Já passava das 21h, enquanto fumava um cigarro à janela da cozinha (o único local cá em casa onde a
Lei do Tabaco ainda não teve interferência).
Nos quintais vizinhos, ao longe, um cão não parava de ladrar insistentemente há já uns bons minutos. Não percebo a linguagem dos canídeos, mas aquele ladrar forte e ameaçador não se parecia nada com o normal ladrar de entusiasmo quando os cães sentem um gato passar.
Terminara o cigarro e preparava-me para fechar a janela da varanda da cozinha, mas, por um qualquer motivo incógnito, decidi ainda ficar mais um pouco a ouvir o ladrar do cão, tentando perceber se vinha mesmo do lado direito, de umas vivendas térreas que ali existem.
E é quando, subitamente, ao olhar para o quintal sobranceiro ao da
Dª. L., vejo um fulano a olhar para as janelas das traseiras desse mesmo prédio.
Sem fazer barulho fechei a minha janela e os estores e, com o coração aos pulos, fiquei a espreitar por detrás das lâminas.
Vejo-o saltar o muro, passar para o quintal da
Dª. L. e tentar novamente galgar o muro e a rede de arame para o quintal do lado.
Primeira reacção: pegar no telefone e ligar para a esquadra aqui da zona. Linha telefónica interrompida. Relembro, então, as palavras de um agente da PSP que costuma fazer ronda no meu local de trabalho, que me havia dito ser mais rápido chamar o 112 em caso de emergência, uma vez que eles redireccionam logo os pedidos para os carros-patrulha que andam nas zonas em questão.
Ligo para o 112 e, por entre os nervos que me consomem, lá consigo explicar ao operador o que se passa, indicando-lhe, também, a única saída possível daqueles quintais para o lado da rua principal, explicando-lhe que, eventualmente, talvez, fosse melhor a polícia dirigir-se para esse mesmo local.
Ainda meio atordoada com o telefonema para o 112, resolvo ligar à
Dª. M., a única vizinha do prédio de quem possuo número de telemóvel, para a avisar do que se passava, dado que a senhora mora no R/c e todas as suas janelas se encontravam facilmente acessíveis para o tal fulano que se passeava àquela hora nos quintais.
Quando regresso à janela da cozinha, por entre os estores, vejo-o já no quintal dos prédios em frente, onde a luz continua acesa e se vislumbram os vultos dos seus moradores a jantar desconhecendo o que se passa cá fora.
Tocam-me à campainha de casa. Vou abrir pensando tratar-se da
Dª. M., quando me deparo com 2 jovens e muito altos agentes da Polícia, que me perguntam se fora dali que alguém ligara para o 112 (note-se que nem 15 minutos haviam passado sob o meu telefonema!).
Por momentos, quase perco a voz e o raciocínio, ao lembrar-me que, de tal modo estava nervosa quando ligara para o 112 que apenas dissera o nome da rua onde moro e o número da porta, mas não o andar. Enquanto digo que sim e convido os senhores agentes para entrarem, o meu raciocínio regressa ao seu devido local, e apercebo-me que, muito logicamente, aquando da triagem da chamada que efectuara para o 112, na base de contactos ficara marcado o número de onde ligara, pelo que, facilmente, localizavam o meu andar.
Acompanho, então, os dois agentes até à varanda da cozinha, onde abro a janela, ao pé do areão das minhas gatas (que, ensonadas, permaneciam alheias a tudo no sofá da sala) e lhes explico o que se passara, enquanto um deles lutava por contornar o tabuleiro do areão.
Perguntam-se se consigo descrever o indivíduo que vira e se o mesmo era preto. Respondo que, de noite e com tudo tão pouco iluminado, é difícil dizer, mas que me parecera um indivíduo alto, magro e com um chapéu com pala como os que os miúdos costumam usar.
Nisto, acende-se um foco de luz no quintal da retaguarda e uma sombra começa a surgir subindo para o telhado da
Dª. M.Aparece o Sr. S., seu marido, olhando para todos os lados, procurando se havia alguém nos quintais vizinhos. Olha para a minha janela da cozinha e diz: -
“Estão ali do outro lado alguns colegas dos senhores!”
Os dois agentes da polícia, que se encontravam na minha cozinha acedem afirmativamente, informado que alguns colegas se haviam dirigido para o local que eu referira na chamada telefónica para o 112.
Mas do suposto ladrão que andara a percorrer todos os quintais, nem sombra!...
Aproveito para explicar aos dois agentes que já não era a primeira vez que isto sucedia, e que, apesar daquele ser um local bastante tranquilo, já
numa manhã de Agosto sucedera algo semelhante, mas que ninguém quisera apresentar queixa. E que seria bom se nas rondas que efectuam passassem a ter mais incidência naquela zona em particular nos dois pontos sensíveis, que dão acesso directo às traseiras daqueles prédios.
Estamos nesta conversa quando o agente mais alto e mais magro aponta uma espécie de mini-lanterna para o quintal em frente ao meu prédio (quintal esse que fica um pouco mais elevado) e diz: -
“Mas o que é aquilo que ali vai a correr? É um vulto!”
E não foram os nervos que, ainda, me consumiam por dentro, eu teria dado uma imensa gargalhada, quando tive que lhe responder: -
“Não, aquilo é só um gato!” (neste caso, era o
Misha, que, possivelmente, andava bem assustado, com tantos humanos a percorrerem os quintais e a subirem aos telhados).
Do suposto ladrão que andara a percorrer todos os quintais, nem sombra... conseguira evadir-se antes da chegada dos agentes da Polícia.
Posto isto, encaminho os dois agentes até à porta da rua, enquanto um deles me diz atenciosamente que, caso seja necessário, lhes ligue novamente.
Ao abrir a porta de casa, o agente mais alto e mais magro ainda me diz, olhando para a
Miyuki especada no meio do corredor: -
“Cuidado, não vá ela sair!”
E eu que até queria ter um fim-de-semana calminho, para descansar um bocado a cabeça...
Com o
Homem que transportava ao peito uma constelação de estrelas ausente de Lisboa, tive logo que meter dois polícias (por sinal, bem jeitosos!) cá em casa!... ;)