham-se juntado e contribuido para a esterilização da Meg na clínica veterinária local. Mas nesse ponto preciso, a história ainda se resumia, apenas, a um pequeno grupo de defensores dos direitos dos animais, que ajudavam, também, um pobre homem, o Sr. M.

Agora a história tinha avançado, tinha ido muito mais longe!...
Era incrível como a onda de solidariedade em torno deste caso se tinha generalizado, não só a toda a freguesia de Benfica, como, também, através da ajuda de muitas pessoas que tinham tido conhecimento do mesmo através da internet.

Trabalhando numa ONG e conhecendo um pouco a forma como, em termos de consciência social, a nossa sociedade tem vindo a regredir, pensava que a bondade e solidariedade humanas se tinham perdido... a partir do momento em que se abandonam animais a torto e a direito (apenas porque deixaram de ser pequeninos e passaram a ocupar muito espaço e tempo lá em casa -tal como sucede com os filhos... mas que, na grande maioria dos casos, não se abandonam por esse motivo!!!)... em que se vira, ostensivamente, para o outro lado a cara, quando um mendigo passa por nós na rua... e tantas outras coisas!

E, afinal, não!...

O caso da Meg e do Sr. M veio fazer-me rever imensas coisas que eu tinha por certezas apreendidas!...


22/02/06

Conheci, esta tarde, o núcleo duro de pessoas que têm estado a tentar ajudar o Sr. M na sua busca pela cadelinha Meg (e que, anteriormente, já o ajudavam em termos humanos e financeiros). Simplesmente porque, depois de ter colocado o anúncio do desaparecimento da Meg na internet e, ao fim de não sei quantos dias, sem notícias do Sr. M, decidi ligar para um dos contactos que vinha no anúncio.

Quando lhes fui falar, tive a nítida sensação (modéstia à parte) de lhes ter aparecido como a última réstea de esperança numa busca infrutífera pela cadela... apenas porque me tinha prontificado a servir de testemunha, caso o sr. M decidisse apresentar queixa na Polícia, e porque, por portas e traversas, conheço alguém que conhece outras pessoas que moram no Bairro da Boavista (onde se sabe agora que a Meg esteve aprisionada alguns dias, após o seu roubo).

Vi-me, então, subitamente, envolvida nos meandros da própria busca!...

E, de um momento para o outro, fiquei a conhecer “toda” a história do Sr. M, por intermédia pessoa (pois, até à data, ainda não tive coragem para lha perguntar directamente): há cerca de 4 anos atrás, o carro em que o sr. M viajava foi abalroado por um combóio... a sua mulher e filha morreram, ele ficou assim, com 2 membros amputados, reduzido a uma cadeira de rodas... esperando que um dos nossos hospitais o chame, para iniciar o processo de fisioterapia, que, necessariamente, acompanha a colocação de uma prótese na perna.
Depois, não se sabe, exactamente, como ou porquê, há 1 ano e pouco, começou a aparecer ali no bairro, sempre de um lado para o outro... vivendo e convivendo com toxicodependentes, mas não sendo um deles. Há 5 meses, encontrara a Meg, abandonada perto do Centro Comercial Colombo e trouxera-a consigo... passara a ser a sua "menina", como, tantas vezes, repetia a quem quer que falasse com ele.

E agora, apenas, me questiono sobre como é que, de um momento para o outro, a vida de alguém pode sofrer uma reviravolta de 180º tão profunda, reduzindo essa pessoa à miséria... devido a um único acontecimento fatal na sua vida?

Que não tenho veia para assistente social já eu sabia, pois choro por tudo e por nada e sou demasiado crédula (acredito pura e simplesmente no que os outros me dizem)... Mas, talvez, devido à minha formação em Antropologia, só me meto em casos bicudos, como a minha mãe costuma dizer!
A verdade é que não consigo evitar deixar de olhar para o "Outro" e pensar no que esconde a sua história de vida pessoal.

Em homenagem a Zeca Afonso

Imagem disponível in: http://discosantigos.com/WallpapersMUSIC/Zeca_Afonso.jpg


Zeca Afonso morreu há 19 anos, no dia 23 de Fevereiro de 1987, no Hospital de Setúbal, às 3 horas da madrugada, vítima de esclerose lateral amiotrófica.
O seu funeral realizou-se no dia seguinte, tendo sido acompanhado por mais de 30 mil pessoas, que seguiram da Escola Secundária de S. Julião para o cemitério da Senhora da Piedade (em Setúbal). O funeral demorou 2 horas a percorrer cerca de 1300 metros.

Por iniciativa do Troll-Urbano, todos aqueles que, nos seus blogs, se quiserem juntar a uma homenagem a este "cantautor" serão bem vindos!...

A minha homenagem permanecerá aqui, neste breve post... Impregnado não com as letras-poemas das suas músicas (que ouvirei mais tarde, quando chegar a casa!), mas antes com as sábias palavras de um homem que lutou sempre pela liberdade e pelo respeito e dignidade para com outrém.

"Admito que a revolução seja uma utopia, mas no meu dia a dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos lutar onde exista opressão, seja a que nível for."

"Não me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou aquilo que fiz. Embora com reservas acreditava o suficiente no que estava a fazer, e isso é o que fica. Quando as pessoas param há como que um pacto implícito com o inimigo, tanto no campo político como no campo estético e cultural. E, por vezes, o inimigo somos nós próprios, a nossa própria consciência e os alibis de que nos servimos para justificar a modorra e o abandono dos campos de luta."

"Curioso é que nós passamos 40 ou 50 anos de uma vida a fazer determinadas coisas e um dia mais ou menos de repente, sem que renunciemos a nada do que fizemos, apercebemo-nos de que tudo deveria ter sido diferente. É apenas uma vaga sensação que se instala, sem que saibamos defini-la muito bem."

Excertos disponíveis in Associação José Afonso

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

O Senhor M.


