quinta-feira, 24 de julho de 2008

O Jardim-Fantasma




Era um pequeno logradouro comprido e estreito, transformado num quintal embelezado por 1001 flores e outras espécies hortícolas de diferente matizes, que constituía a inveja de todos os vizinhos do bairro.

Por mais inaudito que possa parecer, com o intuito de preservar a vida de cada uma das espécies existentes no seu jardim, o patriarca da família ia envenenando todos os gatos que se atreviam a por ali deambular.

Triste fim (ou lei da retribuição kármica) teve o zelador deste quintal envenenado, já que morreu cedo e sem poder tirar grande usufruto do mesmo.

A sua esposa amantíssima continuara o trabalho de preservação daquele quintal com muito carinho. Mas a viuvez deixara-a quase translúcida (com o passar do tempo, assumira aquela tonalidade que não é branca nem rosada, e parece querer determinar o fim de toda a humanidade), carregando a sua corcunda nas vestes negras… e acabou, também, por deixar de aparecer no seu quintal (o qual, não conseguia sequer vislumbrar do seu leito, dado que a janela do quarto onde se encontrava acamada apenas deixava antever o quintal da vizinha do lado).

O belo quintal ficou abandonado, apenas ali jazendo pelo chão algumas folhas das suas flores decrépitas…
De tempos a tempos, duas filhas e um genro do casal vinham regar as plantas, como que tentando perpetuar a beleza de algo que outrora existira.
Mas as plantas continuavam a crescer descoordenadas, criando um quadro demasiado disforme.

Curiosamente, foi nesse preciso momento que os gatos aí regressaram.
Ignorando as atrocidades cometidas noutros tempos em nome da preservação da beleza daquele espaço construído pela mão humana, os gatos vinham de noite famintos em busca de comida.

Mas aquele jardim-fantasma continuava a carregar no seu âmago uma indescritível crueldade… a qual se viria a propagar, alguns meses mais tarde, quando outros vizinhos tiveram semelhante gesto de desumanidade para com os animais que por ali viviam em paz e sossego.

Talvez por isso mesmo o Jardim-Fantasma tenha sido condenado a não mais possuir viv'alma, que o pudesse fruir...





2 comentários:

Cecilia disse...

Acredito, e tenho provas, de que enquanto por cá andarmos teremos a paga de tudo quanto de bom ou mau fizermos aos nossos semelhantes (incluindo os animais).
Pena que alguns destes seres, por tacanhez, pouca inteligência, ou o que quer que seja, pensem que são só pequenos percalços que lhes vão acontecendo...

Alexa disse...

Cecília: é, simplesmente, a teoria da retribuição do bem e do mal que praticamos nesta vida.