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terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Notas Soltas - CII




- "Finito"! -



Sem qualquer pré-aviso, depois de 3 meses, chegou esta noite ao fim a boa vida (e a promoção) dos cento e tal canais de TV cabo à borla!...

Verdade seja dita, pouco mais via do que 5 ou 6 determinados canais.
Mas o golpe foi bem duro e contundente, já que calhou exactamente hoje, que dava o episódio nº 20 do "Heroes" na FOX...
Felizmente, entre trabalho que trouxe para fazer em casa e a acta da última reunião de condomínio (que ainda tenho que transcrever para o livro de actas), sempre vai dando para mitigar a ressaca destes dias de vício televisivo.






- As fotografias que nunca tirei -


Através do Elogio da Sombra, descobri hoje um (outro) excelente blog, onde se fala sobre algo que, desde que adquiri a minha Nikon, me tem atormentado bastante a mente...

As fotografias não tiradas...

Arrependo-me muito mais das fotografias que, por um motivo ou outro, nunca cheguei a poder tirar... do que daquelas que ficaram mal tiradas!

A falar aqui futuramente.






- Lembram-se... -




... da Meg?

Está cada vez mais linda (mimada e gorducha) e continua protegida.
Ontem à noite estive com ela e, apesar de nos vermos muito pouco, de cada vez que lá chego é sempre uma festa e um choro tremendos, de contentamento em me rever.
Ainda dizem que os animais não têm memória!...




quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Há um ano atrás...



... neste mesmo dia, viria a conhecer, fruto de tristes acasos da vida, aquela que se transformaria, algum tempo mais tarde, na minha melhor amiga aqui no bairro em que moro.

Curiosamente (ou, talvez, não), sem me lembrar sequer deste 1º aniversário de "conhecimento", esta noite, tive um estranho (e tão real) sonho com ele... como que a tentar tranquilizar-me depois de tudo o que se passou.

Apesar da extrema lógica e racionalidade pelas quais tento pautar a minha existência, continuo a acreditar, cada vez mais, que na vida nada acontece por acaso... nem sequer os amigos que vamos fazendo ou as situações pelas quais temos que passar... tudo tem um sentido mais profundo!



domingo, 25 de junho de 2006

Notícias da Meg


Para todos aqueles que se interessaram pela sua história, e que, nos últimos dias, me perguntaram por ela (devido à morte do seu antigo dono), aqui ficam algumas fotografias da menina maravilha!

Meg, a cadelinha mais beijoqueira aqui do bairro!


Há 3 meses que a Meg se encontra em casa da mãe da Fernanda (amiga que, também, ajudou no seu resgate).


Nani, a caniche (já idosa) da mãe da Fernanda - grande amiga da "nossa" Meg.


quinta-feira, 8 de junho de 2006

O "nosso" Mário


Quando comecei a escrever sobre ele, assemelhava-se-me a um personagem de livro.
Depois do salvamento da Meg, foi entrando de mansinho na minha vida, vivemos inúmeras peripécias e tornou-se numa daquelas pessoas que me "tocou" profundamente.
Hoje tenho a certeza que gostava mais dele do que aquilo que poderia imaginar na altura em que era vivo!...

Descansa em paz, Mário!
Lembrar-te-emos sempre com muita saudade!

quarta-feira, 7 de junho de 2006

A Morte do Mário


O Mário faleceu esta noite (06/06/06).
Infelizmente, já era uma situação de prever, devido ao estado em que se encontrava. E hoje tenho a certeza que ele próprio sempre soube o que lhe iria acontecer, mais cedo ou mais tarde.

Sei que a sua história nunca foi bonita, nem verdadeira... fruto de tanta mentira e engano, para poder sobreviver no seu mundo em completa decadência física e moral.
Mas continuo a acreditar que, em alguns momentos, foi sincero connosco e até tenha querido largar a vida que levava... infelizmente, havia algo de muito mais forte que o puxava para o lado de lá, ficando sempre a balouçar entre dois mundos.

Talvez um dia aqui escreva sobre tudo o que se passou... apesar de não ser uma história bonita!
Por agora, prefiro continuar a recordá-lo apenas por aqueles momentos que, em determinada altura, nos pareceram belos, como aqui.

terça-feira, 6 de junho de 2006

O mundo é um estranho lugar para se viver!...


Como se pode ter pena de alguém que nos mente, engana e não tem qualquer respeito por nós?
Como se pode olhar para alguém, que sabemos que agiu mal e conduzido unicamente por um vício, e sentirmos um misto de empatia/simpatia e pena?
Como continuar a ter pena de alguém que se auto-destrói de sua livre vontade?
Como persistir em ter pena, quando este é um dos mais cruéis sentimentos a ter por alguém?

Faz hoje, exactamente, 2 meses que um "amigo" foi internado. Hoje voltou a ser internado de urgência, num estado cada vez mais crítico.
Como não sentir pena quando sabemos que, no seu delírio febril, essa pessoa chamava por nós?
A verdade é que, por vezes, acabamos por criar laços inesperados com pessoas com quem à partida nunca estabeleceríamos de espontânea vontade uma qualquer relação.

quinta-feira, 4 de maio de 2006

Desilusão


A esperança é a última a morrer (como se costuma dizer)!...

Porém, há certos casos (situações ou indivíduos) em que já não existe qualquer esperança possível.
E é sempre muito triste quando sabemos que a única coisa que nos resta é desligarmo-nos de vez, por já não podermos fazer mais nada!...

sábado, 22 de abril de 2006

Mentira


"As mentiras tornam-se mais credíveis quando são grandiosas e muito detalhadas."