A primeira vez que os vi foi em meados de Dezembro do ano passado, quando atravessavam a Estrada de Benfica… ele, atrás, numa cadeira de rodas, e ela, à frente, sempre olhando para ver se ele a seguia.
Depois, começámos a conversar sobre ela, enquanto ele pedia esmola à porta do café onde costumo ir todas as manhãs, e ela brincava a seu lado, no chão. Emocionou-me a forma como ele demonstrava o seu amor por aquela cadela e como cuidava dela tão zelosamente.

Até que, fatidicamente, na semana passada, ele -o Sr. M- me contou que a sua cadelinha -a Meg- lhe tinha sido roubada.
Depois desta conversa, e durante quase uma semana, o Sr. M não voltou a estar parado à porta daquele café. E por mais que vos possa parecer estranho, durante todo esse tempo, fiquei bastante preocupada, pensando no que teria acontecido àquele homem -que nem sequer conhecia-, tal era a tristeza em que deveria andar por causa do roubo da sua cadelinha. Pensando sempre que, em cada dia seguinte, ao virar aquela esquina, o iria encontrar de novo acompanhado pela sua Meg.

Entretanto, na semana seguinte, o Sr. M voltou a estar no seu local habitual de todas as manhãs. Surgiram novas pistas sobre o paradeiro da Meg e chegou-se à conclusão que tinha sido, de facto, roubada por alguém: várias pessoas, no dia do seu desaparecimento, a viram ser colocada dentro de um carro cinzento, junto à Praça de Benfica, por alguém que conhecia a Meg.
Nessa altura, só me lembrei das suas palavras, quando um dia me disse: - Grande Meg! (…) cães ou gatos, são todos iguais! Quanto mais os conheço, mais gosto deles! São fiéis, enquanto as pessoas…”.

A forma como o Sr. M fala, o cuidado que coloca nas palavras e os termos que utiliza, denotam tratar-se de alguém que não é, apenas, um pobre coitado, um mero mendigo sem eira nem beira... mas antes uma pessoa com instrução e educação.
Comecei então a interessar-me, cada vez mais, pela enigmática história daquele homem (nós, os antropólogos somos assim!... Não conseguimos mesmo evitá-lo, nem no nosso dia-a-dia). Mas, por respeito perante a sua dor, ou, talvez, com medo de parecer demasiado curiosa, nunca o questionei sobre nada... limitando-me, apenas, a encorajá-lo face à triste situação da perda da sua cadela.

Como é que alguém cai assim num estado de miséria e solidão tão extremos? O que teria acontecido na vida deste homem para o deixar assim?
O fio que nos separa da solidão e miséria profundas é tão ténue...

Corners of My Home # 5


Um outro recanto de minha casa: o frigorífico... com a "famosa" colecção de ímans de vários países.
Já aqui falei dessa colecção, que pode parecer um pouco kitsch, mas que, por outro lado, me oferece boas recordações dos locais onde estive ou de amigos meus (que, como sabem desta minha mania de coleccionar ímans, me trazem sempre algum, quando regressam de viagem).
Como a minha cozinha é toda em tons de branco (fora o chão, que tem um cinzento magnífico), estas coisinhas mais as placas publicitárias (que, também, colecciono) dão-lhe um toque de cor bastante divertido.

Mais recantos, aqui.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

Metáforas com Água


Há muitos anos atrás, quando o meu avô começou a trabalhar nos CTT em atendimento ao público, referindo-se a uma 3ª pessoa, alguém lhe terá dito esta fantástica frase: - “A estupidez humana é maior do que o Oceano Atlântico!”...
Pleonasmos à parte... Por vezes, quando me ponho a observar as atitudes de determinadas pessoas (com quem tenho de lidar diariamente), começo a ponderar se a mesquinhice e a maldade humanas não conterão em si próprias água suficiente para inundar todo o planeta Terra.

SPT # 9 - "All of Me"


Mais uma fotografia de um "ugly bit" de moi-même, para o desafio deste mês do SPT: a minha pálpebra do olho direito (neste caso, na foto, ficou colocada do lado esquerdo, por causa da lente).
Quando era pequena, durante umas férias de Verão, ao jantarmos num restaurante a que costumávamos ir, faltou a luz e eu caí da cadeira... acabando por bater com o olho na madeira.
A pálpebra deste olho ficou sempre ligeiramente mais descaída do que a do outro.
No entanto, nos dias em que estou mais cansada, este pormenor acentua-se bastante... conferindo-me, a modos que, um ar de peixe de olho esbugalhado e outro quase a morrer!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

Sugestão do sítio do costume:


Seguindo o mote da minha habitual rubrica "Sugestão do Sítio do Costume" (que tem andado um pouco desleixada, nestes últimos tempos!), hoje deixo-vos aqui a referência ao "Papoila Azul".
É o blog de uma amiga de uma amiga minha, onde 2 jovens "artistas" dos trabalhos manuais têm para venda as suas criações: lindíssimas pregadeiras (como a que podem ver na imagem).

A visitar (e, já agora, comprar alguma pregadeira :)!...

Um lar para a Amélie



Continuando a falar de animais...

A Amélie é uma caniche anã que foi, recentemente, encontrada pela Dora & Daniel.
De momento, está a recuperar forças em casa destes amigos e, brevemente, irá ser sujeita a uma intervenção cirúrgica... mas, quando estiver restabelecida, precisa de encontrar uns donos 5 estrelas, que lhe dêem muito amor e carinho.

Clicando no banner, poderão seguir toda a história e o apelo original.

domingo, 19 de fevereiro de 2006

Os Gatos (e as suas manias)

Os gatos são animais mesmo muito especiais e cada um deles com a sua própria personalidade bem vincada!...
Em 24 anos de convivência com estes animais, já deveria saber bem isso. Mas a verdade é que, este fim-de-semana, a minha Mary Poppins fez-me “uma” daquelas que jamais esquecerei!...

