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sexta-feira, 21 de agosto de 2009

sábado, 1 de agosto de 2009

Estórias com Gatos - 31




- A nova Comensal -



Num dos quintais mais afastados, o qual se assemelhava a um pequeno recanto bucólico, com uma frondosa árvore ao centro, viviam 3 gatas, uma tigrada já velhinha e as suas duas filhas pretas.

Segundo por ali se ouvia dizer, a clínica veterinária local havia esterilizado essas gatas e a dona desse quintal ficara responsável pelas mesmas: apesar destas continuarem a viver nos quintais (e serem, assim, gatas de rua), dormiam mais protegidas no seu telheiro e tinham a garantia de serem alimentadas diariamente.






Há já largos meses que corriam, naquele bairro, os boatos de que essa vizinhas do R/c do quintal mais afastado onde estas gatas viviam iria, brevemente, mudar de casa, mas não levaria consigo as 3 gatas (segundo, também, constava, porque não a deixavam levar animais para a sua nova habitação).

Na altura em que me vieram contar estes rumores, fiquei muito preocupada com a ideia, ao imaginar estas 3 gatas a deambularem pelos quintais em busca de comida: uma vez que, para além delas nunca se aventurarem mais além por apenas estarem habituadas ao local amplo onde vivem e eram protegidas, certamente que por questões territoriais Misha e Luana nunca as deixariam juntar-se a elas (já por diversas vezes assisti a Luana expulsar algumas destas gatas do seu território, quando elas se aventuravam a lá chegar).








Esta manhã, já depois de Misha, Luana e Mikado terem comido, observei ao longe a gata tigrada a olhar para o bebedouro de água por debaixo da minha janela e começar a aproximar-se um pouco a medo.
Desci um dos comedouros e, qual não foi o meu espanto, quando a gata veio a correr veloz e se pôs a comer com uma grande sofreguidão, olhando para todos os lados a medo.

"Maylea" (nome Havaiano que significa "flor silvestre") passou a ser a nova comensal.









terça-feira, 7 de abril de 2009

Estórias com Gatos - 29




- A Pantufinha -




Ainda não refeita da saga com a Luana, a meio da semana passada, duas das minhas vizinhas pediram-me ajuda para tentar encontrar dono para uma gata que ficara votada ao abandono num quintal, há já mais de um mês, após a filha da sua proprietária ter levado a mãe para sua casa.
Estas duas vizinhas tinham-me ajudado aquando do desaparecimento da Luana e, também, não conseguia virar costas após ter sabido a estória da pobre gata...

Segundo me contaram a dona da gata já tinha 80 anos e nada pode fazer contra o acto da sua filha (que nunca gostara de animais), pelo que se tornava urgente encontrar um dono para o animal, dado que a casa onde sempre vivera iria, brevemente, entrar em obras.

Combinei com as duas vizinhas ir tirar fotografias à gata, para fazer um apelo e a colocar para adopção. E, na 6ª feira ao fim da tarde, fui com elas verificar o tal quintal, pelo muro das traseiras do mesmo, que dá para a rua.
Era, também, através deste muro que uma das minhas vizinhas continuava a alimentar a tal gata, com uma engenhoca semelhante à que eu própria costumo utilizar para dar comida à Misha e à Luana.

A Pantufinha (assim se chama a gata, devido às suas tonalidades) apenas se deixou vislumbrar passado muito tempo, depois da vizinha que a alimenta a chamar repetidas vezes.





A Pantufinha é uma gata muito meiga, com cerca de 5 anos, nasceu naqueles mesmos quintais e acabou por se transformar na companhia da Dª. Q., idosa também esquecida pela família.
Durante o dia, a Pantufinha deliciava-se na companhia da sua dona, ora estando aninhada aos seus pés enquanto esta via televisão, ora brincando ao seu colo embrulhada pelo seu robe. À noite, era obrigada pela filha da Dª. Q. a ir dormir para o quintal, já que esta não se compadecia com a existência de animais dentro de casa.

Votada ao abandono durante mais de um mês, a Pantufinha começava agora a perder a confiança nos humanos, escondendo-se sempre que ouvia alguma voz... apenas continuando a chamar ao apelo daquela que a continuava a alimentar.

Perante tal cenário, já para não falar nas obras que ali iriam começar, bem como no facto da comida da Pantufinha estar empestada de moscas varejeira e o quintal num estado de grande sujidade; vi-me na contingência de anunciar às minhas vizinhas que não podíamos deixar a gata naquele local, como elas pretendiam (e que lá se fosse posteriormente buscá-la quando se encontrasse um dono).
A Pantufinha teria que re-ganhar bem depressa a confiança nos humanos, para que não se tornasse arisca e pudesse cativar o coração de alguém interessado em a adoptar.

