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segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

A TEORIA DO CANALHA




A TEORIA DO CANALHA

(Estamos sob o ataque de um enxame de malfeitores)


'Eu não sou um canalha, eu sou o canalha. Tenho orgulho de minha cara-de-pau, de minha capacidade de sobrevivência, contra todas as intempéries. Enquanto houver 20 mil cargos de confiança no país, eu estarei vivo, enquanto houver autarquias dando empréstimos a fundo perdido, eu estarei firme e forte. Não adianta as CPIs querendo me punir. Eu saio sempre bem. Enquanto houver este bendito código de processo penal, eu sempre renascerei como um rabo de lagartixa, como um retrovírus, fugindo dos antibióticos. Eu sei chorar diante de uma investigação, ostentando arrependimento, usando meus filhos, pais, pátria, tudo para me livrar. Eu declaro com voz serena: Tudo isso é uma infâmia de meus inimigos políticos. Eu não me lembro se esta loura de coxas douradas foi minha secretária ou não. Eu explico o Brasil de hoje. Eu tenho 400 anos: avô ladrão, bisavô negreiro e tataravô degredado. Eu tenho raízes, tradição. E eu sou também 'pós-moderno', sou arte contemporânea: eu encarno a real-politik do crime, a frieza do Eu, a impávida lógica do egoísmo.

No imaginário brasileiro, eu tenho algo de heróico. São heranças da colônia, quando era belo roubar a Coroa. Só eu sei do delicioso arrepio de me saber olhado nos restaurantes e bordéis. Homens e mulheres vêem-me com gula: 'Olha, lá vai o canalha....!' - sussurram fascinados por meu cinismo sorridente, os maîtres se arremessando nas churrascarias de Brasília, e eu flutuando entre picanhas e chuletas, orgulhoso de minha superioridade sobre o ridículo bom-mocismo dos corretos. Eu defendo a tradição endêmica da escrotidão verde-e-amarela. Sem mim, ninguém governa. Sem uma ponta de sordidez, não há progresso.

Eu criei o Sistema, que, em troca, recria-me persistentemente: meus meneios, seus ademanes, meus galeios foram construindo um emaranhado de instituições que regem o processo do país. Eu sou necessário para mantê-las funcionando. O Brasil precisa de mim.

Eu tenho um cinismo tão sólido, um rosto tão límpido que me emociono no espelho; chego a convencer a mim mesmo de minha honestidade, ah! Ah!... Como é bom negar as obviedades mais sólidas e ver a cara de impotência de inquisidores. E amo a adrenalina que me acende o sangue quando a mala preta voa em minha direção, cheia de dólares. Eu vibro quando vejo os olhos covardes dos juízes me dando ganho de causa, ostentando honestidade, fingindo não perceber minha piscadela maligna e cúmplice na hora da emissão da liminar... Adoro a sensação de me sentir superior aos otários que me compram, aos empreiteiros que me corrompem, eles humilhados em vez de mim.

Eu sou muito mais complexo que o bom sujeito. O bom é reto, com princípio e fim; eu sou um caleidoscópio, uma constelação. Sou mais educativo. O homem de bem é um mistério solene, oculto sob sua gravidade, com cenho franzido, testa pura. O honesto é triste, anda de cabeça baixa, tem úlcera.
Eu sou uma aula pública. Eu faço mais sucesso com as mulheres. Elas se perdem diante de meu mistério, elas não conseguem prender-me em teias de aranha, eu viro um desafio perpétuo, coisa que elas amam em vez do bondoso chato previsível. A mulher só ama o inconquistável. Eu conheço o deleite de vê-las me olhando como um James Bond do mal, excitadas, pensando nos colares de pérolas ou nos envelopes de euros. Eu desorganizo seu universo mental, muitas vezes elas se vingam de mim depois, me denunciando - claro - mas só eu sei dos gritos de prazer que lhes proporcionei com as delícias do mal que elas adivinhavam. Eu fascino também os executivos de bem, porque, por mais que eles se esforcem, competentes, dedicados, sempre sentir-se-ão injustiçados por algum patrão ingrato ou por salários insuficientes. Eu, não, eu não espero recompensas, eu me premio. Eu tenho o infinito prazer do plano de ataque, o orgasmo na falcatrua, a adrenalina na apropriação indébita. Eu tenho o orgulho de suportar a culpa, anestesiá-la - suprema inveja dos neuróticos. Eu sempre arranjo uma razão que me explica para mim mesmo. Eu sempre estou certo ou sou vítima de algum mal antigo: uma vingança pela humilhação infantil, pela mãe lavadeira ou prostituta que trabalhou duro para comprar meu diploma falso de advogado.

