domingo, 20 de novembro de 2005

Paisagem Ambivalente

Foto: Perto de Ourém, onde o fogo consumiu toda a paisagem, no Verão... começam agora a nascer alguns arbustos, que se abraçam às árvores "enlutadas".
Uma foto com a mesma ideia em Druantia.


Ontem...
Um dia cheio de mistura de sentimentos e ambivalências!...
Daqueles dias que nos fazem sentir que vivemos a 100% e que já não temos cabeça para pensar em mais nada.

- Um casamento simples e maravilhoso de 2 amigos que já se amam há uma catrefada de anos (a Ana, miúda que nunca deixa transparecer que está triste e que tem o som de riso mais sincero que conheço + o Marco, o contestatário mais brincalhão de todos os tempos... dando provas disso ao escolher uma música de Zeca Afonso para terminar a cerimónia religiosa na igreja);

- O desabafo de um problema enorme de uma amiga de longa data... a deixar-me muito preocupada e sem saber o que fazer ou dizer;

- O "nosso" António Pedro no seu 1º evento social (a portar-se lindamente!); numa imagem muito terna, a adormecer agarrando-me com as suas pequeninas mãos um dos meus dedos (enquanto olhava por ele, para os pais irem dançar um pouco).

sexta-feira, 18 de novembro de 2005

A Gripe e a Voz

Já consegui voltar a ter voz!...
Um pouco miraculosamente, depois de uma semana de altos e baixos...
Mas, felizmente, à parte a constipação, consegui não cair à cama mesmo doente.

Parece que é um vírus qualquer que para aí anda (sem ser o da gripe das aves, claro está!) que ataca a garganta e nos bloqueia as cordas vocais.
Conheço pelo menos 5 pessoas (incluindo uma no estrangeiro) que já tiveram isto.

Mas, no fundo, é um bocado estranho pensar que o vírus da gripe todos os anos se metamorfoseia e se prepara para nos atacar a todos de uma foma diferente!

Sobretudo, porque, face ao caso presente, é complicado imaginar um mundo onde todas as pessoas começassem, de um momento para o outro, a ficar afónicas!...
Se bem que, em alguns casos, até que dava para não nos cansarmos a ter que ouvir tantas asneiradas!

quinta-feira, 17 de novembro de 2005

O Trabalho Humanitário

Foto de Ana Maria Duarte: Lago Kivu, Ruanda.

Sempre admirei bastante (e "invejei" um pouco) aquelas pessoas que partem em trabalho humanitário para África e outros continentes, na tentativa de ajudar os povos mais carenciados!...

E, também, já senti muita vontade de um dia o fazer...
Não porque sinta que tenho um espírito de Madre Teresa de Calcutá (aliás, a minha família e amigos mais chegados sabem bem que, de vez em quando, tenho uns certos laivos no meu feitiozinho que são mesmo muito ruins!), mas, pura e simplesmente, porque, de vez em quando, também me apetece fugir daqui, da monótona rotina do dia-a-dia... e, sobretudo, porque acho que sou daquele tipo de pessoas que, como dizia o poeta, "só se sente bem onde não está"!...

A Ana Maria é uma dessas pessoas que já partiu para o trabalho humanitário e por lá foi ficando!
Tudo começou há cerca de um ano e pouco, quando foi aceite para integrar uma equipa no Sudão. Desde então, já passou, também, pelo Chade, pela Venezuela e, actualmente, encontra-se no Ruanda (porque, segundo sizem, apesar de todas as contrariedades e precariedade pelas quais se tem que passar para fazer um trabalho deste género, o mesmo acaba por ser bastante viciante).

Conhecemo-nos no trabalho, cá em Portugal, e, apesar da nossa relação profissional não ter começado lá muito bem, (penso que posso dizer que) acabámos por nos tornar Amigas... por uma série de razões, entre as quais o facto de, em determinados momentos das nossas vidas, ambas termos vivido em França e partilharmos assim alguns points de repére comuns.

Quando olhamos para a Ana Maria, uma miúda de aspecto tão sereno e tranquilo e, simultaneamente, de uma sensibilidade à flor da pele, nenhum de nós pensaria que ela seria capaz de fazer um trabalho deste género.