(Hugo Pratt)

sábado, 8 de abril de 2006

O Não-Lugar


Ontem, ao final da tarde, fui visitar o M. ao S.O. das Urgências do Hospital...
Porque os pais dele estão longe e não podiam lá ir ontem; porque os irmãos não se interessam por ele; porque a única pessoa que lá tinha ainda ido era a F.; porque somos amigos; porque ele estava sozinho e em sofrimento (e eu, se estivesse no lugar dele, também gostaria que alguém me ajudasse e não me voltasse as costas)!
Apesar da aparente calma com que ia, a certa altura, a espera e aquelas frequentes entradas de gente em sofrimento, os gritos, os idosos com um ar meio vazio e parado, começaram a pôr-me os nervos em franja.
Há locais que não são pertença de ninguém, mas onde todos nós, por vezes, passamos (os famosos "non lieux" de Augé) aos quais está associada uma tristeza incomensurável, que nos torna o ar demasiado pesado de respirar!...

Esta manhã, participei, pela primeira vez, no 3º Congresso da A.P.A. (no ISCTE), onde os habitués da Antropologia se costumam juntar.
O texto da comunicação tinha sido feita na véspera, alinhavado entre o emprego e o hospital, com algumas últimas notas acrescentadas à noite, depois de ter chegado a casa com o corpo já moído e a cabeça feita em água.
Felizmente que todos gostaram! Às vezes, devo ter pequenos laivos de génio (gabarolice à parte)! ;)

sexta-feira, 7 de abril de 2006

Estranhos Momentos


Há momentos na vida em que, face a determinadas situações, nos questionamos se existirá, efectivamente, uma lógica de karma, justiça divina ou o que quer que seja!...

O M. está, desde ontem à noite, internado no Serviço de Observações das Urgências de um hospital da nossa cidade.
A Meggi tem andado de um lado para o outro, de manhã em casa da F. e à noite na clínica veterinária do nosso bairro. Chora quando fica sozinha e tem andado muito agitada, talvez, pressentindo o que se passa com o seu dono.

quarta-feira, 5 de abril de 2006

Ajudar os Outros


Desde o salvamento da Meggi que a minha vida se transformou num filme (ou melhor, numa telenovela em vários episódios!)... a tentar arranjar casa para o M. viver, a procurar instituições que tenham "programas específicos" de apoio a este homem (uma vez que, segundo fui informada, a SCML não tem programas de apoio a indivíduos sem-abrigo que estejam numa cadeira de rodas), etc. e tal.

Por saber como é difícil tentar ajudar alguém no nosso país, hoje queria aqui deixar um agradecimento a todas essas pessoas anónimas que ainda se preocupam com o seu semelhante, como é o caso da Rosa (neste caso que tem acompanhado).

quarta-feira, 8 de março de 2006

A Ficção


Há momentos na vida em que a "ficção" parece trespassar a realidade quotidiana, criando cenas e situações dignas de um livro.
Estou a viver um desses momentos. A ver se, um destes dias, começo a escrever e compilar tudo, para aqui deixar, para a posteridade.

terça-feira, 7 de março de 2006

(Ainda sobre) a Meg e o Sr. M


Hoje soube, através da F., que uma senhora aqui do bairro tinha entregue ao Sr. M uma folha A4 com a foto e um texto relativo ao desaparecimento/fuga da sua cadelinha boxer de 1 ano e pouco.
Parece que esta senhora terá pedido ao Sr. M se as "meninas" que o ajudaram não podiam fazer o mesmo por ela e pela sua cadelinha.

Se a situação continua assim, parece que ainda conseguimos montar negócio aqui no bairro!...

segunda-feira, 6 de março de 2006

1 história


1 história tem sempre 2 lados.

O melhor desses lados nem sempre é aquele como a história termina.
Ambos podem ser ambivalentes, dúbios e pouco transparentes, induzindo-nos em erro sobre a escolha de qual das melhores probabilidades de a história acabar.

sábado, 4 de março de 2006

A Meg e o Sr. M - VIII

[Ver Partes I, II, III, IV, V, VI e VII]

Como o prometido é devido, depois de um merecido descanso, aqui vos deixo toda a história do salvamento da Meg! :)


- O Salvamento –

Depois do fracasso das nossas buscas de ontem, a F. e eu tínhamos combinado encontrarmo-nos esta manhã, por volta das 9h, no café, para falarmos com o tal cigano (que fora visto a roubar a Meg) que dissera que a cadela se encontrava na Alta do Lumiar, num bairro social por detrás da igreja das Galinheiras.
Quando cheguei, o Sr. M estava à porta do café, como é hábito. E a F. já lhe tinha dito que nos poderia acompanhar nas nossas buscas, uma vez que o meu irmão já tinha ido buscar o seu jeep à oficina. Passámos quase uma hora à espera no café e o cigano, que lá costuma ir tomar o pequeno-almoço, não apareceu.
Decidimos, então, ir à Praça falar directamente com ele.