Nesse sentido, durante o fim-de-semana, empreendemos diversas tentativas para apanhar a Pantufinha através da colocação de um isco com comida na transportadora, mas nada conseguimos.
Até que, vencida pela persistência e desconfiança da Pantufinha, no domingo ao fim da tarde, resolvi pedir ajuda a uma amiga, para que me emprestasse a sua armadilha, de modo a capturá-la mais facilmente.







No domingo à noite, a Pantufinha foi, finalmente, apanhada; encontrando-se agora em FAT (Família de Acolhimento Temporário), de modo a que possa recuperar a confiança nos humanos e vir, um dia mais tarde, a ser adoptada.










quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A Cidade dos Gatos




"The city of cats and the city of men exist one inside the other,
but they are not the same city".


(Italo Calvino, in "As Cidades Invisíveis")








Naquele bairro, a cidade dos Gatos misturava-se todas as manhãs, através do vidro, com a cidade dos Homens.

"Salva", qual estátua de divindade egípcia, serena e imperturbável, por detrás da montra, fazia as delícias de todos os que por ali passavam naquelas manhãs agitadas...

Roubando-lhes algum tempo aos seus afazeres diários e fazendo-os parar, ficando ali especados, durante largos minutos, embevecidos a admirarem-na. Relembrando-lhes, assim, que a vida tem muito mais do que se lhe diga do que uma simples e constante correria em busca permanente de algo...





A cidade dos Homens, naquele bairro, ficara diferente desde a chegada de "Salva".

Ao alterar as formas, cruzando a imagem daquela pequena gata com a de todos os que paravam a observá-la, o vidro da montra daquela loja criara como que uma espécie de metamorfose entre a gata e o Homem... transformando a grande maioria dos indivíduos em seres mais afáveis, solidários e humanos.






sábado, 24 de janeiro de 2009

Das Utopias




"Das utopias

Se as coisas são intangíveis... ora!

Não é motivo para não quere-las...

Que tristes os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas!"


Mário Quintana, in "Espelho Mágico"








A "Salva" foi esterilizada na passada 5ª feira.

Entretanto, para além de se ter transformado no "Ai Jesus da Avenida", parece ter encontrado um apaixonado (que fica todas as manhãs embevecido, em frente à montra da "Livrarte", a observá-la atentamente; tendo hoje chegado mesmo a tentar entrar na loja para procurar a sua amada).

Enquanto isso, "Salva" brincava deliciada, na cave, com um dos ratinhos que a "madrinha" lhe oferecera. Depois de ter presenteado Lúcia com um longo e terno miado, à sua chegada à loja.

Naquele mundo forrado de utopias passadas - que é já o seu -, "Salva" movimenta-se como se sempre ali pertencera e dele fizesse parte há uma infinidade.
Por ali apareceu como uma pequena estrela, dando alento e novo ânimo a todos.
Comprovando que, quando o Homem quer, tudo é possível... E um pequeno gesto ainda pode ser sinónimo da solidariedade a nascer entre todos.





sábado, 17 de janeiro de 2009

Estórias com Gatos - 26




Os gatos são a companhia certa para quem gosta de ler.
Silenciosos e independentes,
respeitam a concentração de quem lê...
Aninhando-se no seu colo
e transmitindo-lhes uma imensa serenidade.






Quando uma amiga me falou sobre ela a semana passada, fiquei logo com vontade de a ir visitar e conhecer (para aqui poder narrar a sua estória, juntando-a às estórias originais de tantos outros gatos que se têm cruzado no meu caminho)...

A habitual e rotineira escassez de tempo para conseguir fazer tudo aquilo a que me proponho, apenas me permitiu visitá-la esta manhã.






Aparecera naquela rua há cerca de um mês e meio, encharcado pela água da chuva e com um ar muito adoentado. Por ali deambulara algumas horas e, provavelmente (devido ao frio que se fazia sentir), havia saído do tubo de escape de um dos carros dos vizinhos onde procurara abrigo.
Viram-no passar perto da paragem do autocarro, junto à Cafetaria. E não mais souberam o paradeiro de tal gato.

No dia seguinte, quando Lúcia abriu a porta da sua loja, eis senão quando, vislumbrou um vulto dourado a passear-se por cima da bancada central repleta de livros.
Sem que ninguém se apercebesse, e aproveitando-se da infinidade de livros aninhados pelo chão como camuflagem, o gatito escapulira-se por entre a porta aberta e ali pernoitara ao quentinho.





