Mostrar mensagens com a etiqueta A Meg e o Sr. M.. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta A Meg e o Sr. M.. Mostrar todas as mensagens

sábado, 25 de fevereiro de 2006

A Meg e o Sr. M - III

[Ver : Parte I, Parte II]


Hoje estou cansada, cheia de dores de cabeça, triste e desiludida!...
E a chuva que tem caído, incessantemente, ainda me deixa mais deprimida.

As buscas pela Meg têm-se revelado infrutíferas!...
Foi roubada há cerca de 2 semanas e, desde então, todas as pistas de que se tem tido conhecimento sobre o seu eventual paradeiro têm sido muito vagas.
Na altura em que comecei a escrever sobre este caso aqui no blog, nunca mencionei essas pistas que existiam, pensando que, talvez, assim fosse melhor: não fazer muito alarido sobre o assunto, até que se descobrisse qualquer coisa de concreto. Mas, actualmente, da maneira que as coisas estão, o melhor mesmo é escrever, como forma de exorcizar tudo aquilo que tenho vivido nestes últimos dias!...


Pistas & Factos:

Depois do roubo, o Sr. M terá ido, por sua conta e risco, seguindo uma qualquer indicação, para Setúbal, onde se encontrou com um dos patriarcas ciganos, contando-lhe toda a sua história e a da Meg. O cigano terá chorado ao ouvi-lo, dizendo que, caso lhe fossem oferecer a Meg, a devolveria ao Sr. M.
Entretanto, surgiram alguns relatos de diversas testemunhas que viram a Meg ser enfiada à força dentro de um carro cinzento escuro, onde seguiam 3 ciganos, perto da Praça de Benfica. Não se sabe bem como ou devido a que outra pista, o Sr. M foi com dois amigos ao Bairro da Boavista... onde, perto de uns quintais, terá chamado pela cadela, ouvindo, em seguida, o seu latido, mas não a tendo visto. No dia seguinte, voltaram ao mesmo local e a cadela já não estava lá, tendo o Sr. M sofrido ameaças caso voltasse a entrar naquele bairro.
Posteriormente, na passada 5ª feira, um dos amigos do Sr. M disse à T. quem era o tal cigano já de idade, avô de uma das pessoas que foi vista dentro do carro que levou a Meg. Movida pela emoção, bem como pelo facto de já conhecer esse cigano ali de Benfica há mais de 30 anos, a T. dirigiu-se a ele, oferecendo dinheiro em troca da cadela e dizendo que a polícia já estava ao corrente de tudo.
Por outro lado, segundo parece, os primeiros ciganos que, há muito tempo atrás, tinham oferecido dinheiro ao Sr. M em troca da cadela (de acordo com o que lhe disseram na altura, porque a queriam oferecer a um avô, um patriarca cigano), tinham um carro cuja matrícula estava registada numa morada em Vale de Milhaços (Almada).


Vi-me envolvida no meio de toda esta história, pelo simples facto de, na passada 4ª feira, seguindo a indicação de uma amiga que tem experiência neste tipo de situações, ter resolvido telefonar para um dos números de telefone que vinha no anúncio de desaparecimento da Meg... para informar que, caso tivessem a certeza absoluta do local onde a cadela se encontrava, poderiam lá ir com a polícia, o Sr. M, 2 testemunhas e o médico veterinário que esterilizara a Meg, sendo as pessoas que tinham a Meg obrigadas a devolvê-la.
A partir desta altura, já não havia volta... e estava enredada na própria busca pela Meg!...

Na 6ª feira, a T. e a F. pediram-me para ir falar, de uma forma mais diplomática, com o tal avô cigano, com quem na véspera a T. tinha sido algo brusca. Por volta da hora de almoço, quando a Praça já tinha fechado e os feirantes se encontravam em arrumações das suas bancas, fomos procurá-lo, mas não estava lá.
Ficou, então, tudo re-agendado para hoje de manhã... sábado, fim do mês, quando a Praça está mais cheia de gente, inevitavelmente, ele teria que lá se encontrar.

