terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

A Meg e o Sr. M - IV

[Ver Partes I, II, III]

No domingo encontrei, por acaso, a F. e acabámos por tomar café juntas.
Falou-me sobre o facto de algumas pessoas ali no bairro terem considerado como um bom castigo o que acontecera ao Sr. M, já que, segundo elas dizem, "ele tratava muito mal a cadela". Parece ter havido, também, alguém que diz que o viu, certa vez, passar com uma das rodas da sua cadeira por cima de uma das patas da Meg.
A F. quis tirar tudo a limpo e perguntou-lhe se era verdade o que diziam, tendo ele respondido que não.
A verdade é que, também, eu nunca vi nada de anormal no tratamento que ele dava à cadela, muito pelo contrário! Nunca me hei de esquecer daquela imagem, numa noite em que chegava a casa mais tarde, quando o vi seguir na sua cadeira de rodas, com a Meg ao colo, a lamber-lhe a cara.
No entanto, as pessoas gostam sempre muito de falar e de dizer mal do que quer que seja. E o facto de o Sr. M não ter condições financeiras (ou outras -derivadas da sua própria história de vida) e viver na rua, juntamente com um grupo de toxicodependentes, é motivo suficiente para agora se vir dizer o que quer que seja sobre a forma como ele tratava a Meg.
De qualquer modo, não consegui evitar que uma ténue dúvida ficasse, também, a pairar na minha cabeça (talvez por saber que um dos meus maiores defeitos é ser demasiado crédula e acreditar em tudo aquilo que as pessoas me dizem).
Bem sei que as situações nunca são somente pretas ou brancas, existindo sempre uma tonalidade cinzenta que as deforma e descaracteriza perante o nosso olhar.
No entanto, também, nunca me hei de esquecer das palavras que o Sr. M proferiu, ao contar-me sobre o roubo da Meg... palavras demasiado sinceras e sentidas, para alguém que não gostasse da Meg, ou que a tivesse vendido (como já sugerem, agora, algumas pessoas).
Por outro lado, se o Sr. M não gostasse da cadela e tudo não passasse de uma farsa, provavelmente, não se teria empenhado tanto nas buscas, após o seu roubo. O maior problema, actualmente, é que, devido à própria situação física em que o Sr. M se encontra, tem medo de dar queixa do roubo da Meg na Polícia (entregando-lhes, também, todas as provas que já se conseguiu recolher), uma vez que já foi ameaçado.
A ver vamos, qual o final que esta história terá!...


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Ontem à tarde vi o Sr. M. Vinha a atravessar a rua, com uma garrafa de cerveja ao seu lado na cadeira de rodas e a fumar um cigarro. O rosto carregado e sorumbático. O estado do seu pai (que tivera um ataque cardíaco na 6ª feira passada) piorou.
- "Ando aqui a ver se faço alguns euros, para me meter no combóio, depois apanhar um táxi e ir lá ao hospital!"
Explicou-me que nenhum dos seus 7 irmãos se interessa pelos pais, e que ele é o único que ainda os ia visitar (segundo me contou a Dª. M, parece que a própria família do Sr. M não "queria saber dele"). O seu pai já estava com Alzheimer e esquecia-se de tomar os comprimidos, este já era o terceiro ataque cardíaco que tinha. A mãe estava internada num lar.
Depois disse-me que queria adoptar um novo cão, ou ir ao canil buscar um, porque já não tem esperanças que a Meg apareça (já lha tinham roubado uma vez anteriormente, mas "ela era esperta, conseguiu fugir e veio novamente ter comigo", explicou-me. "Mas, desta vez, quem a roubou, sabia o que estava a fazer").
Como forma de desanuviar um pouco a conversa, disse-lhe que, eventualmente, ele adoptava um novo cão e a Meg aparecia-lhe de novo.
- "Ah, mas isso ela vai ter sempre o seu lugar. Se voltar, tem ainda a caminha dela... e, onde cabe um, cabem dois!", proferiu.