Mas, actualmente, constatamos que, de facto, a Ana Maria foi feita para isto: para estar no terreno (mesmo que longe e, muitas vezes, em situações de perigo) a implementar projectos que, de certa forma, contribuam efectivamente para ajudar aqueles que mais necessitam (no caso dela, os refugiados)... e não para continuar sentada a uma secretária, como muitos de nós, a trabalhar em projectos ("experimentais") financiados pela Comissão Europeia, em que nunca vemos os frutos reais do nosso trabalho.

Por vezes, nas férias, a Ana Maria volta a Portugal (sempre dividida entre a família em Paris, e os amigos em Lisboa) para nos ver e estar connosco... Mas agora, já cá não vem há algum tempo.

Como ontem recebi algumas das fotos que ela vai tirando por esse mundo fora (a Ana Maria é daquele tipo de fotógrafas-amadoras que consegue mesmo captar, através da câmera, a alma de qualquer indíviduo e lugar), fiquei com muitas saudades da minha Amiga... e apeteceu-me escrever sobre ela!

Gata (que estava) para Adopção


Há alguns dias atrás, tinha aqui colocado um anúncio, para a adopção de uma gata que "já tinha passado as passas do Algarve" (como se costuma dizer!), na medida em que a sua dona a tinha deixado sozinha durante 3 meses em casa (e feito sabe-se lá mais o quê à pobre gata!).
A Tucha chegou a minha casa completamente stressada, com medo de tudo e de todos, dando uns berros/miados terríveis quando ouvia alguém falar mais alto ou qualquer barulhinho.
No entanto, era uma gata sempre muito meiga, que gostava de nos dar marradinhas e de se sentar ao nosso colo.
Entretanto, andei a moer e remoer, nestes últimos dias e cheguei à conclusão que não consigo dar esta gata para adopção!...
Porque a pobrezinha já está muito mais calma do que quando lá chegou (apesar de, por vezes, persistirem algumas bufadelas de parte a parte com as minhas 2 outras gatas... coisita normal entre animais!); e, agora, está a custar-me bastante pensar que ao dar a gata para adopção a outra pessoa, ela, coitadinha, teria que passar por uma nova habituação depois de tudo aquilo que já passou!

Por isso, aqui fica o aviso que, a partir de hoje, a Tucha já não está para adopção! :)

quarta-feira, 16 de novembro de 2005

Sugestão do sítio do costume:


"Café das Imagens" - dia 24/11/05, a partir das 17h


Nesta iniciativa, promovida pela Videoteca da Câmara Municipal de Lisboa, no âmbito do seu Curso de Documentário, estará presente um Doc. realizado por uma amiga minha (a Sónia F.), sobre a comunidade de imigrantes da Europa de Leste em Portugal.
A não perder!...

Semana Diabólica

Esta semana começou mesmo muito mal:
- quadriplicação da quantidade de trabalho que tenho para fazer no emprego;
- os colegas e a chefe parece que acordaram todos com os pés de fora (pois o mau humor no escritório é generalizado);
- para culminar, depois da monstruosa constipação com que estive, agora, atacou-me a garganta e estou a ficar praticamente afónica!...
Pode ser que, como não consigo praticamente falar, vá dando para actualizar mais aqui o blog, através da escrita ;)

domingo, 13 de novembro de 2005

Coisas de que não gosto:


Andar há uma semana "encharcada" em medicamentos (anti-gripais, paracetamol, anti-sinusíticos, etc.) e ter a sensação que a minha constipação está cada vez mais monstruosa e prestes a transformar-se numa gripe! :(
Afinal de contas, não era para isso que os medicamentos deveriam supostamente servir!...

Coisas de que gosto:

Foto: Nikon Coolpix 7600 (em modo automático)


Um jantar entre amigos, numa casa super-agradável, com conversas interessantes e brincadeiras com gatas até às tantas da matina...

Muito obrigada, Nina & João! :)

sexta-feira, 11 de novembro de 2005

Já que estamos numa de falar sobre trabalho...