Chegadas à Praça, dirigimo-nos ao tal cigano, com quem a F. falara na véspera. E, muito diplomaticamente, dissemos-lhe que tínhamos andado já por 2 dias no local que nos indicara e a cadelinha não se encontrava lá. Olhou de uma forma suspeita para nós e mandou-nos ir falar com o seu irmão, numa outra banca.
Aí chegadas, o tal irmão disse-nos que a cadela estava, de facto, abandonada nuns estaleiros localizados no bairro PNR 10, por detrás da igreja das Galinheiras. Insistimos, mais uma vez, que lá tínhamos estado ainda na véspera e não a encontráramos. O seu rosto modificou-se, pareceu ter ficado incomodado e afastou-se. Foi então que a sua mulher, com uma criança ao colo, se dirigiu a nós num tom de voz bastante elevado e gesticulando muito com a sua mão direita, falando-nos como se fossemos estúpidas, disse que o bairro PNR 10 é composto por uns prédios amarelos "com umas partes em pedra".
Agradecendo-lhe bastante pela ajuda, saímos dali à procura do Sr. M, para lhe perguntar se nos queria acompanhar. Este encontrava-se junto a dois outros ciganos, no extremo oposto da Praça. Disse-nos que tinha combinado ir mudar uma das rodas da sua cadeira, pois o pneu encontrava-se furado; e não sabia se chegaríamos a tempo de ele apanhar a loja aberta. Aproveitámos, ainda, para questionar um dos ciganos que se encontrava junto ao Sr. M sobre a localização exacta dos tais estaleiros e do bairro PNR 10. Apenas nos disse que esse bairro era muito grande.

Partimos, então, no jeep do meu irmão, acompanhados pela minha mãe, rumo à Alta do Lumiar, para uma zona incerta nas Galinheiras, que nenhum de nós sabia como lá chegar.
Durante cerca de meia hora, andámos um pouco perdidos na zona da Alta do Lumiar, por ruas que nem a F. nem eu nos lembrávamos de ter percorrido na véspera com o tal vizinho taxista da T. Víamos a torre de uma igreja, mas não encontrávamos maneira de lá chegar. Tendo, então, aproveitado para perguntar a um senhor que esperava por um autocarro numa paragem como poderíamos chegar à igreja das Galinheiras. Disse-nos para seguirmos o autocarro nº 17 (destino: Fetais), que acabara de se aproximar da paragem. Começámos a seguir o autocarro quando, subitamente, a F. dá um grito e diz: - "Olhem, não é a Meg?"
A minha mãe, que ia sentada à frente no varro (a F. e eu seguíamos atrás, de onde é sempre mais difícil sair, na medida em que o jeep do meu irmão é um daqueles Land Rover's antigos, com capota de sarja, a qual é preciso levantar para que os passageiros da retaguarda possam sair), saiu e chamou a cadela que, de facto, se assemelhava bastante à Meg, mas era mais gorda e, finalmente, descobrimos que se tratava de um macho.

Entretanto, ao pararmos para verificar esta pista falsa, acabáramos de perder o autocarro nº 17 que, segundo o senhor que esperava na paragem, deveríamos seguir para podermos chegar à igreja.
Decidimos ir em frente e seguir as várias paragens do autocarro nº 17. Até certo ponto o caminho mantinha-se inalterável. Numa curva da estrada, vislumbrámos um enorme edifício amarelo perto de um monte, e ao longe a torre da tal igreja. Seguimos por aí, alcançando um enorme estaleiro de uma obra em construção. Saímos todos do carro e fomos verificar. Não nos parecia ser o local exacto, apesar do tal enorme edifício amarelo, mas a F. ainda gritou uma vez chamando pela Meg. Ouviu-se ao longe um: - "Anda aí gente!..."
Quando nos preparávamos, novamente, para entrar no jeep, alguém nos chamou. Olhámos para trás e vimos um rapaz, que, aparentemente, parecia ser o vigilante da empreitada. Contámos-lhe toda a história, de onde vínhamos e ao que íamos, falámos nos tais prédios amarelos com "umas partes em pedra" do bairro PNR 10 e no estaleiro. Disse-nos que não conhecia, mas que seguindo por uma outra ruela enlameada -que nos indicou logo- iríamos chegar a uns bairros sociais, alguns dos quais se encontravam ainda em construção e onde, eventualmente, existiriam, também, estaleiros.
Agradecemos-lhe pela atenção e, antes de partirmos, como eu vinha munida de 20 exemplares do anúncio do desaparecimento da Meg (com os contactos telefónicos para onde se poderia ligar caso a encontrassem), aproveitei logo para lhe deixar um, não fosse o diabo tecê-las.

Prosseguimos pela rua que ele nos indicara e chegámos a um complexo de prédios enormes despersonalizados e, aparentemente, sem qualquer tipo de vivência de bairro, onde nem lojas sequer existiam.
A minha mãe, a F. e eu saímos do carro, para ali dar umas voltas. Enquanto o meu irmão, algo receoso que lhe roubassem o seu tesouro, se manteve dentro dele.
Chegámos junto de um jardim, tendo a F. dito que já ali estivera na 4ª feira, quando andou com a sua mãe dentro de um táxi à procura da Meg. Passaram por nós 2 casais daquele bairro, tendo um dos homens dito em tom jocoso: -"Sim, sim, 'tá muito bonito o jardim!". Fingimos não ligar e dirigi-me a um rapaz que ali estava com um pitbull sem trela. Perguntei-lhe sobre o tal bairro PNR 10 e expliquei que andávamos à procura de uma cadela que tinha desaparecido. O rapaz afastou o olhar e respondeu que não morava naquele bairro. Entretanto, junto a uma das entradas de um prédio ali perto, uma mulher de idade vendia legumes e algumas pessoas passavam. Inquirimo-los sobre a mesma questão. Um dos homens disse-me que sabia, perfeitamente, onde era o bairro PER 1o e não PNR 10 (afinal de contas, nós é que entendêramos mal o que os ciganos nos tinham dito!). Conduziu-me até ao jardim onde a vista era mais ampla e, colocando-me a sua mão no ombro, apontou para o alto de um morro, onde sobressaíam uns prédios de cor creme. Junto da F. e da minha mãe, uma série de outras pessoas disponibilizavam-se muito solicitamente a tentar indicar-lhes qual o melhor percurso a seguir para lá chegarmos. Metemo-nos no jeep e, ao sairmos, reparei que tínhamos estado no bairro (de realojamento social) PER 13.