SPT # 10 - "All of Me"

Para terminar o desafio de Fevereiro do SPT, deixo aqui o meu último "ugly bit", um dos que me incomoda mais: - o meu pescoço, depois de ter tido hipertiroidismo (já falei sobre isso, aqui). Apesar da doença já estar controlada, o inchaço do pescoço (devido à glândula tiróideia trabalhar a mais, durante um certo período de tempo) permaneceu. Muito menos inchado do que estava em 2002, mas ainda se nota bastante... o que me deixa um pouco triste, pois como sou magra, antes de ter tido esta doença, tinha um pescoço muito bonito.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

Cidades Invisíveis

Paris, Maio 2001


“Em Cloé, grande cidade, as pessoas que passam pelas ruas não se conhecem. Ao verem-se imaginam mil coisas umas das outras, os encontros que poderiam verificar-se entre elas, as conversas, as surpresas, as carícias, as ferroadas. Mas ninguém dirige uma saudação a ninguém, os olhares cruzam-se por um segundo e depois afastam-se, procurando novos olhares, não param.
(...)
Uma vibração de luxúria move constantemente Cloé, a mais casta das cidades. Se os homens e as mulheres começassem a viver os seus efémeros sonhos, todos os fantasmas se tornariam pessoas com quem se poderia começar uma história de perseguições, de ficções, de malentendidos, de choques, de opressões, e assim acabaria o carrosel das fantasias.”

(Italo Calvino, in “As Cidades Invisíveis”)



Quem me deu a conhecer este maravilhoso livro, já lá vão uns bons 7 anos, foi o Rodolfo, um dos primeiros amigos que tive através da internet (juntamente com o Dragutin, o Alan, o Bruno e a Marija -tudo pessoas que conheci através da internet e se tornaram Amigos de verdade).
O Rodolfo e eu nunca nos chegámos a conhecer pessoalmente, mas penso poder dizer que fomos amigos. Falávamos sobre tudo e sobre nada, sobre os nossos problemas e crises sentimentais, sobre música, arte, livros e filmes. Ele, na altura, tinha uma banda alternativa, meio ao estilo Tindersticks, e frequentava bastante o "Bar com Imagens", no Castelo. E eu, tinha começado o meu curso de Antropologia.
Depois, já não sei bem porquê, acabámos por perder o contacto. Tive pena.
O mundo é pequeno, mas não tanto!...

Manias com os Livros


Podem chamar-me louca, mas a verdade é que tenho algumas manias com os livros. Aqui ficam elas:

1. Quando compro um livro, escrevo sempre no canto superior direito da 1ª página, na diagonal, a data em que foi comprado, colocando, também, a minha assinatura;

2. Detesto dobrar os cantos das folhas dos livros, como forma de marcar a página em que estou a ler;

3. Sublinho sempre a lápis as passagens que considero mais bonitas ou que, no momento em que li determinado livro, tinham um significado especial para mim;

4. Antes de começar a ler um livro, gosto sempre de ir à sua última página ler a última frase escrita. Depois, mais tarde, quando lá acabo por chegar, o entendimento que tenho dessa frase é sempre diferente;

5. Nunca consigo estar a ler apenas um único livro. Tenho que estar sempre a ler, pelo menos, dois livros... para que, consoante os meus estados de espírito e mudanças de humor, vá alternando entre um e o outro.

Sugestão do sítio do costume:



Um pouco por acaso, ontem à noite, na "2", descobri (já a meio) um excelente filme de animação: "Jasper Morello and the Lost Airship", inserido na trilogia The Mysterious Geographic Explorations of Jasper Morello, de um realizador australiano chamado Anthony Lucas.

Um filme neo-gótico, onde as personagens surgem sempre na penumbra como sombras, nunca se vislumbrando os seus rostos.
O filme conta a história de Jasper Morello, navegador de uma barca aérea, cuja noiva foi atacada por uma espécie de peste. Morello encontra um dirigível abandonado, que o conduz a uma ilha, onde acabará por descobrir uma estranha criatura, que pode muito bem ser a cura para a tal peste.
No regresso à civilização, Morello e os restantes tripulantes do dirigível passam por uma viagem repleta de horrores. Terminando Morello por descobrir que é o próprio Homem quem pode ser capaz dos piores horrores.
Ao longo da história, nunca se percebe muito bem se a acção se desenvolve no passado ou no futuro, pois todo o filme é composto por pequenos leimotivs de ambos os tempos.

