segunda-feira, 30 de abril de 2007

Um mundo paralelo disforme



Quando lá entramos pela primeira vez, mesmo que preparados de antemão para o pior cenário possível de imaginar, sentimos, literalmente, um verdadeiro murro no nosso estômago!...
De início, ficamos chocados e constrangidos com aquilo que observamos, com a forma como eles ali são mantidos em cativeiro:
- Os maiores amarrados apenas com meio metro de corrente, que não lhes permite deitarem-se sem que a amarra lhes repuxe o pescoço, não conseguindo sequer alcançar o recipiente da comida quando em pé (em alguns casos, presos em dois elos e impedidos de se movimentarem);
- Os mais pequenos encarcerados em celas completamente fechadas e sem entrada de luz, cujo fundo não é plano mas sim composto por um gradeamento quadriculado, onde muitas vezes ficam entalados;
- Encarcerados sem as mais básicas condições de higiene (a mangueirada diária de água fria, seja Verão ou Inverno, é o apanágio da instituição para a suposta lavagem das celas, provocando pneumonias e outras doenças... mas não conseguindo limpar os dejectos que se acumulam juntamente com a comida);
- Vendo-lhes negada a assistência e o tratamento médico, quando em sofrimento;
- Alguns aprisionados durante anos a fio, por ordens dos tribunais, burocracias ou, até mesmo, esquecimento de diligências pelo próprio sistema;
- Sujeitos a quão inimagináveis torturas, que só os seus olhos, se pudessem falar, nos contariam…
Proporcionando-lhes, assim, uma morte lenta e agonizante, durante aqueles 8 dias de prazo de estadia nas instalações.

O choque inicial transforma-se, seguidamente, em dor e revolta… e a revolta gera a subsequente acção.

Da segunda vez que lá entramos, as forças para enfrentar o pesadelo começam a ser maiores… ainda assim, o que mais aflige e perturba começam a ser, de facto, as próprias pessoas que ali trabalham, os carcereiros…
Como se tivéssemos, por momentos, sido conduzidos aos meandros de um mundo paralelo, onde todos os seres humanos foram desprovidos de qualquer espécie de sentimento ou sensibilidade em relação a (e para com) qualquer outro ser vivo.

“Compaixão” é sentir a dor de outrem como se da nossa própria dor se tratasse.
“Respeito pela dignidade” é sentir o outro ser vivo como um nosso semelhante.
Neste mundo paralelo, há já muito tempo que ambos os sentimentos deixaram de existir, imperando apenas o nojo e o desprezo por qualquer outro ser vivo.
Aos olhos destes impiedosos carcereiros, eles deixaram de ser vistos e percebidos como seres vivos, tendo sido reduzidos a meros resíduos que é suposto ali ficarem, permanecerem apenas, aguardando pela hora da misericórdia final face àquele cativeiro. Todo o respeito pela dignidade e pela própria vida foram ali, totalmente, perdidos (ou eram já inexistentes à partida)!...

E esse mundo paralelo disforme existe aqui mesmo ao lado, junto da nossa realidade quotidiana… mas não fazendo parte dela.
Por vezes, ambos os mundos tocam-se…

Quando por um ou outro motivo, alguém lá entra e assiste a tão sórdido e degradante espectáculo. Na sua grande maioria, os indivíduos ficam de tal modo horrorizados com o que vêem que juram nunca mais lá voltar a entrar. Este mundo paralelo e todos os seres que voluntária ou coercivamente dele fazem parte é, então, como que apagado das mentes dos que não aguentam a visão de um padecimento tão atroz. Ainda que apagado dos espíritos de alguns, ele ali continua a existir diariamente.

Outros, depois de lá terem entrado a primeira vez, teimam em continuar a aparecer todas as semanas, como que para tentarem minimizar com um pouco de atenção e calor humano a dor e os traumas daqueles que ali continuam a ser mantidos aprisionados e sujeitos a uma longa agonia; como que para tentarem fazer algo que possa mudar o curso dos eventos de um único que seja dos que ali se encontram.

Cada saída é uma vitória… mas jamais se consegue esquecer os que ainda ali permanecem!
Os que lá estão dentro revelam uma absoluta e assustadora ausência de cor, como se as suas almas tivessem sido despigmentadas pelo drama que vivem ou carcomidas pela vacuidade existente naquele edifício e nos seus carcereiros...
Os poucos que conseguem ser resgatados, ao saírem para a luz natural do dia, metamorfoseiam-se de imediato, passando a apresentar uma coloração tão brilhante que quase se diria diáfana.

Para além daquele cheiro verdadeiramente nauseabundo (um misto de bafo quente impregnado de sujidade e podridão, com um leve travo a morte… que se entranha nas nossas roupas e, por mais que tentemos, jamais conseguiremos esquecer), o que mais custa a suportar, quando lá voltamos, é, sem dúvida alguma, o simples facto de já não vermos este ou aquele, que ainda a semana passada ali estavam, e para quem, eventualmente, ainda haveria a esperança de uma saída… mas que, por uma terrível imprevisibilidade, já foram condenados à morte por um prazo de 8 dias que chegou ao fim ou sucumbiram a misteriosas e fulminantes doenças virais.
Os que ainda vão resistindo começam, no entanto, a apresentar evidentes sinais de depressão e traumas profundos, e a dor e tristeza que transparecem dos seus olhos quase nos corroem a alma.