Chegados ao local que nos haviam indicado, não pudemos deixar de reparar, logo à entrada do bairro, num enorme ferro-velho de sucata, com um portão em madeira, que jazia no fundo de um vale. A F. e a minha mãe, dir-me-iam mais tarde que, à porta do tal ferro-velho, se encontrava um rapaz com um pitbull.
Estacionámos logo junto a uns prédios à entrada do PER 10, um bairro social, aparentemente, construído há muito pouco tempo, dado que as paredes exteriores dos edifícios permanecem imaculadas e o jardim com alguns mobiliários urbanos para os jogos das crianças ainda tinha a relva muito verde e bem tratada.
Olhámos em volta e vimos 2 cafés. Dirigimo-nos ao mais próximo, para tentar saber alguma coisa junto dos populares. Entrei e dirigi-me à primeira pessoa que me apareceu à frente, um homem de meia-idade, de óculos, com um cão a seu lado.
Expliquei toda a situação e falei no tal estaleiro que os ciganos na Praça nos tinham mencionado. Pareceu gaguejar, disse que não sabia bem e apontou-me o dono do café, dizendo que, talvez soubesse melhor. Dirigi-me para o balcão, onde um homem acabava de pagar a sua conta e, na outra ponta, um casal jovem bebia café.
O dono do café olhou para mim, sem querer avançar para o que quer que fosse que eu lhe iria dizer. Com os olhos de todas as pessoas que se encontravam no café postos em mim, expliquei-lhe, mais uma vez, toda a situação, mostrei o anúncio do desaparecimento da Meg com os nossos contactos. Menos receoso, aproximou-se e disse que, efectivamente, nos encontrávamos no bairro PER 10, que na entrada do mesmo existia um estaleiro, mas que nunca ali tinha visto a Meg. Agradeci e perguntei se poderíamos ali deixar o anúncio, caso a cadelinha aparecesse. Aceitou-o. Ao sairmos, duas senhoras de idade que estavam sentadas numa das mesas perguntaram-nos se a cadelinha tinha sido roubada. A minha mãe respondeu que sim, em Benfica, e que andávamos à sua procura há cerca de 3 semanas. - "Ah, isso foram os ciganos, esses malvados", proferiu uma das idosas. Agradecemos, mais uma vez, e saímos.

A F., a minha mãe e eu dirigimo-nos, então, ao tal estaleiro, que ficava na entrada do bairro. Um local estranho, que não passava de uma espécie de ferro-velho de sucata e entulho, para onde se entrava descendo uma ravina. Do lado direito, em baixo, permaneciam imóveis, olhando para qualquer coisa que se encontrava junto a uma parede, 3 tipos "brancos" com um aspecto estranho, acompanhados de 1 rapaz cigano muito magro.
Descemos a ravina, aproximando-nos em fila indiana, a F. à frente, eu e a seguir a minha mãe. Ao descer, dissemos por 2 vezes "bom dia" e os fulanos nem sequer responderam, limitando-se a olharem para nós intimidativamente. Quando, finalmente, os alcançámos, ouvimos uns cães ladrarem e apercebemo-nos, então, que estávamos diante de 2 canis construídos em pedra e separados entre si: - num deles, o que era olhado pelos 4 tipos, encontrava-se um rottweiller, rodeado de excrementos, denotando que o local não era limpo há vários dias; - no outro, mais ao longe, tapado por umas tábuas, deveriam estar uma série de cães aparentemente rafeiros, dos quais só vislumbrávamos a cabeça de 2 ou 3, mas que, pelo seu ladrar, percebemos serem muitos (mais tarde, apesar da alegria em rever a Meg, haveria de me lembrar bastante, com alguma mágoa, daqueles pobres cães que ali se encontravam em condições desumanas e utilizados para fins incertos; e que, ao aperceberem-se da nossa presença, ladraram de uma estranha forma, como se estivessem a pedir para os tirarmos dali).
Junto dos 4 fulanos, explicámos toda a história do desaparecimento da Meg, sem nunca acusar ninguém. Dizendo, apenas, que uns ciganos que vendem na Praça de Benfica nos tinham dito que a cadela estava naquele local (neste ponto, aproveitámos para lhes mostrar o anúncio do desaparecimento da Meg). Quem nos respondeu foi o rapaz cigano magro, dizendo que nunca por ali tinha visto tal cadela e que, apenas, tinha aqueles cães que ali se encontravam. Apontou para o rottweiller e disse rindo-se: - "Não é esta, pois não?!". Rimos, também, sem vontade nenhuma, e respondemos negativamente.
O rapaz cigano magro continuou, dizendo que, se quiséssemos, poderíamos verificar no outro canil mais afastado se ela ali se encontrava. Estava, logicamente, a colocar-nos à prova e, felizmente, que nesse exacto momento entre nós as 3 deve ter havido uma qualquer transmissão de pensamento, porque apenas lhe respondemos que não valia a pena, pois acreditávamos na sua palavra.
No entanto, continuámos a insistir, explicando que a cadela nem sequer era de raça pura (aproveitando para questionar -sem qualquer resposta- porque é que alguém a teria levado), que o seu dono estava desgostoso e que todo o bairro onde morávamos andava à procura da cadelinha. Um dos fulanos "brancos", bastante gordo, permanecia imóvel, com um sorriso espelhado nos lábios como se estivesse a gozar com toda a situação.
Entretanto, surgido não sei muito bem de onde, apareceu um outro rapaz cigano, mais novo e mais gordo do que aquele que nos respondia a todas as questões que colocávamos. Juntou-se a nós sem dizer qualquer palavra. Aproveitei e mostrei-lhe o cartaz da Meg, explicando tudo aquilo que já tínhamos dito aos outros 4. Quando lhe dissemos que tinham sido uns ciganos que trabalham na Praça de Benfica a indicar-nos aquele "estaleiro", o cigano novo e gordo descaiu-se e disse-nos que, por vezes, também, ia vender aí. Sem sequer ter lido o anúncio que lhe mostrava, perguntou-nos se havia alguma recompensa pela cadela (tendo, nesta altura, o gordo "branco" que nos olhava em tom de gozo dito: - "Este gajo é sempre a mesma coisa!"). Respondi-lhe que sim, que tal como dizia no anúncio (apontei-lhe o parágrafo), existia uma recompensa pela Meg. Perguntou-me quanto era. Respondi: - "50€". Explicou-nos, então, que se encontrasse a cadela (que, logicamente, nesta altura já estava mais que provado que tinham sido os seus familiares a roubar) isso era muito pouco dinheiro... propôs 100€. A F. disse repentinamente: - “Damos!”. O cigano gordo e novo assentiu com a cabeça. Passei-lhe o anúncio do desaparecimento da Meg para as mãos, pedindo que, caso tivessem alguma notícia, nos telefonassem para um daqueles números de telemóvel. O cigano mais velho e mais magro disse que enviariam um "Call me" (sms gratuito, enviado para um outro número de telemóvel, solicitando que essa pessoa ligue para o telemóvel que enviou este pedido) para o telemóvel da F. que, também, era da rede TMN, como o deles.
Depois de termos agradecido toda a ajuda que nos pudessem dar (continuando a conversa diplomática e dúbia em que ambas as partes sabiam quem tinha roubado a Meg e quem estava a acusar quem -que me deu mesmo a volta ao estômago!), saímos daquele estranho local o mais depressa possível!...