Foto de Rita Mourato.

Ontem à tarde fomos, pela primeira vez, ao local onde está a ser construído o nosso novo Centro de Acolhimento para Refugiados, para ver o desenvolvimento dos trabalhos.
Apesar de não ter levado a máquina fotográfica comigo (porque estava com uma grandessíssima constipação em cima e nem sequer conseguia pensar), não resisti em pedir a uma colega para tirar esta fotografia, que achei bem peculiar.

quarta-feira, 9 de novembro de 2005

Ceuta & Melilla & Paris




Fotos: (Esq.)- Imigrantes no deserto do Sahara - Agence France Press/Samuel Aranda);
(Cima)- Polícia vigiando o bairro social de Les Mureaux, Paris - Associated Press/Francois Mori.
Este post já aqui deveria ter sido colocado há mais tempo...
Mas, por falta de disponibilidade temporal, não me tem sido possível!
Aqui fica, então, agora... com data de 09/11/05 (versão draft), mas publicado hoje, 5ª feira.
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Ao iniciar este blog, tinha prometido a mim mesma nunca aqui falar sobre o conteúdo do meu trabalho, na medida em que ele já é suficientemente desgastante de ser vivido no quotidiano, quanto mais estar também a utilizar a escrita como catarse e a incomodar os meus eventuais leitores com estas questões!...

Porém, os últimos acontecimentos de Ceuta e Melilla e agora, mais recentemente, o que se tem passado nos subúrbios de Paris, conseguiram mesmo dar-me a volta ao estômago... e, quando isso acontece, não consigo estar calada!

Em finais de 1999, quando comecei a trabalhar na área das migrações, uma amiga de longa data disse-me que “as migrações iam ser a nova doença do século XXI”. Na altura, achei esta opinião um pouco exagerada mas agora, olhando para tudo o que tem sucedido nos últimos anos, constato que, efectivamente, a Europa está a ficar doente, quando trata desumanamente todos aqueles que tentam ultrapassar as suas fronteiras em busca de uma vida melhor, ou quando durante anos fecha os olhos à exclusão a que são remetidos milhares de jovens oriundos de famílias de imigrantes instaladas nos seus países!...

Durante um ano (2002) vivi em Paris, enquanto fazia um mestrado em “Migrations et Relations Interethniques”, e tive oportunidade de verificar em teoria e in loco como se vive num país onde já existem imigrantes há pelo menos mais 30 anos do que cá em Portugal e onde, supostamente, isso deveria fazer com que existisse uma “Política de Imigração” coerente e tendente a uma integração harmoniosa.

"Política de Imigração" essa que é muito diferente, em termos comparativos da anglo-saxónica ou, até mesmo, da portuguesa (apesar de, no nosso caso, não se poder dizer que esta exista sequer!).
Em França, Estado laico por excelência (em que a Igreja Católica não mete o bedelho no que quer que seja relacionado com a política estatal), acreditava-se que qualquer imigrante que chegasse ao país teria as mesmas hipóteses que um cidadão nacional de se integrar na sociedade francesa, através de uma Escola e de um Estado Republicano igualitários para todos.

Só que, há 12 dias atrás, as provas de que esse modelo não era o garante da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” para todos começaram a ser cada vez mais exteriorizáveis.
E a Europa acordou, finalmente, para uma nova realidade: a exclusão e abandono social de milhares de jovens de 2as e 3as gerações de famílias de imigrantes.

Em França, contrariamente a Portugal, uma criança nascida de um casal de imigrantes (mesmo que ilegal) adquire automaticamente a nacionalidade francesa. O que, à partida, já é um bom começo para uma futura integração.
O problema é que a nacionalidade não se demonstra apenas por um cartão de identidade ou pelo facto de se falar a mesma língua. A nacionalidade é fruto, sobretudo, do direito a poder exercer a sua cidadania, do direito de fazer ouvir a sua voz, de ser respeitado pelos outros cidadãos e de poder ter os mesmos sonhos e expectativas de realização de vida do que os nacionais desse país.
E em França, tal como numa série de outros países europeus, isso, infelizmente, não sucede!...