Lúcia apelidou-o de "Salvador". E ele, por ali, foi ficando...

Serenamente, calcorreando os estreitos corredores criados pelas bancadas; onde, também, se costuma esconder airosamente, para realizar investidas a inimigos imaginários, ou apenas para se escapulir às festas carinhosas e aos humanos que ainda teme.
Espraiando-se delicadamente ao sol quente das manhãs em cima das molduras antigas e dos livros que compõem a montra daquela livraria-alfarrabista.
Ali vivendo tranquilamente e, por vezes, dando os seus passeiozinhos até à árvore mais próxima.

Certo dia, Lúcia descobriu que, afinal de contas, "Salvador" era uma gatinha (estranho e raríssimo facto para um felino de pelagem completamente laranja)... e diminuindo-lhe o nome , pelo qual já respondia, passou a tratá-la por "Salva".





"Salva"
tem sido a mascote da livraria neste último mês.

Não se trata de nenhum golpe de publicidade, nem tão pouco de uma imitação de Dewey, o famoso gato da Biblioteca americana... Mas a verdade é que os transeuntes têm sido atraídos pela pacatez das sestas de "Salva" na montra e os clientes acham-lhe tanta piada que alguns até já consideram que se deveria começar a pagar para poder ir ali ver a gatinha.





"Salva"
, é uma lindíssima gatinha de cerca de 7 meses, muito franzina e ainda um pouco arisca.

Lúcia tem dois felinos em sua casa e, apesar de acreditar que o mais certo é "Salva" lhes ir fazer companhia (pois já se afeiçoou à gatinha), diz-nos que se aparecesse alguém interessado em a adoptar e lhe dar um bom lar ponderaria a hipótese.

Quanto a nós, acreditamos que são os gatos quem escolhem os seus donos (e não o inverso)... E que nada acontece por acaso nesta vida.
"Salva", a gatinha que apareceu na "Livrarte", quando esta loja está prestes a celebrar o seu 40º aniversário, veio dar-lhe uma nova vida!...





Quer contribuir para a esterilização da "Salva"?
Saiba como, aqui.








sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Notas Soltas - 138



- PROCURA-SE: Charlie, gatinho cinzento muito meigo -







O gato Charlie foi encontrado a vaguear à noite na rua pela Rodrigues há 2 anos atrás. A Rodrigues não o conseguiu deixar sozinho na rua e arranjou-lhe um novo lar.

Acompanhei esta história bem de perto e sei como a minha amiga está a passar um mau bocado com toda esta situação. Por isso mesmo, lanço aqui o apelo , na esperança que ainda consigamos encontrar o Charlie.

Já se passou muito tempo desde o seu desaparecimento, mas existem casos extraordinários de gatos que são encontrados muito tempo depois de terem desaparecido... ver aqui.






O Charlie desapareceu em meados de Fevereiro de 2007, perto dos Capuchos (Caparica).

O seu dono sofreu um acidente de viação num cruzamento em Lazarim, perto do colégio Campo de Flores, e o Charlie fugiu assustado. Este cruzamento fica a cerca de 1,5 Km de casa (na Rua da Estrelinha, nos Capuchos). Na altura, procurou-se por todo o lado, sem êxito.

Continuamos à procura do Charlie, na esperança de que alguém saiba do seu paradeiro ou o tenha visto na estrada, nessa data.


Características do Charlie:

- gato adulto muito meigo e calmo;

- pêlo cinza (cor principal) e branco (cor secundária);

- mancha distintiva, de cor cinza, no lado esquerdo do nariz;

- olhos amarelos;

- porte médio (aspecto robusto);

- na altura do seu desaparecimento, não tinha coleira.


Contactos:


José Rendeiro - 91 811 19 08 / jrendeiroy@hotmail.com


Rosa Caldeira – 91 902 55 55 / rosacaldeira@gmail.com














Depois da "depressão" de ontem, nada melhor do que um miminho como este, terminando a tarde entre os colegas a ver fotografias de outros tempos.

Estamos mesmo a ficar velhos!...







- Brites -






A Brites (ex-Myrna) é uma das filhas da Aiko. Nascida dentro do Canil/Gatil Municipal de Lisboa, e daí retirada juntamente com a sua mãe e irmãos a 17/04/08.

Em Julho foi adoptada por um casal de amigos, ganhando também um novo "irmão" que, por acaso, é meu afilhado.




Esta noite fomos fazer companhia ao "pai" das crianças, por a "mãe" estar longe e ele estar quase a enlouquecer por apenas falar com os "filhos" nestes últimos dias.

