- Dia Internacional dos Direitos Humanos -Um casal de amigos meus tem em sua casa um
stock de garrafas de champanhe que vai abrindo, religiosamente, de cada vez que morre um ditador no mundo.
Verdade seja dita, nos últimos anos, penso que eles não têm tido necessidade de repor o
stock porque, como é bem sabido, apesar das atrocidades cometidas, esta "espécie" tem uma vida longa.
A
morte de Pinochet hoje, depois de uma lenta agonia física e de longas (e infrutíferas) batalhas judiciais (levadas a cabo por todos aqueles que queriam ver reposta a justiça no caso dos desaparecimentos do Chile), precisamente, no Dia Internacional dos Direitos Humanos, não podia ser mais exemplificativa de que o destino tem estranhas formas de ser exercido.
Ou melhor, que cada um paga, nesta vida (com o sofrimento lento, apesar da justiça não ter chegado a ser executada), pelas acções que pratica e cada qual tem aquilo que merece.
Bem sei que uma humanista como eu não deveria dizer este tipo de coisas... mas há dias assim!!
- Se (eu tivesse o hábito de jogar e) me saísse o Euromilhões –
Era nesta casa que aplicaria metade do dinheiro que ganhasse!
Cada um tem os seus (estranhos) sonhos!...

Desde que nasci, sempre vivi em Benfica e não conheço outra freguesia melhor para viver do que esta (digam o que disserem os seus detractores, pois sou bairrista qb.)!
Nesta antiga região saloia, para onde vinham em tempo de férias os senhores do reino, persistiam ainda algumas casas apalaçadas que nos relembravam esses tempos ancestrais.
Quando era pequena, depois de almoço, costumava dar longos passeios com o meu avô pelas ruas e ruelas de Benfica.
E ficava sempre maravilhada e com a imaginação a funcionar a 160km/h [quem me conhece bem sabe que faço sempre grandes “filmes” na minha cabeça com o que quer que seja – tenho que deixar aqui a nota para, um destes dias, escrever sobre como tudo isso começou, em criança!], quando passávamos no meio da Rua Cláudio Nunes e via os portões daquela enorme quinta, onde sobranceira se erguia uma casa apalaçada, de onde pendiam lindíssimas flores em forma de campainhas roxas a enfeitar os muros.
No fim da Calçada do Tojal, havia também outra casa, mais pequena, que me deixava em êxtase contemplativo. Tinha um sótão que, visto assim da rua, parecia enorme e no qual me imaginava a brincar com o meu irmão.
Depois, já na Estrada de Benfica (onde hoje se situa a estação dos CTT e a loja do
“Calçado Guimarães”), havia aquela magnífica casa de que todos falavam nas redondezas, mas cujas minhas lembranças já são mais ténues.
Todas elas desapareceram, qual testemunhos que teimam em ser apagados pelos enormes prédios que foram tomando os seus lugares.
Uma das últimas extinções ocorreu a meio deste ano, depois de ter tombado uma das suas torres, acabaram por deitar também abaixo o edifício do antigo Colégio Grão Vasco (ala dos rapazes), onde, em tempos mais recentes, funcionara o recinto da Praça (ou mercado) de Benfica.
Altaneira, quase no final da Estrada de Benfica (antes de chegarmos à Damaia), persiste ainda esta casa, que, em conjunto com uma outra do lado esquerdo, compõe aquilo que outrora foi a Vila Ventura (o tempo corroeu já alguma outra palavra que ficava entre estas duas e nos impede de saber o seu nome exacto).
Nesta casa ainda vive uma velha senhora que, por vezes, observo a dar comida a alguns gatos vadios que lhe aparecem no pequeno quintal fronteiriço. Ponho-me logo a pensar como será a vida daquela velha senhora, que habita uma casa de 100 divisões… onde, antigamente, deveriam existir crianças a correr de um lado para o outro, empregadas nas suas lides diárias e festas e
soirées de gala… e a velha senhora, agora, ali permanece com a imensa carga de transportar sozinha todo o seu passado.
A casa do lado esquerdo (da qual, também, já
aqui deixei registo fotográfico) está abandonada. Tendo, recentemente, sido apropriada a sua ala esquerda por alguns toxicodependentes da zona, para aí pernoitarem.
Na sua ala direita, pelo menos desde o Mundial de Futebol deste ano, vive um “ocupa”-anónimo de meia idade, que vislumbrei, um dia destes, a pintar cuidadosamente a janela
oeil de boeuf (provavelmente da divisão onde habita) e a porta de entrada. E a casa, aparentemente devoluta, parece ganhar uma vida muito própria quando, em dias de jogo do Sport Lisboa e Benfica, vemos hasteada na pequena janela redonda a sua bandeira, ou, quando se aproxima o Natal, e as iluminações também lá aparecem, colocadas na pequena janela. E eu e a minha imaginação acelerada ficamos sempre a fantasiar mil e uma histórias a propósito daquele estranho que ocupou, apenas, aquela pequena divisão da casa da Vila Ventura.
E, como nada mais há a fazer do que imaginar (porque os seus proprietários ou o próprio Estado não estão interessados em recuperar a Vila Ventura nem todas as outras casas apalaçadas que existam por Benfica e arredores... a menos que isso lhes traga alguma contrapartida financeira)... hoje apeteceu-me deixar aqui um breve registo sobre a casa dos meus sonhos que, mais dia menos dia, desaparecerá também!...
- A Lua feita em pedaços -Esta noite...