sábado, 2 de agosto de 2008

Eterno





"Eterno, é tudo aquilo que dura uma fracção de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata...."


Carlos Drummond de Andrade









sexta-feira, 1 de agosto de 2008

A "Rabinho de Raposa"




As parcas “aventuras-com-animais” em que, nos últimos anos, me tenho visto enleada têm sido, quase sempre, preenchidas com a descoberta de grandes "personagens"…

Pessoas cujas vidas e pequenos gestos diários trouxeram algo de único e muito precioso ao tempo que passaram neste mundo.
Pessoas que, na maioria dos casos, findaram sozinhas e esquecidas os seus próprios dias…
Mas cujas histórias de vida, certamente, dariam direito a uma bela narração no papel.

Esta é uma homenagem muito sentida a uma dessas "personagens", uma grande Senhora, que, infelizmente, não tive a oportunidade de conhecer senão através das palavras das suas vizinhas (que, nas últimas semanas, tenho escutado atentamente), dos risos quentes que noutros tempos me chegavam vindos do seu terraço… e dos olhos das duas gatas que sempre protegeu em vida.







"Quero, um dia, dizer às pessoas que nada foi em vão...
Que o amor existe,
que vale a pena se doar às amizades e às pessoas,
que a vida é bela sim
e que eu sempre dei o melhor de mim...
e que valeu a pena."

Mário Quintana








Rezam as memórias dos mais antigos que, em tempos idos, aqueles quintais haviam sido habitados por um número infindável de gatos, de todas as cores, pelagens e feitios.

Os felinos viviam em paz e tranquilidade nas suas lides quotidianas: ora espraiando-se ao sol quente da tarde, ora vagabundeando monotonamente de quintal em quintal… naquele pátio interior, fruto da confluência das traseiras dos prédios de duas das principais ruas de Benfica.

Dª. Luísa morava no 1º Esq. do prédio amarelo, num andar cuja cozinha terminava com uma imensa varanda fechada de cortinas alvas, que se abria sobre um pequeno terraço.
No seu pequeno terraço, debruado a buganvílias carmim, Dª. Luísa recebia diariamente a visita de inúmeros desses gatos dos quintais, a quem oferecia alimento e abrigo.

A “Rabinho de Raposa” (também conhecida por alguns como Misha) era bebé quando por ali começou a aparecer há muitos anos atrás (cerca de 18 no total), ainda o "Shaka" (cão da Dª. Julieta, a vizinha do lado e grande amiga de Dª. Luísa) era vivo.
Ninguém sabe ao certo de onde a Rabinho de Raposa apareceu, mas a sua pelagem de Bosques da Noruega deixava indiciar que a sua linhagem seria, eventualmente, originária daquele barracão de alumínio e vidro, à frente dos terraços, onde um vizinho do mesmo prédio amarelo fazia criação de gatos de raça para seu sustento.

Shaka, o Bichon Frisé, nascido na África do Sul, a quem haviam concedido nome de rei, não tolerava a presença dos restantes felinos no terraço da vizinha, apenas se predispondo a entendimento com a bela (e quase nobre pela pose) Rabinho de Raposa.

Dª. Luísa era viúva e, apenas de tempos a tempos, recebia a visita de algum familiar. No entanto, tinha uma perfeita adoração por uma das suas sobrinhas, a qual considerava como o seu “Ai Jesus!”.
Com a distância física e o esquecimento moral dos que lhe eram próximos pelo sangue, Dª. Luísa acabou por ter que tecer a sua própria família no prédio onde viveu durante mais de 30 anos (afinal de contas, sempre possuíra veia de artista e tecia tapetes de Arraiolos como ninguém!): Dª. Julieta, a vizinha do lado, era a amiga de todas as ocasiões, com quem compartilhava o seu amor pelos animais; Dª. Helena, a vizinha do 2º andar, a sua confidente dos últimos anos, quando se apaixonara e não sabia o que as restantes vizinhas iriam comentar nas suas costas por receber visitas diárias do seu homem.

Dª. Luísa era, sobretudo, uma mulher muito avançada e emancipada para o seu próprio tempo!...

