quarta-feira, 9 de novembro de 2005

Ceuta & Melilla & Paris




Fotos: (Esq.)- Imigrantes no deserto do Sahara - Agence France Press/Samuel Aranda);
(Cima)- Polícia vigiando o bairro social de Les Mureaux, Paris - Associated Press/Francois Mori.
Este post já aqui deveria ter sido colocado há mais tempo...
Mas, por falta de disponibilidade temporal, não me tem sido possível!
Aqui fica, então, agora... com data de 09/11/05 (versão draft), mas publicado hoje, 5ª feira.
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Ao iniciar este blog, tinha prometido a mim mesma nunca aqui falar sobre o conteúdo do meu trabalho, na medida em que ele já é suficientemente desgastante de ser vivido no quotidiano, quanto mais estar também a utilizar a escrita como catarse e a incomodar os meus eventuais leitores com estas questões!...

Porém, os últimos acontecimentos de Ceuta e Melilla e agora, mais recentemente, o que se tem passado nos subúrbios de Paris, conseguiram mesmo dar-me a volta ao estômago... e, quando isso acontece, não consigo estar calada!

Em finais de 1999, quando comecei a trabalhar na área das migrações, uma amiga de longa data disse-me que “as migrações iam ser a nova doença do século XXI”. Na altura, achei esta opinião um pouco exagerada mas agora, olhando para tudo o que tem sucedido nos últimos anos, constato que, efectivamente, a Europa está a ficar doente, quando trata desumanamente todos aqueles que tentam ultrapassar as suas fronteiras em busca de uma vida melhor, ou quando durante anos fecha os olhos à exclusão a que são remetidos milhares de jovens oriundos de famílias de imigrantes instaladas nos seus países!...

Durante um ano (2002) vivi em Paris, enquanto fazia um mestrado em “Migrations et Relations Interethniques”, e tive oportunidade de verificar em teoria e in loco como se vive num país onde já existem imigrantes há pelo menos mais 30 anos do que cá em Portugal e onde, supostamente, isso deveria fazer com que existisse uma “Política de Imigração” coerente e tendente a uma integração harmoniosa.

"Política de Imigração" essa que é muito diferente, em termos comparativos da anglo-saxónica ou, até mesmo, da portuguesa (apesar de, no nosso caso, não se poder dizer que esta exista sequer!).
Em França, Estado laico por excelência (em que a Igreja Católica não mete o bedelho no que quer que seja relacionado com a política estatal), acreditava-se que qualquer imigrante que chegasse ao país teria as mesmas hipóteses que um cidadão nacional de se integrar na sociedade francesa, através de uma Escola e de um Estado Republicano igualitários para todos.

Só que, há 12 dias atrás, as provas de que esse modelo não era o garante da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” para todos começaram a ser cada vez mais exteriorizáveis.
E a Europa acordou, finalmente, para uma nova realidade: a exclusão e abandono social de milhares de jovens de 2as e 3as gerações de famílias de imigrantes.

Em França, contrariamente a Portugal, uma criança nascida de um casal de imigrantes (mesmo que ilegal) adquire automaticamente a nacionalidade francesa. O que, à partida, já é um bom começo para uma futura integração.
O problema é que a nacionalidade não se demonstra apenas por um cartão de identidade ou pelo facto de se falar a mesma língua. A nacionalidade é fruto, sobretudo, do direito a poder exercer a sua cidadania, do direito de fazer ouvir a sua voz, de ser respeitado pelos outros cidadãos e de poder ter os mesmos sonhos e expectativas de realização de vida do que os nacionais desse país.
E em França, tal como numa série de outros países europeus, isso, infelizmente, não sucede!...

"(...) Momo (diminutivo de Mohammed), apenas 16 anos, relativiza: "Mesmo com o bac+5 [mestrado] não me dão emprego. Vêem o meu nome, que vivo na Forestière [um bairro desfavorecido] e o posto já não existe."

"Chamas-te Rachid e queres ser médico? Na escola mandam-te estudar para canalizador"
, indigna-se... Rachid. (...)

"Sou francês", intervém Mikael, um grandalhão com pele de ébano, "e dizem-me que tenho de me integrar. Não sou imigrante, sou francês! "Dá raiva." "Dá ódio", repetem todos. "Agora foram buscar o recolher obrigatório da guerra da Argélia. Para eles, somos todos argelinos. Nascemos aqui, mas para eles não somos daqui."

Excertos do artigo "Chamas-te Rachid e queres ser médico?", PÚBLICO - 10/11/05.