Da segunda vez que lá entramos, o sentimento de impotência perante todo aquele espectáculo grotesco e horrendo é de tal ordem que nos sentimos a decair, a perder todas as nossas forças.

Porém, a imagem que esse mundo paralelo continua a veicular cá para fora, para o mundo real, é a de que nada daquilo que alguns narram ter visto é verídico e que tudo está bem naquele que é considerado como o melhor dos mundos…
Quem não vê é como quem não conhece e não sabe da existência… Mas, pior cego é aquele que não quer ver o que, efectivamente, se passa!!


“Nenhum dos argumentos que provam a superioridade do homem consegue esconder este facto terrível: no sofrimento, os animais são nossos iguais.”
P. Singer


domingo, 29 de abril de 2007

Fora da Bolha



Há já quase um mês que não ia ...
Mas, como nem sempre (que queremos) podemos ficar fechados dentro da nossa "bolha", hoje fui "desencaminhada" com o objectivo de ir desanuviar um bocadinho a cabeça.




Mais um domingo a dar apoio moral às pinturas do mano e a aproveitar para ir fotogrando alguma coisita.
O problema é que, quando a alma anda dorida (por o corpo lhe parecer impotente perante tanta desgraça a que tem assistido), até o prazer em fotografar se torna mínimo!...




Final de tarde a saborear uma receita original e antiquíssima... de chorar por mais!...





- Notícias do Reino Animal de Vila Pouca - IV -



Diva é a gata de uma das vizinhas. Gata aristocrata, de pêlo longo, rabo farfalhudo e ar de boneca de peluche... todavia, por demais arisca.
Diz-se por aí que, normalmente, com o passar dos anos, os animais (sobretudo os cães) vão adquirindo particularidades físicas e/ou psicológicas dos seus donos. No caso da gata Diva, tal facto não podia ser mais verdadeiro, já que, à semelhança da sua própria dona, ela difere bastante da comum normalidade dos restantes habitantes felinos da aldeia.

Sempre que partimos de Vila Pouca, a dona da gata Diva, muito preocupada, vem verificar se, por acaso, ela não se terá enfiado, sorrateiramente, na casa do vizinho (como já sucedeu, em diversas ocasiões)... para ali ficar a descansar as suas patas, longe dos olhares zelosos e matreiros dos felinos locais.




Dalila partilha a casa da aristocrata gata Diva.
Segundo consta, a convivência entre ambas não terá sido muito fácil de início, dado que Dalila não estava habituada às finuras e exigências da dita cuja gata (para além de, também, não gostar lá muito de ter que partilhar a sua dona com aquele monte de pêlo farfalhudo armado em importante).

Dalila é cadela plebeia e terra-a-terra, que a todos gosta de cumprimentar com os seus beijinhos muito repenicados.
Como boa representante das classes mais baixas e humildes do povo, Dalila adora "investigar" a vida dos vizinhos... mesmo que, para isso, tenha que entrar descaradamente em casa dos mesmos.





sábado, 28 de abril de 2007

Notas Soltas – LII



- A Cidade das Mulheres –

Estranha notícia esta, em particular quando se sabe que, durante longos anos, a China tem incentivado o abandono e assassinato de bebés do sexo feminino, devido ao acréscimo de natalidade no país.





- Flores -

Hoje acordei com uma vontade incomensurável de comprar flores… talvez por ter passado uma noite muito mal dormida em que me fartei de sonhar com animais em sofrimento e precisasse, assim, de ver coisas mais belas a rodearem-me.




Duas novas aquisições para a varanda cá de casa, que começa a ser demasiado pequena para tanta planta.





sexta-feira, 27 de abril de 2007

Notas Soltas - LI


- "Cortes" - IV -




Cena da Vespa, in "Caro Diario", de Nanni Moretti (1993).


O que tantas vezes me apetecia fazer, se tivesse carta de condução!...
Como não tenho (nem nunca terei!), opto sempre por o fazer a pé, que, também, sabe muito bem... e sempre se podem captar mais pormenores (escondidos) da cidade.





- Deixar crescer o Cabelo: Dia 336 -



Passados 11 meses.






- Contes, Vents & Marées -




"Alors sait-on jamais où les vents nous mènent... (...)"

Les Ogres de Barback




quinta-feira, 26 de abril de 2007

Finalmente...



... algum descanso!





E a imagem em background do monitor cá de casa, sempre é bem melhor do que esta!





quarta-feira, 25 de abril de 2007

25 de Abril





"(...) É possível andar sem olhar para o chão.
É possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros.
Se te apetece dizer não, grita comigo: não! (...)"



"(...) Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre, livre, livre."