Com algum receio de uma primeira abordagem ao tal avô cigano (pois, nós os antropólogos não sabemos tudo!), ontem à noite falei com uma amiga e ex-colega de universidade, que se encontra, actualmente, a efectuar uma tese de doutoramento sobre a comunidade cigana.
Ao contar-lhe toda esta história, a Ana ficou algo estupefacta, sobretudo, por saber que os ciganos não caçam... logo, não teria sido pelo simples facto de o Sr. M andar sempre a valorizar a sua Meg, dizendo que ela era uma podenga pura, que a teriam roubado.
"Talvez alguém se tenha afeiçoado a ela, por já ter tido uma cadela parecida, ou por ser uma pessoa de idade que já esteja sozinha e precise de companhia", disse-me a Ana.
"O melhor é ires com calma, pedires-lhe ajuda e nunca o acusares. Nunca fales na polícia, nem em roubo, porque isso assusta-os. Mas pergunta-lhe o que é que poderá ter movido alguém a levar a cadela. Conta a história do Sr. M e enfatiza a necessidade que ele tinha da companhia da Meg, devido a tudo aquilo que já viveu. (...) Nunca demonstres medo ou nervosismo e repete-lhe o pedido de ajuda", prosseguiu a Ana.

Pareceram-me conselhos bastante sábios e esta manhã com o discurso de mediação na ponta da língua e, tal como combinado anteriormente com a T., apareci no café às 9h30, hora a que normalmente o tal avô cigano lá costuma, também, ir com a sua mulher, para tomarem o pequeno-almoço. E nada... Ainda por cima, de madrugada, o café tinha sido assaltado, e o ambiente que pairava no ar era meio estranho.
Esperei mais meia hora, uma hora, já à porta da loja onde a T. trabalha (do outro lado da rua, em frente ao café) e nada, não havia meio de o cigano aparecer. Ainda tive que ouvir os comentários estereotipados de quem passava, sobre a eventualidade da cadela estar a ser utilizada pelos ciganos para "lutas de cães"... e o esforço de tentar manter a calma, para o meu discurso de mediação diplomática.
Mesmo chuvendo a potes, resolvi então ir à Praça, dar uma vista de olhos, aproveitando a descrição física que a T. me fizera do senhor.
1, 2, 3 voltas à Praça, cá fora nas bancas dos ciganos e lá dentro, junto dos cafés e nada!...

Voltei à porta do café, onde o Sr. M se encontrava, a pedir esmola, para tentar confirmar com ele (que nada sabe a propósito destas nossas diligências) se, por acaso, já tinha visto passar por ali o tal avô cigano. Não, também, ainda não o vira.
Mas fiquei a saber que o pai do Sr. M, de 82 anos, tinha sofrido um ataque cardíaco na véspera, encontrando-se em estado considerado estável no hospital.
"Mais uma, para juntar a tudo o que me está a acontecer!...", disse-me o Sr. M.
Fiquei momentaneamente sem palavras, para de novo lhe voltar a falar da onda de solidariedade que se tem gerado em torno dele e da Meg.
"Eu não sabia que havia tanta gente a querer ajudar-nos. Só isso é que me faz continuar", respondeu-me.

No café, ainda, encontrei a F. que, de um momento para o outro, começou a desabafar comigo (dizendo que eu era uma pessoa "que tinha formação" e a iria compreender) a propósito da sua desmotivação perante as buscas, sobretudo pelo facto de, desde o início, ter sido ela a ir tirar as fotocópias a cores para o anúncio, andar de um lado para o outro com o seu carro e as "outras pessoas" nem sequer lhe perguntarem se precisa de ajuda... não se estando, necessariamente, a referir a mim. Mantive-me diplomática e disse que a ajudaria no que fosse preciso.
A F. tem a doença de Crohn, está desempregada e o seu pai faleceu há cerca de um mês. É uma mulher jovem, bonita e simpática, nascida numa família de classe média alta que noutros tempos viveu em Angola (pelo que me contou). A maioria dos seus familiares pertenceram à Marinha, e nota-se que ela prória teve uma educação rigorosa. No seu discurso dá muita importância ao facto de alguém ter um curso superior (apesar de ela própria o não ter) e sente-se que se encontra inferiorizada, não só por ter que estar em casa, mas, também, por ter de conviver com pessoas que já conhece desde miúda, mas "com uma outra formação", como ela própria diz.