Um filme fantástico que, no final, nos deixa mesmo boqueabertos... a relembrar os bons velhos tempos de Tim Burton.

domingo, 26 de fevereiro de 2006

Sobre a Necessidade de ter Estantes em Casa


Convite para almoçar em casa da mãe, com pequena alusão en passant sobre a necessidade impreteriosa de começar a empacotar os meus livros que lá ficaram... apesar de, em minha casa, ainda não ter estantes.
Tarefa aceite!...

Decidi começar por empacotar, num daqueles grandes caixotes de papelão (disponíveis aqui), os meus livros e fotocópias de livros utilizados durante a faculdade. Porque ficavam acomodados por baixo no tal caixote e assim seria mais fácil de colocar os restantes livros por cima.
Pois!...
O que eu não imaginava (ou já não me lembrava) é que 4 anos de curso de Antropologia, mais um para terminar (à vontade) a monografia final, conseguem mesmo fazer-nos acumular uma série de livros!
Resmas e resmas de fotocópias de livros encadernadas com argolas (sim, que já nessa altura, os livros eram caros!), os famosos livros de Antropologia de capa preta da Editora Presença (se não estou em erro! Agora, como já estão todos acomodadinhos dentro do caixote, já não dá para confirmar... mas estou certa que algum dos meus caríssimos leitores que seja antropólogo mo dirá!), uma série de artigos de Antropologia da Religião, já para não falar em alguns clássicos como Mircea Eliade e Lévi-Strauss... foram o suficiente para encher a tal caixa de papelão, e ainda ficar a abarrotar!
Isto para já não falar que os restantes livros (hors Antropologia) ainda lá permanecem, em 4 prateleiras, em casa da mãe!

Ou seja, há uns quantos posts atrás, já aqui tinha dito, que preciso mesmo de comprar umas estantes cá para casa, para poder arrumar os livros que me vão oferecendo (e que não tenho onde guardar, sem ser em sacos de papel reciclável)... Mas agora, a urgência é cada vez maior!!!
Felizmente que, como o carro do maninho continua na oficina, a tal caixa de papelão ainda não veio cá para minha casa (sim, que aquilo deve pesar bem uma tonelada!).

Por entre as arrumações, escondidas entre os livros da faculdade, descobri 2 preciosidades (de duas épocas bem distintas da minha vida):
- o meu exemplar d'"As Cidades Invisíveis" de Italo Calvino. Uma obra a redescobrir, porque gosto de reler assim livros passados alguns anos (neste caso, 7), para comparar as sensações que vamos tendo, consoante a idade avança;
- o meu "pequeno pónei"... que já não via há uma catrefada de anos (e ainda estou para descobrir o que fazia arrumado junto destes livros).




Dentro d'"As Cidades Invisíveis", a servir de marcador, encontrei ainda uma folha de papel A4 dobrada em 4 quartos, com estes excertos tão actuais:

"Nunca percebi quando se deixa de ser pequeno para se passar a ser crescido. (...) Provavelmente, quando nos tornamos tristes. Mas não tenho a certeza: não sei se sou crescido."

"Quando me pergunto o que fiz da minha vida suponho que devia antes perguntar-me o que fiz da vida dos outros.
Como só encontro paz se estou em guerra comigo não lhes trouxe certamente nem segurança nem felicidade. (...)
Não trouxe aos outros senão o sentimento de um provisório instável, ancorado na recusa definitiva de deixar de ser pacientemente inquieto."

"(...) dado que os acontecimentos nos ultrapassam finjamos termos sido nós os organizadores a olhar para o rio tentando como sempre transformar a melancolia em fantasia como se a vida, senhores, não fosse alegremente dolorosa e não nos deitássemos tanto do lado mau da felicidade."


(António Lobo Antunes, in "Livro de Crónicas")


E o mais engraçado é que, de momento, ando a ler o 3º livro de crónicas do Lobo Antunes!

sábado, 25 de fevereiro de 2006

A Meg e o Sr. M - III

[Ver : Parte I, Parte II]


Hoje estou cansada, cheia de dores de cabeça, triste e desiludida!...
E a chuva que tem caído, incessantemente, ainda me deixa mais deprimida.

