[Ver : Parte I, Parte II]
Hoje estou cansada, cheia de dores de cabeça, triste e desiludida!...
E a chuva que tem caído, incessantemente, ainda me deixa mais deprimida.
As buscas pela Meg têm-se revelado infrutíferas!...
Foi roubada há cerca de 2 semanas e, desde então, todas as pistas de que se tem tido conhecimento sobre o seu eventual paradeiro têm sido muito vagas.
Na altura em que comecei a escrever sobre este caso aqui no blog, nunca mencionei essas pistas que existiam, pensando que, talvez, assim fosse melhor: não fazer muito alarido sobre o assunto, até que se descobrisse qualquer coisa de concreto. Mas, actualmente, da maneira que as coisas estão, o melhor mesmo é escrever, como forma de exorcizar tudo aquilo que tenho vivido nestes últimos dias!...
Pistas & Factos:
Depois do roubo, o Sr. M terá ido, por sua conta e risco, seguindo uma qualquer indicação, para Setúbal, onde se encontrou com um dos patriarcas ciganos, contando-lhe toda a sua história e a da Meg. O cigano terá chorado ao ouvi-lo, dizendo que, caso lhe fossem oferecer a Meg, a devolveria ao Sr. M.
Entretanto, surgiram alguns relatos de diversas testemunhas que viram a Meg ser enfiada à força dentro de um carro cinzento escuro, onde seguiam 3 ciganos, perto da Praça de Benfica. Não se sabe bem como ou devido a que outra pista, o Sr. M foi com dois amigos ao Bairro da Boavista... onde, perto de uns quintais, terá chamado pela cadela, ouvindo, em seguida, o seu latido, mas não a tendo visto. No dia seguinte, voltaram ao mesmo local e a cadela já não estava lá, tendo o Sr. M sofrido ameaças caso voltasse a entrar naquele bairro.
Posteriormente, na passada 5ª feira, um dos amigos do Sr. M disse à T. quem era o tal cigano já de idade, avô de uma das pessoas que foi vista dentro do carro que levou a Meg. Movida pela emoção, bem como pelo facto de já conhecer esse cigano ali de Benfica há mais de 30 anos, a T. dirigiu-se a ele, oferecendo dinheiro em troca da cadela e dizendo que a polícia já estava ao corrente de tudo.
Por outro lado, segundo parece, os primeiros ciganos que, há muito tempo atrás, tinham oferecido dinheiro ao Sr. M em troca da cadela (de acordo com o que lhe disseram na altura, porque a queriam oferecer a um avô, um patriarca cigano), tinham um carro cuja matrícula estava registada numa morada em Vale de Milhaços (Almada).
Vi-me envolvida no meio de toda esta história, pelo simples facto de, na passada 4ª feira, seguindo a indicação de uma amiga que tem experiência neste tipo de situações, ter resolvido telefonar para um dos números de telefone que vinha no anúncio de desaparecimento da Meg... para informar que, caso tivessem a certeza absoluta do local onde a cadela se encontrava, poderiam lá ir com a polícia, o Sr. M, 2 testemunhas e o médico veterinário que esterilizara a Meg, sendo as pessoas que tinham a Meg obrigadas a devolvê-la.
A partir desta altura, já não havia volta... e estava enredada na própria busca pela Meg!...
Na 6ª feira, a T. e a F. pediram-me para ir falar, de uma forma mais diplomática, com o tal avô cigano, com quem na véspera a T. tinha sido algo brusca. Por volta da hora de almoço, quando a Praça já tinha fechado e os feirantes se encontravam em arrumações das suas bancas, fomos procurá-lo, mas não estava lá.
Ficou, então, tudo re-agendado para hoje de manhã... sábado, fim do mês, quando a Praça está mais cheia de gente, inevitavelmente, ele teria que lá se encontrar.
Com algum receio de uma primeira abordagem ao tal avô cigano (pois, nós os antropólogos não sabemos tudo!), ontem à noite falei com uma amiga e ex-colega de universidade, que se encontra, actualmente, a efectuar uma tese de doutoramento sobre a comunidade cigana.
Ao contar-lhe toda esta história, a Ana ficou algo estupefacta, sobretudo, por saber que os ciganos não caçam... logo, não teria sido pelo simples facto de o Sr. M andar sempre a valorizar a sua Meg, dizendo que ela era uma podenga pura, que a teriam roubado.
"Talvez alguém se tenha afeiçoado a ela, por já ter tido uma cadela parecida, ou por ser uma pessoa de idade que já esteja sozinha e precise de companhia", disse-me a Ana.
"O melhor é ires com calma, pedires-lhe ajuda e nunca o acusares. Nunca fales na polícia, nem em roubo, porque isso assusta-os. Mas pergunta-lhe o que é que poderá ter movido alguém a levar a cadela. Conta a história do Sr. M e enfatiza a necessidade que ele tinha da companhia da Meg, devido a tudo aquilo que já viveu. (...)
Nunca demonstres medo ou nervosismo e repete-lhe o pedido de ajuda", prosseguiu a Ana.