Com a cabeça completamente esvaída, voltei à Praça, para mais uma volta em busca do avô cigano. Mais uma vez, nada!
Até que me decidi a ir falar com uma cigana de meia idade, a quem, de vez em quando, a minha mãe compra algumas coisas.
Reconheceu-me logo. Contei-lhe o caso, e ela só me disse: - "Ah, isso quem deve saber alguma coisa é a polícia, ou esses que dormem aí debaixo dos telheiros" (referindo-so, por último, aos toxicodependentes, que ali pernoitam).
Disse-lhe que a polícia não estava envolvida no assunto (mais tarde, a Ana viria a explicar-me que ela me estava a colocar à prova; comprovando-se, assim, a minha teoria de que ali junto dos feirantes da Praça todos sabem o que se passou e, eventualmente, onde estará a cadela).
Chamou uma velhota não cigana para lhe perguntar se sabia alguma coisa da cadela. Uma pessoa rude e mal educada, de mentalidade tacanha, que, apenas, me disse que quem levou a cadela, provavelmente, já não a devolve... e que não gostava de animais, que eram porcos e sujavam tudo.
Engoli em seco, respirei fundo (para não dar àquela velha a resposta que ela merecia) e agradeci à cigana.

Amanhã irá alguém a Vale de Milhaços (Almada), para sondar se a Meg lá está. Era uma das outras pistas.

Sinto-me cansada, cheia de dores de cabeça, triste e desiludida!...
Como medir a nossa própria capacidade de suportar sentir/ver o sofrimento dos outros?
Por causa do desaparecimento da Meg, tenho lidado mais de perto com uma série de pessoas que sofrem (como todos nós, em determinados momentos das nossas vidas) e que querem desabafar sobre isso.
E hoje eu já não aguento mais!...

Eu bem sei que não me devia envolver tanto nas coisas!... Mas, às vezes, até parece que as atraio, como diz a minha mãe.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

A Meg e o Sr. M - II

[Ver: Parte I]


O Sr. M continua a desfalecer, a cada dia que passa.
Esta manhã, quando fui tomar o meu café e o vi, fiquei bastante apreensiva: - o seu rosto parece ter envelhecido 10 anos em apenas 2 semanas e o seu olhar está cada vez mais parado e triste.
No momento em que conversávamos, passou a Filipa (uma colega de trabalho e amiga, que, também, mora ali perto), com a sua filha mascarada de Minnie. Cumprimentámo-nos e falámos um pouco sobre o Carnaval e a fatiota nova da R.
Quando ela se foi embora, não pude deixar de reparar no sorriso nostálgico que, repentinamente, se esboçou no rosto do Sr. M, ao ficar a olhar para a pequena Minnie afastar-se ao colo da sua mãe (quiçá, trazendo-lhe esta imagem recordações de
uma vida passada).


-------------------------------------------------------


Costuma ouvir-se dizer que as pessoas que se dedicam de corpo e alma aos animais (daquele tipo que têm um número infindável de cães ou gatos ou as 2 espécies juntas, ou do outro género de não puderem ver um animal abandonado na rua que o apanham logo e tratam de arranjar quem o adopte) têm falta de algo nas suas vidas... seja porque as suas famílias não lhes dão muita atenção, seja porque não se realizaram pessoalmente em algum aspecto das suas vidas, seja porque motivo for.