Chegadas ao carro do meu irmão, este informou-nos que um dos rapazes que se encontrava no café onde tínhamos ido, lhe tinha vindo dizer que havia um outro estaleiro mais acima, onde também, costumavam estar muitos cães e que pertencia a uns ciganos (afinal de contas, as pessoas que ali vivam no PER 10, apenas, tinham medo de dizer alguma coisa que lhes pudesse vir a trazer graves consequências -na medida em que têm de conviver, diariamente, uns com os outros: bons e maus-, mas quiseram ajudar-nos!).

Quando nos estávamos a enfiar no jeep, avistámos os 2 jovens ciganos, vindo na nossa direcção. O meu irmão aproveitou para lhes falar no outro estaleiro, dizendo-lhes que lá íamos agora verificar. O rapaz cigano mais velho e mais magro olhou para o meu irmão e para a minha mãe e, apenas, lhes disse que não valia a pena, porque o estaleiro era seu e não havia lá nenhum cão parecido com a Meg. Compreendemos a mensagem e quais os seus intentos. E os 2 rapazes ciganos aperceberam-se, também, que tinham sido apanhados em flagrante, quando se dirigiam, demasiado cedo (pensando, talvez, que já nos tínhamos ido embora), para o 2º estaleiro, em busca da "nossa" Meg. Afastámo-nos rapidamente, enquanto eles se dirigiam para o tal outro estaleiro.

Dentro do jeep, regozijámos, ao pensar que os próprios ciganos tinham sido algo parvos e que, finalmente, iríamos reaver a Meg. Pedi ao meu irmão para dar umas quantas voltas ali pela região, de modo a "fazermos tempo" para que os rapazes ciganos nos contactassem com notícias sobre a Meg. Era quase meio-dia e pensei que, estrategicamente, só lá por volta das 13h nos dissessem qualquer coisa. Mas nem sequer tinham ainda passado 10 minutos, desde que abandonáramos o local em viatura, quando a F. recebe um "Call Me". As mãos da F. tremiam de nervosismo ao passar-me o seu telemóvel para as minhas mãos -porque estava sem óculos e não conseguia ler o número. Copiei-o para o meu telemóvel e liguei.

Pareceu-me a voz do cigano mais novo e mais gordo, tendo, subitamente, começado a falar-me o mais magro e mais velho.
- "Ouça, nós encontrámos a cadela! Mas o rapaz que a tem comprou-a por 150€ e não a devolve se não lhe derem esse dinheiro."
Perguntei-lhe se era mesmo a Meg, se tinha o pêlo da barriga rapado, fazendo tempo para que a F. e a minha mãe assentissem no novo preço que nos estavam a pedir. Respondeu-me que sim. Questionei-o, então, sobre se era mesmo aquele preço ou nos iriam pedir mais dinheiro. Respondeu que era esse o preço. Compreendemos (novamente) a mensagem e respondi-lhe que íamos levantar dinheiro e, dentro de 20 minutos, nos encontrávamos no 1º estaleiro onde tínhamos ido. Respondeu-me que não, que era melhor encontrarmo-nos à porta da igreja das Galinheiras (mais tarde, apercebemo-nos que, na véspera, apesar de termos lá ido com um senhor -taxista de profissão-, tínhamos andado a percorrer a zona errada... ou seja, não tínhamos ido para as Galinheiras, mas sim para uma zona próxima da Ameixoeira).