Apaixonada sim, mas com as devidas distâncias (e cautelas), mantendo-se cada um na sua própria casa – ou não fora o facto de ser Aquariana lhe conceder essa intempestividade quotidiana de quem anseia sempre por mais liberdade interior.

No que diz respeito aos ciclos reprodutivos dos felinos dos quintais, foi, também, Dª. Luísa que, por sua livre auto-recriação, decidiu passar a dar a pílula a todas as gatas, quando descobriu que a maioria dos gatos que ali nasciam das ninhadas sucessivas da “sua” Rabinho de Raposa terminavam os seus dias envenenados num quintal não muito longe do seu pequeno e aprazível terraço.

E foi assim que no seu pequeno terraço passaram a viver (protegidas) apenas a Rabinho de Raposa e uma das suas filhas que nunca dali se afastara (gata a quem nunca apelidara, talvez, por ser arisca; e a quem alguém, meses mais tarde, viria a nomear como Luana, por ter focinho de lua cheia).
Protegidas por entre as buganvílias e outras flores matizadas, Rabinho de Raposa e Luana tinham, também, o privilégio de pernoitar na varanda fechada de Dª. Luísa e, de vez em quando, de entrarem em sua casa.
Rabinho de Raposa, apesar da atitude de princesa e de nunca arranhar nada dentro de casa (ao contrário de Luana), tinha alma de viandante e, tal como a sua protectora, não gostava de se sentir aprisionada... pelo que gostava de ir sempre dar as suas voltinhas pelos quintais, tendo descoberto um outro 1º Esq. onde abundavam as iguarias para felinos.

Com o passar dos anos e os consequentes achaques de saúde, Dª. Luísa teve, um dia, que ser internada no hospital.
Nesse preciso momento, o seu pensamento encontrava-se muito mais distante da doença que a assolara... percorrendo o seu aprazível terraço, implorando às vizinhas que tratassem das duas gatinhas na sua ausência.

Alguns meses mais tarde, Dª. Luísa foi encontrada sentada na sua cozinha, como que adormecida… para todo o sempre (apenas a alguns dias de completar o seu 78º aniversário, no mês de Fevereiro de 2008).
O seu “enorme” e precioso coração, que todos os seres amava e protegia, havia parado bruscamente.

Rezam as memórias mais recentes que, no seu funeral, o seu apaixonado de outros tempos não conseguira evitar o pranto ao vê-la partir; tal como, no seu aprazível terraço, a Rabinho de Raposa ficara com os seus olhos felinos em lágrimas, enquanto dormitava na varanda fechada que fora de Dª. Luísa.

A família de sangue foi célere em arrecadar os bens e pertences de Dª. Luísa, despindo o outrora aprazível terraço de toda a vida vegetal e animal.
Rabinho de Raposa e Luana foram votadas ao abandono e enxotadas para longe, tendo encontrado abrigo no quintal vizinho de Dª. Julieta, que as continuou a proteger por se tratarem da única herança que a amiga de longa data lhe havia deixado.

Em pleno mês de Março, início da Primavera, os quintais estavam impregnados de um odor a flores murchas… como se a própria natureza sentisse a dor da perda deste imenso coração.

Em Abril, após a morte de Dª. Luísa e de um outro casal, a harmonia e beleza da vida nos quintais pareceram, por momentos, conseguir ser arrebatadas pela desumanidade do Homem.

Felizmente, durante o mês de Maio, a natureza e a própria vida conseguiram vingar por onde a agrura se quis instalar...
Os 6 filhotes de Luana nasceram no tanque da vizinha do R/c. Protegidos, durante meses a fio, das chuvas e do frio, pelo corpo e pêlo da Rabinho de Raposa, sua avó; que, mais tarde, ensinaria a sua filha Luana a pegar-lhes pelo cachaço e a trazê-los para o terraço que outrora pertencera a Dª. Luísa.