Podendo, sem dúvida alguma, este raciocínio ter uma quota parte de veracidade, em meu entender, há algo de mais profundo nessa dedicação desmesurada aos animais: - o respeito por outro ser vivo.
Um sentimento que não deveria estar, unicamente, patente nas relações entre os homens, mas, também, entre estes e os restantes seres vivos que habitam este planeta.
"A grandeza de uma nação e o seu desenvolvimento moral podem ser julgados pela forma como os animais são tratados" (Mahatma Gandhi).
Talvez por as nossas sociedades terem atingido, nos dias que correm, um aperfeiçoamento tecnológico tão grande, a maioria dos indivíduos acredite ter uma qualquer força sobrenatural e tenha deixado de prestar atenção a outras coisas sobejamente importantes, como sejam o respeito pela natureza e pelos animais, passando a não lhes conferir a importância que efectivamente têm.
Afinal de contas, não tem sido o Homem, nos últimos tempos, o principal destruidor de tudo aquilo que o rodeia, na sua ânsia crescente por um poder ominipotente?!
Mas nem tudo é mau no "melhor dos mundos"... pois, felizmente, que ainda existem pessoas a preocupar-se com os animais (bem como com os homens) e a sua sorte!

Desde o desaparecimento da Meg, tenho vindo a conhecer uma série de pessoas que ainda se preocupam com esse respeito primordial pelo “Outro” e pelos restantes seres vivos.

A T. é uma dessas pessoas!
Foi a instigadora da recolha de fundos com vista à esterilização da Meg e, na loja onde trabalha, dá de comida a uma série de animais aqui do bairro.
Esta manhã, enquanto falávamos à porta da loja, entrou por ali adentro, como se já conhecesse os cantos à casa, um pequeno caniche preto (já meio cinzento, porventura, devido à sujidade), todo brincalhão.
Poucos minutos depois, surgiu o seu dono, o Sr. S, uma figura algo anacrónica, de cachimbo na mão, chapéu com pala (daqueles que os miúdos usam) na cabeça, com leves trejeitos de marinheiro.
A T. foi, prontamente, buscar comida para o pequeno caniche, enquanto este bebia água numa pequena taça (improvisada) de plástico, que se encontra sempre à porta de loja.
Enquanto isso, o Xibanga (nome do caniche) começou a “inspeccionar-me”, esticando as suas patitas nas minhas pernas... acabando por aninhar a sua cabeça nos meus joelhos.
O Sr. S pareceu surpreendido com a atitude do Xibanga e sorriu-me, segurando o seu cachimbo que se encontrava já na boca.
Parece que o pequeno Xibanga, caniche-anão, não costuma ser assim tão efusivo com as pessoas que conhece pela primeira vez... tendo já mesmo mordido alguém que, apenas, lhe tentare fazer uma festa.
Também se costuma ouvir dizer que os animais reconhecem institivamente (seja pelo cheiro, pela postura corporal ou pelo tom de voz) quem lhes quer bem!...
O Sr. S ficou todo contente e até se despediu de mim com um eloquente: - “Adeus menina!” (apesar dos meus 30 anos e 3 cabelos brancos!).
E eu, no meio desta saga toda pela busca da Meg, fiquei a conhecer mais um dos “personagens” aqui do bairro!...

Quanto aos cães e a esta minha necessidade impreteriosa de encontrar a Meg (para quem não saiba, é mesmo a primeira vez que me empenho tão a fundo numa questão deste género!)...
A minha relação com cães é muito parca, resumindo-se, essencialmente, a 2 casos: - o primeiro, o de um rafeirito que, em pleno Alentejo, quando era miúda, veio tentar brincar comigo e eu apanhei o maior susto da minha vida... pois, como não estava habituada a lidar com cães, não percebia muito bem as suas reacções;