Eu posso roubar verbas de cancerosos e chegar feliz em casa e ver meus filhos assistindo a desenho na TV. Eu sou bom pai e penso muito no futuro de minha família, que graças a Deus está bem. Eu sou fiel a uma mulher só, que vai se consumindo em plásticas e murchando sob pilhas de Botox, mas nunca as abandono, apesar das amantes nas lanchas, dos filhos bastardos.

Eu não sou um malandro - não confundir. O malandro é romântico, boa-praça; eu sou minimalista, seco, mais para poesia concreta do que para o samba-canção. Eu tenho turbo-carros, gargalho em Miami e entendo muito de vinho. Sei tudo.

Ultimamente, apareceram os canalhas revolucionários, que roubam 'em nome do povo'. Mas eu, não. Sou sério, não preciso de uma ideologia que me absolva e justifique. Não sou de esquerda nem de direita, nem porra nenhuma. Eu sou a pasta essencial de que tudo é feito, eu tenho a grandeza da vista curta, o encanto dos interesses mesquinhos, eu tenho a sabedoria dos roedores.

Eu confio na Justiça cega do país, no manto negro dos desembargadores que sempre me acolherão. Eu sou mais que a verdade, eu sou a realidade. Eu acho a democracia uma delícia. Eu fico protegido por um emaranhado de leis malandras forjadas pelos meus avós. E esses babacas desses jornalistas pensam que adianta esta festa de arromba de grampos e escândalos. Esses shows periódicos dão ao povo apenas a impressão de transparência, têm a vantagem de desviar a atenção para longe das reformas essenciais e mantêm as oligarquias intactas. Este país foi criado na vala entre o público e o privado. Florescem ricos cogumelos na lama das maracutaias. A bosta não produz flores magníficas? Pois é. O que vocês chamam de corrupção, eu chamo de progresso. Eu sou antes de tudo um forte!."


(Artigo de Arnaldo Jabor transcrito de "O Globo", dia 26 de Junho de 2007)






domingo, 7 de dezembro de 2008

Sala-"Sale"







A minha amiga Marta vai estar 2 anos em Nova Iorque, a fazer o seu doutoramento.

Arrendou a casa, tenciona vender o carro e, este fim-de-semana, fez uma "garage sale" para, segundo as suas próprias palavras, "(...) dar aos amigos e conhecidos (e aos seus amigos e conhecidos!) a fantástica oportunidade de adquirir alguns dos meus maravilhosos haveres a troco de alguns trocos (assim tipo "a cigana está a dar", não sei se estão a ver, é o que diz a senhora aqui da praça)".





Como a Marta não tem garagem, o evento foi mesmo a modos que organizado na sua sala... uma verdadeira "sala-sale".

Um agradável final de tarde passado entre uma sessão de visionamento de fotografias da sua última viagem ao Japão e os miminhos ao Funcho.





E ainda tive oportunidade de adquirir este muito funcional estendal interior (o ideal para uma casa pequena e com alguns felinos à mistura) por apenas 1€.

Em tempos de "recessão" como a que se avizinha, daqui a nada ainda começamos a trocar entre os nossos amigos e conhecidos os bens essenciais para a nossa sobrevivência.







quarta-feira, 5 de novembro de 2008

"Do Contra"






Por mais que tente, hoje não consigo entrar na onda do "Yes, we can!" ou "We did it!", como fizeram praticamente todos os blogs que leio diariamente (e alguns colegas de trabalho).

Sim, não posso deixar de estar contente por ter sido eleito o primeiro presidente americano não caucasiano...
Sim, espero que as "minorias" étnicas (que, afinal de contas, nos EUA até nem são assim tão minorias como isso, senão o Sr. Obama jamais teria ganho as eleições!) passem a ser mais respeitadas na sua diversidade, e que os problemas dos EUA (e não só!) passem a ser prontamente resolvidos (e não ignorados ou escamoteados sob a égide do terrorismo)...
Sim, os ventos da mudança parecem ter chegado... ou, pelo menos, os EUA e a maioria do resto do mundo assim acreditam. A ver vamos, os meses que se seguem, o dirão!...