Esta manhã, nem sequer me foi acordar, como é hábito, quando começa a ficar com fome. Não quis comer nada e comecei a achá-la demasiado parada, quando a vi deitada em cima da máquina de lavar roupa (local onde, apenas, costuma ficar a ver os pássaros nos quintais). E ficou nisto o dia todo!...
Comecei, então, a imaginar 1001 situações de doença, ou uma, eventual, alergia à vacina anual contra a raiva –que tinha ido tomar no sábado (tal foi a preocupação que, como, também, tinha levado a Boneca ontem às vacinas –para a da Leucose Felina-, até fui confirmar nas cadernetas de ambas se as vacinas tinham sido dadas à gata correcta).

Foi, então, que, já a meio da tarde, quando me pus a ver o Saw no DVD, a menina Mary P. se decidiu a vir para o meu colo... e, desde essa altura, já não me largou mais: sempre atrás de mim, de um lado para o outro, a querer deitar-se no meu colo enquanto eu jantava e tudo.
Desde então, tem estado bem!...

Conclusão…
O que se passou é que eu não dei muita atenção às gatas: 6ª à noite estive com amigos cá em casa, sábado à noite fui a casa de amigos e voltei tarde. E, para ajudar à festa, no sábado de manhã, consegui apanhar a Mary meio à socapa, enquanto dormia, para a levar ao Vet.
E, mimadinha, como a Mary P. é, fez-me este lindo “serviço”, como quem diz: - “Não me ligaste nenhuma, agora toma, vou pôr-te mal disposta o domingo todo!”
Manias de gata, tal e qual uma criança!...

sábado, 18 de fevereiro de 2006

Meg desaparecida! -[APELO URGENTE!!!]



A Meg (ou Mégui, como era carinhosamente tratada pelo seu dono) é uma cadela arraçada de podengo. Tem, mais ou menos, 2 anos e é de porte pequeno. Orelhas e focinho pontiagudos e o seu pêlo é branco com algumas manchas amarelas.
Já aqui falei dela por diversas vezes, neste blog... mas hoje, o apelo que vos faço é devido a um motivo bem mais triste!...

A Meg desapareceu (ou acredita-se ter sido roubada) na passada 6ª feira (10/02/06), na zona do Mercado/Praça de Benfica. Na altura, tinha uma coleira de metal, a qual, entretanto, poderá já ter desaparecido... bem como o paradeiro desta cadelinha poder ser qualquer local de Lisboa e arredores.

A Meg tinha sido esterilizada há menos de uma semana (aquando do seu desaparecimento), pelo que, nesta altura, ainda terá a particularidade do pêlo da sua barriga estar raspado.
Encontrava-se a efectuar
tratamento médico, pelo que se torna mesmo muito urgente encontrar esta cadelinha, antes que lhe aconteça algo de grave.
Dá-se recompensa a quem a encontrar e devolver.

Por favor, não ignorem este apelo e ajudem-me na sua divulgação, pois o dono da Meg está inconsolável!!

Telefones de contacto: 21. 764 73 01 / 91. 952 18 03 / 96. 544 25 99 / 91. 970 09 36
Ou então, contactem-me para: alexasof[arroba]gmail[ponto]com.
Muito obrigada pela vossa ajuda!

Gatos, Livros & Amigos


"Andam gatos a brincar
saltitando em meu redor
são a sombra dos meus passos
vá eu para onde for.
(...)
Os meus gatos são da rua
mas são reis da minha casa
vem o sol protegê-los
debaixo da sua asa"

(José Jorge Letria, in "Versos com Gatos")




Ontem à tarde, tive a maravilhosa surpresa de receber (de 1 outro amante de gatos), assim de enfiada, estes 4 lindissímos livros que falam sobre esses enigmáticos animais de que tanto gosto!
4 pérolas da literatura infantil (mas, também, para os adultos deitarem o olho), com umas ilustrações lindissímas de
Octavia Monaco e de Danuta Wojciechowska, a fazerem bem jus aos textos do seu autor: José Jorge Letria.

À noite, continuei (prolonguei) os festejos do meu 30º aniversário, desta vez, recebendo alguns amigos-colegas (e ex-colegas) de trabalho (porque a casa é pequenina para juntar 2 grupos tão diferentes como o dos meus Amigos e este último!).
Uma noite muito bem passada, na companhia de pessoas tão diferentes de mim, mas com que sempre me dei tão bem (mesmo em questões de trabalho).
Adorei a ideia da vossa prenda ser um l
ivro de Fotografia da Taschen sobre a exposição patente no Museu Ludwig de Colónia -associando-o às fotos do meu blog (apesar de, talvez, nunca vir a conseguir fotografar nada tão bem como os supra-sumos mencionados no livro).
O chá de Verbena da "Eric Bur" com saquetas em tecido de algodão (só mesmo em França se lembrariam de uma criação tão delicada!) era divino e as trufas, juntamente com o nosso "pôr a conversa em dia", foram o sucesso da noite.
Muito obrigada por tudo, Carla, Catarina & Tito!

Foi depois desta 6ª feira que cheguei à conclusão que, mais tarde ou mais cedo, quando o meu ordenado o permitir, terei mesmo que pensar em ir comprar umas estantes para o escritório aqui de casa... pois, sem contar com os livros que ainda se encontram em casa da minha mãe, já começo a acumular muito material de luxo, que não pode ficar assim pelos cantos!...

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Chá de Jasmim & outras coisinhas boas





Para compensar da exasperação/desmotivação que me "persegue" há alguns dias e me tem deixado num estado de fadiga mental muito violento (vulgo: quando passamos a maior parte do tempo no emprego, é isso que tem tendência a acontecer!), hoje, foi um daqueles dias em que só tive "coisinhas" boas a acontecerem!...