Snoopy - 2004


- o segundo, já adulta, há cerca de 3 anos, quando fui trabalhar para o local onde me encontro actualmente, o caso de um rafeiro arraçado de perdigueiro português, o Snoopy. Adoptado por uma das famílias do bairro social (onde se encontra o meu local de trabalho), que, quando cresceu, teve o azar (como acontece a muitos animais, infelizmente!) de passar a viver somente na rua. Ou seja, tinha dono, mas não tinha!...
Comecei a dar-lhe comida, quando chegava ao emprego de manhã, acabando por me afeiçoar ao animal (que era de uma meiguice extrema e carente de afecto). Ainda tentei, através dos meus contactos, arranjar um dono em condições para o Snoopy... mas, depois, um dia, há cerca de 1 ano atrás, quando me encontrava de férias, os meus colegas de trabalho contaram-me que o Snoopy tinha deixado de aparecer. Imaginei logo o pior!... Que, num bairro como aquele, ou o cão tinha sido atropelado, ou então servira para as lutas de cães que por ali se realizam muito.
Algum tempo mais tarde, vim a saber que, afinal, a avó do dono do Snoopy o tinha dado a um empreiteiro, para servir de cão de guarda numa obra qualquer, ali para os lados de Carcavelos (mesmo tendo eu já dito, por inúmeras vezes, a esta senhora para ela não dar o cão a ninguém que eu lhe arranjaria um dono). Ainda me passou pela cabeça ir para Carcavelos, à procura do Snoopy, em todos os estaleiros de obra que por ali existissem... mas demoveram-me dessa ideia, ao considerarem que eu estava a ficar um pouco louca. Até hoje nunca mais soube nada do Snoopy!... Se está morto ou vivo, o que quer que seja... restam-me, apenas, as suas fotos... mas a incerteza é, de facto, o pior sentimento em que podemos viver.

Desta forma, talvez por a minha experiência com cães, até à data, não ter sido das melhores e por me sentir um pouco culpada por não ter podido encontrar um outro dono para o Snoopy, tenha acabado por me envolver tanto nesta “história” do desaparecimento da Meg. Para esse envolvimento, também, não pode ser alheio o estado de vida em que o Sr. M (dono da Meg) se encontra... Se me acontecesse o mesmo a mim, também, gostaria que alguém me estendesse a mão e me ajudasse na medida das suas possibilidades (note-se, no entanto, que esta minha última frase não tem nada a ver com uma eventual influência da minha educação católica enquanto criança –pois, há muitos anos, que sou ateia e não acredito no que quer que seja!). Para além disso, e como a minha mãe costuma dizer, eu tenho um jeitinho muito especial de me meter sempre em confusões... até parece que as atraio!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

A Meg e o Sr. M

- Excertos de uma história (que está a acontecer) -


21/02/06

Tudo começara com o desaparecimento/roubo da Meg!…

Antes disso, algumas senhoras aqui do bairro tinham-se juntado e contribuido para a esterilização da Meg na clínica veterinária local. Mas nesse ponto preciso, a história ainda se resumia, apenas, a um pequeno grupo de defensores dos direitos dos animais, que ajudavam, também, um pobre homem, o Sr. M.

Agora a história tinha avançado, tinha ido muito mais longe!...
Era incrível como a onda de solidariedade em torno deste caso se tinha generalizado, não só a toda a freguesia de Benfica, como, também, através da ajuda de muitas pessoas que tinham tido conhecimento do mesmo através da internet.

Trabalhando numa ONG e conhecendo um pouco a forma como, em termos de consciência social, a nossa sociedade tem vindo a regredir, pensava que a bondade e solidariedade humanas se tinham perdido... a partir do momento em que se abandonam animais a torto e a direito (apenas porque deixaram de ser pequeninos e passaram a ocupar muito espaço e tempo lá em casa -tal como sucede com os filhos... mas que, na grande maioria dos casos, não se abandonam por esse motivo!!!)... em que se vira, ostensivamente, para o outro lado a cara, quando um mendigo passa por nós na rua... e tantas outras coisas!

E, afinal, não!...

O caso da Meg e do Sr. M veio fazer-me rever imensas coisas que eu tinha por certezas apreendidas!...


22/02/06

Conheci, esta tarde, o núcleo duro de pessoas que têm estado a tentar ajudar o Sr. M na sua busca pela cadelinha Meg (e que, anteriormente, já o ajudavam em termos humanos e financeiros). Simplesmente porque, depois de ter colocado o anúncio do desaparecimento da Meg na internet e, ao fim de não sei quantos dias, sem notícias do Sr. M, decidi ligar para um dos contactos que vinha no anúncio.

