segunda-feira, 30 de abril de 2007

Um mundo paralelo disforme



Quando lá entramos pela primeira vez, mesmo que preparados de antemão para o pior cenário possível de imaginar, sentimos, literalmente, um verdadeiro murro no nosso estômago!...
De início, ficamos chocados e constrangidos com aquilo que observamos, com a forma como eles ali são mantidos em cativeiro:
- Os maiores amarrados apenas com meio metro de corrente, que não lhes permite deitarem-se sem que a amarra lhes repuxe o pescoço, não conseguindo sequer alcançar o recipiente da comida quando em pé (em alguns casos, presos em dois elos e impedidos de se movimentarem);
- Os mais pequenos encarcerados em celas completamente fechadas e sem entrada de luz, cujo fundo não é plano mas sim composto por um gradeamento quadriculado, onde muitas vezes ficam entalados;
- Encarcerados sem as mais básicas condições de higiene (a mangueirada diária de água fria, seja Verão ou Inverno, é o apanágio da instituição para a suposta lavagem das celas, provocando pneumonias e outras doenças... mas não conseguindo limpar os dejectos que se acumulam juntamente com a comida);
- Vendo-lhes negada a assistência e o tratamento médico, quando em sofrimento;
- Alguns aprisionados durante anos a fio, por ordens dos tribunais, burocracias ou, até mesmo, esquecimento de diligências pelo próprio sistema;
- Sujeitos a quão inimagináveis torturas, que só os seus olhos, se pudessem falar, nos contariam…
Proporcionando-lhes, assim, uma morte lenta e agonizante, durante aqueles 8 dias de prazo de estadia nas instalações.

O choque inicial transforma-se, seguidamente, em dor e revolta… e a revolta gera a subsequente acção.

Da segunda vez que lá entramos, as forças para enfrentar o pesadelo começam a ser maiores… ainda assim, o que mais aflige e perturba começam a ser, de facto, as próprias pessoas que ali trabalham, os carcereiros…
Como se tivéssemos, por momentos, sido conduzidos aos meandros de um mundo paralelo, onde todos os seres humanos foram desprovidos de qualquer espécie de sentimento ou sensibilidade em relação a (e para com) qualquer outro ser vivo.

“Compaixão” é sentir a dor de outrem como se da nossa própria dor se tratasse.
“Respeito pela dignidade” é sentir o outro ser vivo como um nosso semelhante.
Neste mundo paralelo, há já muito tempo que ambos os sentimentos deixaram de existir, imperando apenas o nojo e o desprezo por qualquer outro ser vivo.
Aos olhos destes impiedosos carcereiros, eles deixaram de ser vistos e percebidos como seres vivos, tendo sido reduzidos a meros resíduos que é suposto ali ficarem, permanecerem apenas, aguardando pela hora da misericórdia final face àquele cativeiro. Todo o respeito pela dignidade e pela própria vida foram ali, totalmente, perdidos (ou eram já inexistentes à partida)!...

E esse mundo paralelo disforme existe aqui mesmo ao lado, junto da nossa realidade quotidiana… mas não fazendo parte dela.
Por vezes, ambos os mundos tocam-se…

Quando por um ou outro motivo, alguém lá entra e assiste a tão sórdido e degradante espectáculo. Na sua grande maioria, os indivíduos ficam de tal modo horrorizados com o que vêem que juram nunca mais lá voltar a entrar. Este mundo paralelo e todos os seres que voluntária ou coercivamente dele fazem parte é, então, como que apagado das mentes dos que não aguentam a visão de um padecimento tão atroz. Ainda que apagado dos espíritos de alguns, ele ali continua a existir diariamente.

Outros, depois de lá terem entrado a primeira vez, teimam em continuar a aparecer todas as semanas, como que para tentarem minimizar com um pouco de atenção e calor humano a dor e os traumas daqueles que ali continuam a ser mantidos aprisionados e sujeitos a uma longa agonia; como que para tentarem fazer algo que possa mudar o curso dos eventos de um único que seja dos que ali se encontram.

Cada saída é uma vitória… mas jamais se consegue esquecer os que ainda ali permanecem!
Os que lá estão dentro revelam uma absoluta e assustadora ausência de cor, como se as suas almas tivessem sido despigmentadas pelo drama que vivem ou carcomidas pela vacuidade existente naquele edifício e nos seus carcereiros...
Os poucos que conseguem ser resgatados, ao saírem para a luz natural do dia, metamorfoseiam-se de imediato, passando a apresentar uma coloração tão brilhante que quase se diria diáfana.

Para além daquele cheiro verdadeiramente nauseabundo (um misto de bafo quente impregnado de sujidade e podridão, com um leve travo a morte… que se entranha nas nossas roupas e, por mais que tentemos, jamais conseguiremos esquecer), o que mais custa a suportar, quando lá voltamos, é, sem dúvida alguma, o simples facto de já não vermos este ou aquele, que ainda a semana passada ali estavam, e para quem, eventualmente, ainda haveria a esperança de uma saída… mas que, por uma terrível imprevisibilidade, já foram condenados à morte por um prazo de 8 dias que chegou ao fim ou sucumbiram a misteriosas e fulminantes doenças virais.
Os que ainda vão resistindo começam, no entanto, a apresentar evidentes sinais de depressão e traumas profundos, e a dor e tristeza que transparecem dos seus olhos quase nos corroem a alma.

Da segunda vez que lá entramos, o sentimento de impotência perante todo aquele espectáculo grotesco e horrendo é de tal ordem que nos sentimos a decair, a perder todas as nossas forças.

Porém, a imagem que esse mundo paralelo continua a veicular cá para fora, para o mundo real, é a de que nada daquilo que alguns narram ter visto é verídico e que tudo está bem naquele que é considerado como o melhor dos mundos…
Quem não vê é como quem não conhece e não sabe da existência… Mas, pior cego é aquele que não quer ver o que, efectivamente, se passa!!


“Nenhum dos argumentos que provam a superioridade do homem consegue esconder este facto terrível: no sofrimento, os animais são nossos iguais.”
P. Singer


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