Nos tempos que correm, o que faz mesmo falta a muito boa gente é ter esperança (muito mais do que ter fé, porque essa não tem valido de nada aos católicos e outros crentes que acreditam no que quer que seja)... ter uma réstia de crença de que algo poderá acontecer que fará o panorama de crise mundial mudar e, por acréscimo, as nossas próprias vidas (porque se pensarmos o contrário, damos connosco a imaginar cenários consideravelmente mais catastróficos ainda do que o que se vive hoje em dia!).
E a vitória de Obama parece ter sido o despoletar do reacender dessa esperança mundial. E isso é bonito de se ver, sim senhora!

No entanto, chamem-me do "contra" ou o que bem quiserem, mas sinceramente, não consigo entrar na onda de esperança mundial!...
Tudo me parece demasiado encenado, como se nos quisessem fazer crer que um novo Martin Luther King ressurgiu das cinzas... quando, se pensarmos bem, os EUA são o país que mais notoriamente consegue controlar o poder de comunicação (e de imagem) dos medias.
Por outro lado, a esperança na mudança não pode depender das mãos de um único e simples homem (em particular, num país onde é bem sabido que os poderosos lobbies conseguem controlar tudo e influenciar os rumos políticos).
"Temos falta de revolucionários e não de revoltados!"


Apesar de não conseguir acreditar (e nem sequer estou a ser pessimista, porque não é o meu lema de vida!), acabo por entrar na onda geral deste dia... e estar para aqui a discorrer sobre o assunto, ainda que a minha opinião seja contrária à de quase todos aqueles que sobre isto já escreveram.





quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Se todos nós fizermos algo (no pouco que está ao nosso alcance)...



Como costumo dizer, se todos nós tentarmos fazer algo (no pouco que está ao nosso alcance) para ajudar a alterar uma qualquer situação que não esteja correcta no bairro em que vivemos, na cidade ou no país em que nascemos; se contribuirmos para auxiliar outrem que nunca vimos, ou alguém que sofre ali mesmo ao nosso lado mas não conhecemos...
O mundo seria um local muito melhor para se viver!...

Infelizmente, a grande maioria de nós prefere desviar o olhar e ficar de braços cruzados, envolto no seu pequeno mundo individualista ("com o mal dos outros posso eu bem!", como tantas vezes ouvimos dizer), acabando por se transformar em cúmplice de todo esse tipo de situações (das quais, muitas vezes, até se queixam).

O Mário Venda Nova auxiliou o "Bazar dos Ronrons" através de uma das suas paixões (e vocações) e isso é digno de um grande mérito pessoal (e, até mesmo, de "responsabilidade social") e de um agradecimento muito especial da nossa parte.

Se olharmos bem fundo do nosso íntimo, todos nós somos capazes de encontrar algo que pode contribuir para a mudança...
Fazendo, desta forma, emergir uma consciência social mundial (que tanta falta nos vem fazendo), para que um outro mundo seja possível!








quarta-feira, 11 de junho de 2008

E lá parou...




... o país outra vez!

Por volta das 16h00, já andava tudo stressado lá no emprego, porque a boss deixara irem ver o jogo para casa (ou para onde bem lhes desse na real gana), desde que alguém ficasse a assegurar as pontas.
Em vésperas de preparação de mais um evento (englobando 2 grandes actividades e uma visita presidencial), com toneladas de trabalho para fazer, permanecemos orgulhosamente no escritório apenas 3 pessoas!...

Bem sei que eu própria posso não andar lá muito normal nos tempos que correm...
Mas hoje não consegui deixar de me questionar se não interessa mais que o país esteja, de facto, daqui a alguns dias, em risco de parar, devido à crise da greve dos camionistas, do aumento da gasolina e da escassez de bens básicos nos supermercados (em parte, derivado, também, do pessoal ter entrado em histerismo e andar todo a açambarcar nos supermercados)... comparativamente à paralização motivada pelo futebol?!

Mas parece que, afinal, não!
O que interessa é a alienação constante deste "F", para nos ir mantendo de bom humor (sem recurso a Prozac's, que, também, são carotes e não há dinheiro para isso!) e fazer esquecer os problemas do nosso dia-a-dia!
Que rico país o nosso, sim senhora!
Cada um tem o que merece, como se costuma dizer...
Por isso, não se queixem muito quando, daqui a umas semanas, o Euro 2008 terminar e a selecção portuguesa não vos tiver feito vibrar tanto que se consigam esquecer que têm a prestação do empréstimo da casa para pagar... que o vosso salário só chega até ao dia 10, depois de quitadas todas as contas, e ainda têm que dar de comer à família por mais 21 dias... que têm que regressar ao vosso pequeno mundozinho, onde são explorados até ao tutano pelo patrão, já que o risco de desemprego é cada vez maior e o que interessa é ir segurando o assento onde vamos fazendo alguma coisa das 9h às 17h, todos os dias!




domingo, 8 de junho de 2008

Notas Soltas - 128




- "Curtas" - X -





"La Vie des Chats"
Curta-metragem de
Mathieu Fauny. Com Charlotte Dehimi e Julie Delorme. Música de 9ch e Julie Delorme.