Comecei o dia por ir à estação dos CTT levantar a inesperada encomenda que a minha prima adoptiva (é uma longa história que um dia eu aqui contarei, ou contará ela no seu blog) me tinha enviado há alguns dias (pois foi, Janinha, desta vez, a Dª. L. falhou e não me guardou a encomenda -espero que não fosse por eu ter sido nomeada para a nova administração do condomínio!).
E como, para mim, desde miúda, que abrir um pacote postal ou encomenda que me enviêm é sempre uma cerimónia bastante íntima, com um carácter tão "sagrado" quanto o da noite de Natal... ainda tive que esperar quase 1h para poder chegar ao emprego e, calmamente, descobrir que tinha ali, à minha frente, o maravilhoso chá de jasmim, do qual a Janinha me tinha dito maravilhas (como já devem estar cansados de saber, eu sou mesmo louca por chá!).
Ali estava ele, embrulhadinho em papel pardo, como outrora, e com o nome escrito por fora a caneta BIC... vindo, directamente, desta loja, que estou ansiosa por ir conhecer um destes dias.
E, assim, lá tive que andar o dia inteirinho, para trás e para diante, com o pacotinho sempre atrás de mim, a emanar aquela fragrância indescritível... ansiosa por o experimentar.
Até que, finalmente, ainda há pouco, foi todo um ritual!
Experimentar um chá novo, que ainda não conheça, exige todo um manancial de paciência e sapiência para que a sua preparação fique au point, e, finalmente... a degustação (aprendi isto com o meu amigo Ennan -taiwanês- em França)!
E este chá de jasmim é, de facto, uma coisa do outro mundo (fica já incluído no meu novo grupo do Flickr - Things I Love Thursdays)!
Muito obrigada, Janinha (fica prometida, desde já, uma caixa do famoso Heath & Heather -Manga/Maçã para a troca, agora que te inscreveste no meu clube de chás :)

Mais coisinhas boas...
Um "projecto" novo prestes a iniciar-se (muito obrigada, C.!)... algo diferente, para me fazer mudar algumas ideias que já me saturam os nervos!

E, a meio do ritual do chá, um telefonema inesperado da Anabela (que foi quem salvou a minha Tucha), com quem já não falava há imenso tempo.
A pessoa mais doce e emotiva que conheci até hoje... com quem dá gosto falarmos, por sentirmos que, se todos fôssemos assim, o mundo seria um lugar muito mais bonito para se viver.
Pena que não tenhamos tido mais tempo, para nos podermos tornar amigas!
De qualquer forma, desejo-te a ti e ao A. tudo de bom e muita felicidade, para esse novo caminho que vão trilhar na vossa vida! E fico a aguardar notícias, ah!!!

Era bom se todos os dias fossem preenchidos com tantas "coisinhas" boas como hoje!...
Mas, provavelmente, depois, também, se tornaria tudo demasiado perfeito...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Um daqueles dias...


Sentia-se num daqueles dias demasiado exasperantes… em que tudo, à sua volta, a aborrecia, só lhe apetecendo estar onde não estava.
Desde a noite anterior que andava assim, meio ansiosa, meio incontrolada: ler ou ver TV, ir escrever qualquer coisa ou fumar mais um cigarro, sala ou escritório… E acabar, apenas, por adormecer, a meio da noite, no sofá da sala, acordando às 2h da manhã… levantar-se e ir para a cama, para voltar a acordar às 6h45, para mais um dia... em que chegaria a casa tarde e cansada...
Sem saber bem o que lhe apetecia fazer, mas sabendo muito bem aquilo que não queria para a sua vida!
Em pequena, nestes momentos, costumavam dizer-lhe que tinha o “bicho carpinteiro”, porque, em geral, a ansiedade era tal, que não conseguia parar sossegada num único lugar.

Talvez fosse, somente, devido ao cansaço e enfado derivados das rotinas diárias, ou uma imensa desmotivação ou, eventualmente, algo novo e diferente que estava prestes a acontecer... Ainda não sabia qual a resposta exacta, mas o tempo encarregar-se-ia de lha trazer.

Corners of My Home # 4



Mais um recanto lá de casa...

Antes (Outubro 2004) e Depois (Janeiro 2006): o meu escritório (que, desde o início, foi, também, adoptado pelas minhas gatas, para as suas sonecas).

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

O "Dia dos Namorados"





Esta manhã, ao ler alguns blogs é que me relembrei que hoje é o "Dia dos Namorados"!...

Esse famoso dia, escolhido pela sociedade capitalista-consumista, para que todos os namorad@s do mundo (ou de grande parte do Ocidente) exprimam o seu amor aos seus companheir@s... como se nos restantes dias do ano isso não devesse, também, suceder!
Que maravilha!...
Hoje todas as lojas que vendem aqueles peluches vermelhos, aos corações, com a forma de ursinhos ou o que quer que seja (mas que não servem para nada!), devem estar a "fazer" rios de dinheiro.
Que bom para a produção nacional (sarcasmo à parte, já que a grande maioria desses produtos são fabricados na China) e para a felicidade e harmonia em milhares de lares portugueses!!!

Como já devem ter percebido, não tenho por hábito comemorar este dia (se algum dia o fiz, foi porque não devia estar na minha perfeita sanidade mental)... e, este ano, estou solteira (mas, como já devem ter percebido, não é essa a razão pela qual sou contra este "dia")!
O que equivale, como termo de comparação, apenas, para dizer que, ainda por cima, os antros consumistas não são bons estrategas... pois, quando lançam as suas campanhas publicitárias para este "dia", esquecem-se de aí incluir uma quota parte da sociedade (ou acham que as pessoas vão comprar os tais ursinhos vermelhos para oferecerem a si próprias?!).

Gozações à parte, o que quero dizer é que sempre considerei que devemos demonstrar o nosso amor quando muito bem nos der na cabeça e não num simples dia, estabelecido no calendário.
Para todos aqueles que pensam da mesma forma (e para os restantes apenas como curiosidade), deixo-vos aqui a sugestão de um site bem engraçado, de onde provêm todas as imagens deste post: - Be My Anti-Valentine

E "feliz dia"... para todos os que acreditam nele! ;)

SPT # 8 - "All of Me"


Continuando a seguir o desafio deste mês do Self Portrait Tuesday, aqui fica mais uma fotografia em que exponho os meus "ugly bits": simultaneamente, um dos meus piores e mais engraçados auto-retratos!

