quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Estórias com Gatos - VIII



- Os Desventurados -


1 gato, 2 gatos… 3, 4, 5… 6 gatos… em fila indiana, caminham tranquilamente pelo quintal do R/c Esqº. do prédio vizinho.

O quintal onde outrora, o patriarca daquela família envenenava os gatos que por ali deambulavam, apenas para que os felinos não lhe estragassem as flores.
O quintal onde, desde a sua morte, a esposa amantíssima preservara com muito zelo e carinho as 1001 flores e outras espécies que compunham a beleza daquele espaço invejado por todos os vizinhos.
O quintal onde, com o passar do tempo, a viúva quase translúcida, que carregava a sua corcunda nas vestes negras, deixara há muito tempo de aparecer.
Após a breve passagem de uma empregada brasileira que, mais do que auxiliar nas lides domésticas, passava os dias a fumar e a falar sobre a vida alheia com a Dª. L (vizinha do R/c da retaguarda do mesmo prédio), os estores da janela do quarto não mais foram abertos e os familiares que vinham ao domingo regar as plantas deixaram de aparecer…
Nesse quintal, desde há alguns meses, apenas jazem folhas abandonadas de flores decrépitas… e, curiosamente, os gatos.

Os gatos, ignorando as atrocidades cometidas noutros tempos em nome da preservação da beleza daquele espaço construído pela mão humana, retomaram o seu poder sobre o mesmo a partir do momento em que o R/c Dtº. fora vendido (e sofrera obras que alterariam a vida daqueles gatos para todo o sempre) e a Dª. L deixara de lhes poder aí deitar a sua comida.

Desta forma, os gatos regressam todos os dias àquele quintal.
Depois de saciados, em fila indiana, muito ordeiramente, ultrapassam a rede que delimita o quintal da Dª. L, regressando ao seu poiso favorito, nos quintais dos prédios do início da rua.

Resta dizer que a Dª. L tem 2 cães. Logicamente que a dita senhora apenas dá comida aos gatos no quintal vizinho, quando os seus próprios animais não se encontram por perto. Porém, os felinos regressam, muitas vezes, ao local onde comem, para brincarem e porque sentem o cheiro da gata da outra Dª. L (minha vizinha de baixo, cujo quintal é contíguo àquele onde agora é alimentada esta colónia de gatos).
Pelo que a Dª. L (que alimenta os gatos e tem uma propensão atroz para divagar sobre a vida alheia) já fez, por diversas ocasiões, questão de me contar, primando pelo detalhe acentuado nos pormenores mais sórdidos, que vários gatos haviam já sido mortos pela sua cadela, ao tentarem passar do quintal do R/c Esqº. do prédio vizinho pelo seu quintal.
Extrema nobreza de alma a desta senhora, que tem tanta pena daqueles pobres animais que, mais não faz do que lhes dar alimento para, mais tarde, servirem de alimento à sua própria cadela!
Mentalidades!... Só assim se podendo justificar a infeliz resposta que me deu, quando lhe perguntei porque não tentávamos apanhar as gatas para as esterilizar, de modo a que se controlasse a procriação e aquela colónia pudesse viver mais tranquila.

Por outro lado, também, a minha vizinha de baixo (a outra Dª. L), ao final do dia, quando os vapores etílicos lhe começam a fazer efeito, gosta de atirar baldes de água e gritar desalmadamente, para enxotar os pobres gatos que se aventuram do quintal do prédio vizinho no seu.

Esta é a história da colónia felina mais ostracizada e desventurada dos quintais das traseiras!...

Reza, ainda, a história que num quintal não muito longe vivia um casal de idosos, que alimentava esta colónia de felinos, tendo mesmo construído um pequeno abrigo em madeira para se protegerem.
O senhor faleceu há cerca de 2 meses. Tendo, passado um mês, a sua esposa, a senhora que se pintava muito e gostava de andar sempre bem arranjada, sido encontrada morta de desgosto em casa pelo seu filho.
Dois dos gatos que alimentavam e protegiam no seu quintal, têm sido vistos, à noite, a deambularem lá longe, no outro extremo dos quintais daquela rua.

2 comentários:

pyotr alexeyevich disse...

adorei a "viúva translúcida"

Alexa disse...

Pyotr: coitada! A senhora andava tão branca, mas mesmo tão branca que quase parecia ter ficado translúcida.
Também vi isso suceder à sogra da Dª. L (a dos cães, que dá comida aos gatos), e depois finou-se... é muito estranho... como se as pessoas perdessem a sua "cor"!