
Como algumas (escassas) pessoas neste país, eu até nem gosto de futebol (nunca gostei!!), mas, verdade seja dita, nos jogos do "Mundial" vibro sempre bastante com a nossa selecção (já em 2002 foi a mesma coisa - mas, talvez, com uma intensidade mais forte, por me encontrar longe, a estudar em França e as saudades serem muitas)!...
Não sou muito dada a demonstrações de alegria esfusiantes (é o meu feitio, ou defeito!), por isso, nunca venho para a rua gritar "Portugal, Portugal" ou apitar a buzina do carro (que nunca tive), como 90% das pessoas aqui do meu bairro (e, também, não tenho a bandeira nacional colocada na janela)... mas abro sempre a janela da sala e fico a vislumbrar a alegria dos outros, sorrindo a quem passa e acenando aos vizinhos do prédio em frente, que repletos de alegria me chamam.
Existe, de facto, algo (um sentimento?) muito forte que consegue juntar assim as "massas" (em qualquer país que seja), fazendo-as transformarem-se num uníssono a clamar pela sua própria nação.
Antropologicamente falando, nem sequer é o simples jogo de futebol que interessa para este sentimento, mas sim algo de muito mais forte: o querermos ser melhores do que o "Outro", do que aquele que é diferente de nós, do que aquele que é nacional de um país diferente do nosso. A diferença que sempre exitiu e continuará a existir entre grupos diferentes, que se diferenciam, precisamente, como forma de valorização pessoal de cada um dos grupos.
Não se pode dizer que este sentimento de comparação, competição e superação do "Outro" seja maléfico ou tenha laivos de xenofobia e nacionalismos exacerbados (como alguns actualmente pretendem fazer crer), quando o mesmo é enquadrado de uma forma "desportiva" e "saudável". Por isso achei muito acertada a oportunidade criada pela campanha contra a discriminação para ser lançada logo no início do jogo, alertando precisamente para actos que não se devem repetir.

Continuo, também, a achar muito interessante o facto de o "Mundial" conseguir "unir" povos de países e continentes tão díspares numa amena confraternização (como aquela a que se podia assistir esta noite, na Feira de Artesanato, na FIL, enquanto expositores de diferentes países assistiam ao Brasil x França, cada um "torcendo" pela selecção que mais lhe agradava, mas sem incidentes a registar -foto em baixo)... porque isso, sim, é o verdadeiro muliculturalimo.

E, se não chegarmos à Final (ou mesmo que lá consigamos chegar), pelo menos este "Mundial" serviu para desanuviar os espíritos de todos os portugueses que continuam, no seu quotidiano, a enfrentar uma grave crise sócio-económica.
Não levem por isso mal, todos os senhor@s intelectuais que vislumbram nestes jogos um "tapar o sol com a peneira" dos reais problemas que o país vive, nem se inquitem com um eventual redobrar no nacionalismo tendente ao fachismo... porque o povo é sereno e apenas se quer distrair e divertir (tmbém o merecemos, depois de tudo aquilo que continuamos a ter que suportar)!!!
A selecção até pode nem trazer a taça, no final, para casa; e o "Mundial", também, não trará grandes alterações à vidinha em Portugal, que persistirá ainda por largos anos na mesma cepa torta burocrática... mas, pelo menos, durante um mês o povo teve alegria, motivação e esperança (algo que jamais fez parte do "ser-se português").