terça-feira, 15 de julho de 2008

Quadros antigos com Gatos




Há 3 anos que ali vivia e sempre imaginara aquela vizinha do 3º andar do prédio das traseiras como alguém que possuía um elevado grau de proficiência para passar horas à janela a ver o que os vizinhos dos prédios em frente andavam a fazer (em particular, para a observar todas as manhãs e finais de tarde, com olhar suspeito, enquanto dava comida à Ninushka).
Foi por isso, com algum receio, que decidira finalmente ir falar com a dita cuja senhora, por causa dos novos bebés que tinham dado vida aos quintais, depois da (quase) tragédia sucedida em Abril.

Enquanto subia o último lanço de escadas, foi brindada com um: - “Quem é?”
- “Moro aqui nas traseiras e vinha falar com a senhora por causa dos gatinhos bebés que andam aqui nos vossos terraços”.
- “Ai, é a senhora que alimenta os gatos! Nem a reconhecia!” – retorque com um enorme sorriso nos lábios. – “Entre, entre!”
Repete-lhe que não quer entrar para não estar a incomodar, mas a Dª. C. quase a empurra literalmente para dentro de sua casa.
Ao assomar à entrada da casa da Dª. C., não consegue deixar de dar de caras com um gato em madeira artesanal que ali persiste inerte, como que a cumprimentar os visitantes.
Depois de tal visão, pensa para consigo que, afinal de contas, aquela conversa não iria correr tão mal quanto esperara.

Começa por explicar a Dª. C. o que havia sucedido nos quintais em Abril, quando alguém chamara o Canil/Gatil Municipal de Lisboa e 7 gatos haviam sido levados dali.
Daí o seu medo que algo de semelhante aconteça àqueles 6 gatinhos bebés, quando, desesperados, não encontrarem mais comida ali nos terraços, e se comecem a aventurar por outros quintais.
Não consegue viver constantemente com esse receio, nem com a consciência pesada por algo de mal que lhes venha a suceder. Sempre teve gatos desde criança e ama todos os animais, o que faz com que a sua extrema sensibilidade a impeça de conseguir compreender o sofrimento que o Homem inflinge aos mesmos.
Acaba por lhe propôr recolher os gatinhos bebés para adopção e tentar apanhar a gata-mãe para que seja esterilizada.

Dª. C. ouve atenta. E, quando ela termina, apenas lhe diz: - "Nem imagina a senhora como eu e a Dª. H., a vizinha aqui de baixo, andávamos preocupadas com estes animais! Íamos ainda atirando alguma comidita, mas não sabíamos o que fazer!".
Dª. C.
aproveita, ainda, para louvar o facto da sua interlocutora diariamente dar comida às 2 gatas que vivem nos terraços do seu prédio: - "A Dª. H. até me está sempre a dizer que, se a conhecesse, lhe agradecia por todo o bem que faz àqueles animais!"

Depois, sempre muito sorridente, Dª. C. começa a falar-lhe sobre os animais que tivera no Alentejo, antes de ter vindo para Lisboa. Narra-lhe a história de cada um deles em particular, e remata dizendo que gosta muito de gatos e até ficaria de bom grado com um dos bebés, caso o seu neto não fosse tão alérgico aos felinos.
- "A minha filha, como sabe que gosto muito de gatos, está sempre a oferecer-me objectos com eles. Ora veja a senhora estes quadros que ela me deu!"
Ao entrar na sala de Dª. C. não repara naquele pormenor, de tão focalizada que ia na tarefa que tinha de levar a cabo. Encimando uma das paredes da sala, encontravam-se 3 quadros de tamanho médio, com moldura debruada a talha dourada, como que a imitar as pinturas dos grandes mestres da antiguidade; nesses quadros, as figuras animistas de gatos vestidos de humanos ou em brincadeiras.

Ao observar tal cena, não consegue evitar esboçar um sorriso, recordando-se que, durante 3 anos, imaginara que aquela vizinha reprovava o facto de ela alimentar os gatos dos quintais.

Ao sair, Dª. C. ainda lhe pergunta: - "A senhora não leve a mal a pergunta que lhe vou fazer... Mas ainda tem aquela gatinha preta e branca? É que costumava vê-la sempre à janela com ela e, como nunca mais vi, até pensei que lhe tinha acontecido alguma coisa."






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