Paris - Dezembro 2001
A foto foi tirada à noite, junto à extinta "Grand Roue de Paris"... a luz era muito má e eu estava doente: a fase mais aguda do meu hipertiroidismo, que me fez emagrecer que nem um esqueleto, olheiras demasiado acentuadas e olhos esbugalhados que nem um peixe... e uma persistente vontade de estar sempre a comer, a qualquer altura e momento (todos os sintomas dessa malfadada doença -que, actualmente, está mais controlada).

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

1 gata com 2 corpos...


... ou, Mary Poppins (PB) e Boneca (cinza) cheias de frio na noite de sábado passado.

domingo, 12 de fevereiro de 2006

A Meg desapareceu!...


Caminhava vagarosa e distraidamente, saboreando aquele sol quente e esplêndido que, em pleno Inverno, nos dá alento e revigora.
Foi, então, que viu passar, na sua cadeira de rodas, o dono da Meg, com uma garrafa de vinho entalada no assento.
Troca de cordiais "boas tardes" e iria continuar a seguir o seu caminho, quando o homem se volta e lhe diz:

- "A "nossa" Meg, puff... desapareceu... roubaram-ma!"

Segundo consta, terá sido na passada 6ª feira, por volta da hora do almoço, que a Meg terá desaparecido. De acordo com o seu dono, mas sem que haja provas concretas, "roubada" por uns ciganos que vendem no Mercado de Benfica -que até já lhe teriam proposto comprar a sua cadela.

- "Estava comigo há 5 meses! E, depois da morte da minha filha, tinha, finalmente, conseguido colocar-me um sorriso nos lábios. E agora isto!... (...) Mas aqui já estão todos informados... já falei com os rapazes que andam na droga e com o veterinário, e, se alguém a vir, avisam-me logo. Se eu apanho quem a levou, nem sei o que faço!..."

Talvez por defeito profissional (ou imaginação exacerbada), há pessoas -que nem sequer conheço- que me aguçam bastante a curiosidade e fazem com que queira sempre descobrir algo mais, além daqueles simples personagens que nos habituamos a ver nos nossos bairros.
Este homem, desde que o vira pela primeira vez, em Dezembro, acompanhado da sua cadela (e, talvez, devido à forma como a tratava tão bem, apesar da sua miséria humana)... era uma dessas pessoas!
Já há algum tempo que me questionava (sem nunca lhe perguntar -por respeito) sobre o que é que teria acontecido na sua vida para dar origem ao estado actual em que se encontrava.

Para o que eu não estava, de facto, preparada era para que, assim, tão de repente, de um momento para o outro, e sem sequer me conhecer, este homem começasse a falar, como num monólogo consigo próprio (como se, apenas, sentisse vontade de saber que alguém o ouvia e não lhe virava a cara, como já era hábito), e, por causa da perda da sua cadela, me contasse algo tão íntimo sobre a sua vida... como a morte de uma filha.
Fiquei estarrecida, sem palavras... sem saber exactamente o que dizer... e com as lágrimas a aflorarem-me os olhos.
- "Lamento imenso!..." - foram as únicas palavras que consegui proferir, engolindo em seco, com um nó imenso na garganta.
As únicas palavras que, eventualmente, talvez, lhe tenham dado algum ânimo, na sua extrema solidão e miséria... mas que, a mim, me deixaram bastante abatida.

NOTA: - A Meg é uma cadela arraçada de podengo. Tem, mais ou menos, 2 anos e é de porte pequeno. Orelhas e focinho pontiagudos e o seu pêlo é branco com algumas manchas amarelas/beges. E tem a particularidade de ter o pêlo da sua barriga raspado, pois foi esterilizada há menos de uma semana. Desapareceu na passada 6ª feira (10/02/06), na zona do mercado de Benfica. Tinha uma coleira de metal (a qual, entretanto, poderá já ter desaparecido).
Se alguém, por alguma eventualidade, vir a Meg, contactem-me para: alexasof[arroba]gmail[ponto]com.
Muito obrigada!

Festejar o Aniversário


Quando era mais pequena, adorava aquelas festas de aniversário que costumávamos fazer lá em casa, levando inúmeros amiguinhos, passando a tarde inteira em 1001 brincadeiras e, no final, terminando a comer bolos que nem uns pândegos.
Com o passar do tempo, fui deixando de achar tanta piada a essas festas e comecei a ser mais selectiva e restrictiva, ou seja, o que interessa são mesmo os verdadeiros Amigos e não aqueles que temos que convidar por obrigação. Passaram, então, a ser os jantares e as noites em animados bares e/ou discotecas.
Agora, com a "velhice" (e o juízo) já a chegar, do que gosto mesmo é de ficar na minha casinha, a receber as pessoas de quem gosto e em animadas conversas até às tantas da manhã (normalmente, com esta idade, já só aguentamos até às 2h)!...

Por isso, ontem dediquei a noite aos Amigos!
Na véspera, tinha sido o dia para a família, portanto, ontem, precisava de estar com os Amigos... apesar de nem todos poderem ter estado presentes (bébés, viagens, etc. e tal e muitos outros impedimentos que nos vão surgindo na vida adulta) -mas já estarem marcadas diversas outras sessões de reencontro, para estarmos juntos (e uma outra festa, especial, para alguns colegas-amigos lá do emprego).
Estiveram cá em casa 2 grandes Amigos (daqueles para toda a vida) e 1 amiga de um deles (que se tornou minha amiga, também), para, a modos que, comemorarmos o meu aniversário e, sobretudo, passarmos um bom bocado juntos.

E, aqui, vos deixo o meu agradecimento especial pelas prendinhas (Marta, o chá de Erva-mate é delicioso! S&T, a pulseira estilo indiano-chic assenta-me às 1000 maravilhas e é lindissíma!) e, sobretudo, pela vossa presença e por uma noite tão agradável.
Temos de repetir mais vezes!...