Manuel Alegre, in "Letra para um Hino"






terça-feira, 24 de abril de 2007

Notas Soltas - L



- Novidades dos Resgatados & APELO IMPORTANTE -


A pedido de uma série de amigos com quem tenho falado nos últimos dias sobre esta visita que efectuei recentemente, aqui ficam notícias dos 8 animais que foram retirados do Canil/Gatil Municipal de Lisboa no fim-de-semana passado.


Fotografia de Susana Gomes

A gata Cecília (a mais meiga do grupo dos 4 que estavam há mais de 2 anos no Canil/Gatil Municipal) encontra-se em casa de uma pessoa que adora animais, para recuperação e posterior adopção. Gosta muito de pessoas e dá-se bastante bem com todos os outros animais. Já foi ao veterinário e tinha uma hérnia, à qual foi operada.



Fotografias de Susana Gomes


Ainda do grupo dos 4, o Luca e o Romeu têm estado, desde sábado, na União Zoófila (UZ), para recuperação, testagem ao FIV e FELV e para esterilização. Continuam muito assustados. Foram separados, para se verificar o que cada um come (mas ainda não tocaram na comida). As necessidades fazem-nas no chão ou encostados às paredes (derivado do local onde foram tanto tempo mantidos). Só conseguem ser manuseados, com uma manta a tapar a cabeça. Possivelmente, quando puderem sair da quarentena da U.Z. e andar livremente por um espaço mais amplo, recuperarão depressa, tal como a Cecília e a Lura.

O olhar de medo destes dois pobres animais torna-os, simultaneamente, distantes e ausentes, como se toda a dor e tristeza pela qual passaram tivessem feito com que se "alheassem" do mundo no qual foram obrigados a viver enclausurados... Inimaginável de pensarmos por que torturas indescritíveis terão estes animais passado, para se encontrarem neste estado!...


Fotografias de Susana Gomes


Os 3 bebés da ninhada de gatinhos cuja mãe falecera recentemente encontram-se em casa da mesma pessoa com quem a gata Cecília ficou. Os bebés machos estão bem e a gatinha tricolor tem estado a fazer antibiótico (apresentando já alguns sinais de melhoras), tendo sido "adoptada" pela gata Cecília.
Também do grupo dos 4, a gata Lura encontra-se a recuperar em casa de uma outra pessoa de confiança, adorando passear por entre os restantes felinos desse habitat.
Tommy (ex-Rasta) está, também, nesta casa, a convalescer (de Febre da Carraça) e recuperar forças, pois encontrava-se extremamente enfraquecido e muito magro.

Aproveito, ainda, para explicar, a todos aqueles que possam não ter conhecimento deste facto, que qualquer animal que dê entrada no Canil/Gatil Municipal de Lisboa tem que aí permanecer durante 8 dias, findos os quais, caso não surja ninguém interessado em o adoptar, chegará, também, a um termo o seu prazo de vida.

Como bem poderão imaginar, face ao elevado número de abandonos de animais domésticos que existe no nosso país (alguns dos quais entregues directamente no Canil Municipal pelos seus próprios donos), são mais os animais que terminam os seus dias na incineradora do que aqueles que alguém acaba por adoptar e dar a hipótese de uma vida digna.
Por outro lado, a grande maioria dos animais cujo destino é dar entrada no Canil/Gatil Municipal de Lisboa têm contra si próprios, logo de antemão, o facto de não puderem ser considerados o "topo de gama" para adopção (ou seja, bonitinhos, limpinhos, sem defeitos físicos ou maleitas - como tanto agrada a uma determinada faixa populacional cuja mentalidade se baseia no famoso conceito do BCBG = "Bon Chic, Bon Gent"). Em relação ao remanescente de animais, considerados mais "adoptáveis", o que se passa na prática é que, apesar de poderem ter dado entrada no Canil/Gatil sem qualquer tipo de doença, findos os 8 dias da sua "estadia" já contraíram inúmeras doenças naquele espaço imundo e com tanta falta de cuidados... podendo, mesmo, vir a falecer após a sua adopção.
Nesse sentido, para além de poucos serem os que se dirigem ao Canil/Gatil Municipal de Lisboa para efectuarem adopções, também nem todos os indíviduos que de lá saíem acabam por realizar uma adopção.

Actualmente, graças ao esforço, coragem e, sobretudo, muita dedicação de um grupo de pessoas defensoras dos direitos dos animais (que tive o privilégio de conhecer recentemente), semanalmente, são retirados diversos animais que se encontravam nas piores condições possíveis no Canil/Gatil Municipal de Lisboa (para posterior tratamento e consequente adopção).
O problema é que, mais uma vez, a burocracia deste nosso país faz com que cada pessoa apenas possa “adoptar” (ou ajudar a resgatar para posterior adopção por uma 3ª pessoa) um número máximo de 4 animais; sendo que, se tentar "adoptar" um outro animal, terá que apresentar no Canil/Gatil uma certidão de óbito (passada por um veterinário) de algum dos outros animais que tenha, anteriormente, retirado de lá.