Rezam as vozes de quem viveu (bem) de perto toda esta história que não há mãe tão protectora e diligente como a Rabinho de Raposa… que só lhe falta saber expressar-se na nossa própria língua.
Há, ainda, quem diga que os animais adquirem as qualidades dos humanos com quem mais convivem!






quinta-feira, 31 de julho de 2008

Corte






Com falta de tempo (mesmo em férias isso pode acontecer!) e de dinheiro, mas os nervos já em franja sem corte algum, esta manhã acabei por me decidir estilo relâmpago a deixar os ganchos de lado.

Acabou por não ser foi feito aqui, mas sim neste outro (que já conhecia de França e é muito mais em conta!)... E o resultado agradou-me bastante!







quarta-feira, 30 de julho de 2008

terça-feira, 29 de julho de 2008

Sugestão do Sítio do Costume









Depois do término de "Weeds", muitos de nós esperávamos para ver qual a série que (conseguiria) suceder a tal sucesso, às segundas-feiras à noite na "2"...

E para meu elevado espanto, fiquei agradavelmente surpreendida quando, ontem à noite, assisti a "Pushing Daisies" ("Bem me quer mal me quer" na tradução livre para português)!...

"Pushing Daisies" é a história cómico-forense de Ned, um garoto que, "aos 9 anos, 27 semanas, 6 dias e 3 minutos", descobre que tem o dom de trazer seres mortos de volta à vida.
Toda a série gira em torno deste interessante conceito, transportando-nos para um universo paralelo algures no limbo entre os anos 60 e o mundo mágico de Amélie Poulain (o que se torna deveras interessante, quando sabemos tratar-se esta de uma série norte-americana).

A não perder!...





segunda-feira, 28 de julho de 2008

quinta-feira, 24 de julho de 2008

O Jardim-Fantasma




Era um pequeno logradouro comprido e estreito, transformado num quintal embelezado por 1001 flores e outras espécies hortícolas de diferente matizes, que constituía a inveja de todos os vizinhos do bairro.

Por mais inaudito que possa parecer, com o intuito de preservar a vida de cada uma das espécies existentes no seu jardim, o patriarca da família ia envenenando todos os gatos que se atreviam a por ali deambular.

Triste fim (ou lei da retribuição kármica) teve o zelador deste quintal envenenado, já que morreu cedo e sem poder tirar grande usufruto do mesmo.

A sua esposa amantíssima continuara o trabalho de preservação daquele quintal com muito carinho. Mas a viuvez deixara-a quase translúcida (com o passar do tempo, assumira aquela tonalidade que não é branca nem rosada, e parece querer determinar o fim de toda a humanidade), carregando a sua corcunda nas vestes negras… e acabou, também, por deixar de aparecer no seu quintal (o qual, não conseguia sequer vislumbrar do seu leito, dado que a janela do quarto onde se encontrava acamada apenas deixava antever o quintal da vizinha do lado).

O belo quintal ficou abandonado, apenas ali jazendo pelo chão algumas folhas das suas flores decrépitas…
De tempos a tempos, duas filhas e um genro do casal vinham regar as plantas, como que tentando perpetuar a beleza de algo que outrora existira.
Mas as plantas continuavam a crescer descoordenadas, criando um quadro demasiado disforme.

Curiosamente, foi nesse preciso momento que os gatos aí regressaram.
Ignorando as atrocidades cometidas noutros tempos em nome da preservação da beleza daquele espaço construído pela mão humana, os gatos vinham de noite famintos em busca de comida.

Mas aquele jardim-fantasma continuava a carregar no seu âmago uma indescritível crueldade… a qual se viria a propagar, alguns meses mais tarde, quando outros vizinhos tiveram semelhante gesto de desumanidade para com os animais que por ali viviam em paz e sossego.

Talvez por isso mesmo o Jardim-Fantasma tenha sido condenado a não mais possuir viv'alma, que o pudesse fruir...





terça-feira, 22 de julho de 2008

Luana e os seus 5 bebés




Há quem diga que tenho bicho-carpinteiro... que não consigo passar os meus dias sem me enlear em grandes peripécias ou histórias "rocambolescas"... que, quando me meto numa, sigo a velocidade tipo TGV.