P.S. - Tiaguinho, os 36 Cd's + os 3 DVD's que levaste lá de casa têm uma volta na ponta, ok?!


Moderação de Comentários neste Blog


Car@s Amig@s e restantes leitores do meu blog:

Depois do que se passou ontem à tarde aqui no blog (com 2 pessoas a utilizarem o espaço de um dos meus posts para se dedicarem a uma "animada" discussão), decidi implementar a opção da "moderação de comentários".
Ou seja, quem quiser deixar aqui comentários, poderá continuar a fazê-lo à vontade; no entanto, não se espantem, porque esses mesmos comentários não aparecerão logo visualizados no écran, na medida em que serei eu a passar a controlar a sua publicação.

Considerem-me ditadora ou inimiga da liberdade de expressão ou o que quiserem!...
Mas a verdade é que perdi, de uma vez por todas, a paciência com um determinado tipo de pessoas que não devem ter mais nada que fazer na vida para além de andarem a deixar comentários idiotas nos blogs dos outros, unicamente, com o intuito de chatearem, mas escondendo-se sobre a capa pseudo-intelectual de terem comentários divergentes (a maior parte dos meus leitores diários saberá a quem me refiro).

Como me disseram, sabiamente, há alguns dias atrás, "na nossa sala de estar, também, só deixamos entrar quem queremos"...
O que é bem verdade, pois, apesar de os blogs se encontrarem inseridos num espaço de utilização pública, que é a internet, tratam-se de um espaço livre e individual de criação de alguém. Logo, há que ter respeito por esse "outro" que, diariamente, aí deixa os seus pensamentos e criações! Podemos não concordar sequer com o que diz, ou achar que é um desperdício de tempo essa pessoa dedicar-se a um blog, mas isso não dá o direito a fulano e cicrano de andarem de blog em blog com comentários destrutivos, fomentando a discussão com outras pessoas e sabe-se lá com que propósito.
Por isso, é que, a partir de hoje, está instituída a moderação de comentários no meu blog!

Peço imensas desculpas pelo transtorno aos meus amigos e àquelas pessoas que me líam habitualmente e que não têm nada a ver com esta questão (mas vão ver que se habituam rapidamente a esta coisa da moderação, que é tão simples como deixar um comentário normal!)... mas, a partir de hoje, "só deixo entrar na minha sala de estar" quem eu quiser (estou no meu direito de não querer aturar gente estúpida e "miudinha" no meu espaço)!!!

sábado, 11 de fevereiro de 2006

Boneca


Tal como prometido, aqui fica a história de mais uma das minhas 'nininhas: a Boneca.
A Boneca é uma "tartaruga azul" (com uma das pelagens mais incríveis que já vi), que veio para minha casa há exactamente um ano, 1 semana depois da morte da Amélie.
Quem ma ofereceu foi a senhora a quem eu já tinha adoptado a Amélie e a Mary Poppins, que, sentindo-se triste por a pequena Amélie apenas ter vivido comigo durante 1 mês, resolveu oferecer-me a Boneca.

Quando chegou a minha casa, a Boneca era uma gata muito stressada e medrosa, sempre com uns miados graves por tudo e por nada... mas, também, muito meiguinha.
Segundo reza a sua história anterior, parece que alguém terá visto o seu antigo dono abandoná-la, ali para os lados da Parede.
A Mary Poppins, que sempre foi muito territorial e mimadinha, fez-lhe a vida negra. E eu, que ainda estava bastante abalada com a morte da Amélie, talvez, não lhe tenha dado logo de início o mimo e carinho que a pobre Boneca merecia.
Mas, ao fim de alguns meses, a Boneca tornou-se menos stressada e a Mary Poppins aceitou-a bem.
No entanto, a Boneca continua a ser a mais medrosa das minhas gatas: cada vez que cá vem alguém a casa, esconde-se logo debaixo da cama e, apenas, comigo tem mais à vontade.

Torna-se engraçado porque, com a adopção da Tucha, foi a vez da Boneca se armar em "territorial" e andar sempre a provocá-la.

(Ainda sobre a) Liberdade de Expressão


Depois do meu post, de há alguns dias atrás, sobre a liberdade de expressão, deixo-vos aqui uma outra visão (ainda) mais crítica e fundamentada (na medida em que os seus autores são investigadores dinamarqueses) sobre tudo aquilo que se está a passar!

O original deste artigo saíu no passado dia 09/02/06, no jornal francês “Libération”, mas, para quem não saiba falar esta língua, aqui fica uma tradução integral, por considerar que nem tudo é preto e branco... e, em qualquer assunto que seja, existem sempre umas nuances de cinza -importantes para a compreensão da verdade por detrás das coisas!

Para quem tiver paciência de ler até ao fim, verá que se trata de um excelente artigo!!


“Foi a xenofobia envolvente que deu origem à retórica do choque das civilizações – Um contexto caricatural dinamarquês”
Por Heidi Bojsen (professora na Universidade de Roskilde) e Johan J. Malki Jepsen (politólogo em Copenhaga)