Face a toda esta situação e como o trabalho deste grupo de pessoas tem vindo a demonstrar ser de extrema importância, mas o grupo é demasiado reduzido para continuar a auxiliar tantos animais (e, como são sempre as mesmas pessoas a deslocarem-se ao Canil/Gatil já excederam o número limite de “adopções” possíveis)...

O apelo que aqui deixo hoje no blog é que cada um de nós tente fazer um bocadinho (mais) do que aquilo que, simplesmente, estiver ao seu alcance, para inverter esta situação: seja através da divulgação por e-mail ou "passando palavra" sobre a existência de animais no Canil/Gatil Municipal de Lisboa para adopção; seja através da circulação de informação sobre as condições em que esses animais são mantidos; seja através da própria consciencialização sobre esta situação degradante, a qual só poderá de facto adquirir-se quando se visita o local em questão; seja através do auxílio na “adopção” (ou ajuda ao resgate para posterior adopção por uma 3ª pessoa) de um dos animais do Canil/Gatil cujo limite dos 8 dias de “estadia” já se encontre a expirar.
Porque, apesar de nem todos dispormos de forças ou estômago para entrar no Canil/Gatil Municipal de Lisboa, há que saber o que aí se continua impunemente a passar!

E o que vos posso dizer a todos, depois da 1ª e única visita que aí efectuei é que, quando vemos com os nossos próprios olhos o que se passa no Canil/Gatil Municipal de Lisboa, deixamos de conseguir dormir com a nossa consciência tranquila... pois, passando o (mau) termo de comparação, é como se soubessemos da existência de um campo de concentração na nossa vizinhança e continuássemos, impavidamente, de braços cruzados.
Por isso mesmo, desde há 3 dias, a minha própria luta, também, se orienta numa determinada direcção!...

Apesar da pintura esboçada neste quadro ser tão negra, continuo a acreditar que se todos fizermos um bocadinho... o mundo pode, efectivamente, mudar!...





- Cenas Triviais do Quotidiano - V -



Gosto imenso daqueles "recadinhos" que as empresas de fornecimento de água, gás e electricidade nos costumam deixar na porta do prédio, advertindo sobre o dia e hora em que um dos seus funcionários passará nas nossas casas para efectuar a leitura dos contadores.

Normalmente, a relação é sempre muito impessoal, na medida em que, como a maioria das pessoas trabalha e não se encontra em casa durante a semana à hora estabelecida, acabamos por deixar também um "recadinho" colado na porta das nossas habitações dirigido à referida empresa.

Há 2 anos atrás, logo depois de me ter mudado para a minha casa, num desses "recados" dirigido à EDP, antes de assinar o mesmo deixei a menção "Com os melhores cumprimentos". E, curiosamente, quando ao final desse mesmo dia regressei a casa, ainda lá tinha o papelinho na porta, com uma nota: "Muito agradecido" e a respectiva assinatura do funcionário.
Demonstrando, assim, que nem todas as relações não-directas que temos que estabelecer no nosso quotidiano ganharam o cunho da impessoalidade.





- Manias (que não são minhas) -

... mas, talvez, um dia possam vir a ser!


A Mania da Organização (numérica) do meu Avô...

... e de comprar tudo "por atacado" (em triplicado).



Os Caracóis de Estimação da minha Avó





Bicho de pouca interacção e mobilidade, que se mantém, apenas, como objecto decorativo nas paredes da cozinha.





- SPT # 34 - "The Body" -



O corpo a começar a desgastar-se e ressentir-se de tanta actividade mental e stress das últimas semanas...
E, finalmente, uns merecidos diazinhos de férias que, a juntar aos 2 feriados, vêm mesmo a calhar!



segunda-feira, 23 de abril de 2007

Sugestão do Sítio do Costume


Para comemorar esta data, na noite de 24 de Abril, no Largo do Carmo, terá lugar o Arraial do 25 de Abril, parte da iniciativa da Associação ABRIL com a colaboração e participação de várias associações e grupos de carácter político, cívico e cultural.

Um programa rico e diversificado, com ênfase na homenagem a José Afonso e com participações ao nível da música, poesia, artesanato, gastronomia, dança e teatro (a não perder, os "RefugiActo"!).




sábado, 21 de abril de 2007

Uma tarde no Canil/Gatil Municipal de Lisboa



"A grandeza de uma nação e o seu progresso moral podem ser avaliados pela forma como esta trata os seus animais."