Até deu gosto ver as duas crianças em cenas tão ternurentas!...






segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Notas Soltas - 136




- Hora de Inverno -





Ontem.
Acordar às 6h30 da manhã e já não conseguir dormir. Trabalhar em casa desde as 8h até às 11h... e, quando chegou ao meio-dia, parecia que já ia a 1000Km/hora, tal não era a infinidade de tarefas já realizadas.
Passar a tarde a pensar que o dia nunca mais termina. Lanche com uns amigos. Chego a casa ainda são 19h30... e o dia que nunca mais termina!
Finalmente, adormeço no sofá... e acordo às 2h da manhã, para me meter direitinha na cama, plena de cansaço por um dia que parece ter sido vivido a duplicar.

Porquê a mudança para a "Hora de Inverno", quando nos afecta tanto o organismo chegar a casa, depois de um dia de trabalho, e já não ter luz solar?!!!!








- Estórias com Gatos - 24 -




O Desaparecimento da Xica







A Xica é uma gata preta e branca que vivia na mesma casa do Usha; e, devido a um problema oftalmológico, já não via muito bem (tendo, também, os olhos com um formato fora do comum).

Era costume ver Usha deambular pelas ruas de Benfica, junto do Mercado, sem que ninguém se parecesse importar com a sua sorte (dando por certo e atenuante de todos os perigos o seu hábito de saltar pelo quintal, dar a volta ao quarteirão e colocar-se à porta da frente, aguardando que lha abrissem)...

Desta vez, quis o destino que fosse a gata Xica a desaparecer (não sei muito mais pormenores, mas, certamente, terá, também, fugido através do quintal), andando perdida na zona de Benfica .
A sua dona lançou este apelo acima.

Caso saiba do seu paradeiro, contacte, pff. um dos números de telemóvel indicados.







- Estórias com Gatos - 25 -










O Félix tem cerca de 2 meses e, durante algum tempo, viveu na Clínica Veterinária Ani Aid, onde era tratado como um lorde, com todos os mimos e brincadeiras... mas não aparecia ninguém interessado em o adoptar, devido a preconceitos ridículos por causa da cor da sua pelagem.

Quis a sorte (ou o destino, que escreve sempre certo por linhas tortas) que me cruzasse com ele, exactamente, uma semana após o falecimento da minha Ninushka.

Enquanto fazia a montra do "Bazar dos Ronrons" na Ani Aid, uma senhora aguardava com a sua cadela na sala de espera... Momentos mais tarde, havia de a ver estendida sobre a marquesa, enquanto a sua dona saía do consultório lavada em lágrimas.
Explicaram-me depois que a cadelinha tinha um cancro e tinha tido que ser eutanasiada, por já nada mais haver a fazer por ela.
Logo após esta explicação, perguntaram-me se já tinha visto o bebé preto que lá tinham na clínica.

Acredito que, nesta vida, nada acontece por acaso!...
Uma semana após a eutanásia da minha Ninushka, deparei-me com esta inusitada situação... E, passados 4 dias fiz aquilo que a minha consciência-lógica considerava como mais um (dos meus inúmeros) encargo, mas o meu coração me dizia ser o mais acertado.

Félix está cá em casa há 20 dias e já se "enturmou" com todos, passando horas em animadas brincadeiras... ou dormindo aninhado junto da "mamã-gata" de adopção.
Faz-me lembrar imenso o meu afilhado em bebé.

Em alguns momentos, tenho a certeza absoluta que há uma luzinha lá longe - onde quer que seja - que nos continua a acompanhar e a velar por nós.










sábado, 18 de outubro de 2008

Estórias com Gatos - XXIII








O Tareco morava, há largos anos, no Adro da Igreja de Benfica e era bem conhecido de todos os transeuntes que por ali passavam.

Reza a estória, segundo a vizinhança, que o Tareco sempre gostou de dar o seu passeiozinho ao ar livre, apesar de ter alcofa e comida dentro da casa da sua dona ali mesmo no Adro da Igreja.

Um dia, quando esta se mudou para outra casa, vá-se lá saber porquê, o Tareco ficou para trás...

E por ali foi ficando, no largo do Adro da Igreja, protegido e alimentado pelos vizinhos da sua antiga dona e os donos do café bem perto.

Da Primavera ao Verão, passava as tardes espraiado serenamente ao sol junto do cruzeiro.
E, se alguém por ali passava e se metia com ele, roçava-se pelas suas pernas, dando miados suaves de prazer.
De Inverno e à noite, acompanhava silenciosamente os que ali mesmo ao lado, na Igreja, velavam os seus entes queridos; e depois, recolhia-se na escada do prédio onde a sua dona habitara, e agora os vizinhos caridosos lhe davam guarida.