As buscas pela Meg têm-se revelado infrutíferas!...
Foi roubada há cerca de 2 semanas e, desde então, todas as pistas de que se tem tido conhecimento sobre o seu eventual paradeiro têm sido muito vagas.
Na altura em que comecei a escrever sobre este caso aqui no blog, nunca mencionei essas pistas que existiam, pensando que, talvez, assim fosse melhor: não fazer muito alarido sobre o assunto, até que se descobrisse qualquer coisa de concreto. Mas, actualmente, da maneira que as coisas estão, o melhor mesmo é escrever, como forma de exorcizar tudo aquilo que tenho vivido nestes últimos dias!...


Pistas & Factos:

Depois do roubo, o Sr. M terá ido, por sua conta e risco, seguindo uma qualquer indicação, para Setúbal, onde se encontrou com um dos patriarcas ciganos, contando-lhe toda a sua história e a da Meg. O cigano terá chorado ao ouvi-lo, dizendo que, caso lhe fossem oferecer a Meg, a devolveria ao Sr. M.
Entretanto, surgiram alguns relatos de diversas testemunhas que viram a Meg ser enfiada à força dentro de um carro cinzento escuro, onde seguiam 3 ciganos, perto da Praça de Benfica. Não se sabe bem como ou devido a que outra pista, o Sr. M foi com dois amigos ao Bairro da Boavista... onde, perto de uns quintais, terá chamado pela cadela, ouvindo, em seguida, o seu latido, mas não a tendo visto. No dia seguinte, voltaram ao mesmo local e a cadela já não estava lá, tendo o Sr. M sofrido ameaças caso voltasse a entrar naquele bairro.
Posteriormente, na passada 5ª feira, um dos amigos do Sr. M disse à T. quem era o tal cigano já de idade, avô de uma das pessoas que foi vista dentro do carro que levou a Meg. Movida pela emoção, bem como pelo facto de já conhecer esse cigano ali de Benfica há mais de 30 anos, a T. dirigiu-se a ele, oferecendo dinheiro em troca da cadela e dizendo que a polícia já estava ao corrente de tudo.
Por outro lado, segundo parece, os primeiros ciganos que, há muito tempo atrás, tinham oferecido dinheiro ao Sr. M em troca da cadela (de acordo com o que lhe disseram na altura, porque a queriam oferecer a um avô, um patriarca cigano), tinham um carro cuja matrícula estava registada numa morada em Vale de Milhaços (Almada).


Vi-me envolvida no meio de toda esta história, pelo simples facto de, na passada 4ª feira, seguindo a indicação de uma amiga que tem experiência neste tipo de situações, ter resolvido telefonar para um dos números de telefone que vinha no anúncio de desaparecimento da Meg... para informar que, caso tivessem a certeza absoluta do local onde a cadela se encontrava, poderiam lá ir com a polícia, o Sr. M, 2 testemunhas e o médico veterinário que esterilizara a Meg, sendo as pessoas que tinham a Meg obrigadas a devolvê-la.
A partir desta altura, já não havia volta... e estava enredada na própria busca pela Meg!...

Na 6ª feira, a T. e a F. pediram-me para ir falar, de uma forma mais diplomática, com o tal avô cigano, com quem na véspera a T. tinha sido algo brusca. Por volta da hora de almoço, quando a Praça já tinha fechado e os feirantes se encontravam em arrumações das suas bancas, fomos procurá-lo, mas não estava lá.
Ficou, então, tudo re-agendado para hoje de manhã... sábado, fim do mês, quando a Praça está mais cheia de gente, inevitavelmente, ele teria que lá se encontrar.