(Mahatma Ghandi)



- A velha dos Gatos -

Vivia sozinha com a parca reforma que o Estado lhe concedia. E, a partir de uma determinada altura, a solidão maior foi começando a toldar-lhe o espírito. Sempre gostara muito de animais, mas, a partir desse momento, começou a albergar em sua casa gatos abandonados que encontrava nas ruas, durante os seus passeios, onde partia em busca de objectos que outros haviam deitado fora.
Tentava combater a solidão através de longas conversas com os seus fiéis amigos, aqueles que, apesar de tudo, nunca a abandonaram e nada lhe pediam em troca. Mas a loucura ia recrudescendo a cada dia que passava. E, quando a queixa dos vizinhos (que, apenas, se queriam ver livres de um “estorvo” e nunca sequer lhe dirigiram a palavra) surgiu, a velha senhora foi internada num lar de idosos apoiado pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
Nesta parte da história, o destino é incerto quanto à sorte que coube à maioria dos seus fiéis amigos, mas 6 de entre eles terminaram os seus dias no Canil/Gatil Municipal… numa terra de ninguém, num limbo esvaziado de qualquer espécie de comiseração ou sentimento.
Durante anos a fio ali ficaram esquecidos porque, supostamente, continuavam a ter uma dona (apesar de internada e mentalmente incapaz) e, dessa forma, ninguém os poderia adoptar, nem tão pouco os funcionários do Canil/Gatil poderiam pôr um termo às suas vidas, como sucede diariamente a tantos outros animais recolhidos das ruas ou que os próprios donos vão "depositar" no Canil.
E a lamentável situação assim se foi perpetuando, porque o próprio sistema municipal que coordena o Canil/Gatil, repleto de burocracia e falta de vontade humana, também, nunca se interessou pela sorte destes (e de todos os outros) animais, ou quis saber o paradeiro da sua dona, para tentar resolver esta situação. E assim, durante quase 3 longos anos (desde o dia 09/11/04), aqueles animais (ao início 6, depois apenas 4… 2 gatos e 2 gatas) ali viveram, no espaço exíguo daquela cela de metal, caminhando sobre grades, sem a luz natural do sol, reproduzindo-se por inúmeras vezes (porque o sistema que coordena o Canil/Gatil, apesar de todas as convenções de protecção dos direitos dos animais que existem e são aplicadas à legislação portuguesa, continua a não esterilizar os animais que mantém em cativeiro), gatinhos recém-nascidos comidos imediatamente pelas suas mães que não são alimentadas nem tão pouco têm as suas feridas tratadas.
Animais que não são os únicos a viver naquele inferno (que os faz enlouquecer e passar os seus dias a olhar para uma parede), mas que ali foram votados durante anos a fio à completa ausência de sentimentos por parte do ser humano.

Que país de 3º mundo é este em que vivemos, que o Homem continua a tratar de forma tão brutal os animais!?
Duas semanas e meia foram suficientes para resolver um caso para o qual a Câmara Municipal de Lisboa deveria ter encontrado uma solução há 2 anos atrás!...

Dª. I. (a dona destes animais) faleceu na passada semana, sem saber o destino dos seus animais, mas quando alguém (que nem sequer conhecia) de muita coragem já iniciara um longo percurso repleto de diversos obstáculos, para tentar salvar os seus quatro gatos.

Descanse, finalmente, em paz, Dª. I., porque os seus amigos foram hoje salvos!...


A 1º vez que estes animais voltaram a ver os raios de sol, depois de 3 longos anos...


Cecília, a gatinha tigrada tartaruga já velhota que, apesar do lugar onde viveu durante todo este tempo, continua a ronronar como uma gata de casa e a demonstrar um imenso à vontade com os humanos e muita pieguice.


Lura, gata preta, muito adoentada, cujos olhos já apresentam a 3ª pálpebra. Tinha tido recentemente filhotes, que morreram.


Romeu, o gato mais assustado e que mais "luta" deu para conseguir ser retirado de dentro da cela onde se encontrava.


Luca, gato tigrado e branco, que apresenta, também, problemas nos olhos, depois deste longuíssimo cativeiro.


Última fotografia de Susana Gomes

Luca e Romeu são, de facto, os gatos mais assustados e traumatizados deste grupo. Já na U.Z., para onde foram levados depois de resgatados do Canil, continuaram a aninhar-se um no outro em pânico permanente, ao canto da box, perpetuando os traumas provocados por aquele outro espaço em que estiveram enclausurados durante anos.





- O Canil/Gatil Municipal de Lisboa -

Os dois enormes painéis de lona à entrada, carcomidos pelo sol, onde por debaixo do rosto alegre de algumas pessoas abraçadas a animais de companhia se pode ler: “Aqui Lisboa vai ter um canil melhor e mais bonito”, têm um sentido enganador e bastante desfasado da perturbante realidade que viríamos a descobrir esconder-se atrás daquelas portas onde cada visitante apenas pode entrar e circular acompanhado por um funcionário do município.

Enquanto aguardamos pela hora marcada para as adopções, assistimos à chegada de outras pessoas…
Uma rapariga, acompanhada pela mãe, transporta ao colo uma caminha de pano, onde jaz o seu gato amarelo. Depois de pagos os custos, cama e gato são entregues a um funcionário municipal, de cabelo cortado à cherokee, ostentando uma t-shirt com a frase a letras já muito sumidas “Dia do Animal 2005”, que prontamente os coloca dentro de um saco de plástico negro, atirado, logo em seguida, para um carrinho de transporte onde outros sacos de plástico jazem ao sol quente da tarde.
Um pai acompanhado por duas filhas dos seus 5 e 8 anos respectivamente; uma delas empunhando uma trela. Um grupo com duas crianças e um pequeno cão. Um senhor de meia idade que transporta mais um enorme saco de plástico negro, onde jaz o corpo do seu animal de estimação. E um casal em fato de treino, acompanhados pelo seu cão.
Pelas mentes dos mais experientes do nosso grupo nestas andanças persiste a dúvida sobre quem virá para adoptar e quem virá, apenas, para deixar o seu animal ali no Canil.

