Última fotografia de Susana Gomes
Luca e Romeu são, de facto, os gatos mais assustados e traumatizados deste grupo. Já na U.Z., para onde foram levados depois de resgatados do Canil, continuaram a aninhar-se um no outro em pânico permanente, ao canto da box, perpetuando os traumas provocados por aquele outro espaço em que estiveram enclausurados durante anos.
- O Canil/Gatil Municipal de Lisboa -
Os dois enormes painéis de lona à entrada, carcomidos pelo sol, onde por debaixo do rosto alegre de algumas pessoas abraçadas a animais de companhia se pode ler:
“Aqui Lisboa vai ter um canil melhor e mais bonito”, têm um sentido enganador e bastante desfasado da perturbante realidade que viríamos a descobrir esconder-se atrás daquelas portas onde cada visitante apenas pode entrar e circular acompanhado por um funcionário do município.
Enquanto aguardamos pela hora marcada para as adopções, assistimos à chegada de outras pessoas…
Uma rapariga, acompanhada pela mãe, transporta ao colo uma caminha de pano, onde jaz o seu gato amarelo. Depois de pagos os custos, cama e gato são entregues a um funcionário municipal, de cabelo cortado à
cherokee, ostentando uma t-shirt com a frase a letras já muito sumidas
“Dia do Animal 2005”, que prontamente os coloca dentro de um saco de plástico negro, atirado, logo em seguida, para um carrinho de transporte onde outros sacos de plástico jazem ao sol quente da tarde.
Um pai acompanhado por duas filhas dos seus 5 e 8 anos respectivamente; uma delas empunhando uma trela. Um grupo com duas crianças e um pequeno cão. Um senhor de meia idade que transporta mais um enorme saco de plástico negro, onde jaz o corpo do seu animal de estimação. E um casal em fato de treino, acompanhados pelo seu cão.
Pelas mentes dos mais experientes do nosso grupo nestas andanças persiste a dúvida sobre quem virá para adoptar e quem virá, apenas, para deixar o seu animal ali no Canil.
Ao longe, sob o enorme edifício branco que se assemelha a uma prisão, começa a surgir um fumo denso, subindo em imensas nuvens negras pelos céus… de um negro tão profundo quanto o cheiro intenso e insuportável a carne queimada que paira no ar. Por três vezes seguidas, aquele fumo negro enche os céus. Enquanto, ao longe, abafados por aquelas espessas paredes, ouvimos os latidos de inúmeros cães, quiçá pressentindo a origem daquele fumo.
Quando, finalmente, nos convidam a dirigirmo-nos ao tal edifício, somos como que bombardeados por um outro cheiro verdadeiramente nauseabundo: um cheiro de putrefacção misturado com o cheiro a morte, que empesta o ar e persiste em qualquer parte do edifício onde entremos.
Seguimos o funcionário municipal com penteado
cherokee para irmos falar com o veterinário de serviço. Um outro funcionário, de argola na orelha e cigarro ao canto da boca, passa por nós, com uma cadelita pela trela. Pára à nossa frente. A cadelita treme as patas traseiras com receio. E o funcionário balbucia umas quaisquer palavras numa tentativa de esboçar uma qualquer espécie de sentimento para com a cadela... mas, infelizmente, tudo soa a falso ali dentro.
Entramos, então, no Gatil, onde, segundo me informaram, na semana passada se encontravam inúmeros gatos. Agora, apenas, algumas escassas celas se encontram ocupadas (sobretudo por gatinhos bebés); enquanto 6 celas se destinam a cães, não se compreendendo lá muito bem porque se encontram ali no Gatil e não no Canil.
Enquanto as outras pessoas do meu grupo, com a ajuda do funcionário municipal (o tal do brinco na orelha e cigarro ao canto da boca), retiram de uma das celas os 4 gatos que vínhamos buscar, começo a vaguear sozinha pela claustrofóbica sala do Gatil, tentando contornar os diversos montes de excrementos que se amontoam no chão.
As janelas escasseavam ou eram praticamente invisíveis naquela sala forrada a toda à volta daquilo que se poderia apelidar de jaulas (mas que, de acordo com todas as inscrições visíveis e, até mesmo, decorrendo das próprias palavras dos funcionários e do veterinário municipal se conveio chamar de “celas”) e apetrechada com inúmeros objectos metálicos…
Quem tivesse para ali sido levado de olhos vendados crer-se-ia, ao ser desvendado, num matadouro ou numa qualquer espécie de local imundo destinado a práticas de tortura.

Perante a confusão gerada por um dos gatos do grupo dos 4 que teima em não querer entrar na transportadora, aproveito para ir fotografando o local. Apesar da aparente calma, as mãos tremem-me e tenho a certeza que as fotografias não ficarão em condições, mas é uma oportunidade única. E não fora um dos membros do grupo que acompanhava pedir-me para parar de tirar fotografias, o testemunho que
aqui deixaria seria bem maior.