Com algum receio de uma primeira abordagem ao tal avô cigano (pois, nós os antropólogos não sabemos tudo!), ontem à noite falei com uma amiga e ex-colega de universidade, que se encontra, actualmente, a efectuar uma tese de doutoramento sobre a comunidade cigana.
Ao contar-lhe toda esta história, a Ana ficou algo estupefacta, sobretudo, por saber que os ciganos não caçam... logo, não teria sido pelo simples facto de o Sr. M andar sempre a valorizar a sua Meg, dizendo que ela era uma podenga pura, que a teriam roubado.
"Talvez alguém se tenha afeiçoado a ela, por já ter tido uma cadela parecida, ou por ser uma pessoa de idade que já esteja sozinha e precise de companhia", disse-me a Ana.
"O melhor é ires com calma, pedires-lhe ajuda e nunca o acusares. Nunca fales na polícia, nem em roubo, porque isso assusta-os. Mas pergunta-lhe o que é que poderá ter movido alguém a levar a cadela. Conta a história do Sr. M e enfatiza a necessidade que ele tinha da companhia da Meg, devido a tudo aquilo que já viveu. (...) Nunca demonstres medo ou nervosismo e repete-lhe o pedido de ajuda", prosseguiu a Ana.

Pareceram-me conselhos bastante sábios e esta manhã com o discurso de mediação na ponta da língua e, tal como combinado anteriormente com a T., apareci no café às 9h30, hora a que normalmente o tal avô cigano lá costuma, também, ir com a sua mulher, para tomarem o pequeno-almoço. E nada... Ainda por cima, de madrugada, o café tinha sido assaltado, e o ambiente que pairava no ar era meio estranho.
Esperei mais meia hora, uma hora, já à porta da loja onde a T. trabalha (do outro lado da rua, em frente ao café) e nada, não havia meio de o cigano aparecer. Ainda tive que ouvir os comentários estereotipados de quem passava, sobre a eventualidade da cadela estar a ser utilizada pelos ciganos para "lutas de cães"... e o esforço de tentar manter a calma, para o meu discurso de mediação diplomática.
Mesmo chuvendo a potes, resolvi então ir à Praça, dar uma vista de olhos, aproveitando a descrição física que a T. me fizera do senhor.
1, 2, 3 voltas à Praça, cá fora nas bancas dos ciganos e lá dentro, junto dos cafés e nada!...

Voltei à porta do café, onde o Sr. M se encontrava, a pedir esmola, para tentar confirmar com ele (que nada sabe a propósito destas nossas diligências) se, por acaso, já tinha visto passar por ali o tal avô cigano. Não, também, ainda não o vira.
Mas fiquei a saber que o pai do Sr. M, de 82 anos, tinha sofrido um ataque cardíaco na véspera, encontrando-se em estado considerado estável no hospital.
"Mais uma, para juntar a tudo o que me está a acontecer!...", disse-me o Sr. M.
Fiquei momentaneamente sem palavras, para de novo lhe voltar a falar da onda de solidariedade que se tem gerado em torno dele e da Meg.
"Eu não sabia que havia tanta gente a querer ajudar-nos. Só isso é que me faz continuar", respondeu-me.

No café, ainda, encontrei a F. que, de um momento para o outro, começou a desabafar comigo (dizendo que eu era uma pessoa "que tinha formação" e a iria compreender) a propósito da sua desmotivação perante as buscas, sobretudo pelo facto de, desde o início, ter sido ela a ir tirar as fotocópias a cores para o anúncio, andar de um lado para o outro com o seu carro e as "outras pessoas" nem sequer lhe perguntarem se precisa de ajuda... não se estando, necessariamente, a referir a mim. Mantive-me diplomática e disse que a ajudaria no que fosse preciso.
A F. tem a doença de Crohn, está desempregada e o seu pai faleceu há cerca de um mês. É uma mulher jovem, bonita e simpática, nascida numa família de classe média alta que noutros tempos viveu em Angola (pelo que me contou). A maioria dos seus familiares pertenceram à Marinha, e nota-se que ela prória teve uma educação rigorosa. No seu discurso dá muita importância ao facto de alguém ter um curso superior (apesar de ela própria o não ter) e sente-se que se encontra inferiorizada, não só por ter que estar em casa, mas, também, por ter de conviver com pessoas que já conhece desde miúda, mas "com uma outra formação", como ela própria diz.