Quando lhes fui falar, tive a nítida sensação (modéstia à parte) de lhes ter aparecido como a última réstea de esperança numa busca infrutífera pela cadela... apenas porque me tinha prontificado a servir de testemunha, caso o sr. M decidisse apresentar queixa na Polícia, e porque, por portas e traversas, conheço alguém que conhece outras pessoas que moram no Bairro da Boavista (onde se sabe agora que a Meg esteve aprisionada alguns dias, após o seu roubo).

Vi-me, então, subitamente, envolvida nos meandros da própria busca!...

E, de um momento para o outro, fiquei a conhecer “toda” a história do Sr. M, por intermédia pessoa (pois, até à data, ainda não tive coragem para lha perguntar directamente): há cerca de 4 anos atrás, o carro em que o sr. M viajava foi abalroado por um combóio... a sua mulher e filha morreram, ele ficou assim, com 2 membros amputados, reduzido a uma cadeira de rodas... esperando que um dos nossos hospitais o chame, para iniciar o processo de fisioterapia, que, necessariamente, acompanha a colocação de uma prótese na perna.
Depois, não se sabe, exactamente, como ou porquê, há 1 ano e pouco, começou a aparecer ali no bairro, sempre de um lado para o outro... vivendo e convivendo com toxicodependentes, mas não sendo um deles. Há 5 meses, encontrara a Meg, abandonada perto do Centro Comercial Colombo e trouxera-a consigo... passara a ser a sua "menina", como, tantas vezes, repetia a quem quer que falasse com ele.

E agora, apenas, me questiono sobre como é que, de um momento para o outro, a vida de alguém pode sofrer uma reviravolta de 180º tão profunda, reduzindo essa pessoa à miséria... devido a um único acontecimento fatal na sua vida?

Que não tenho veia para assistente social já eu sabia, pois choro por tudo e por nada e sou demasiado crédula (acredito pura e simplesmente no que os outros me dizem)... Mas, talvez, devido à minha formação em Antropologia, só me meto em casos bicudos, como a minha mãe costuma dizer!
A verdade é que não consigo evitar deixar de olhar para o "Outro" e pensar no que esconde a sua história de vida pessoal.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

O Senhor M.


A primeira vez que os vi foi em meados de Dezembro do ano passado, quando atravessavam a Estrada de Benfica… ele, atrás, numa cadeira de rodas, e ela, à frente, sempre olhando para ver se ele a seguia.
Depois, começámos a conversar sobre ela, enquanto ele pedia esmola à porta do café onde costumo ir todas as manhãs, e ela brincava a seu lado, no chão. Emocionou-me a forma como ele demonstrava o seu amor por aquela cadela e como cuidava dela tão zelosamente.

Até que, fatidicamente, na semana passada, ele -o Sr. M- me contou que a sua cadelinha -a Meg- lhe tinha sido roubada.
Depois desta conversa, e durante quase uma semana, o Sr. M não voltou a estar parado à porta daquele café. E por mais que vos possa parecer estranho, durante todo esse tempo, fiquei bastante preocupada, pensando no que teria acontecido àquele homem -que nem sequer conhecia-, tal era a tristeza em que deveria andar por causa do roubo da sua cadelinha. Pensando sempre que, em cada dia seguinte, ao virar aquela esquina, o iria encontrar de novo acompanhado pela sua Meg.

Entretanto, na semana seguinte, o Sr. M voltou a estar no seu local habitual de todas as manhãs. Surgiram novas pistas sobre o paradeiro da Meg e chegou-se à conclusão que tinha sido, de facto, roubada por alguém: várias pessoas, no dia do seu desaparecimento, a viram ser colocada dentro de um carro cinzento, junto à Praça de Benfica, por alguém que conhecia a Meg.
Nessa altura, só me lembrei das suas palavras, quando um dia me disse: - Grande Meg! (…) cães ou gatos, são todos iguais! Quanto mais os conheço, mais gosto deles! São fiéis, enquanto as pessoas…”.