Ao longe, sob o enorme edifício branco que se assemelha a uma prisão, começa a surgir um fumo denso, subindo em imensas nuvens negras pelos céus… de um negro tão profundo quanto o cheiro intenso e insuportável a carne queimada que paira no ar. Por três vezes seguidas, aquele fumo negro enche os céus. Enquanto, ao longe, abafados por aquelas espessas paredes, ouvimos os latidos de inúmeros cães, quiçá pressentindo a origem daquele fumo.

Quando, finalmente, nos convidam a dirigirmo-nos ao tal edifício, somos como que bombardeados por um outro cheiro verdadeiramente nauseabundo: um cheiro de putrefacção misturado com o cheiro a morte, que empesta o ar e persiste em qualquer parte do edifício onde entremos.
Seguimos o funcionário municipal com penteado cherokee para irmos falar com o veterinário de serviço. Um outro funcionário, de argola na orelha e cigarro ao canto da boca, passa por nós, com uma cadelita pela trela. Pára à nossa frente. A cadelita treme as patas traseiras com receio. E o funcionário balbucia umas quaisquer palavras numa tentativa de esboçar uma qualquer espécie de sentimento para com a cadela... mas, infelizmente, tudo soa a falso ali dentro.

Entramos, então, no Gatil, onde, segundo me informaram, na semana passada se encontravam inúmeros gatos. Agora, apenas, algumas escassas celas se encontram ocupadas (sobretudo por gatinhos bebés); enquanto 6 celas se destinam a cães, não se compreendendo lá muito bem porque se encontram ali no Gatil e não no Canil.

Enquanto as outras pessoas do meu grupo, com a ajuda do funcionário municipal (o tal do brinco na orelha e cigarro ao canto da boca), retiram de uma das celas os 4 gatos que vínhamos buscar, começo a vaguear sozinha pela claustrofóbica sala do Gatil, tentando contornar os diversos montes de excrementos que se amontoam no chão.
As janelas escasseavam ou eram praticamente invisíveis naquela sala forrada a toda à volta daquilo que se poderia apelidar de jaulas (mas que, de acordo com todas as inscrições visíveis e, até mesmo, decorrendo das próprias palavras dos funcionários e do veterinário municipal se conveio chamar de “celas”) e apetrechada com inúmeros objectos metálicos…
Quem tivesse para ali sido levado de olhos vendados crer-se-ia, ao ser desvendado, num matadouro ou numa qualquer espécie de local imundo destinado a práticas de tortura.



Perante a confusão gerada por um dos gatos do grupo dos 4 que teima em não querer entrar na transportadora, aproveito para ir fotografando o local. Apesar da aparente calma, as mãos tremem-me e tenho a certeza que as fotografias não ficarão em condições, mas é uma oportunidade única. E não fora um dos membros do grupo que acompanhava pedir-me para parar de tirar fotografias, o testemunho que aqui deixaria seria bem maior.

Numa cela, 3 gatinhos bebés… 2 miam desesperados, enquanto uma bebé tricolor aninhada a um dos cantos permanece prostrada, mal conseguindo abrir os olhos, junto a uma poça de diarreia. O maiorzito dos bebés atira-se violentamente contra as grades, tentando chamar a nossa atenção, querendo, apenas, um pouco de atenção e calor humano.
Há uma semana tinham sido ali deixados, juntamente, com a sua mãe pelos donos (alguém que os tivera aos quatro numa casa). Na noite passada, o corpo gélido e moribundo da gata mãe fora encontrado com os filhotes aninhados na sua barriga.



Ninhada após saída do Canil/Gatil Municipal de Lisboa. A gatinha tricolor continua muito prostrada e, possivelmente, não sobreviverá.



Na cela ao lado, uma ninhada de cachorrinhos entre os 6 e os 7 meses, latem em uníssono.
Numa das celas maiores, ao fundo da sala, uma cadela arraçada de Labrador, lindíssima, com o seu pequeno filhote.
Na outra ala, dentro da mesma cela apertada, um grupo de 4 gatos pretos, acompanhados por um belo gato cinza e branco, bufam com um olhar angustiado de medo, quando passo.

Na parede da entrada, do lado direito, dentro de umas 6 celas, o latido dos cães é desesperante.
Mas o que mais me impressiona é, sem dúvida alguma, naquela cela logo à frente da porta de entrada, o gato aninhado imóvel a um canto da cela, com um olhar profundamente apático, como que resignado à sua triste sorte.

