segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Não é um “Adeus”, mas um simples “Até já”!...



Quando, há 4 anos atrás, deixaste de dar corda, mudar as pilhas e acertar os inúmeros relógios  existentes em vossa casa (como tão rigorosa e zelosamente sempre fizeras)… tudo mudou! Os relógios ali permaneceram, parados. Mas tu foste evoluindo e a tua personalidade sendo consumida por essa malfadada doença. Uns dias melhores, outros piores, mas lá no fundo, havia uma réstia de alguém que ainda eras tu.

Continuavas a ouvir-me (como sempre fizeras) e a acatar o que te dizia (apesar de teimares sempre com todos os outros)… por isso, quando chegou a altura dessa necessidade, aceitaste de bom grado que fosse eu a primeira pessoa a dar-te banho (mas sempre, à tua maneira, como bom teimoso que sempre foste!).

E, durante 4 meses, ingenuamente, na esperança que o tempo por ali continuasse a passar normalmente, prossegui a mudar, diária e manualmente, o calendário globo-mundo, que trouxeras do teu gabinete nos CTT, quando se reformaram antecipadamente para ficarem a tomar conta de mim em criança.

Não podia adivinhar que o tempo ia parar para ti naquela manhã do dia 15 de Fevereiro de 2014!...
Infantilmente, pensei que o conseguisse evitar. Apesar de, cada vez que passava, à noite (no regresso de vos dar o jantar), no Adro da Igreja de Benfica, a capela aberta me dar calafrios, ao constatar que alguém ali velava um familiar falecido.

E, muito sinceramente, hoje te digo que fiquei sem vontade de voltar a mudar de dia o teu calendário globo-mundo (apesar de o querer muito para mim, como uma relíquia que me recorda de Ti para todo o sempre... mas que permanecerá, eternamente, imóvel no dia 15/02/14).

No dia em que “partiste”, fazia um sol radioso (depois de termos vivido com semanas a fio de chuva).
E, no dia seguinte, quando te acompanhámos ao cemitério (onde os teus Pais jaziam), o dia estava ainda mais esplendorosamente solarengo, como se Deus, o Universo ou quem quer que seja nos dissessem que este não era um “Adeus”, mas um simples “Até já” (parafraseando o lindíssimo texto que acompanhava o folheto do teu elogio fúnebre)... e que, por isso mesmo, não deveríamos ficar tristes.

Sei que, onde quer que estejas, deves ter gostado de saber que, nestes últimos dias, a Avó, a Mãe, o Mano e eu, fomos acompanhados por Amizades sinceras (apesar das palavras tolas e vãs de todos os outros que ali foram apenas para “marcar presença socialmente” e que não sabem como se comportar em momentos de dor alheia - mas, para esses, sei que, na tua altivez e distinção, sempre te estiveste "bem lixando", como se costuma dizer).
Sei que deves ter gostado muito de ver as três grávidas que te acompanharam (como num belíssimo elogio à Vida Eterna)... apesar de, muito possivelmente, guardares alguma mágoa por não teres chegado a conhecer a tua bisneta.
Sei que nos agradeces por termos poupado o coração da Avó à tua Missa de Corpo Presente e Cremação… Mas que deves ter rejubilado de alegria por ainda termos passado na rua onde vocês moraram durante mais de 40 anos, para a tua "Luisinha" se poder despedir de ti à janela.





Tenho plena consciência que tinhas que “partir” agora, porque a tua vida estava presa por um ténue fio… e viver assim já não era Vida, nem nada. Mas sinto imensamente a tua falta. Falta de ti enquanto pessoa que me dava força e que sempre aprendi a respeitar como um Pai… o único Pai que tive, em toda a minha vida.

E fico, como que meio aparvalhada (como no momento em que disse aos médicos do INEM que já não te sentia o pulso, mas que, se calhar, ainda haveria algo que eles poderiam fazer por ti), na esperança que a tua Vida não seja só isto… e que este “Adeus” seja, apenas, um simples “Até já”.

E, assim, escrevo-te estas linhas, porque te amo e para te agradecer pela pessoa importante que para mim foste; mas, também, e, sobretudo, para me ajudar a exorcizar esta dor terrível.
Porque foste tu quem, ao oferecer-me um caderno de duas linhas (para que eu aprendesse a escrever direito por linhas tortas e sem linhas, na Primária, tal como na Vida), me ensinaste este gosto pelas palavras e pela escrita!

Muito obrigada por teres feito de mim a pessoa que hoje sou, meu querido Avô!...
Hoje e sempre (para todo o sempre), com muito Amor!


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