A forma como o Sr. M fala, o cuidado que coloca nas palavras e os termos que utiliza, denotam tratar-se de alguém que não é, apenas, um pobre coitado, um mero mendigo sem eira nem beira... mas antes uma pessoa com instrução e educação.
Comecei então a interessar-me, cada vez mais, pela enigmática história daquele homem (nós, os antropólogos somos assim!... Não conseguimos mesmo evitá-lo, nem no nosso dia-a-dia). Mas, por respeito perante a sua dor, ou, talvez, com medo de parecer demasiado curiosa, nunca o questionei sobre nada... limitando-me, apenas, a encorajá-lo face à triste situação da perda da sua cadela.

Como é que alguém cai assim num estado de miséria e solidão tão extremos? O que teria acontecido na vida deste homem para o deixar assim?
O fio que nos separa da solidão e miséria profundas é tão ténue...

sábado, 18 de fevereiro de 2006

Meg desaparecida! -[APELO URGENTE!!!]



A Meg (ou Mégui, como era carinhosamente tratada pelo seu dono) é uma cadela arraçada de podengo. Tem, mais ou menos, 2 anos e é de porte pequeno. Orelhas e focinho pontiagudos e o seu pêlo é branco com algumas manchas amarelas.
Já aqui falei dela por diversas vezes, neste blog... mas hoje, o apelo que vos faço é devido a um motivo bem mais triste!...

A Meg desapareceu (ou acredita-se ter sido roubada) na passada 6ª feira (10/02/06), na zona do Mercado/Praça de Benfica. Na altura, tinha uma coleira de metal, a qual, entretanto, poderá já ter desaparecido... bem como o paradeiro desta cadelinha poder ser qualquer local de Lisboa e arredores.

A Meg tinha sido esterilizada há menos de uma semana (aquando do seu desaparecimento), pelo que, nesta altura, ainda terá a particularidade do pêlo da sua barriga estar raspado.
Encontrava-se a efectuar
tratamento médico, pelo que se torna mesmo muito urgente encontrar esta cadelinha, antes que lhe aconteça algo de grave.
Dá-se recompensa a quem a encontrar e devolver.

Por favor, não ignorem este apelo e ajudem-me na sua divulgação, pois o dono da Meg está inconsolável!!

Telefones de contacto: 21. 764 73 01 / 91. 952 18 03 / 96. 544 25 99 / 91. 970 09 36
Ou então, contactem-me para: alexasof[arroba]gmail[ponto]com.
Muito obrigada pela vossa ajuda!

domingo, 12 de fevereiro de 2006

A Meg desapareceu!...


Caminhava vagarosa e distraidamente, saboreando aquele sol quente e esplêndido que, em pleno Inverno, nos dá alento e revigora.
Foi, então, que viu passar, na sua cadeira de rodas, o dono da Meg, com uma garrafa de vinho entalada no assento.
Troca de cordiais "boas tardes" e iria continuar a seguir o seu caminho, quando o homem se volta e lhe diz:

- "A "nossa" Meg, puff... desapareceu... roubaram-ma!"

Segundo consta, terá sido na passada 6ª feira, por volta da hora do almoço, que a Meg terá desaparecido. De acordo com o seu dono, mas sem que haja provas concretas, "roubada" por uns ciganos que vendem no Mercado de Benfica -que até já lhe teriam proposto comprar a sua cadela.

- "Estava comigo há 5 meses! E, depois da morte da minha filha, tinha, finalmente, conseguido colocar-me um sorriso nos lábios. E agora isto!... (...) Mas aqui já estão todos informados... já falei com os rapazes que andam na droga e com o veterinário, e, se alguém a vir, avisam-me logo. Se eu apanho quem a levou, nem sei o que faço!..."

Talvez por defeito profissional (ou imaginação exacerbada), há pessoas -que nem sequer conheço- que me aguçam bastante a curiosidade e fazem com que queira sempre descobrir algo mais, além daqueles simples personagens que nos habituamos a ver nos nossos bairros.
Este homem, desde que o vira pela primeira vez, em Dezembro, acompanhado da sua cadela (e, talvez, devido à forma como a tratava tão bem, apesar da sua miséria humana)... era uma dessas pessoas!
Já há algum tempo que me questionava (sem nunca lhe perguntar -por respeito) sobre o que é que teria acontecido na sua vida para dar origem ao estado actual em que se encontrava.