"Moi j'aime bien la musique, mais j'aime pas qu'ça crie!"
Monologue de Charlotte Dehimi, femme de 87 ans ex-voisine de cloison à Caen, qui malheureusement et décédé peut de temps après le tournage.
Témoignage d'un quotidiens "sacré!"
À part ses chats et sa télé, Charlotte vie seul, face aux traquât de la vie. Elle a connue la guerre au plus prêts et s'étonne encore aujourd'hui de l'absurdité du monde, à croire réellement que le pire est toujours avenir ! La cour des miracle : " Il a électrocuté sont père épi c'est tout!"







- O país parou... -


... ontem ao final da tarde.
E eu devo ter sido a única pessoa a não assistir ao primeiro jogo de futebol da selecção portuguesa no Euro 2008!

Com os sonos completamente em atraso devido à participação (mais que) prolongada neste evento, só me apercebi que algo de fora do comum se estava a passar quando comecei a ouvir o meu vizinho do R/c entoar orgulhosamente o hino de Portugal com a sua voz cavernosa (normalmente, só costumo ouvir a sua voz quando começa a discutir com a mulher e/ou com a filha).

É uma sensação meio estranha (e, simultaneamente, muito reconfortante) esta de nos sentirmos como que à margem de algo em que o resto do mundo participa de uma forma (quase) alienada!...

Por isso mesmo, decidi que, desta vez, me vou continuar a manter à margem, não entrando na onda geral de alienação colectiva (que o nosso país vive actualmente).
Vamos ver até quando me aguentarei, já que estas coisas das mobilizações de massas acabam sempre por dar a volta à cabeça de todos!...





domingo, 1 de junho de 2008

As bandeiras de Portugal são como...



... o Pai Natal!





Há quem as tenha deixado do lado de fora, carcomidas pelo sol e rasgadas pelo vento, desde o (passado) Euro 2004... tal como alguns Pais Natal que ainda por aí existem (na Av. de Ceuta, por exemplo, numa curiosa janela, coexistem alegremente ambas as figuras simbólicas, apesar do Pai Natal já ter bastante pó e se encontrar meio acinzentado).
E, agora, surgem outras novas, com cores bem mais luzidias, à venda em qualquer supermercado ou nas lojas dos chineses.

E o que dizer, então, dos concidadãos patriotas, que hoje saíram à rua com os seus cachecóis da selecção, empunhando as cores verde e vermelho... apenas porque a Selecção embarcou rumo à Suíça?!
Eu bem sei que Primavera ainda não a tivémos e Verão nem vê-lo, mas esta tarde esteve um calor considerável, senhores, mais valia terem substituído os cachecóis por lencinhos, que sempre fazia o mesmo efeito e vos daria menos calor!!

O que interessa agora o famoso aumento da gasolina e dos bens de consumo essenciais à sobrevivência de qualquer um de nós... ou o facto de se continuarem a construir gigantescos hospitais privados, quando o Sistema Nacional de Saúde funciona mal e porcamente???
O que interessa, de facto, é assistir ao embarque da selecção e ver como as diversas cadeias de televisão são ainda mais exaustivas na descrição de tal momento do que se se tratasse de uma catástrofe natural.

É, deveras, aliciante verificar como os nossos conterrâneos se conseguem sempre alienar com estas coisas do futebol e do (suposto) orgulho patriota, que deriva sempre dos jogos (do Nós contra os Outros)!!
Podemos estar a morrer à míngua e sem ordenados que cheguem até ao fim do mês, mas é sempre bom termos um cartão visa da selecção portuguesa, ora pois então!!

Todos se queixam nos transportes públicos e nos cafés a propósito do estado da nação... mas a verdade é que ninguém mexe uma palha para fazer o que quer que seja!
Em contrapartida, começam já todos (ou a grande maioria) aos pulos pela selecção!...

Bem dizia o outro, que a política dos três F's era o que esta nação precisava!