Depois desta conversa telefónica, foi o cronometrar do tempo, à procura de uma caixa multibanco, num local completamente deserto. Levantei 100€ e a F. 50€, porque, como ela se encontra desempregada, não quis que tivesse mais encargos com esta busca.
Chegámos ao ponto de encontro com 5 minutos de antecipação. À porta da igreja, a fazer sinais ao meu irmão que conduzia, encontrava-se o cigano mais novo e mais gordo, sem a Meg. Depois, no curto espaço de tempo em que estacionávamos e saíamos do carro, vimos o outro cigano mais velho e mais magro aproximar-se vindo não se sabe bem de onde (no regresso a casa, alguns minutos mais tarde, compreenderíamos finalmente que os ciganos estavam ainda mais receosos do que nós, pois ficaram com medo que levássemos connosco a Polícia, daí terem marcado o encontro para aquele local e terem se munido de tantas precauções), acompanhado de um 3º cigano já adulto. Este último trazia pela trela improvisada (apenas uma corrente ferrugenta) a "nossa" Meg.
Conforme se aproximaram de nós, a Meg ficou cada vez mais excitada ao ouvir a voz da F. Aproximou-se aos saltos e até me lambeu a cara. O mais caricato de tudo é que os 3 ciganos até nos ajudaram a colocar a Meg dentro do jeep. E só quando ela lá se encontrava, já bem segura, é que lhes passámos o dinheiro para as mãos. Não quisemos saber de mais nada, porque a tinham levado ou o que quer que fosse... apenas queríamos voltar a Benfica e encontrar o Sr. M.

Já dentro do carro, a caminho de Lisboa, a F. e eu chorámos de alegria ao estar com a Meg ali ao nosso lado. Nessa altura, liguei ao Sr. M, para lhe pedir que se encontrasse connosco à porta do café, sem nunca dizer que tínhamos a Meg, para lhe fazer surpresa (mas tive que deixar recado com a T., onde ele deixara o seu telemóvel a carregar a bateria).
Durante o caminho, a Meg vinha muito feliz (até lhe tirei algumas fotos e tudo!) mas, também, algo agitada (até vomitou um bocadinho, com os solavancos do jeep) e cansada (estava constantemente a abrir a boca, com sono), tendo-se deitado por instantes aos meus pés.

Chegados a Benfica, o Sr. M, que estava à porta da loja da T., não se apercebeu logo do que se passava, quando nos viu... mas a Meg saltou-lhe rapidamente para o colo toda contente. O Sr. M, bastante agitado retirou os seus óculos e pediu ao meu irmão que os segurasse por um momento. Abraçou-se à Meg durante alguns minutos, de olhos fechados, como se estivesse a meditar (foi antes disso que lhe pedi autorização para tirar uma fotografia que celebrasse o reencontro -tendo, então, captado uma das imagens mais belas que já tive ocasião de presenciar!).
A Meg, coitadinha, ficou tão nervosa com o reencontro, que ainda fez para ali, no meio do passeio, as suas necessidades (limpas no mesmo instante pela T. e pelo Sr. M). De repente, alguns vizinhos e comerciantes aproximaram-se, ou observavam ao longe a cena... com muitas, imensas questões sobre o reaparecimento da Meg. Mas o Sr. M, o seu dono, deveria ser o primeiro a ser informado. Por isso, enquanto nos aproximávamos da clínica veterinária, onde íamos levar a Meg para verificar o seu estado de saúde, contei-lhe em traços largos toda a história. O Sr. M ficou muito revoltado por termos tido que pagar a quem a roubara (e confirmou-me que o tal cigano mais velho e mais magro, também, participara no roubo da Meg).

Também considerei toda esta história revoltante e injusta, ainda para mais porque tenho a certeza absoluta que os ciganos da Praça de Benfica estiveram o tempo todo do nosso percurso em contacto com os tais ciganos do estaleiro. Mas, como me disse desde o início uma amiga que tem mais experiência nestas coisas, se não pagássemos nunca voltaríamos a ver a Meg! Foi a única solução...
Por outro lado, continuaremos a nunca saber exactamente qual o motivo porque roubaram a Meg ao Sr. M. Apesar de eu continuar a pensar que a queriam oferecer ao tal avô cigano, mas como o Sr. M se antecipou e falou antes com esse patriarca, tendo-se ele comprometido a devolver-lhe a cadela caso lha oferecessem; os tais ciganos que a roubaram devem ter ficado completamente perdidos e sem saberem o que fazer... e, ao fim de 3 semanas de roubo, foi esta a única maneira de resolverem a situação que encontraram.
Mas isso agora, também, não interessa, o que conta é estar sã e salva, de novo com o Sr. M!

Pelo aspecto com que a Meg vinha, deve ter estado sempre dentro de uma casa ou de um local fechado e não a devem ter tratado mal, pois não vinha magrinha (apesar do Sr. M dizer que ela estava muito mal). O veterinário confirmou que, aparentemente, está de boa saúde, porém, convêm esperar 8 dias antes de lhe serem administradas as vacinas (que estavam marcadas para antes do seu roubo), para verificar se ela não estará infectada com parvovirose, dado que não sabemos exactamente se esteve em contacto com outros cães e em que condições.
Quanto ao receio dos ciganos poderem voltar a fazer algo semelhante (por causa do dinheiro do resgate) ou exercerem represálias sobre o Sr. M, não me parece que qualquer das situações venha a ocorrer. Esta tarde, ainda enviaram outro “Call Me” à F. que lhes ligou de volta, queriam saber se tinha corrido tudo bem e se o dono ficara contente de reaver a cadela. Ou seja, basicamente, estavam, mais uma vez a pôr-nos à prova e a tentarem perceber se tinham sido identificados enquanto os verdadeiros ladrões da Meg. Por outro lado, depois do que vimos no tal estaleiro, não me parece que eles voltem novamente a fazer o mesmo... uma vez que sabemos onde estão, o que fazem e poderemos lá voltar com a Polícia.