"(...) Momo (diminutivo de Mohammed), apenas 16 anos, relativiza: "Mesmo com o bac+5 [mestrado] não me dão emprego. Vêem o meu nome, que vivo na Forestière [um bairro desfavorecido] e o posto já não existe."

"Chamas-te Rachid e queres ser médico? Na escola mandam-te estudar para canalizador"
, indigna-se... Rachid. (...)

"Sou francês", intervém Mikael, um grandalhão com pele de ébano, "e dizem-me que tenho de me integrar. Não sou imigrante, sou francês! "Dá raiva." "Dá ódio", repetem todos. "Agora foram buscar o recolher obrigatório da guerra da Argélia. Para eles, somos todos argelinos. Nascemos aqui, mas para eles não somos daqui."

Excertos do artigo "Chamas-te Rachid e queres ser médico?", PÚBLICO - 10/11/05.


Não sucede porque, apesar de tudo o que se diz (e da necessidade real da Europa receber um maior número de imigrantes, por forma a colmatar a taxa demasiado baixa de nascimentos existentes nos seus Estados-Membros), os imigrantes, em qualquer país que seja, são sempre encarados como cidadãos de 2º tipo, desde que tentam entrar num país de acolhimento até à chamada fase de integração… tornando-se esta situação ainda mais grave no que diz respeito às 2as e 3as gerações.

De facto, estas últimas, ao não se sentirem integradas no país onde nasceram, e não tendo qualquer contacto com o país de origem dos seus pais, acabam por se sentir perdidas e desligadas de qualquer ponto de referência. Idealizam, então, uma cultura alternativa com fragmentos de uma idealização desses outros mundos que não conheceram (como sucedeu, por exemplo, quando jovens nascidas e criadas em França, de pais que nunca foram fundamentalistas muçulmanos, começaram a querer usar sistematicamente o véu), mas que lhes confere uma outra identidade em que podem acreditar.

De modo algum quero estar a fazer uma apologia de desculpabilização do que se tem passado nos subúrbios de Paris e de outras cidades francesas nas últimas semanas, porque a violência gratuita não leva a lado nenhum!...

De qualquer modo, penso que, no momento actual, se torna demasiado urgente que, em vez de criarem leis de urgência (cada vez mais restrictivas) ou de expulsarem indivíduos que se encontram legalmente num país ou que aí nasceram, os políticos pensem no que está efectivamente por detrás dos actos de vandalismo a que temos vindo a assistir!!!!
Antes que outros eventuais barris de pólvora expludam na Europa, tornar-se-ia necessário que os governantes pensassem um pouco na forma como têm vindo a tratar a problemática da imigração ao longo destes quase 60 anos!!!!

É preciso chamar a atenção para a forma como os imigrantes são guetizados durante anos a fio em bairros sociais nos subúrbios das grandes cidades (a Paris intra-muros turística, que afasta os mais pobres, os excluídos para a periferia é um exemplo claríssimo disso! Mas, também, os nossos bairros de barracas ou o realojamento social efectuado sem qualquer critério!), “ignorados” pela outra sociedade e sem que consigam sair dessas franjas mais baixas da sociedade actual.
Se num "mundo perfeito" todo e qualquer indivíduo deveria poder circular livremente por onde quisesse, tentando reconstruir a sua vida noutro local (Artigo 13º da Declaração Universal dos Direitos Humanos); na prática, esse "mundo perfeito" resume-se apenas aos cidadãos da UE, que podem trabalhar ou estudar noutro país, sem serem perseguidos pela polícia!
Porque não deixarmos de olhar apenas para os nossos umbigos e passarmos a aplicar essa norma a todos os restantes povos?!
Sim, poderá parecer uma visão demasiado utópica para ser concretizada na prática... mas é a única que defenderá, de facto, os direitos humanos de todo e qualquer indivíduo... sem que se olhe para a sua classe social, religião a que pertence ou côr da sua pele!



Alguns links de interesse:

http://www.noborder.org/news_index.php
http://www.united.non-profit.nl/pages/info24.htm
http://www.migreurop.org/article887.html