O Tareco era um pouco da alma daquele espaço de Benfica, enclausurado entre o antigo e o moderno, entre o misticismo e os afazeres quotidianos...







O Tareco deixou de ser visto no Adro da Igreja de Benfica há já algumas semanas!...

Como é um gato extremamente meigo e sociável, na melhor das hipóteses, poderá ter sido recolhido por alguém que por ali tenha passado e o julgara abandonado.
Do mal o menos, se assim foi e obteve um novo lar!...

Em qualquer dos casos, se tiver mais alguma informação sobre o paradeiro deste gato, entre, pff. em contacto com os senhores do Café do Adro da Igreja de Benfica (Tel. 21. 760 48 45)... pois existem muitas pessoas preocupadas com o destino que este gato terá tido.

Muito obrigada!









sábado, 30 de agosto de 2008

Neko - o gatinho com sorte








Tinha acabado de chegar do supermercado e os sacos das compras ainda estavam espalhados pelo hall de entrada.
No escritório, o sofá novo, que tinha ido levantar depois de almoço, aguardava também que arrumasse tudo e aspirasse, para poder ser colocado no seu lugar.

Quando chego à cozinha, começo a ouvir os gritos de G., o miúdo de 8 anos que mora com a bisavó no 3º andar de um dos prédios das traseiras, que passou a cumprimentar-me de cada vez que me via dar comida à Misha e à Luana.
Aproximo-me da janela e G. diz-me que o gatinho bebé (o único que não conseguíramos apanhar há um mês atrás) acabara de cair naquele preciso instante no quintal vizinho (um quintal abandonado, pertença de uma clínica dentária).

Há já alguns dias que, ao final da tarde, o gatinho bebé, empoleirado no algeroz dos terraços, seguia atentamente com os olhos Misha (a avó) e Luana (a mãe), quando estas vinham comer por debaixo da minha janela, ou quando iam espraiar-se nesse mesmo quintal abandonado.
Pensei então para mim própria que, muito provavelmente, na ânsia de as querer seguir, acabara por tombar.

Comecei a ficar bastante preocupada quando ouvi os miados aflitivos do pobre animal. Sem o conseguir sequer vislumbrar, era G. quem me ia descrevendo o local exacto em que ele se encontrava e que se conseguia mexer, pelo que não deveria estar magoado.
A bisavó de G. apareceu também à janela, tentando acalmar a preocupação do bisneto, dizendo-lhe que o gatinho conseguiria sair dali.
Mas G., tal como eu, não acreditava no que a bisavó lhe dizia.

Depois de um telefonema para a Dª. H. (uma das vizinhas do prédio onde Dª. Luísa morava, que me tem ajudado a ir colocar comida aos gatos), que acabou por também ficar bastante preocupada e aparecer à janela; tentei convencer o G. a pedir avó para falar com os seus 2 vizinhos da cave, que possuem quintais e através dos quais, talvez, pudéssemos tentar passar para o quintal abandonado da clínica dentária e lá ir salvar o pobre bebé.
Infelizmente, a um final de sábado à tarde, nenhum deles por lá se encontrava... e a clínica também se encontra fechada para obras.

Do alto dos seus 8 anos (e de um 3º andar bem mais elevado, em termos de perspectiva visual, do que o meu 1º andar), G. começa então a tentar convencer-me a colocar um banco no telhado da minha vizinha do R/c e saltar para cima do mesmo através da minha janela do quarto, para depois ir buscar o gatinho bebé alguns metros mais à frente, descendo pelo muro bastante alto do quintal da clínica dentária.
A esta altura da estória, um pouco sem saber o que fazer, já eu começava a desconfiar que, certamente, iria sobrar para mim.






Depois de ir falar com a Dª. M., a minha vizinha do R/c Retaguarda, regresso a casa carregada com um escadote das pinturas do seu marido… e sem ter consciência plena daquilo que me preparava para fazer.

Lá desci pelos quase 2 metros que distam da minha janela do quarto ao telhado da vizinha de baixo, com o G. a gritar para a sua bisavó: - “Ela vai descer, ela vai descer!”
E o meu pensamento (e vertigens) a dizerem a mim própria: - “É desta que te vais mesmo estatelar toda! Tu metes-te em cada uma!!”