No final deste pesadelo que durou 3 semanas e começou logo depois do meu aniversário, posso afirmar, sem sombra de dúvida, que me envolvi demasiado nas buscas; "chateei" família, amigos e colegas de trabalho por causa deste roubo; através da internet, coloquei metade da cidade de Lisboa e arredores em busca da Meg; sofri e desesperei em muitas alturas, como se a Meg fosse minha; conheci pessoas extraordinárias, com uma força de vontade e carácter incríveis; vivi uma das mais surreais aventuras, colocando até mesmo a minha vida em perigo (mas já me apercebi que um dos meus defeitos é, precisamente, não ter bem a noção do perigo quando o vivo... só dessa forma se poderá explicar a surpreendente calma e tranquilidade com que esta manhã vivenciei tudo aquilo que aqui descrevi!)...

Mas há recompensas que valem por tudo isso e muito mais: - por mais anos que viva, nunca me hei de esquecer da forma terna como o Sr. M abraçou a Meg, quando a reencontrou... nem da expressão que se esboçou no seu rosto, enquanto olhava para o céu de uma forma contemplativamente religiosa, e nos dizia que lhe tínhamos dado uma razão de viver.

Há coisas que não vale a pena serem agradecidas tantas vezes, Sr. M!...Sempre me ensinaram que, quando ajudamos alguém, não pedimos nada em troca e, apenas, o fazemos porque sentimos compaixão (= sentimos a dor de outrem como se fosse a nossa própria dor) no nosso coração... e queremos a felicidade de alguém!

No final desta história (verdadeira), queria, mais uma vez, agradecer a todos os que aqui nos ajudaram e nos deram algum apoio moral!

A Meg e o Sr. M - VII


Meg de volta a casa!...




A Meg foi hoje, finalmente, encontrada e libertada!
Já se encontra junto do seu dono.
Prometo aqui contar a história toda, quando estiver menos cansada... que hoje fui um dia em cheio, com muitas aventuras à mistura!

Muito obrigada a todos aqueles que nos ajudaram nesta busca, ou que nos deram apoio moral!


[Ver Partes I, II, III, IV, V e VI]

sexta-feira, 3 de março de 2006

Muito obrigada!


Um "muito obrigada" bem sentido à R. do Rodrigues na Net e ao Viver na Alta de Lisboa pela ajuda que nos estam a dar (à Meg, ao Sr. M, a mim e a todas as pessoas aqui do bairro), através dos seus blogs!

A Meg e o Sr. M - VI

[Ver Partes I, II, III, IV e V]


Hoje, à hora de almoço, vim directamente da Bobadela (onde tinha tido a apresentação ao público de um projecto) para Benfica, para me encontrar com a F. e irmos à Praça falar com o tal cigano (que viram a roubar a Meg) que ontem tinha dito ao Sr. M que a cadela se encontrava na Alta do Lumiar.

Quando cheguei a Benfica já a F. tinha falado com o tal cigano e com mais um seu irmão, par tentar esclarecer a situação.
Disseram-lhe, então, que o local exacta onde a Meg se encontrava era no bairro PNR 10, por detrás da Igreja das Galinheiras, a deambular de um lado para o outro, abandonada há mais de uma semana.
E naquilo, lá partimos nós as 2, mais um vizinho da T., taxista de profissão, para a zona das Galinheiras à procura da Meg.

Lembro-me que, na altura em que entrei para o carro do Sr. C, ia com uma esperança enorme de encontrar a Meg no tal local. O meu único receio era saber, exactamente, em que estado físico é que a iríamos encontrar!...

Chegadas ao local, corremos tudo de cima a baixo, durante mais de uma hora, e nem sinal da Meg!
Algumas pessoas que se encontravam à porta de um café, na parte mais antiga do tal local, até nos ajudaram, levando-nos à proximidade de 2 bairros sociais aí existentes (onde, segundo nos disseram, moram, efectivamente, famílias ciganas).

Num descampado imenso, no meio de 3 prédios altos, uma criança de 4 ou 5 anos de etnia cigana, brincava à chuva entre um número infindável de cães adultos e de 6 cachorrinhos abandonados... uma cena surreal.
- "Estes são todos meus. Não, nunca vi uma cadela assim!", respondeu-nos quando lhe fizémos a descrição física da Meg.

Continuámos de carro a percorrer o local e a pé a gritarmos pelo nome da cadela. Mas nada!...
A dada altura, no meio do caminho, à chuva, vimos uma cadela arraçada de setter com um quisto enorme na barriga. No meio do bairro havia, também, muitos cães a deambularem... sujos, magros e com o pêlo ensebado.
Deu-me um aperto no coração, ao ver tanta miséria!...

Regressei ao meu emprego completamente encharcada de ter andado à chuva, e com os nervos à flor da pele!
Ainda chorei de tanta raiva e desespero por não termos encontrado a Meg.
A minha cabeça estava completamente perdida, sem saber o que pensar de toda a situação: - estaria o tal cigano está a falar a verdade ou não?!
Em desespero de causa, liguei, novamente, à minha amiga Ana B. (que está a fazer uma tese de doutoramento sobre ciganos), que me disse novamente que achava toda a história algo estranha... mas que, por outro lado, pensava que, talvez, os ciganos estivessem a falar a sério, uma vez que o tal avô cigano, ao ser intimidado pela T., havia dito que ia ver o que podia fazer (e, segundo a Ana, os ciganos não colocam assim em causa a sua venda num local, ou seja, a sua reputação ficaria posta em causa -logo, as vendas poderiam diminuir-, caso estivessem a mentir). Fiquei mais descansada!...

O que me preocupa bastante agora é o facto de, ao ter sido esterilizada, a Meg ter perdido o olfacto (como sucede sempre nos cães). Logo, se a Meg se encontra num destes sítios, deverá estar, completamente, perdida/desnorteada/assustada... e à chuva. Por isso, é muito provável que a Meg possa andar de um lado para o outro, entre estas 2 zonas.
Combinei com a F. que, amanhã de manhã, vamos falar novamente com o tal cigano e, em princípio, depois seguimos outra vez para as buscas na zona das Galinheiras.

