
"Ao longo do século XX, Portugal foi uma terra de emigrantes. O país tinha tão pouco para oferecer que quase metade da população activa partiu à procura de melhores salários. A economia nacional sobreviveu durante décadas graças aos envios de dinheiro destes emigrantes.
Alguns anos após a integração de Portugal na Comunidade Europeia, a situação inverteu-se...
Cerca de um milhão de imigrantes chegaram a Lisboa em pouco mais de uma década. Uma parte importante destes imigrantes veio da Europa de Leste e tem um nível de instrução mais elevado do que a média portuguesa. Mas também brasileiros, chineses, indianos, africanos...
Será que vão mudar Lisboa e Portugal (que ainda é um dos países mais pobres da Europa)? Será que se vão deixar resignar pela resignada indolência do país?"
(In Sinopse do filme, no programa do Indie Lisboa 2004)
Depois de alguns meses agitados e sem tempo para ir ao cinema, fui hoje ver "Lisboetas", o filme-documentário de Sérgio Tréffaut.
Devo confessar que depois de ver "Slava - As Palavras" (no Panorama), aguardava algo de (tão ou) mais brilhante por parte dos "Lisboetas". No entanto, cada filme vale o que vale!... E se em "Slava" se mostrava um processo de integração dos imigrantes de países do Leste europeu na sociedade portuguesa, este outro filme, em 2h30, consegue ser como que uma chamada de atenção, uma leitura mais cívica de como devemos tratar o Outro (que, no fundo, é como se fossemos nós próprios). Uma das cenas mais cruas e duras é, precisamente, aquela em que diversos imigrantes (a grande maioria ilegais) tentam vender o seu trabalho aos sub-empreiteiros que passam de automóvel no Campo Grande.
Gostei, sobretudo, pela forma como o filme é "conduzido": um excelente encadeamento de pequenos apontamentos, em que vamos conhecendo "personagens" de países tão díspares e as suas vivências no nosso país (seja pela cena inicial, onde acompanhamos o processo de entrega de documentos para a legalização de diferentes indivíduos; a aula de português; as cerimónias religiosas; a procura de trabalho, mesmo que encontrando-se em situação ilegal)... encadeamento esse, entrecortado pela voz de uma locutora de uma rádio russa em Portugal (que ajuda a explicitar situações, sentimentos, expectativas e sonhos destes imigrantes).
E, talvez, como diz um jovem russo, cujo rosto banhado pelo sol de Lisboa, é filmado em grande plano, "o paraíso seja aqui, seja onde nascemos ou onde temos que viver. Porque o paraíso somos nós que o fazemos".
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