Calcorreei os telhados e desci com uma escada mais alta do que o escadote (que, entretanto, a filha da Dª. M. me passou para cima do telhado) para o quintal da clínica dentária… com o G., a bisavó e a Dª. H., todos à janela, a darem palpites sobre qual a melhor forma de descer o muro.

Depois de quase 3 voltas dadas por entre aquele matagal repleto de lixo e de pombos mortos (fruto de uma vizinha do 3º andar daquele prédio, que alimenta os pombos locais e todos os restantes que a eles se juntaram), nem vivalma do pobre gatinho bebé.

Entretanto, R., a filha mais nova da minha vizinha Dª. M., já se juntara a mim no quintal abandonado, mau grado o seu receio de escadas e escadotes.

G. e a bisavó diziam-me do alto da sua janela que o gatinho já deveria ter conseguido fugir para outro quintal. Dª. H., no prédio ao lado, observava tudo silenciosamente.

Num misto de desespero e inconformidade com toda aquela situação, decido-me a fazer nova investida por entre aquelas ervas altas, desviando-as mais uma vez, tentando não reparar na imundice que empestava aquele local.

Subitamente, por entre umas ervas mais escuras, mesmo ao lado de um dos muros do quintal, deparo-me com o dorso do gatinho bebé, todo aninhado a esconder-se.
Chamo R. com a mão, sem fazer barulho, e peço-lhe em voz baixa que me traga a transportadora (nesse exacto momento, agradeci a hora em que R. se decidiu a ir ter comigo ao quintal, já que a transportadora se encontrava mesmo no extremo oposto àquele onde o gatinho estava escondido).
Com uma toalha turca lá o consegui apanhar (como sucedera aos seus 5 irmãos). Esperneou um pouco, miou bastante e, já dentro da transportadora, ainda se tentou debater para fugir.

Persistia, agora, a dúvida sobre o que fazer ao pobre animal!...

Se, por um lado, não podia concordar mais com G., quando este dizia que o bebé já aprendera a lição e seria melhor ficar com a mãe com a avó nos terraços (já que Misha é velhota e quando falecesse, Luana ficaria com a companhia do seu filho); por outro lado, não me conseguia imaginar a mim própria em novas façanhas de ginástica, caso o gatinho bebé caísse novamente para aquele quintal (havendo, também, o perigo de poder cair para os dois quintais, do meu lado da rua, onde há 5 meses atrás fizeram queixa e chamaram o Canil/Gatil Municipal de Lisboa para vir apanhar 7 gatos).

Neko, o 6º bebé de Luana, está bem, apesar do valente susto que apanhou ao cair do terraço onde habitava… e já se juntou aos seus irmãos (tal como eles, também se encontra para adopção - caso esteja interessado/a, pff., contacte palavraseimagens@gmail.com).

Quanto a mim, como dizia o marido da minha vizinha Dª. M., enquanto eu subia o escadote para voltar a entrar em minha casa pela janela do quarto, já posso alistar-me nos Bombeiros.





domingo, 17 de agosto de 2008

Notas Soltas - 132




- Estórias com Gatos - XXI -



- Usha, o gato que se passeia -





Ontem à noite, depois de jantar, descemos para ir deitar fora o lixo e tomar um café ali perto de casa.

Enquanto o H. lutava ferozmente com o caixote verde para lá conseguir enfiar o saco do lixo e eu estava parada ao lado a olhar para ele, aparece-nos vinda a correr do outro lado da rua, direitinha a nós, uma gata alaranjada a miar.
Faço-lhe festas na cabeça e começa a roçar-se pelas minhas pernas, enquanto continua a miar; e reparo que tem uma coleira castanha com aplicações em forma de peixinhos.

Seguimos caminho para o café e a gata vem atrás de nós.
A esta altura, começa o meu coração a bater mais forte e o estômago a ficar todo embrulhado, só de pensar na hipótese do pobre animal poder ter sido ali abandonado (devido à existência de uma clínica veterinária naquela rua – e já não ser a primeira vez que realizam tal “feito”), ou de andar por ali perdido.
Duas portas mais adiante, a gata pára e ali fica, especada no meio do passeio, a olhar para nós enquanto nos afastamos.
Continuo a andar e a olhar para trás, deixando de ouvir o que quer que seja que o H. me estava a contar e salientando, apenas, que, de facto, até parece que atraio este tipo de situações inusitadas com gatos.

Quando saímos do café, peço para fazermos o mesmo trajecto.
Nem vivalma da pobre gata, penso. Eis senão quando, vinda do nada, tal como na primeira investida, aparece a felina alaranjada a miar para nós. Faço-lhe festas e aninha-se na soleira de uma porta.





