Sexta-feira, 17h.
Entro na carruagem de metro na Alameda, completamente esbaforida com o tempo seco e abafado que se faz sentir. Sento-me ao lado de um homem de ascendência africana que parecia dormitar encostado ao vidro da janela e tiro o casaco.
A meio caminho entre a estação seguinte, ouve-se: - “O senhor vai sair connosco na próxima estação, sim?!”
Absorvida pelos meus pensamentos, detecto que a frase provinha de um dos dois homens consideravelmente entroncados, que pareciam falar entre si perto da porta da carruagem.
Sem perceber lá muito bem o que se passa, por momentos, penso que entrei num filme de espionagem onde se desenvolve algum ajuste de contas entre gangs.
Os restantes passageiros entreolham-se, sem compreenderem nada.
O metro chega à estação de Arroios. O passageiro ao meu lado permanece sentado, até que o mesmo homem que lhe dirigira a palavra o chama.
Ao levantar-se para sair, o homem atira de viés para o banco em frente uma carteira verde de senhora.
Fico a olhar incrédula para a cena. E, no tempo que espaceja o eu tomar alguma atitude (para alertar que deixara cair a carteira), ouve-se:
- "Calminha aí, amigo, não te armes em pianista, que músicos somos nós!" – clama o homem entroncado, colocando-lhe a mão por cima do ombro e apanhando a carteira.
Ao saírem da carruagem, enquanto o metro se afasta, observamos o homem de ascendência africana sentado num dos bancos da estação com os dois homens entroncados à sua frente.
Dentro da carruagem, um casal de turistas espanhóis de olhar surpreendido abre as malas de mão, para verificar se ainda lá estão as suas carteiras.
Incrédula, acabo por fazer o mesmo gesto.