4 gatos adultos e 3 bebés são as saídas previstas juntamente com o nosso grupo de 6 pessoas.
Antes de saírem definitivamente do Canil/Gatil Municipal, os animais têm, no entanto, de ser vistos pelo veterinário de serviço (estranha e ocasional prática essa, para animais que durante todo o tempo que se encontram no Canil não são sequer examinados, tratados das doenças que tiverem - ou daquelas que vierem a adquirir devido ao local em que se encontram - ou, sequer, bem alimentados!)… e durante cerca de uma hora e meia o nosso grupo permaneceu no consultório para exame dos animais, por parte de um veterinário que se queixava constantemente da quantidade de trabalho que, ainda, tinha para fazer.
O funcionário da argola na orelha entrava e saía do consultório, gesticulando algumas frases sobre um gato “meia cauda”, que, afinal, descobrimos tratar-se de um dos bebés cuja cauda tinha sido cortada. Olhava para a transportadora e, com o seu ar meio retardado, agachava-se e começava a colocar as luvas de lona, para fazer festas aos gatinhos bebés.
Tudo ali soava a desfasado da realidade e falso!... Como se tivéssemos sido colocados dentro de um pesadelo em que, persistentemente, os outros personagens nos tentassem demonstrar por palavras e/ou gestos, que os horrores a que assistíamos não existiam na realidade.

Sem nunca ter entrado sequer, anteriormente, no Canil, até ali tinha me mantido firme e suportado tudo o que já vira (graças, sobretudo, à ajuda de um ansiolítico que tomara antes de sair de casa, pois estava, de antemão, preparada para o pior!).
Foi, então, que entrou no consultório do veterinário um cão (que havia sido reservado por um dos membros do grupo que eu acompanhava), arraçado de pequinois, literalmente arrastado pela trela feita de corrente e terminando numa grossa coleira de cabedal envelhecido, por um outro funcionário municipal que acabara de entrar no turno… O cão mal se conseguia mover e era um misto de pêlo longo embebido em água suja e lamacenta. Quando entrou a sala ficou empestada daquele cheiro nauseabundo que persistia por todo o edifício. E, ao ver o estado daquele animal, pensei que eu própria iria desfalecer ali a qualquer momento.
Os seus donos tinham-no deixado no canil há uma semana atrás e esta tarde saiu, também, do canil connosco.


Este era o estado em que o Rasta se encontrava ao fim de uma semana de permanência no Canil de Lisboa.


Duas últimas fotografias de Susana Gomes.
O Rasta depois de ser tosquiado.



Quando, finalmente, nos despachámos de todas as consultas e verificações aos animais, caminhámos pelos longos corredores, com o pobre cão a arrastar-se roçando-se pelas paredes, talvez, com medo do local para onde iria ser levado.
Por detrás de uma porta de vidro, vislumbro o Canil (onde não cheguei a entrar e me disseram, mais tarde, ser o pior local do edifício), onde em compartimentos quadrados do tamanho de pequenos polibans, se encontram cães acorrentados. Quando passamos, alguns começam a latir e a olhar para nós desesperados, enquanto outros apenas jazem ali de olhar vítreo.
Com uma transportadora com o gato amarelo da Dª. I. nas mãos, só penso em sair daquele lugar medonho o mais rapidamente possível.
E, quando saímos a porta do edifício e voltamos a respirar o ar puro, até os raios de sol me parecem mais brilhantes.

Ao final da tarde, quando regresso ao meu mundo, olho para as minhas gatas tranquilas a dormirem ao sol da tarde no escritório, vislumbro lá fora nos quintais os gatos vadios que se espraiam languidamente por entre as telhas… e não consigo conter as lágrimas por muito mais tempo.

Há algum tempo atrás, jurara a mim própria jamais entrar algum dia no Canil de Lisboa (precisamente por ter ouvido contar tantas histórias sobre os horrores que aí sucediam e por me conhecer bastante bem e saber que as minhas fracas emoções e o meu amor pelos animais não aguentariam ver tal espectáculo), por força das circunstâncias, esta tarde, entrei pela primeira vez no Canil… e fiquei doente com o que vi!

Alguém me dizia que tentasse esquecer o que tinha visto… talvez para meu próprio bem e para não sofrer mais.
Mas a verdade é que, depois de se ter entrado uma única vez que seja no Canil Municipal de Lisboa jamais conseguiremos esquecer o triste espectáculo da degradação a que um animal chega devido à falta de comiseração de que o Homem (aquele que o abandonou e aquele que, agora, o encarcera) é capaz…

Podemos, porventura, dizer que num mundo perfeito nada disto sucederia. E que o nosso mundo se encontra longe de ser perfeito!...
Sendo que, talvez, por isso mesmo possa existir uma qualquer falta de ineficácia do próprio sistema, na medida em que não consegue fazer face ao elevado número de casos de abandono de animais com os poucos meios que o Canil/Gatil Municipal de Lisboa, eventualmente, disporá para realizar o seu trabalho.
No entanto, nada justifica ou pode sequer desculpar aquilo que presenciei hoje (uma total ausência de sentimento para com outro ser vivo), na medida em que, por experiência própria, posso afirmar que há sempre formas de contornarmos a escassez de meios humanos e monetários… se gostamos daquilo que estamos a fazer, se amamos verdadeiramente o nosso trabalho.
O que não é o caso no Canil/Gatil Municipal de Lisboa!...