Depois de uns bons 10 minutos ali parados a tentarmos decidir o que fazer, não conseguimos ignorar o pobre animal e levamo-lo para casa, ficando comodamente instalada na minha casa-de-banho.
Uma série de telefonemas mais tarde, chega a hipótese de se tratar de uma gata residente num prédio ali da rua, que alguém já socorrera do ataque de um cão e dizia tratar-se de um felino que costuma fugir de casa através de um quintal.

Esta manhã, comecei em vão a busca desesperada pelos seus donos...
O facto de ser fim-de-semana prolongado não me ajudou em nada, nem tão pouco um casal de vizinhos (muito pouco compreensivo e solidário) dos donos do animal.
Já quase em desespero, ao final da tarde, deixo-lhes um pequeno bilhete com o meu contacto por debaixo da porta.

Finalmente, por volta das 21h, liga-me uma rapariga, intitulando-se como a dona do gato. Sim, porque, afinal de contas, era um gato, castrado como se fazia noutros tempos, o que dava azo a uma certa confusão.
Pego no pobre gato, num estado já meio entre o enfadado por se encontrar fechado numa casa-de-banho e o "feliz da vida e sempre com a cauda a abanar" por estar quentinho e não ao relento, e levo-o a casa da sua dona, do outro lado da rua.

Fico, então, a saber que o velhote gato Usha partilha a casa com duas gatas e que até têm direito a uma daquelas portinholas (ou "gateiras") para poderem entrar e sair de casa da dona para um magnífico quintal.
Usha apareceu há cerca de 2 anos naquele quintal e por ali foi ficando. Gosta de dar as suas voltinhas pelo quarteirão, uma vez que saindo pelo quintal nas traseiras do Mercado, contorna uma rua, dá mais uma volta e vai ter ao início da rua da sua dona... por ali ficando, à espera que alguém lhe abra a porta principal, para voltar a entrar em casa.
As voltinhas de Usha pelo quarteirão são já famosas no bairro (pelo menos para alguns residentes, nos quais eu própria não me incluía!), havendo até uma senhora que já o recolheu por duas vezes.

Segundo uma outra vizinha ("mais antiga" no bairro), Usha teria sido ali deixado naquele quintal, quando os seus donos se mudaram, sendo estes seus hábitos bem ancestrais... e, tendo ele adoptado, a nova moradora.

Usha está velho, escanzelado e enfraquecido. Tem um olhar muito triste, apesar de ser extremamente meigo.

Se apenas os animais pudessem falar... e contar-nos todas as (suas) histórias já vividas!...






- Fim de tarde nos Quintais -




Misha e Luana em contemplação... ou vice versa.





quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Notas Soltas - 130





- A Dança -







O que estão estes seres humanos a fazer? A dançar.
Na Terra, muitos seres humanos exibem períodos de felicidade, sendo a dança um dos métodos de expressar livremente essa felicidade.
A felicidade e a dança ultrapassam barreiras políticas, ocorrendo em praticamente todas as sociedades humanas.

Matt Harding viajou por diversas nações na Terra, começando a dançar em cada um desses locais e filmando o resultado final (muitas pessoas a ele se juntavam, começando, também, a dançar).
Este vídeo é, talvez, o exemplo dramático de que os seres humanos em toda a Terra sentem uma ligação comum, enquanto membros de uma mesma espécie.
A felicidade é frequentemente contagiosa e poucas são as pessoas capazes de assistir a este vídeo sem sorrirem!







- Esta manhã... -




... Luana veio a correr, juntamente com Misha, comer por debaixo da minha janela.









terça-feira, 5 de agosto de 2008

O Regresso a Casa







As obras na antiga casa de Dª. Luísa começaram no passado dia 1 de Agosto.
A incerteza sobre quem serão os novos moradores e se aceitarão o facto de terem duas gatas residentes no seu pequeno terraço é incomensurável e deixa-nos numa ansiedade muito grande.

Alheia a tudo isso, Rabinho de Raposa (aka Misha) continua a passear-se entre o terraço de Dª. Julieta e o que fora de Dª. Luísa.

De manhãzinha bem cedo, espera-me por debaixo da minha janela do quarto e, à tarde, aproveita o sol quente deitada entre as telhas da minha vizinha do R/c Retaguarda, enquanto aguarda pelas iguarias.

Ao longe, o pequeno filhote, o 6º da ninhada, que não se deixou apanhar nas três tentativas que fiz (como se estivesse decidido a não abandonar aquele terraço), observa a avó, enquanto ela come por debaixo da minha janela. Ainda não consegue aqui chegar, pois a distância entre o terraço onde passa os seus dias e o telhado da minha vizinha é ainda demasiado grande para as suas pequenas patinhas.