Não sucede porque, apesar de tudo o que se diz (e da necessidade real da Europa receber um maior número de imigrantes, por forma a colmatar a taxa demasiado baixa de nascimentos existentes nos seus Estados-Membros), os imigrantes, em qualquer país que seja, são sempre encarados como cidadãos de 2º tipo, desde que tentam entrar num país de acolhimento até à chamada fase de integração… tornando-se esta situação ainda mais grave no que diz respeito às 2as e 3as gerações.

De facto, estas últimas, ao não se sentirem integradas no país onde nasceram, e não tendo qualquer contacto com o país de origem dos seus pais, acabam por se sentir perdidas e desligadas de qualquer ponto de referência. Idealizam, então, uma cultura alternativa com fragmentos de uma idealização desses outros mundos que não conheceram (como sucedeu, por exemplo, quando jovens nascidas e criadas em França, de pais que nunca foram fundamentalistas muçulmanos, começaram a querer usar sistematicamente o véu), mas que lhes confere uma outra identidade em que podem acreditar.

De modo algum quero estar a fazer uma apologia de desculpabilização do que se tem passado nos subúrbios de Paris e de outras cidades francesas nas últimas semanas, porque a violência gratuita não leva a lado nenhum!...

De qualquer modo, penso que, no momento actual, se torna demasiado urgente que, em vez de criarem leis de urgência (cada vez mais restrictivas) ou de expulsarem indivíduos que se encontram legalmente num país ou que aí nasceram, os políticos pensem no que está efectivamente por detrás dos actos de vandalismo a que temos vindo a assistir!!!!
Antes que outros eventuais barris de pólvora expludam na Europa, tornar-se-ia necessário que os governantes pensassem um pouco na forma como têm vindo a tratar a problemática da imigração ao longo destes quase 60 anos!!!!

É preciso chamar a atenção para a forma como os imigrantes são guetizados durante anos a fio em bairros sociais nos subúrbios das grandes cidades (a Paris intra-muros turística, que afasta os mais pobres, os excluídos para a periferia é um exemplo claríssimo disso! Mas, também, os nossos bairros de barracas ou o realojamento social efectuado sem qualquer critério!), “ignorados” pela outra sociedade e sem que consigam sair dessas franjas mais baixas da sociedade actual.
Se num "mundo perfeito" todo e qualquer indivíduo deveria poder circular livremente por onde quisesse, tentando reconstruir a sua vida noutro local (Artigo 13º da Declaração Universal dos Direitos Humanos); na prática, esse "mundo perfeito" resume-se apenas aos cidadãos da UE, que podem trabalhar ou estudar noutro país, sem serem perseguidos pela polícia!
Porque não deixarmos de olhar apenas para os nossos umbigos e passarmos a aplicar essa norma a todos os restantes povos?!
Sim, poderá parecer uma visão demasiado utópica para ser concretizada na prática... mas é a única que defenderá, de facto, os direitos humanos de todo e qualquer indivíduo... sem que se olhe para a sua classe social, religião a que pertence ou côr da sua pele!



Alguns links de interesse:

http://www.noborder.org/news_index.php
http://www.united.non-profit.nl/pages/info24.htm
http://www.migreurop.org/article887.html

4 comentários:

cc disse...

Muito interessante (bem visto!).

Bruno disse...

Quel analyse ! J'ajouterai seulement, à propos de la France, que les problèmes de l'immigration et de l'intégration sont très distincts.
Le premier est un facteur économique nécessaire (le pays vieillit et la population active diminue)quant à l'intégration, c'est principalement un facteur social.
A partir de là, ce sont les employeurs français qui devraient demander la régularisation des étrangers en payant les charges sociales idoines et aux pouvoirs publics que reviendrait la tache d'y veiller et de s'occuper de l'accueil tant pour le logement que pour l'éducation.
Cette régulation économique et sociale demande à tous de respecter des règles, des droits et des devoirs.
Celà risque de rester utopique dans une société conduite par les seules règles du marché.

Alexa disse...

Dommage que l'immigration pour les français ne soit qu'un facteur ecónomique!... :(

Parce que le fait c'est que tout l'homme devrait avoir le droit concret de partir n'importe où, même que ce ne soit pas pour travailler.

Bruno disse...

J'aspire au même idéal que toi en ce qui concerne le droit de voyager dans le monde mais l'immigration concrète dont je parle est rarement un choix délibéré mais malheureusement une nécessité pour beaucoup.
De fait, le discours économique est important mais jamais il a été question de réduire un sujet à une main d'oeuvre.