O trabalho num Canil é, certamente, dos mais ingratos, como qualquer trabalho que envolva a morte ou aniquilação de um ser vivo. No entanto, esse mesmo trabalho deverá ser exercido, de acordo com a Convenção Europeia de Protecção dos Animais (que Portugal, também, ratificou), com o mínimo de inflicção de dor ou sofrimento desnecessário ao animal, com a tolerância e respeito para com o mesmo, bem como com a salvaguarda da higiene e do bem estar necessários.

O que dizer, então, de todos aqueles animais que ali permanecem deitados, imóveis, com os olhos prostrados e sem qualquer tipo de expressão, para além de um misto de medo e apatia profunda. Ou dos outros que já, há muito tempo, enlouqueceram e não fazem mais do que passar os seus dias a olhar para a pequena parede da sua cela. Ou dos que nos ladram ou miam quando nos aproximamos, pedindo um pouco daquela atenção que nunca tiveram ou têm.
O que dizer, também, das celas diminutas em que se amontoam aos 4 e 5, com um único prato para a comida e outro para a água, junto de fezes e vómitos ressequidos (apenas limpos à mangueirada geral de água fria contra as suas celas, sejam adultos ou recém-nascidos), vivendo em cima de grades onde não existe sequer uma cama ou areão.

O que a Câmara Municipal de Lisboa diz de tudo isto é que os animais abandonados ou todos os outros que dão entrada no Canil/Gatil Municipal não passam de meros resíduos sólidos da cidade de Lisboa… já que o Departamento sob o qual a tutela deste espaço municipal é mantido é, exactamente, o mesmo que tem por objectivo tratar os supra mencionados resíduos.

O que eu, mera cidadã anónima que entrou hoje, pela primeira vez, neste local digo é que me envergonho de viver num país assim, um país onde o progresso moral roça o nível das sarjetas mais imundas da capital.

E que, enquanto as mentalidades de quem está no poder não mudarem, persistiremos num sistema que escolhe a dedo os seus cárceres, de modo a que sejam indivíduos que não tenham um pingo de sensibilidade ou gostem sequer de animais, talvez, para que o seu trabalho seja efectuado com mais “perfeição” e, até mesmo, requintes de sadismo.
Mentalidades que precisam, também, de mudar ao nível de todos aqueles que continuam a, brutalmente, abandonar os seus animais, como se se tratassem de objectos e que nunca chegam sequer a ver o estado em que estes terminam (para que lhes pese nas suas consciências – se é que as têm!), quando atropelados numa estrada, mortos num Canil ou neste estado.

E, porque todos nós somos cúmplices do que se passa, ao fecharmos os olhos àquilo que sabemos que nos irá fazer sofrer, à visão das atrocidades que nos poderão pesar cá dentro…
É preciso, sobretudo, que cada um de nós se mentalize e tenha conhecimento da forma como os animais são tratados neste país e tente fazer algo (no pouco que está ao seu alcance) para ajudar a mudar esta situação.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Às "Quintas"...



O azul do céu reflectido numa mesa e o vermelho que dá a vida numa flor…



Saborear os momentos do quotidiano deste novo espaço, através dos olhos brilhantes de uma criança, que se transformou na coqueluche de todos.
E cada um dos seus pequenos carrapitos a ser nomeado como um país diferente, onde as fronteiras deixaram de fazer sentido... tal como ali.

Meia manhã, apenas, na Bobadela, com uma Amiga a iniciar-se num projecto bem estimulante, que me trouxe à memória as sábias palavras que alguém proferiu há dois anos atrás…


"Me parezco al que llevaba el ladrillo consigo
Para mostrar al mundo cómo era su casa."
(Bertolt Brecht)


"Ladrillo del Sueño"

"Mírame:
yo soy tu casa.
Todos mis ladrillos fueron hechos por hombres
como tú;
hombres que han venido
de todas partes
y que traían en los ojos
esos pedazos
de miedo.
Para ti fui pensada
y soy tu pausa
Ámame,
como yo te amo,
Hermano
mío...
Sin ti,
no serían necesarios mis espacios
ni los cantos
ni los sueños.
En el sentido de tu fuga
está el secreto
de mi existencia
Yo te cobijo
porque tú me haces poderosa:
Refréscate bajo mis techos.
Danza en mis salones.
Alcanza la deseada paz en mis espacios.
Aprende a mirar el sol nuevamente
desde todas mis ventanas, hijo mío,
refugiado perdido y destrozado en la noche
de los olvidados.
Acércate al calor de mis ladrillos,
toma una manta.
No tengas miedo,
que yo también fui hecha para protegerte
mientras recuperas el amor
y la sonrisa."

Diego Rivera Morales
(refugiado Cubano em Portugal, desde 2001)