Com a cabeça completamente esvaída, voltei à Praça, para mais uma volta em busca do avô cigano. Mais uma vez, nada!
Até que me decidi a ir falar com uma cigana de meia idade, a quem, de vez em quando, a minha mãe compra algumas coisas.
Reconheceu-me logo. Contei-lhe o caso, e ela só me disse: - "Ah, isso quem deve saber alguma coisa é a polícia, ou esses que dormem aí debaixo dos telheiros" (referindo-so, por último, aos toxicodependentes, que ali pernoitam).
Disse-lhe que a polícia não estava envolvida no assunto (mais tarde, a Ana viria a explicar-me que ela me estava a colocar à prova; comprovando-se, assim, a minha teoria de que ali junto dos feirantes da Praça todos sabem o que se passou e, eventualmente, onde estará a cadela).
Chamou uma velhota não cigana para lhe perguntar se sabia alguma coisa da cadela. Uma pessoa rude e mal educada, de mentalidade tacanha, que, apenas, me disse que quem levou a cadela, provavelmente, já não a devolve... e que não gostava de animais, que eram porcos e sujavam tudo.
Engoli em seco, respirei fundo (para não dar àquela velha a resposta que ela merecia) e agradeci à cigana.

Amanhã irá alguém a Vale de Milhaços (Almada), para sondar se a Meg lá está. Era uma das outras pistas.

Sinto-me cansada, cheia de dores de cabeça, triste e desiludida!...
Como medir a nossa própria capacidade de suportar sentir/ver o sofrimento dos outros?
Por causa do desaparecimento da Meg, tenho lidado mais de perto com uma série de pessoas que sofrem (como todos nós, em determinados momentos das nossas vidas) e que querem desabafar sobre isso.
E hoje eu já não aguento mais!...

Eu bem sei que não me devia envolver tanto nas coisas!... Mas, às vezes, até parece que as atraio, como diz a minha mãe.

Corners of My Home # 6


Para desanuviar um bocadinho o ambiente demasiado "pesado" que tenho imposto aos meus posts nestes últimos dias, aqui vos deixo mais um dos recantos de minha casa: - a janela da casa-de-banho.
Adoro este pequeno recanto, sobretudo, porque, em casa da minha mãe, não tínhamos janela no WC. Mas, também, porque, quando acordo de manhã, adoro ver a luz do sol a entrar por ali, quando ainda estou a tomar banho.
A placa publicitária de metal, do lado direito na foto, é a tal primeira (da colecção), que comprei numa viagem de trabalho à Alemanha, mais exactamente a Erfurt (ex-Alemanha de Leste).
O que está pendurado na janela é um daqueles pendentes chineses de bons augúrios para a casa... cada sino corresponde a um elemento: saúde, sorte, amor, felicidade... e já não me recordo qual é o 5º :)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

A Meg e o Sr. M - II

[Ver: Parte I]


O Sr. M continua a desfalecer, a cada dia que passa.
Esta manhã, quando fui tomar o meu café e o vi, fiquei bastante apreensiva: - o seu rosto parece ter envelhecido 10 anos em apenas 2 semanas e o seu olhar está cada vez mais parado e triste.
No momento em que conversávamos, passou a Filipa (uma colega de trabalho e amiga, que, também, mora ali perto), com a sua filha mascarada de Minnie. Cumprimentámo-nos e falámos um pouco sobre o Carnaval e a fatiota nova da R.
Quando ela se foi embora, não pude deixar de reparar no sorriso nostálgico que, repentinamente, se esboçou no rosto do Sr. M, ao ficar a olhar para a pequena Minnie afastar-se ao colo da sua mãe (quiçá, trazendo-lhe esta imagem recordações de
uma vida passada).


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Costuma ouvir-se dizer que as pessoas que se dedicam de corpo e alma aos animais (daquele tipo que têm um número infindável de cães ou gatos ou as 2 espécies juntas, ou do outro género de não puderem ver um animal abandonado na rua que o apanham logo e tratam de arranjar quem o adopte) têm falta de algo nas suas vidas... seja porque as suas famílias não lhes dão muita atenção, seja porque não se realizaram pessoalmente em algum aspecto das suas vidas, seja porque motivo for.

