Ser taxista deve ser uma daquelas profissões bastante solitárias, apesar de todo o movimento dos clientes... ou então, cerca de 90% destes profissionais devem sofrer de sérias perturbações mentais.
Durante as minhas viagens de táxi (aqui há uns anos atrás, quando regressava a casa, depois das noites passadas com os amigos no Bairro Alto; actualmente, quando surge alguma urgência em termos profissionais), cheguei à conclusão que não há melhor caso de estudo para um trabalho de campo em Ciências Sociais do que a análise in loco desta profissão (o pior seria mesmo a conta astronómica que se teria, após conclusão do dito cujo trabalho).
De início, pensei que era só comigo que se passavam situações estranhas e algo caricatas, quando viajava de táxi (das duas uma: ou porque tenho cara de parva, ou então, porque tenho um ar amigável e qualquer pessoa se sente logo mais à vontade)... mas, em diversas conversas com amigos e gente conhecida, apercebi-me que não!...
De facto, já quase todos, ao utilizarem um qualquer táxi como meio de transporte, devem ter ouvido as habituais conversas sobre o clima, os políticos, o trânsito, o estado da nação e a crise ou o problema que estiver mais na berra nesse dia!...
Pois, a mim, para além desses tópicos, apanho sempre um ror infindável de conversas dos senhores taxistas: ora sobre a história da sua vida desde criancinhas, ora sobre os problemas que tinham lá em casa com o filho ou a mulher, ou então a descrição histórica ao pormenor de um qualquer bairro de Lisboa... isto para já não falar dos casos mais surreais, em que as suas conversas são totalmente incompreensíveis.
Na verdade, deve haver um qualquer sintoma patológico que se vai produzindo ao andarmos a guiar um carro para cima e para baixo, por toda a cidade, com uma enorme panóplia de clientes sempre a entrarem e a saírem... porque, cá para mim, não é muito normal que, alguém que não conhecemos de lado nenhum, nos conte a história da sua vida em apenas 15 minutos!...
Em minha opinião, andar de táxi é como ir à cabeleireira: apenas precisamos de mostrar boa educação cumprimentando as pessoas, dizemos o que desejamos, agradecemos, pagamos e sorrimos.
E, nos entretantos, enquanto estamos a ser atendidos, temos imenso tempo para pensar nos nossos próprios problemas, no trabalho que temos em atraso, decidir o que é que vamos fazer para o jantar, ou o que quer que seja - eu, pelo menos, ando sempre com um ror de ideias e pensamentos a fervilharem na cabeça, e uns tempinhos assim, para estar sozinha com eles, sabem-me mesmo bem!
Por isso é que, quando nos perturbam esse momento de silêncio com conversas, torna-se mesmo muito irritante!...
Claro está, que os senhores taxistas não têm sequer culpa desta minha maneira de ser...
Mas a verdade é que, se começarem a reparar bem nas vossas viagens de táxi, também se aperceberão que algo de estranho se passa nesta profissão!