Numa cela, 3 gatinhos bebés… 2 miam desesperados, enquanto uma bebé tricolor aninhada a um dos cantos permanece prostrada, mal conseguindo abrir os olhos, junto a uma poça de diarreia. O maiorzito dos bebés atira-se violentamente contra as grades, tentando chamar a nossa atenção, querendo, apenas, um pouco de atenção e calor humano.
Há uma semana tinham sido ali deixados, juntamente, com a sua mãe pelos donos (alguém que os tivera aos quatro numa casa). Na noite passada, o corpo gélido e moribundo da gata mãe fora encontrado com os filhotes aninhados na sua barriga.

Ninhada após saída do Canil/Gatil Municipal de Lisboa. A gatinha tricolor continua muito prostrada e, possivelmente, não sobreviverá.Na cela ao lado, uma ninhada de cachorrinhos entre os 6 e os 7 meses, latem em uníssono.
Numa das celas maiores, ao fundo da sala, uma
cadela arraçada de Labrador, lindíssima, com o seu pequeno filhote.
Na outra ala, dentro da mesma cela apertada, um grupo de 4 gatos pretos, acompanhados por um belo gato cinza e branco, bufam com um olhar angustiado de medo, quando passo.
Na parede da entrada, do lado direito, dentro de umas 6 celas, o latido dos cães é desesperante.
Mas o que mais me impressiona é, sem dúvida alguma, naquela cela logo à frente da porta de entrada,
o gato aninhado imóvel a um canto da cela, com um olhar profundamente apático, como que resignado à sua triste sorte.
4 gatos adultos e 3 bebés são as saídas previstas juntamente com o nosso grupo de 6 pessoas.
Antes de saírem definitivamente do Canil/Gatil Municipal, os animais têm, no entanto, de ser vistos pelo veterinário de serviço (estranha e ocasional prática essa, para animais que durante todo o tempo que se encontram no Canil não são sequer examinados, tratados das doenças que tiverem - ou daquelas que vierem a adquirir devido ao local em que se encontram - ou, sequer, bem alimentados!)… e durante cerca de uma hora e meia o nosso grupo permaneceu no consultório para exame dos animais, por parte de um veterinário que se queixava constantemente da quantidade de trabalho que, ainda, tinha para fazer.
O funcionário da argola na orelha entrava e saía do consultório, gesticulando algumas frases sobre um gato
“meia cauda”, que, afinal, descobrimos tratar-se de um dos bebés cuja cauda tinha sido cortada. Olhava para a transportadora e, com o seu ar meio retardado, agachava-se e começava a colocar as luvas de lona, para fazer festas aos gatinhos bebés.
Tudo ali soava a desfasado da realidade e falso!... Como se tivéssemos sido colocados dentro de um pesadelo em que, persistentemente, os outros personagens nos tentassem demonstrar por palavras e/ou gestos, que os horrores a que assistíamos não existiam na realidade.
Sem nunca ter entrado sequer, anteriormente, no Canil, até ali tinha me mantido firme e suportado tudo o que já vira (graças, sobretudo, à ajuda de um ansiolítico que tomara antes de sair de casa, pois estava, de antemão, preparada para o pior!).
Foi, então, que entrou no consultório do veterinário um cão (que havia sido reservado por um dos membros do grupo que eu acompanhava), arraçado de pequinois, literalmente arrastado pela trela feita de corrente e terminando numa grossa coleira de cabedal envelhecido, por um outro funcionário municipal que acabara de entrar no turno… O cão mal se conseguia mover e era um misto de pêlo longo embebido em água suja e lamacenta. Quando entrou a sala ficou empestada daquele cheiro nauseabundo que persistia por todo o edifício. E, ao ver o estado daquele animal, pensei que eu própria iria desfalecer ali a qualquer momento.
Os seus donos tinham-no deixado no canil há uma semana atrás e esta tarde saiu, também, do canil connosco.
Este era o estado em que o Rasta se encontrava ao fim de uma semana de permanência no Canil de Lisboa.

Duas últimas fotografias de Susana Gomes.
O Rasta depois de ser tosquiado.
Quando, finalmente, nos despachámos de todas as consultas e verificações aos animais, caminhámos pelos longos corredores, com o pobre cão a arrastar-se roçando-se pelas paredes, talvez, com medo do local para onde iria ser levado.
Por detrás de uma porta de vidro, vislumbro o Canil (onde não cheguei a entrar e me disseram, mais tarde, ser o pior local do edifício), onde em compartimentos quadrados do tamanho de pequenos polibans, se encontram cães acorrentados. Quando passamos, alguns começam a latir e a olhar para nós desesperados, enquanto outros apenas jazem ali de olhar vítreo.
Com uma transportadora com o gato amarelo da Dª. I. nas mãos, só penso em sair daquele lugar medonho o mais rapidamente possível.
E, quando saímos a porta do edifício e voltamos a respirar o ar puro, até os raios de sol me parecem mais brilhantes.