Podendo, sem dúvida alguma, este raciocínio ter uma quota parte de veracidade, em meu entender, há algo de mais profundo nessa dedicação desmesurada aos animais: - o respeito por outro ser vivo.
Um sentimento que não deveria estar, unicamente, patente nas relações entre os homens, mas, também, entre estes e os restantes seres vivos que habitam este planeta.
"A grandeza de uma nação e o seu desenvolvimento moral podem ser julgados pela forma como os animais são tratados" (Mahatma Gandhi).
Talvez por as nossas sociedades terem atingido, nos dias que correm, um aperfeiçoamento tecnológico tão grande, a maioria dos indivíduos acredite ter uma qualquer força sobrenatural e tenha deixado de prestar atenção a outras coisas sobejamente importantes, como sejam o respeito pela natureza e pelos animais, passando a não lhes conferir a importância que efectivamente têm.
Afinal de contas, não tem sido o Homem, nos últimos tempos, o principal destruidor de tudo aquilo que o rodeia, na sua ânsia crescente por um poder ominipotente?!
Mas nem tudo é mau no "melhor dos mundos"... pois, felizmente, que ainda existem pessoas a preocupar-se com os animais (bem como com os homens) e a sua sorte!

Desde o desaparecimento da Meg, tenho vindo a conhecer uma série de pessoas que ainda se preocupam com esse respeito primordial pelo “Outro” e pelos restantes seres vivos.

A T. é uma dessas pessoas!
Foi a instigadora da recolha de fundos com vista à esterilização da Meg e, na loja onde trabalha, dá de comida a uma série de animais aqui do bairro.
Esta manhã, enquanto falávamos à porta da loja, entrou por ali adentro, como se já conhecesse os cantos à casa, um pequeno caniche preto (já meio cinzento, porventura, devido à sujidade), todo brincalhão.
Poucos minutos depois, surgiu o seu dono, o Sr. S, uma figura algo anacrónica, de cachimbo na mão, chapéu com pala (daqueles que os miúdos usam) na cabeça, com leves trejeitos de marinheiro.
A T. foi, prontamente, buscar comida para o pequeno caniche, enquanto este bebia água numa pequena taça (improvisada) de plástico, que se encontra sempre à porta de loja.
Enquanto isso, o Xibanga (nome do caniche) começou a “inspeccionar-me”, esticando as suas patitas nas minhas pernas... acabando por aninhar a sua cabeça nos meus joelhos.
O Sr. S pareceu surpreendido com a atitude do Xibanga e sorriu-me, segurando o seu cachimbo que se encontrava já na boca.
Parece que o pequeno Xibanga, caniche-anão, não costuma ser assim tão efusivo com as pessoas que conhece pela primeira vez... tendo já mesmo mordido alguém que, apenas, lhe tentare fazer uma festa.
Também se costuma ouvir dizer que os animais reconhecem institivamente (seja pelo cheiro, pela postura corporal ou pelo tom de voz) quem lhes quer bem!...
O Sr. S ficou todo contente e até se despediu de mim com um eloquente: - “Adeus menina!” (apesar dos meus 30 anos e 3 cabelos brancos!).
E eu, no meio desta saga toda pela busca da Meg, fiquei a conhecer mais um dos “personagens” aqui do bairro!...

Quanto aos cães e a esta minha necessidade impreteriosa de encontrar a Meg (para quem não saiba, é mesmo a primeira vez que me empenho tão a fundo numa questão deste género!)...
A minha relação com cães é muito parca, resumindo-se, essencialmente, a 2 casos: - o primeiro, o de um rafeirito que, em pleno Alentejo, quando era miúda, veio tentar brincar comigo e eu apanhei o maior susto da minha vida... pois, como não estava habituada a lidar com cães, não percebia muito bem as suas reacções;


