Tenho continuado em busca do verdadeiro espírito de Natal (aquele que deveria imperar durante todos os outros dias do ano!)...
- "O Balneário" -
Nunca tinha ouvido falar sobre ele, nem tão pouco conhecia a sua existência.
Esta noite deparei-me com uma reportagem na SIC sobre este espaço, sobre as pessoas que o frequentam e sobre os 2 vigilantes que aí trabalham.
Bem sei que, nesta altura do ano, é habitual os canais de televisão "brindarem-nos" com reportagens de fazer chorar as pedras da calçada, que falam sobre todas as misérias do mundo e mais algumas (como se, no resto do ano, as mesmas não fossem sequer dignas de menção).
No entanto, esta reportagem de Miriam Alves e Filipe Ferreira (imagem), tocou-me bastante, sobretudo, pela forma simples e depurada como foi efectuada; quase em jeito de observação (sem a habitual "intromissão" jornalística), como se os jornalistas apenas ali tivessem permanecido naquele espaço, observando quem entra e quem sai.
E esses, que ali vão diariamente, são os deserdados da vida... os que, por um ou por outro motivo, foram esquecidos pela família e pela própria sociedade em que (também) vivem.
No Balneário encontram, não só uma forma de combater a solidão em que vivem, como, também, o apoio social de que, na grande maioria dos casos, necessitam.
E foi, precisamente, isso que considerei extraordinário no trabalho desenvolvido por este Balneário (pertença da Câmara Municipal de Lisboa, com gestão delegada na Junta de Freguesia de Alcântara): o facto de os dois funcionários-vigilantes que ali trabalham (a Dª. Rosa e o Sr. Vítor) se assemelharem quase a assitentes sociais, ou técnicos de apoio psico-social, em relação ao público que frequenta aquele espaço.
E, nesse momento, ao assistirmos ao trabalho daquelas duas pessoas, a reportagem em questão parece ganhar uma força e vida próprias, emanadas do próprio "objecto observado".
E, porque, nos dias que correm, já ninguém se levanta numa carruagem de metro para dar lugar a um jovem invisual e andrajoso...
Em hora de ponta, ao final do dia, todos têm medo de sair do autocarro apinhado de gente e perder o seu lugar claustrofóbico, apenas, para ceder a passagem a alguém que pretende sair na paragem seguinte...
Porque, nos dias que correm, nos deparamos constantemente com uma indiferença atroz em relação ao ser humano que está ao nosso lado...
Foi muito bom, ter sabido, através desta reportagem, que ainda há quem se preocupe!...
Que ainda há quem, para além de tentar efectuar correcta e diariamente o seu trabalho, se preocupa com o Outro que o rodeia, com o Outro que sofre...
Que ainda há pessoas como o Sr. Vítor (vigilante do Balneário de Alcântara), que preenche os impressos do IRS e lê as missivas que as senhoras idosas recebem, que dá guarida e aquecimento ao gato que por aquelas ruas andava abandonado, que vai marcar consultas a quem já não se pode deslocar para esse efeito, que desculpa a incorrecção de um utente com o facto deste se encontrar doente, que graceja com a velhota que todos os dias procura aquele espaço por não ter mais nada que fazer...
O Sr. Vítor, cujo único e singelo sonho que tem (caso ganhasse o Euromilhões), seria o de comprar uma quinta, onde pudesse construir um canil/gatil para todos os animais abandonados que pudesse acolher.
É bom não perder a esperança na espécie humana...
E saber que ainda existem pessoas com um coração enorme, que parecem mesmo saídas de um conto para crianças!