Tinha acabado de chegar do supermercado e os sacos das compras ainda estavam espalhados pelo
hall de entrada.
No escritório, o sofá novo, que tinha ido levantar depois de almoço, aguardava também que arrumasse tudo e aspirasse, para poder ser colocado no seu lugar.
Quando chego à cozinha, começo a ouvir os gritos de G., o miúdo de 8 anos que mora com a bisavó no 3º andar de um dos prédios das traseiras, que passou a cumprimentar-me de cada vez que me via dar comida à
Misha e à Luana.
Aproximo-me da janela e G. diz-me que o gatinho bebé (
o único que não conseguíramos apanhar há um mês atrás) acabara de cair naquele preciso instante no quintal vizinho (um quintal abandonado, pertença de uma clínica dentária).
Há já alguns dias que, ao final da tarde, o gatinho bebé, empoleirado no algeroz dos terraços, seguia atentamente com os olhos Misha (a avó) e Luana (a mãe), quando estas vinham comer por debaixo da minha janela, ou quando iam espraiar-se nesse mesmo quintal abandonado.
Pensei então para mim própria que, muito provavelmente, na ânsia de as querer seguir, acabara por tombar.
Comecei a ficar bastante preocupada quando ouvi os miados aflitivos do pobre animal. Sem o conseguir sequer vislumbrar, era G. quem me ia descrevendo o local exacto em que ele se encontrava e que se conseguia mexer, pelo que não deveria estar magoado.
A bisavó de G. apareceu também à janela, tentando acalmar a preocupação do bisneto, dizendo-lhe que o gatinho conseguiria sair dali.
Mas G., tal como eu, não acreditava no que a bisavó lhe dizia.
Depois de um telefonema para a Dª. H. (
uma das vizinhas do prédio onde
Dª. Luísa morava, que me tem ajudado a ir colocar comida aos gatos), que acabou por também ficar bastante preocupada e aparecer à janela; tentei convencer o G. a pedir avó para falar com os seus 2 vizinhos da cave, que possuem quintais e através dos quais, talvez, pudéssemos tentar passar para o quintal abandonado da clínica dentária e lá ir salvar o pobre bebé.
Infelizmente, a um final de sábado à tarde, nenhum deles por lá se encontrava... e a clínica também se encontra fechada para obras.
Do alto dos seus 8 anos (e de um 3º andar bem mais elevado, em termos de perspectiva visual, do que o meu 1º andar), G. começa então a tentar convencer-me a colocar um banco no telhado da minha vizinha do R/c e saltar para cima do mesmo através da minha janela do quarto, para depois ir buscar o gatinho bebé alguns metros mais à frente, descendo pelo muro bastante alto do quintal da clínica dentária.
A esta altura da estória, um pouco sem saber o que fazer, já eu começava a desconfiar que, certamente, iria sobrar para mim.

Depois de ir falar com a Dª. M., a minha vizinha do R/c Retaguarda, regresso a casa carregada com um escadote das pinturas do seu marido… e sem ter consciência plena daquilo que me preparava para fazer.
Lá desci pelos quase 2 metros que distam da minha janela do quarto ao telhado da vizinha de baixo, com o G. a gritar para a sua bisavó: -
“Ela vai descer, ela vai descer!”…
E o meu pensamento (e vertigens) a dizerem a mim própria: -
“É desta que te vais mesmo estatelar toda! Tu metes-te em cada uma!!”
Calcorreei os telhados e desci com uma escada mais alta do que o escadote (que, entretanto, a filha da Dª. M. me passou para cima do telhado) para o quintal da clínica dentária… com o G., a bisavó e a Dª. H., todos à janela, a darem palpites sobre qual a melhor forma de descer o muro.
Depois de quase 3 voltas dadas por entre aquele matagal repleto de lixo e de pombos mortos (fruto de uma vizinha do 3º andar daquele prédio, que alimenta os pombos locais e todos os restantes que a eles se juntaram), nem vivalma do pobre gatinho bebé.
Entretanto, R., a filha mais nova da minha vizinha Dª. M., já se juntara a mim no quintal abandonado, mau grado o seu receio de escadas e escadotes.
G. e a bisavó diziam-me do alto da sua janela que o gatinho já deveria ter conseguido fugir para outro quintal. Dª. H., no prédio ao lado, observava tudo silenciosamente.
Num misto de desespero e inconformidade com toda aquela situação, decido-me a fazer nova investida por entre aquelas ervas altas, desviando-as mais uma vez, tentando não reparar na imundice que empestava aquele local.
Subitamente, por entre umas ervas mais escuras, mesmo ao lado de um dos muros do quintal, deparo-me com o dorso do gatinho bebé, todo aninhado a esconder-se.
Chamo R. com a mão, sem fazer barulho, e peço-lhe em voz baixa que me traga a transportadora (nesse exacto momento, agradeci a hora em que R. se decidiu a ir ter comigo ao quintal, já que a transportadora se encontrava mesmo no extremo oposto àquele onde o gatinho estava escondido).
Com uma toalha turca lá o consegui apanhar (
como sucedera aos seus 5 irmãos). Esperneou um pouco, miou bastante e, já dentro da transportadora, ainda se tentou debater para fugir.
Persistia, agora, a dúvida sobre o que fazer ao pobre animal!...
Se, por um lado, não podia concordar mais com G., quando este dizia que o bebé já aprendera a lição e seria melhor ficar com a mãe com a avó nos terraços (já que Misha é velhota e quando falecesse, Luana ficaria com a companhia do seu filho); por outro lado, não me conseguia imaginar a mim própria em novas façanhas de ginástica, caso o gatinho bebé caísse novamente para aquele quintal (havendo, também, o perigo de poder cair para os dois quintais, do meu lado da rua, onde há 5 meses atrás
fizeram queixa e chamaram o Canil/Gatil Municipal de Lisboa para vir apanhar 7 gatos).
Neko, o 6º bebé de Luana, está bem, apesar do valente susto que apanhou ao cair do terraço onde habitava… e já se juntou aos
seus irmãos (
tal como eles, também se encontra para adopção - caso esteja interessado/a, pff., contacte palavraseimagens@gmail.com).
Quanto a mim, como dizia o marido da minha vizinha Dª. M., enquanto eu subia o escadote para voltar a entrar em minha casa pela janela do quarto, já posso alistar-me nos Bombeiros.