- Usha, o gato que se passeia -
Enquanto o H. lutava ferozmente com o caixote verde para lá conseguir enfiar o saco do lixo e eu estava parada ao lado a olhar para ele, aparece-nos vinda a correr do outro lado da rua, direitinha a nós, uma gata alaranjada a miar.
Faço-lhe festas na cabeça e começa a roçar-se pelas minhas pernas, enquanto continua a miar; e reparo que tem uma coleira castanha com aplicações em forma de peixinhos.
Seguimos caminho para o café e a gata vem atrás de nós.
A esta altura, começa o meu coração a bater mais forte e o estômago a ficar todo embrulhado, só de pensar na hipótese do pobre animal poder ter sido ali abandonado (devido à existência de uma clínica veterinária naquela rua – e já não ser a primeira vez que realizam tal “feito”), ou de andar por ali perdido.
Duas portas mais adiante, a gata pára e ali fica, especada no meio do passeio, a olhar para nós enquanto nos afastamos.
Continuo a andar e a olhar para trás, deixando de ouvir o que quer que seja que o H. me estava a contar e salientando, apenas, que, de facto, até parece que atraio este tipo de situações inusitadas com gatos.
Quando saímos do café, peço para fazermos o mesmo trajecto.
Nem vivalma da pobre gata, penso. Eis senão quando, vinda do nada, tal como na primeira investida, aparece a felina alaranjada a miar para nós. Faço-lhe festas e aninha-se na soleira de uma porta.
Uma série de telefonemas mais tarde, chega a hipótese de se tratar de uma gata residente num prédio ali da rua, que alguém já socorrera do ataque de um cão e dizia tratar-se de um felino que costuma fugir de casa através de um quintal.
Esta manhã, comecei em vão a busca desesperada pelos seus donos...
O facto de ser fim-de-semana prolongado não me ajudou em nada, nem tão pouco um casal de vizinhos (muito pouco compreensivo e solidário) dos donos do animal.
Já quase em desespero, ao final da tarde, deixo-lhes um pequeno bilhete com o meu contacto por debaixo da porta.
Finalmente, por volta das 21h, liga-me uma rapariga, intitulando-se como a dona do gato. Sim, porque, afinal de contas, era um gato, castrado como se fazia noutros tempos, o que dava azo a uma certa confusão.
Pego no pobre gato, num estado já meio entre o enfadado por se encontrar fechado numa casa-de-banho e o "feliz da vida e sempre com a cauda a abanar" por estar quentinho e não ao relento, e levo-o a casa da sua dona, do outro lado da rua.
Fico, então, a saber que o velhote gato Usha partilha a casa com duas gatas e que até têm direito a uma daquelas portinholas (ou "gateiras") para poderem entrar e sair de casa da dona para um magnífico quintal.
Usha apareceu há cerca de 2 anos naquele quintal e por ali foi ficando. Gosta de dar as suas voltinhas pelo quarteirão, uma vez que saindo pelo quintal nas traseiras do Mercado, contorna uma rua, dá mais uma volta e vai ter ao início da rua da sua dona... por ali ficando, à espera que alguém lhe abra a porta principal, para voltar a entrar em casa.
As voltinhas de Usha pelo quarteirão são já famosas no bairro (pelo menos para alguns residentes, nos quais eu própria não me incluía!), havendo até uma senhora que já o recolheu por duas vezes.
Segundo uma outra vizinha ("mais antiga" no bairro), Usha teria sido ali deixado naquele quintal, quando os seus donos se mudaram, sendo estes seus hábitos bem ancestrais... e, tendo ele adoptado, a nova moradora.
Usha está velho, escanzelado e enfraquecido. Tem um olhar muito triste, apesar de ser extremamente meigo.
Se apenas os animais pudessem falar... e contar-nos todas as (suas) histórias já vividas!...