Ainda mal refeita desta história, deixei de conseguir dormir sossegada quando voltei a ver vida nos quintais das traseiras... pressentindo o que, num futuro próximo, poderia suceder novamente.

Podem considerar loucura, mas como sou eu própria que aqui moro, e deixar de ir às janelas das traseiras estender roupa (por correr o risco de ver gatinhos bebés a morrerem de fome) não estava nos meus planos...
Da ideia à acção, consegui falar com as vizinhas do prédio em questão, conciliar diferentes personalidades e organizar algo.





Luana, a filha e grande comparsa de Misha, foi ontem apanhada, juntamente com 5 dos seus 6 bebés.

Um imenso obrigada à minha amiga S. e ao T., que colaboraram de uma forma indescritível nesta "operação-de-amadores-inexperientes" sem recurso a armadilhas e apenas com a ajuda de um lençol turco e uma transportadora, sob a torreira do sol!!!




A gata Luana foi esta manhã esterilizada, fará o pós-operatório no Vet. e, mais ou menos, daqui a uma semana, seguirá para os quintais onde sempre viveu em paz com a sua mãe e protegida por uma grande senhora.

Os 5 bebés (4 machos e 1 fémea) seguem na próxima 6ª feira para uma FAT (Família de Acolhimento Temporário), que os sociabilizará com os humanos, dado que estes pequerruchos pouco contacto tiveram com pessoas, para além de se encontrarem muito assustados com tudo o que lhes aconteceu (o que mais me impressionou foi ver que os 5 bebés, que se encontravam dentro de uma maternidade-improvisada numa das salas do Vet., conseguiram, durante a noite, esgueirar-se por entre o gradeamento da box e saltar para junto da sua mãe).

Dentro em breve, estes bebés (com cerca de 2 meses) estarão disponíveis para adopção.
Caso estejam interessados ou conheçam alguém responsável que o esteja, entrem em contacto comigo, pff., para o endereço de e-mail que aparece no meu perfil.

Muito obrigada!





sexta-feira, 18 de julho de 2008

Caracol Saloio e Outros




Para concluir a atribulada semana (com a realização de 2 auditorias e 3 importantes reuniões - nada mau antes de ir de férias!), ainda estivemos presentes, desde as 14h até à 01h da manhã, com um stand institucional nas Festas do Concelho de Loures, no Espaço Ambiente e Solidariedade.

A habitual (e rotineira) tarefa de montagem do stand parecia, desta vez, infindável... com cerca de 35º C ao sol e quase 42º C dentro do próprio stand.
Em determinada altura, fiquei tão congestionada de vermelhidão no rosto, que pensei mesmo que me ia dar uma coisinha má!





Como vizinhos, tínhamos o famoso Festival do Caracol.
Onde acabei por cometer mais uma gaffe, ao perguntar em 2 stands se tinham algo mais para além do caracol para jantar (pior que esta só mesmo perguntar às 23h no Café de "Flore", em Paris, se ainda tinham croissants!).

Resta dizer que não sou de todo apreciadora de caracol... já que nunca consegui ter coragem para enfrentar o nojo que me mete ver os outros comerem esta iguaria, para a poder também experimentar.





Mas foi com bastante entusiasmo que fiquei a saber que, para além do caracol, poderia ali ainda degustar a caracoleta (imaginei a perplexidade da minha avó perante tal atrocidade)...




... quiche ou rissóis de caracol...




... e os famosos caracóis à Bulhão Pato.

Acabei por me decidir pelo (igualmente famoso) prego no pão com batatas fritas, num restaurante fora do Festival do Caracol.




Uma interessante experiência ("popularucha") de trabalho, neste Verão quente, onde não se falava de outra coisa senão dos ciganos acampados em frente ao edifício da Câmara Municipal de Loures...
Quando, na verdade, a grande maioria de entre eles fazia era a venda na artéria principal de Loures, cortada esta noite ao trânsito devido às Festas.





terça-feira, 15 de julho de 2008

Quadros antigos com Gatos




Há 3 anos que ali vivia e sempre imaginara aquela vizinha do 3º andar do prédio das traseiras como alguém que possuía um elevado grau de proficiência para passar horas à janela a ver o que os vizinhos dos prédios em frente andavam a fazer (em particular, para a observar todas as manhãs e finais de tarde, com olhar suspeito, enquanto dava comida à Ninushka).
Foi por isso, com algum receio, que decidira finalmente ir falar com a dita cuja senhora, por causa dos novos bebés que tinham dado vida aos quintais, depois da (quase) tragédia sucedida em Abril.