Snoopy - 2004


- o segundo, já adulta, há cerca de 3 anos, quando fui trabalhar para o local onde me encontro actualmente, o caso de um rafeiro arraçado de perdigueiro português, o Snoopy. Adoptado por uma das famílias do bairro social (onde se encontra o meu local de trabalho), que, quando cresceu, teve o azar (como acontece a muitos animais, infelizmente!) de passar a viver somente na rua. Ou seja, tinha dono, mas não tinha!...
Comecei a dar-lhe comida, quando chegava ao emprego de manhã, acabando por me afeiçoar ao animal (que era de uma meiguice extrema e carente de afecto). Ainda tentei, através dos meus contactos, arranjar um dono em condições para o Snoopy... mas, depois, um dia, há cerca de 1 ano atrás, quando me encontrava de férias, os meus colegas de trabalho contaram-me que o Snoopy tinha deixado de aparecer. Imaginei logo o pior!... Que, num bairro como aquele, ou o cão tinha sido atropelado, ou então servira para as lutas de cães que por ali se realizam muito.
Algum tempo mais tarde, vim a saber que, afinal, a avó do dono do Snoopy o tinha dado a um empreiteiro, para servir de cão de guarda numa obra qualquer, ali para os lados de Carcavelos (mesmo tendo eu já dito, por inúmeras vezes, a esta senhora para ela não dar o cão a ninguém que eu lhe arranjaria um dono). Ainda me passou pela cabeça ir para Carcavelos, à procura do Snoopy, em todos os estaleiros de obra que por ali existissem... mas demoveram-me dessa ideia, ao considerarem que eu estava a ficar um pouco louca. Até hoje nunca mais soube nada do Snoopy!... Se está morto ou vivo, o que quer que seja... restam-me, apenas, as suas fotos... mas a incerteza é, de facto, o pior sentimento em que podemos viver.

Desta forma, talvez por a minha experiência com cães, até à data, não ter sido das melhores e por me sentir um pouco culpada por não ter podido encontrar um outro dono para o Snoopy, tenha acabado por me envolver tanto nesta “história” do desaparecimento da Meg. Para esse envolvimento, também, não pode ser alheio o estado de vida em que o Sr. M (dono da Meg) se encontra... Se me acontecesse o mesmo a mim, também, gostaria que alguém me estendesse a mão e me ajudasse na medida das suas possibilidades (note-se, no entanto, que esta minha última frase não tem nada a ver com uma eventual influência da minha educação católica enquanto criança –pois, há muitos anos, que sou ateia e não acredito no que quer que seja!). Para além disso, e como a minha mãe costuma dizer, eu tenho um jeitinho muito especial de me meter sempre em confusões... até parece que as atraio!

O (Des)Aparecimento do Chá de Maracujá





Primita, é só para te dizer que, afinal, o carteiro não me ficou com o chá de maracujá!!! :)

Há alguns dias, a
Janinha tinha-me enviado 1 encomenda (via correio verde) com este maravilhoso chá. Mais tarde, através dos seus comentários aqui no blog, apercebi-me que deveria ter recebido 2 encomendas e não 1.

Hoje, como entrei em mini-férias, aproveitei para ir tirar esta história a limpo na estação dos
CTT aqui da zona.
E, basicamente, fiquei a saber que, não me encontrando em casa para receber a encomenda, o "excelente" carteiro que serve aqui a minha rua, decidiu deixar apenas 1 aviso para ir levantar 1 encomenda à estação, sem fazer menção de que se tratavam na verdade de 2 encomendas... ou deixando 1 outro aviso para levantar a 2ª encomenda.
Haja dó!!! Santa ignorância!...
Apesar das 2 encomendas virem do mesmo remetente para o mesmo destinatário, não teria mais lógica se ele tivesse deixado 2 avisos de levantamento, poupando-nos, assim, ao incómodo do desaparecimento de um dos chás?!
Mas são estes os belos serviços que nós temos em Portugal!!!

De qualquer modo, hoje reavi o meu cházinho de maracujá... que é divinal!
Muito obrigada, Janinha!
Ainda não senti foi o tal efeito relaxante (a esse nível, o Heath & Heather de Manga/Maçã é mais imediato), mas como hoje, também, tenho andado numa roda viva...
Aqui ficam algumas fotos para mais tarde recordar... entre as quais, uma da minha nova cafeteira especialmente desenhada para chá (oferecida pela minha mãe no Natal e made by
IKEA), que tem feito furor entre as minhas amigas maníaco-chá-dependentes ;)