No meio deste desespero todo, só às 5 da tarde é que me lembrei que nem sequer tinha almoçado!
E antes de ir para casa, ainda, t
enho que passar na "Loja do Cidadão", para levantar a renovação do meu B.I. Porque, como diz um colega meu, amanhã ainda me posso meter em alguma confusão e não ter como ser identificada!...

quinta-feira, 2 de março de 2006

A Meg e o Sr. M - V

[Ver Partes I, II, III e IV]


Na 2ª semana do seu desaparecimento, surgiram diversos testemunhos de que a Meg teria sido vista a ser enfiada à força dentro de um carro cinzento escuro, onde seguiam 3 ciganos, perto da Praça de Benfica. Depois disso, alguém falou com o avô de um destes ciganos, ameaçando que a Polícia estava envolvida no caso; tendo este cigano dito que ia ver o que podia fazer quanto ao caso.

Esta manhã, um dos ciganos -que foi visto a roubar a Meg- informou o Sr. M que a cadelinha andava abandonada na Alta do Lumiar. Sem nunca mencionar que fôra ele a roubá-la, sem dar nada a entender, sem sequer pedir desculpas ou dizer o que quer que fosse... numa conversa muito dúbia (que, cada vez, acho mais estranha... por não compreender, pura e simplesmente, o motivo porque alguém faz uma maldade destas!!).

A F., desesperada, enfiou-se logo num táxi com a sua mãe e andaram a correr toda a zona da Alta do Lumiar de cima a baixo, durante mais de uma hora... sem nunca descobrirem a cadelinha.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

A Meg e o Sr. M - IV

[Ver Partes I, II, III]

No domingo encontrei, por acaso, a F. e acabámos por tomar café juntas.
Falou-me sobre o facto de algumas pessoas ali no bairro terem considerado como um bom castigo o que acontecera ao Sr. M, já que, segundo elas dizem, "ele tratava muito mal a cadela". Parece ter havido, também, alguém que diz que o viu, certa vez, passar com uma das rodas da sua cadeira por cima de uma das patas da Meg.
A F. quis tirar tudo a limpo e perguntou-lhe se era verdade o que diziam, tendo ele respondido que não.
A verdade é que, também, eu nunca vi nada de anormal no tratamento que ele dava à cadela, muito pelo contrário! Nunca me hei de esquecer daquela imagem, numa noite em que chegava a casa mais tarde, quando o vi seguir na sua cadeira de rodas, com a Meg ao colo, a lamber-lhe a cara.
No entanto, as pessoas gostam sempre muito de falar e de dizer mal do que quer que seja. E o facto de o Sr. M não ter condições financeiras (ou outras -derivadas da sua própria história de vida) e viver na rua, juntamente com um grupo de toxicodependentes, é motivo suficiente para agora se vir dizer o que quer que seja sobre a forma como ele tratava a Meg.
De qualquer modo, não consegui evitar que uma ténue dúvida ficasse, também, a pairar na minha cabeça (talvez por saber que um dos meus maiores defeitos é ser demasiado crédula e acreditar em tudo aquilo que as pessoas me dizem).
Bem sei que as situações nunca são somente pretas ou brancas, existindo sempre uma tonalidade cinzenta que as deforma e descaracteriza perante o nosso olhar.
No entanto, também, nunca me hei de esquecer das palavras que o Sr. M proferiu, ao contar-me sobre o roubo da Meg... palavras demasiado sinceras e sentidas, para alguém que não gostasse da Meg, ou que a tivesse vendido (como já sugerem, agora, algumas pessoas).
Por outro lado, se o Sr. M não gostasse da cadela e tudo não passasse de uma farsa, provavelmente, não se teria empenhado tanto nas buscas, após o seu roubo. O maior problema, actualmente, é que, devido à própria situação física em que o Sr. M se encontra, tem medo de dar queixa do roubo da Meg na Polícia (entregando-lhes, também, todas as provas que já se conseguiu recolher), uma vez que já foi ameaçado.
A ver vamos, qual o final que esta história terá!...


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Ontem à tarde vi o Sr. M. Vinha a atravessar a rua, com uma garrafa de cerveja ao seu lado na cadeira de rodas e a fumar um cigarro. O rosto carregado e sorumbático. O estado do seu pai (que tivera um ataque cardíaco na 6ª feira passada) piorou.
- "Ando aqui a ver se faço alguns euros, para me meter no combóio, depois apanhar um táxi e ir lá ao hospital!"
Explicou-me que nenhum dos seus 7 irmãos se interessa pelos pais, e que ele é o único que ainda os ia visitar (segundo me contou a Dª. M, parece que a própria família do Sr. M não "queria saber dele"). O seu pai já estava com Alzheimer e esquecia-se de tomar os comprimidos, este já era o terceiro ataque cardíaco que tinha. A mãe estava internada num lar.
Depois disse-me que queria adoptar um novo cão, ou ir ao canil buscar um, porque já não tem esperanças que a Meg apareça (já lha tinham roubado uma vez anteriormente, mas "ela era esperta, conseguiu fugir e veio novamente ter comigo", explicou-me. "Mas, desta vez, quem a roubou, sabia o que estava a fazer").
Como forma de desanuviar um pouco a conversa, disse-lhe que, eventualmente, ele adoptava um novo cão e a Meg aparecia-lhe de novo.
- "Ah, mas isso ela vai ter sempre o seu lugar. Se voltar, tem ainda a caminha dela... e, onde cabe um, cabem dois!", proferiu.