Enquanto subia o último lanço de escadas, foi brindada com um: - “Quem é?”
- “Moro aqui nas traseiras e vinha falar com a senhora por causa dos gatinhos bebés que andam aqui nos vossos terraços”.
- “Ai, é a senhora que alimenta os gatos! Nem a reconhecia!” – retorque com um enorme sorriso nos lábios. – “Entre, entre!”
Repete-lhe que não quer entrar para não estar a incomodar, mas a Dª. C. quase a empurra literalmente para dentro de sua casa.
Ao assomar à entrada da casa da Dª. C., não consegue deixar de dar de caras com um gato em madeira artesanal que ali persiste inerte, como que a cumprimentar os visitantes.
Depois de tal visão, pensa para consigo que, afinal de contas, aquela conversa não iria correr tão mal quanto esperara.

Começa por explicar a Dª. C. o que havia sucedido nos quintais em Abril, quando alguém chamara o Canil/Gatil Municipal de Lisboa e 7 gatos haviam sido levados dali.
Daí o seu medo que algo de semelhante aconteça àqueles 6 gatinhos bebés, quando, desesperados, não encontrarem mais comida ali nos terraços, e se comecem a aventurar por outros quintais.
Não consegue viver constantemente com esse receio, nem com a consciência pesada por algo de mal que lhes venha a suceder. Sempre teve gatos desde criança e ama todos os animais, o que faz com que a sua extrema sensibilidade a impeça de conseguir compreender o sofrimento que o Homem inflinge aos mesmos.
Acaba por lhe propôr recolher os gatinhos bebés para adopção e tentar apanhar a gata-mãe para que seja esterilizada.

Dª. C. ouve atenta. E, quando ela termina, apenas lhe diz: - "Nem imagina a senhora como eu e a Dª. H., a vizinha aqui de baixo, andávamos preocupadas com estes animais! Íamos ainda atirando alguma comidita, mas não sabíamos o que fazer!".
Dª. C.
aproveita, ainda, para louvar o facto da sua interlocutora diariamente dar comida às 2 gatas que vivem nos terraços do seu prédio: - "A Dª. H. até me está sempre a dizer que, se a conhecesse, lhe agradecia por todo o bem que faz àqueles animais!"

Depois, sempre muito sorridente, Dª. C. começa a falar-lhe sobre os animais que tivera no Alentejo, antes de ter vindo para Lisboa. Narra-lhe a história de cada um deles em particular, e remata dizendo que gosta muito de gatos e até ficaria de bom grado com um dos bebés, caso o seu neto não fosse tão alérgico aos felinos.
- "A minha filha, como sabe que gosto muito de gatos, está sempre a oferecer-me objectos com eles. Ora veja a senhora estes quadros que ela me deu!"
Ao entrar na sala de Dª. C. não repara naquele pormenor, de tão focalizada que ia na tarefa que tinha de levar a cabo. Encimando uma das paredes da sala, encontravam-se 3 quadros de tamanho médio, com moldura debruada a talha dourada, como que a imitar as pinturas dos grandes mestres da antiguidade; nesses quadros, as figuras animistas de gatos vestidos de humanos ou em brincadeiras.

Ao observar tal cena, não consegue evitar esboçar um sorriso, recordando-se que, durante 3 anos, imaginara que aquela vizinha reprovava o facto de ela alimentar os gatos dos quintais.

Ao sair, Dª. C. ainda lhe pergunta: - "A senhora não leve a mal a pergunta que lhe vou fazer... Mas ainda tem aquela gatinha preta e branca? É que costumava vê-la sempre à janela com ela e, como nunca mais vi, até pensei que lhe tinha acontecido alguma coisa."