
E eis senão quando, chegados ao lugar de Vila Pouca, me deparo com um pitoresco aglomerado de casinhas fincadas umas às outras, criando ruelas estreitas, no que se poderia apelidar de uma pequena colina, onde não falta mesmo o característico largo de aldeia – junto à igreja – com os seus banquinhos e a paragem da carreira.
Por momentos, até consegui sentir saudades da Azóia de Cima, aldeia ribatejana onde, há 9 anos atrás, realizei o meu primeiro trabalho de terreno no curso de Antropologia.
Ainda mal tínhamos entrado em casa, enquanto a inspeccionávamos do exterior, deparámo-nos logo com uma vizinha, de negro vestida, que nos olhava no terreno mesmo junto à casa, apoiando-se num estendal.
Aproveitou para se apresentar e perguntar se éramos os novos donos daquela casa.
Já no interior, aproveitei para me ir entretendo, captando algumas imagens em filme, para que o meu irmão pudesse posteriormente visualizar melhor a casa com vista à sua decoração.
Curiosamente, na casa-de-banho, deparo-me com uma
janela que dá paredes-meias com uma das estreitas vielas que compõem aquela aldeia (ainda pensava eu que a minha casa-de-banho em Lisboa, que dá para alguns quintais, ficava demasiado perto dos prédios da rua das traseiras. Mas aqui o perto é mesmo sinónimo de quase em cima da casa-de-banho do vizinho!). Por momentos, enquanto avanço com a objectiva, penso que, dali a nada, ainda me aparece alguém na rua, do outro lado da janela… e, bem dito, bem feito, deparo-me com uma velhota que, ao passar, e ver as janelas abertas, olha sorrateiramente lá para dentro. Fugimos as duas. E penso para mim própria: -
“Já fiz porcaria, como é meu hábito… mas, pelo menos, fico aqui com um documentário antropológico digno de renome!”.
[Nota: - podem ver o filme,
aqui.]
Coincidência ou não, algumas horas mais tarde, deparamo-nos com a dita cuja senhora, vizinha de uma das casas ao lado, sentada na soleira da sua porta, acompanhada de duas mulheres mais novas e de 3 gatos, amarrados a umas trelas.
E as 3 mulheres não cabiam em si de curiosidade perante aquelas 3 outras alminhas que ali andavam de um lado para o outro, dentro de uma casa de janelas abertas de par em par (mais tarde, nesse dia, viríamos a saber que os antigos proprietários nunca abriam as janelas – o que a aldeia em peso considerava deveras estranho -, para além do mofo e musgo que se fora criando nas soleiras das janelas)… E, muito logicamente, desde que a mais velha fora filmada enquanto inspeccionava a casa-de-banho do vizinho, estavam desejosas de meter conversa com aquelas novas pessoas que pareciam caídas de pára-quedas em Vila Pouca.
A minha mãe fez-lhes o gostinho ao dedo, ao assomar à janela e começar a falar sobre os gatos que a senhora mais velha (a mesma que fora filmada) tinha presos pelas coleiras.
Conversa puxa conversa, e ficámos a saber que a casa que o meu irmão adquirira já tinha tido 3 proprietários (incluindo o meu irmão) e que, curiosamente ou não, quando me viram pensaram que se tratasse da Mena, a primeira proprietária, que era cabeleireira e muito parecida comigo
(“até no corte de cabelo e tudo”, segundo mencionaram).
Depois falaram sobre os segundos proprietários, e o seu grave problema em abrir janelas de par em par, fazer limpeza da casa e tratar das plantas que envolviam a casa.
E, na nossa família, ficámos com a ténue sensação que o meu irmão vai ser o próximo a ser falado no lugar de Vila Pouca (sobretudo, porque ele já tinha a intenção de retirar dali as plantas, que viemos a saber terem sido plantadas pelas 2 mulheres mais novas)… felizmente, que, durante os próximos tempos, ele só lá irá aos fins-de-semana, para ir fazendo trabalhos de recuperação na casa.
Aproveitando o facto de se ir divagando sobre plantas, a mais nova das 3 mulheres quis então mostrar-nos a sua casa e o terraço onde guarda as flores e plantas que cultiva.
Chegados ao local, dois passos a seguir, na rua das traseiras da casa do meu irmão, deparamo-nos com uma casa enorme, composta por vários aglomerados e escadas, num projecto arquitectónico neo-minimalista, com alguns traços de fortaleza… denotando que esta senhora seria uma das principais “notáveis” do lugar de Vila Pouca.
O tal recanto das suas plantas não passava, praticamente, de uma selva (e pensava eu que a minha mãe tinha muitas plantas na varanda da sua casa!), onde mal nos conseguíamos mover, temendo sempre pisar algum vaso ou dar cabo da folha de alguma planta. Mas a minha mãe ficou encantada e, ainda, conseguiu voltar carregadinha de flores para Lisboa!
Já a “notável” vizinha dizia-nos constantemente que lhe tinha acontecido uma desgraça e que agora já não era a mesma, já não conseguia tratar das suas plantas como antigamente. Calávamo-nos os 3, temendo intrometer-nos na vida da dita cuja senhora. Mas nem 5 minutos tinham passado, e a senhora voltava ao mesmo, numa estranha ânsia de partilhar a sua desgraça com 3 estranhos. Com a curiosidade que me caracteriza, também, já não conseguia suportar mais aquela situação… até que a senhora lá acabou por nos contar que era casada há 20 anos e na passada 6ª feira, quando celebrava o aniversário de casamento, o seu marido saíra de casa, largando-a com um filho de 15 anos, para se juntar à amante de 20 anos, que conhecera por vias da Internet.
Neste ponto, o meu irmão terá, eventualmente, pensado que teria que se lembrar sempre, das próximas vezes que retornasse a Vila Pouca, de nunca contar à senhora que trabalhava em Informática, ou correria o risco de ser ainda mais mal-falado na aldeia do que por causa das simples plantas.
A conversa foi-se alongando e a tarde caía rapidamente, com um vento frio a começar a enregelar-me os pés e as mãos. Apesar de entusiasmada (quase em ebulição!) com todo este cheirinho a bom terreno de Antropologia que imperava naquele lugar, comecei a desligar completamente das restantes conversas; não sem que antes tivesse, finalmente, compreendido o motivo pelo qual aquelas mulheres protegiam tanto os seus gatos, amarrando-os a trelas, quando a aldeia parecia tão pacata… os caçadores da zona haviam, recentemente, morto uma série de gatos abandonados que por ali abandonavam (sendo alimentados por algumas pessoas da aldeia), com medo que estes lhes comessem os coelhos que iriam caçar.

Regressámos a casa, em Lisboa, por entre risos e gargalhadas, ao lembrarmo-nos deste nosso regresso ao campo e das nossas primeiras impressões sobre tudo o que nos acontecera.
E eu, apesar de enregelada e prestes a chocar uma gripezita, fiquei em pulgas para voltar a Vila Pouca, Enxara do Bispo… dando graças ao meu maninho por ter comprado uma casa na aldeia!