Pareceram-me conselhos bastante sábios e esta manhã com o discurso de mediação na ponta da língua e, tal como combinado anteriormente com a T., apareci no café às 9h30, hora a que normalmente o tal avô cigano lá costuma, também, ir com a sua mulher, para tomarem o pequeno-almoço. E nada... Ainda por cima, de madrugada, o café tinha sido assaltado, e o ambiente que pairava no ar era meio estranho.
Esperei mais meia hora, uma hora, já à porta da loja onde a T. trabalha (do outro lado da rua, em frente ao café) e nada, não havia meio de o cigano aparecer. Ainda tive que ouvir os comentários estereotipados de quem passava, sobre a eventualidade da cadela estar a ser utilizada pelos ciganos para "lutas de cães"... e o esforço de tentar manter a calma, para o meu discurso de mediação diplomática.
Mesmo chuvendo a potes, resolvi então ir à Praça, dar uma vista de olhos, aproveitando a descrição física que a T. me fizera do senhor.
1, 2, 3 voltas à Praça, cá fora nas bancas dos ciganos e lá dentro, junto dos cafés e nada!...
Voltei à porta do café, onde o Sr. M se encontrava, a pedir esmola, para tentar confirmar com ele (que nada sabe a propósito destas nossas diligências) se, por acaso, já tinha visto passar por ali o tal avô cigano. Não, também, ainda não o vira.
Mas fiquei a saber que o pai do Sr. M, de 82 anos, tinha sofrido um ataque cardíaco na véspera, encontrando-se em estado considerado estável no hospital.
"Mais uma, para juntar a tudo o que me está a acontecer!...", disse-me o Sr. M.
Fiquei momentaneamente sem palavras, para de novo lhe voltar a falar da onda de solidariedade que se tem gerado em torno dele e da Meg.
"Eu não sabia que havia tanta gente a querer ajudar-nos. Só isso é que me faz continuar", respondeu-me.
No café, ainda, encontrei a F. que, de um momento para o outro, começou a desabafar comigo (dizendo que eu era uma pessoa "que tinha formação" e a iria compreender) a propósito da sua desmotivação perante as buscas, sobretudo pelo facto de, desde o início, ter sido ela a ir tirar as fotocópias a cores para o anúncio, andar de um lado para o outro com o seu carro e as
"outras pessoas" nem sequer lhe perguntarem se precisa de ajuda... não se estando, necessariamente, a referir a mim. Mantive-me diplomática e disse que a ajudaria no que fosse preciso.
A F. tem a doença de Crohn, está desempregada e o seu pai faleceu há cerca de um mês. É uma mulher jovem, bonita e simpática, nascida numa família de classe média alta que noutros tempos viveu em Angola (pelo que me contou). A maioria dos seus familiares pertenceram à Marinha, e nota-se que ela prória teve uma educação rigorosa. No seu discurso dá muita importância ao facto de alguém ter um curso superior (apesar de ela própria o não ter) e sente-se que se encontra inferiorizada, não só por ter que estar em casa, mas, também, por ter de conviver com pessoas que já conhece desde miúda, mas
"com uma outra formação", como ela própria diz.
Com a cabeça completamente esvaída, voltei à Praça, para mais uma volta em busca do avô cigano. Mais uma vez, nada!
Até que me decidi a ir falar com uma cigana de meia idade, a quem, de vez em quando, a minha mãe compra algumas coisas.
Reconheceu-me logo. Contei-lhe o caso, e ela só me disse: -
"Ah, isso quem deve saber alguma coisa é a polícia, ou esses que dormem aí debaixo dos telheiros" (referindo-so, por último, aos toxicodependentes, que ali pernoitam).
Disse-lhe que a polícia não estava envolvida no assunto (mais tarde, a Ana viria a explicar-me que ela me estava a colocar à prova; comprovando-se, assim, a minha teoria de que ali junto dos feirantes da Praça todos sabem o que se passou e, eventualmente, onde estará a cadela).
Chamou uma velhota não cigana para lhe perguntar se sabia alguma coisa da cadela. Uma pessoa rude e mal educada, de mentalidade tacanha, que, apenas, me disse que quem levou a cadela, provavelmente, já não a devolve... e que não gostava de animais, que eram porcos e sujavam tudo.
Engoli em seco, respirei fundo (para não dar àquela velha a resposta que ela merecia) e agradeci à cigana.
Amanhã irá alguém a Vale de Milhaços (Almada), para sondar se a Meg lá está. Era uma das outras pistas.
Sinto-me cansada, cheia de dores de cabeça, triste e desiludida!...
Como medir a nossa própria capacidade de suportar sentir/ver o sofrimento dos outros?
Por causa do desaparecimento da Meg, tenho lidado mais de perto com uma série de pessoas que sofrem (como todos nós, em determinados momentos das nossas vidas) e que querem desabafar sobre isso.
E hoje eu já não aguento mais!...
Eu bem sei que não me devia envolver tanto nas coisas!... Mas, às vezes, até parece que as atraio, como diz a minha mãe.