Ao final da tarde, quando regresso ao meu mundo, olho para as minhas gatas tranquilas a dormirem ao sol da tarde no escritório, vislumbro lá fora nos quintais os gatos vadios que se espraiam languidamente por entre as telhas… e não consigo conter as lágrimas por muito mais tempo.
Há algum tempo atrás, jurara a mim própria jamais entrar algum dia no Canil de Lisboa (precisamente por ter ouvido contar tantas histórias sobre os horrores que aí sucediam e por me conhecer bastante bem e saber que as minhas fracas emoções e o meu amor pelos animais não aguentariam ver tal espectáculo), por força das circunstâncias, esta tarde, entrei pela primeira vez no Canil… e fiquei doente com o que vi!
Alguém me dizia que tentasse esquecer o que tinha visto… talvez para meu próprio bem e para não sofrer mais.
Mas a verdade é que, depois de se ter entrado uma única vez que seja no Canil Municipal de Lisboa jamais conseguiremos esquecer o triste espectáculo da degradação a que um animal chega devido à falta de comiseração de que o Homem (aquele que o abandonou e aquele que, agora, o encarcera) é capaz…
Podemos, porventura, dizer que num mundo perfeito nada disto sucederia. E que o nosso mundo se encontra longe de ser perfeito!...
Sendo que, talvez, por isso mesmo possa existir uma qualquer falta de ineficácia do próprio sistema, na medida em que não consegue fazer face ao elevado número de casos de abandono de animais com os poucos meios que o Canil/Gatil Municipal de Lisboa, eventualmente, disporá para realizar o seu trabalho.
No entanto, nada justifica ou pode sequer desculpar aquilo que presenciei hoje (uma total ausência de sentimento para com outro ser vivo), na medida em que, por experiência própria, posso afirmar que há sempre formas de contornarmos a escassez de meios humanos e monetários… se gostamos daquilo que estamos a fazer, se amamos verdadeiramente o nosso trabalho.
O que não é o caso no Canil/Gatil Municipal de Lisboa!...
O trabalho num Canil é, certamente, dos mais ingratos, como qualquer trabalho que envolva a morte ou aniquilação de um ser vivo. No entanto, esse mesmo trabalho deverá ser exercido, de acordo com a Convenção Europeia de Protecção dos Animais (que Portugal, também, ratificou), com o mínimo de inflicção de dor ou sofrimento desnecessário ao animal, com a tolerância e respeito para com o mesmo, bem como com a salvaguarda da higiene e do bem estar necessários.
O que dizer, então, de todos aqueles animais que ali permanecem deitados, imóveis, com os olhos prostrados e sem qualquer tipo de expressão, para além de um misto de medo e apatia profunda. Ou dos outros que já, há muito tempo, enlouqueceram e não fazem mais do que passar os seus dias a olhar para a pequena parede da sua cela. Ou dos que nos ladram ou miam quando nos aproximamos, pedindo um pouco daquela atenção que nunca tiveram ou têm.
O que dizer, também, das celas diminutas em que se amontoam aos 4 e 5, com um único prato para a comida e outro para a água, junto de fezes e vómitos ressequidos (apenas limpos à mangueirada geral de água fria contra as suas celas, sejam adultos ou recém-nascidos), vivendo em cima de grades onde não existe sequer uma cama ou areão.
O que a Câmara Municipal de Lisboa diz de tudo isto é que os animais abandonados ou todos os outros que dão entrada no Canil/Gatil Municipal não passam de meros resíduos sólidos da cidade de Lisboa… já que o
Departamento sob o qual a tutela deste espaço municipal é mantido é, exactamente, o mesmo que tem por objectivo tratar os supra mencionados resíduos.
O que eu, mera cidadã anónima que entrou hoje, pela primeira vez, neste local digo é que me envergonho de viver num país assim, um país onde o progresso moral roça o nível das sarjetas mais imundas da capital.
E que, enquanto as mentalidades de quem está no poder não mudarem, persistiremos num sistema que escolhe a dedo os seus cárceres, de modo a que sejam indivíduos que não tenham um pingo de sensibilidade ou gostem sequer de animais, talvez, para que o seu trabalho seja efectuado com mais “perfeição” e, até mesmo, requintes de sadismo.
Mentalidades que precisam, também, de mudar ao nível de todos aqueles que continuam a, brutalmente, abandonar os seus animais, como se se tratassem de objectos e que nunca chegam sequer a ver o estado em que estes terminam (para que lhes pese nas suas consciências – se é que as têm!), quando atropelados numa estrada, mortos num Canil ou
neste estado.
E, porque todos nós somos cúmplices do que se passa, ao fecharmos os olhos àquilo que sabemos que nos irá fazer sofrer, à visão das atrocidades que nos poderão pesar cá dentro…
É preciso, sobretudo, que cada um de nós se mentalize e tenha conhecimento da forma como os animais são tratados neste país e tente fazer algo (no pouco que está ao seu alcance) para ajudar a mudar esta situação.