Para o que eu não estava, de facto, preparada era para que, assim, tão de repente, de um momento para o outro, e sem sequer me conhecer, este homem começasse a falar, como num monólogo consigo próprio (como se, apenas, sentisse vontade de saber que alguém o ouvia e não lhe virava a cara, como já era hábito), e, por causa da perda da sua cadela, me contasse algo tão íntimo sobre a sua vida... como a morte de uma filha.
Fiquei estarrecida, sem palavras... sem saber exactamente o que dizer... e com as lágrimas a aflorarem-me os olhos.
- "Lamento imenso!..." - foram as únicas palavras que consegui proferir, engolindo em seco, com um nó imenso na garganta.
As únicas palavras que, eventualmente, talvez, lhe tenham dado algum ânimo, na sua extrema solidão e miséria... mas que, a mim, me deixaram bastante abatida.

NOTA: - A Meg é uma cadela arraçada de podengo. Tem, mais ou menos, 2 anos e é de porte pequeno. Orelhas e focinho pontiagudos e o seu pêlo é branco com algumas manchas amarelas/beges. E tem a particularidade de ter o pêlo da sua barriga raspado, pois foi esterilizada há menos de uma semana. Desapareceu na passada 6ª feira (10/02/06), na zona do mercado de Benfica. Tinha uma coleira de metal (a qual, entretanto, poderá já ter desaparecido).
Se alguém, por alguma eventualidade, vir a Meg, contactem-me para: alexasof[arroba]gmail[ponto]com.
Muito obrigada!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

"Grande Meg"

A Meg é a cadela deste homem.

Os dois passam, agora, as manhãs a pedir esmola, à porta do café onde costumo ir.
Hoje a Meg estava coberta por uma daquelas capas contra o frio, fabricadas especialmente para os cães. E, segundo o homem me disse, tinha sido esterilizada há poucos dias.

Continua a fascinar-me bastante o facto de, apesar da decrepitude do seu aspecto, este homem tratar tão bem a cadela que anda consigo para todo o lado.

Como ele próprio diz: - “Grande Meg! (…) cães ou gatos, são todos iguais! Quanto mais os conheço, mais gosto deles! São fiéis, enquanto as pessoas…”

quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

O Homem e o Cão

Tinha o rosto duro e queimado pelo sol, deformado por feridas antigas encrustradas.
Do braço e perna do lado direito do seu corpo apenas possuía a metade superior, e andava para todo o lado numa cadeira de rodas.
Costumava estar junto à igreja a "pedir" esmola. E, depois, voltava para o terreno abandonado de um prédio embargado, onde se sabia que todos os drogados daquela zona deambulavam... mas, aparentemente, ele não era um deles.
Na rudeza do seu aspecto ressaltava o facto de andar sempre acompanhado por um cão (muito bem tratado), um rafeiro de focinho meigo e olhos doces, que seguia a sua cadeira de rodas diligentemente para todo o lado.
Por vezes, a altas horas da noite, lá ia ele, pelo meio da estrada, na sua cadeira de rodas, transportando ao seu colo o tal rafeiro, que abraçava como a um amigo.
Sempre que revejo este homem, lembro-me de uma história que, um dia, alguém me contou...
Sobre um sem-abrigo que, ao ser levado para um dos centros de abrigo nocturno da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, passou a noite a velar junto ao cacifo que lhe tinham cedido para guardar os seus pertences. Mais tarde, na manhã seguinte, alguém descobriu que, na verdade, este homem não pregara olho toda a noite, porque tentara, assim, proteger o seu fiel companheiro de infortúnio (um pombo que adoptara na rua), guardando-o no tal cacifo.


[Hoje entabulei conversa com este homem.
E fiquei a saber que, afinal, não se trata de um cão, mas sim de uma cadela.
Pareceu-me ter ficado contente por alguém lhe dirigir a palavra.]