A questão das caricaturas de Maomé é um assunto que diz respeito a todo o mundo. As representações que se relacionam com esta questão balançam entre diversos registos do universal, para se concretizarem em situação particulares: o humor que elucida, emparelha à vontade com a provocação que fere; a arrogância, o desprezo e a ignorância confundem-se facilmente entre as intenções mais nobres e os ideais mais importantes.
Todas as pessoas podem sentir-se tocadas e ver nesta situação uma questão de princípios. Cada um deles, à luz dos seus próprios interesses, da sua sensibilidade, da sua fé e da sua cota parte de senso comum.
No entanto, esta questão tem uma história muito mais ambivalente do que o possam deixar crer o maniqueísmo no qual acabou por ficar aprisionada. Pensamos que se torna um imperativo relembrar o contexto específico no qual estes desenhos apareceram (na ocurrência, o contexto dinamarquês), sem o qual toda a compreensão da questão que se encontra em jogo seria ilusória e qualquer forma de sair da presente crise seria vã.
Não pretendemos de forma alguma ditar qual deveria ser a reacção de uns e outros. A nosso intenção aqui é apenas de esclarecer e de informar. Numa só palavra, de contribuir para repôr o senso comun na via do bom senso.
Estas caricaturas não apareceram na Dinamarca a partir de uma tábua rasa. O debate público dinamarquês tem-se centrado, já há muitos anos, e com uma intensidade até à data inigualável, sobre a questão da alteridade, relevando da mesma sobre a crise identitária que atravessa o país: imigração, integração, Europa, mundialização, “valores dinamarqueses” (danskhed), constituindo os termos de um discurso público generalizado.
Este tipo de discuros acabou por dar origem à injúria xenófoba e à falta de respeito. Os esterótipos tornaram-se, em certa parte, demasiado importantes nos meios mediático-políticos, um valor absoluto da retórica do discurso público.
A inevitável consequência desta efervescência do debate público foi a de criar uma normalização e banalização da xenofobia numa não negligenciável parte da sociedade dinamarquesa, em nome do princípio sacrosanto da liberdade de expressão.
Na nossa sociedade, onde a cultura política reposa fortemente sobre o pragmatismo e o consenso, estas ideias populistas serviram, essencialmente, para estigmatizar os muçulmanos e o Islão –dos quais não conhecemos, sequer, toda a complexidade e diversidade.
A esta situação junta-se o facto de na Dinamarca a Igreja não se encontrar dissociada do Estado. Apesar de alguns defenderem que, todavia, a política está separada da religião. Contudo, apenas existe uma religião de Estado: o protestantismo Luterano. Os padres detêm o estatuto de funcionários públicos. As aulas de “cristianismo” são obrigatórias nas escolas públicas. O registro dos recém-nascidos é efectuado, exclusivamente, pela administração da Igreja Luterana.
A grande maioria dos dinamarqueses diz-se “não praticante”, apesar de alguns se considerarem “crentes”. Mas a religião não se trata de um assunto, estrictamente, privado para a maioria dos dinamarqueses: ela é entendida como constitutiva da homogeneidade cultural e da identidade nacionais. Servem-se, também, dessa mesma religião quando se querem encontrar em ritos comunitários, tais como a ceia de Natal ou as festas de casamento.
Mas o olhar essencialista predomina: servimo-nos da religião, também, para definir o “estrangeiro”, do qual não vislumbramos imediatamente a proximidade identitária. O recurso crescente à retórica da estigmatização não se limitou, infelizmente, aos termos utilizados pelo discurso público. De facto, a legislação dinamarquesa não tardou a tomar a dianteira. Desde 2002, o Governo reduziu o apoio social aos estrangeiros nos primeiros meses do seu período de residência no país.
Esta lei, segundo os seus apoiantes, deveria servir de incentivo para uma melhor integração dos estrangeiros. Porém, e segundo a análise do Centro de Investigação Social CASA, ela conduz, sobretudo, a uma acentuada marginalização.
Em 2002, foi, igualmente, votada a chamada “lei dos 24 anos”; a qual interdita os cidadãos residentes no país –incluindo os dinamarqueses- de habitarem conjuntamente com o seu esposo ou esposa de nacionalidade não dinamarquesa, no território do reino, antes que qualquer um deles atinga os 24 anos. Esta lei foi criticada pelo Comissariado encarregue dos direitos humanos, no Conselho da Europa. Uma crítica partilhada e defendida pela directora do Instituto Dinamarquês dos Direitos Humanos, em Copenhaga, e por diversos políticos da oposição.
É esta nova prática do poder, fundada sobre a ideia da “tolerância zero” (ou intolerância?), inaugurada pelo chefe do Governo actual, que foi empregue no que diz respeito aos embaixadores de países muçulmanos. Ao recusar-se a recebê-los e a dialogar no terreno da diplomacia (tal como lhe tinha solicitado), após a publicação das caricaturas de Maomé, o chefe do Governo demonstrou uma falta de discernimento surpeeendente.
O assunto transformou-se num incidente diplomático. As bases da internacionalização da questão das caricaturas foram, desta forma, lançadas.
A visita de um grupo de ímams, alegadamente fundamentalistas e residindo na Dinamarca, a certos países árabes, em busca de um apoio à sua causa, abriu o segundo acto desta história. Surpreendido e enervado com a rapidez e eficácia da campanha de boicote dos produtos dinamarqueses, o Governo preferiu negar a sua quota parte de responsabilidade e escolher a “fuga em frente”, escolhendo uma estratégia de coligação, europeianizando, assim, uma questão de política interna que subitamente o ultrapassava. A tentativa de alargar à escala internacional esta questão, colocando de um lado o Ocidente e do outro o mundo muçulmano, em torno, exclusivamente, da clivagem da liberdade de expressão, é das mais cínicas e perigosas para a estabilidade –já amplamente colocada em perigo- de uma grande parte do mundo.
Curiosamente, a oposição dinamarquesa demonstrou uma total impotência face ao desenvolvimento de todo este caso. Mas a impotência não significa a sua não-existência. A título de exemplo, colectivos de médicos, de padres, de escritores, de embaixadores na reforma, alguns jornais e um número considerável de associações tentaram expressar a sua desaprovação vis-à-vis desta orientação da política na dinamarca. Em grande parte dos casos, a sua contestação foi recusada.
Torna-se importante salientar que os dois outros diários da Dinamarca, o “Politiken” (centro-esquerda) e o “Berlingske Tidende” (conservador), decidiram abertamente, desde o início, não caírem na “armadilha” islamofóbica da pseudo luta pela liberdade de expressão –invocada pelo outro jornal que iniciou toda esta crise, o “Jyllands-Posten”.
O cerne real da questão das caricaturas não tem nada a ver com uma ameaça à liberdade de expressão. Algumas pessoas querem esconder uma floresta, apenas, com uma árvore! Os desenhos não foram publicados com vista à fomentação de um verdadeiro debate. Eles derivam, isso sim, de uma empresa de estigmatização e de propaganda xenófoba e populista para com uma minoria étnica existente na Dinamarca. O que aqui se encontra, verdadeiramente, em causa é o respeito pela diversidade, que as esferas nacional-populistas recusam –chegando ao ponto de brandir em defesa da liberdade de expressão, quando esta serve os seus interesses.
A liberdade de imprensa, também, nunca foi ilimitada! Não se tratando aqui de a amputar. Um mínimo de vigilância ética, de sentido das responsabilidades e de respeito pela diferença, talvez, nos fizessem sair dos meandros dessas pulsões destruidoras, herdadas do tempo onde justificávamos a submissão de certos povos pela necessidade de os tornar civilizáveis.
A liberdade de expressão exercida, num clima onde um dos parceiros é sistematicamente tornado como o principal suspeito, não é uma liberdade real; porque a liberdade de expressão –compreendendo-se aí, também, a sátira mais ácida- será em vão se ela não for acompanhada de um enquadramento ético, partilhado e de uma tomada de consciência das relações de força em jogo.
No presente caso, o agressor pretende transformar-se na vítima. Uma aberração!
Dito isto, a Dinamarca conta, ainda, com numerosos adeptos do bom senso, das mais diversas crenças religiosas, os quais têm necessidade de apoio para saírem desta lógica louca do “estás connosco ou, então, estás contra nós” e para defenderem o respeito pela diversidade.
O que se torna importante é viver em paz e respeito mútuo, e não cair na armadilha da ideologia do choque das civilizações, na qual sonham os dois extremismos predominantes actualmente: - o fundamentalismo religioso e o populismo xenófobo.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

