Sexta-feira, 17h.
Entro na carruagem de metro na Alameda, completamente esbaforida com o tempo seco e abafado que se faz sentir. Sento-me ao lado de um homem de ascendência africana que parecia dormitar encostado ao vidro da janela e tiro o casaco.
A meio caminho entre a estação seguinte, ouve-se: - “O senhor vai sair connosco na próxima estação, sim?!”
Absorvida pelos meus pensamentos, detecto que a frase provinha de um dos dois homens consideravelmente entroncados, que pareciam falar entre si perto da porta da carruagem.
Sem perceber lá muito bem o que se passa, por momentos, penso que entrei num filme de espionagem onde se desenvolve algum ajuste de contas entre gangs.
Os restantes passageiros entreolham-se, sem compreenderem nada.
O metro chega à estação de Arroios. O passageiro ao meu lado permanece sentado, até que o mesmo homem que lhe dirigira a palavra o chama.
Ao levantar-se para sair, o homem atira de viés para o banco em frente uma carteira verde de senhora.
Fico a olhar incrédula para a cena. E, no tempo que espaceja o eu tomar alguma atitude (para alertar que deixara cair a carteira), ouve-se:
- "Calminha aí, amigo, não te armes em pianista, que músicos somos nós!" – clama o homem entroncado, colocando-lhe a mão por cima do ombro e apanhando a carteira.
Ao saírem da carruagem, enquanto o metro se afasta, observamos o homem de ascendência africana sentado num dos bancos da estação com os dois homens entroncados à sua frente.
Dentro da carruagem, um casal de turistas espanhóis de olhar surpreendido abre as malas de mão, para verificar se ainda lá estão as suas carteiras.
Incrédula, acabo por fazer o mesmo gesto.
13 comentários:
enfim...
beeemmm...
então mas eram policias à paisana ou quê?
Rutinha: confirma-se que eram polícias à paisana, sim.
ascendência africana? seria preto? :) magrebino? :)
Anónimo: será assim tão importante? Ou os preconceitos falam mais alto?
alexa: tão importante quanto o facto de teres referido a ascendência. é irrelevante :)
Comentários de pessoas que não se querem identificar, também, me parecem "irrelevantes"... no entanto, por educação, dou-lhes sempre resposta!
zangou-se :)
não seja por isso. deixo já de ser anónimo.
apenas escrevi o que escrevi porque me faz confusão o uso de "ascendência africana", vulgo "pessoas de cor", para designar pretos.
nao me importo que me tratem por branco. "ascendência europeia" é que não.
João: melhor "ascendência" do que "raça"... que nem sequer existe.
Caso não saiba (por ler o meu blog há pouco tempo), sou Antropóloga e trabalho com imigrantes e refugiados... daí não ter empregue esse termo com nenhum sentido pejurativo.
Daí também me parecer que a sua crítica não foi de modo algum construtiva.
alexa: não percebeste onde também quis chegar. para o episódio que descreveste, o termo era desnecessário. poderia ser gordo, alto, magro, feio, mal vestido. etc. que interessa a ascendência (ou raça)?
desisto.
João: de facto, não compreendi onde queria chegar.
Quando me deixam comentários anónimos no blog, parto do princípio que, por algum motivo, as pessoas não se querem "apresentar", utilizando esse subterfúgio para dizerem de forma menos correcta (e/ou pouco construtiva) aquilo que pensam ou que acham que os outros escreveram.
Se calhar percebi mal, tudo em... mas há de convir que o que escreveu no seu 1º comentário dá azo a uma grande ambivalência.
Em relação à questão em concreto... se calhar, então, também não deveria ter mencionado que os turistas eram espanhóis!
ora bem, já entraste no espirito :)
obrigado
João: há estilos e estilos de escrita... e o que para si pode não ser importante de mencionar, poderá sê-lo para outrém dado a forma como escreve.
Parece-me que já me alonguei muito em vão. Cada um que fique com a sua opinião!
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