Tinha o rosto duro e queimado pelo sol, deformado por feridas antigas encrustradas.
Do braço e perna do lado direito do seu corpo apenas possuía a metade superior, e andava para todo o lado numa cadeira de rodas.
Costumava estar junto à igreja a "pedir" esmola. E, depois, voltava para o terreno abandonado de um prédio embargado, onde se sabia que todos os drogados daquela zona deambulavam... mas, aparentemente, ele não era um deles.
Na rudeza do seu aspecto ressaltava o facto de andar sempre acompanhado por um cão (muito bem tratado), um rafeiro de focinho meigo e olhos doces, que seguia a sua cadeira de rodas diligentemente para todo o lado.
Por vezes, a altas horas da noite, lá ia ele, pelo meio da estrada, na sua cadeira de rodas, transportando ao seu colo o tal rafeiro, que abraçava como a um amigo.
Sempre que revejo este homem, lembro-me de uma história que, um dia, alguém me contou...
Sobre um sem-abrigo que, ao ser levado para um dos centros de abrigo nocturno da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, passou a noite a velar junto ao cacifo que lhe tinham cedido para guardar os seus pertences. Mais tarde, na manhã seguinte, alguém descobriu que, na verdade, este homem não pregara olho toda a noite, porque tentara, assim, proteger o seu fiel companheiro de infortúnio (um pombo que adoptara na rua), guardando-o no tal cacifo.
[Hoje entabulei conversa com este homem.
E fiquei a saber que, afinal, não se trata de um cão, mas sim de uma cadela.
Pareceu-me ter ficado contente por alguém lhe dirigir a palavra.]