Muito obrigada!...


Entrei finalmente no clube dos 30 (como me felicitou, esta manhã, uma grande Amiga)!...

Não que isso me preocupe muito em termos de estéctica (porque continuo bem conservadinha em formol, tal como a minha mãe -que já com 55 anos ainda pensam ser minha irmã) ou de me sentir mais velha (o que é importante é mesmo a juventude interior, apesar de já ter contado 3 cabelinhos brancos –que já cá devem estar há muitos anos mas, como desde o 12º ano que pintava o cabelo de ruivo, só no final do ano passado, quando recuperei a minha cor natural, é que os descobri)...
Mas a verdade é que foi meio estranho fazer 30 anos!...

É uma daquelas idades com números muito redondos, que parece que marcam de uma forma mais intensa aqueles pontos de passagem importantes nas nossas vidas: aos 10 anos é porque passámos a ser muito mais altos do que o coleguinha do lado, aos 20 é porque já podemos fazer o que nos der na real gana e chegar a casa dos pais às tantas da madrugada e aos 30... Bom, aos 30, é quando aquelas "pressões sociais" todas que já recaíam sobre nós, anteriormente, se acentuam ainda mais:
- comprar casa (pelo menos esta já está!);
- arranjar um emprego estável -preferencialmente que seja do nosso agrado- e com um salário que dê para sobreviver (metade já está, falta a parte referente ao salário!);
- constituir família (esta aqui, de momento, é que será bem mais complicada!);
- ter filhos (tirando a parte das gatas que, segundo a minha mãe, são quase como minhas filhas, posso considerar que esta está meio superada)...

Enfim...
Hoje nem sei bem o que senti... se estava alegre ou triste ou o que quer que seja.
Felizmente que lá no emprego nos dão sempre o dia de aniversário de folga (em compensação de, no dia seguinte, levarmos um bolinho para o pessoal comer). Por isso hoje, não fui trabalhar, o que foi mesmo óptimo!!!

Cheguei aos 30 e pronto, acabou-se!...
A partir daqui logo se verá! As coisas, também, não deverão ser muito diferentes daquilo que eram aos 29 ou aos 28... tem é que se ir vivendo um dia de cada vez, dando importância àquilo que realmente nos interessa e às pessoas de quem gostamos, e esquecendo as coisas que nos desgastam física e emocionalmente.
E, afinal de contas, segundo uma outra amiga minha, a Catarina, a partir de agora, é que tudo nas nossas vidas se torna mais interessante (obrigada pela dica, miúda!).

E ao terminar este dia, não queria deixar de agradecer -se as contas não me falham- pelos 16 telefonemas, 6 e-mails (com cartões virtuais ou não), 7 sms’s, pelas mensagens todas que me deixaram aqui no blog, pour le petit cadeau innatendu venu directement de Paris... e por todas as restantes felicitações que sei que vou receber em atraso (sobretudo, de amigos que se encontram a viver no estrangeiro)!
Muito mais do que fazer 30 anos, o importante é saber que temos Amigos que não se esquecem de nós (todos vocês sabem quem são, por isso, não vou citar nomes :)

30!...

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

"Objectos de Culto"



Seguindo mais um desafio do Ahraht, hoje confesso vos aqui o meu maior objecto de "culto".
No fundo, não é tanto um objecto de culto (pois não sou dada a qualquer tipo de cultos), mas mais uma espécie de amuleto... pois não consisgo sair de casa sem ele e só o tiro à noite, antes de me deitar.

O meu objecto de "culto" é um anel vindo directamente da Índia, um "anvat".
Aqueles anéis que, em muitas regiões desse país, é tradição as mulheres passarem a usar no maior dedo dos seus pés, após o casamento, como forma de trazer bons auspícios.

A Índia sempre me fascinou imenso, apesar de, infelizmente, ainda nunca lá ter estado!
E considero a forma como as jóias são utilizadas nesta cultura bastante interessante: anéis, brincos ou o que quer que seja não são meros acessórios (como nas culturas ocidentais), mas fazem, isso sim, parte de um "todo" significativo e místico.

Não uso, nem nunca usei, o meu "anvat" em nenhum dedo do pé... mas sim na mão esquerda, mais perto do coração e do nosso lado mais emotivo.

Nós e as Palavras



"You are welcome to Elsinore"

(Mário Cesariny)

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos a morte, violar-nos, tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas, portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício.

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição.

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor.

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita.

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.