Mikado, o pai, continua a aparecer todas as noites, deixando-se antever pelo miado estridente que entoa conforme vai avançando em passo firme quintal a quintal.
O filhote, reconhece-o, recebendo-o sempre com marradinhas e cruzamento de focinhos. Mikado, por seu lado, lambe-o todo.

Enquanto vai apreciando a sua refeição por debaixo da minha janela, Rabinho de Raposa faz pequenos intervalos em que aproveita para me olhar, como que para comprovar se ainda ali estou.
Quando não vejo o pequenote, preocupada, pergunto a Rabinho de Raposa pelo bebé.
Curiosamente, nesse preciso instante, ela pára de comer, vai-se embora a miar suavemente, como se de um chamamento se tratasse. E, ao longe, começo a vislumbrar o bebé a correr, para vir ter com a avó.

Como alguém me dizia outro dia, à Rabinho de Raposa só lhe falta aprender a expressar-se na nossa língua, pois parece compreender tudo aquilo que lhe dizemos (o que é bem verdade, já que a gata apenas tem esta reacção quando lhe pergunto pelo bebé).

Ao fim da tarde, sonolenta, Rabinho de Raposa aninha-se entre os escombros da madeira do que fora um armário no pequeno terraço de Dª. Luísa, mira o horizonte, boceja e adormece... com o neto adoptivo entre as suas patas.






Depois de 15 dias de pós-operatório de esterilização, Luana regressou esta tarde ao terraço onde nasceu e sempre viveu com a sua mãe Rabinho de Raposa e a sua protectora.

O retorno teve contornos meio rocambolescos, já que a pessoa com quem combinara previamente ir esta tarde deixá-la no terraço não apareceu nem me ligou, acabando por me confirmar, quando lhe telefonei, que apenas viria a Lisboa amanhã.

Por mais curioso que possa parecer, Luana acabou por regressar aos quintais através da casa que fora da sua protectora - actualmente em obras (um imenso obrigada aos 2 operários brasileiros que lá estão a trabalhar e nos abriram a porta!).
Há coisas que já parecem ter que ser assim, pressagiadas de forma diferente, como se alguém as tivesse a reescrever!...

Queria ter feito um pequeno filme desta libertação (sobretudo, como forma de agradecimento, para mostrar no Vet. e a quem ajudou nesta história), mas a Luana foi tão rápida que, em plena torreira do sol, às 14h30, mal lhe abri a porta da transportadora e se viu nos quintais, fugiu a sete pés para o terraço do prédio ao lado.
Por isso mesmo, no filme que consegui fazer só aparece o terraço de Dª. Julieta e a minha voz a inquirir para onde Luana fugira.

Depois, ficou, atentamente, a observar-nos ao longe, enquanto colocávamos ração nova nos pratos e mudávamos a água.

Mais tarde, através da janela da minha cozinha, observei Luana enquanto esta aproveitava despreocupadamente o sol ameno de final de tarde, deitada em cima de um dos grandes vasos do prédio vizinho.
No telhado mais abaixo, o seu 6º filhote, brincava com algo, mas, quando a viu ao longe, assanhou-se e começou a recuar. Provavelmente, devido ao tempo de permanência no Vet. e aos novos cheiros que por lá adquiriu não a reconheceram… o que eu mais temia!

Subitamente, Rabinho de Raposa (Misha) salta para o terraço do prédio novo, aproxima-se de Luana e ali fica por breves instantes, voltando depois para o seu terraço. Luana segue-a apressada, como fizera noutros tempos.

E eu fico bem mais tranquila por saber que, afinal, tudo correra pelo melhor, Luana reconhecera o local onde sempre vivera… e fora bem recebida pela sua mãe.








sexta-feira, 1 de agosto de 2008

A "Rabinho de Raposa"




As parcas “aventuras-com-animais” em que, nos últimos anos, me tenho visto enleada têm sido, quase sempre, preenchidas com a descoberta de grandes "personagens"…

Pessoas cujas vidas e pequenos gestos diários trouxeram algo de único e muito precioso ao tempo que passaram neste mundo.
Pessoas que, na maioria dos casos, findaram sozinhas e esquecidas os seus próprios dias…
Mas cujas histórias de vida, certamente, dariam direito a uma bela narração no papel.

Esta é uma homenagem muito sentida a uma dessas "personagens", uma grande Senhora, que, infelizmente, não tive a oportunidade de conhecer senão através das palavras das suas vizinhas (que, nas últimas semanas, tenho escutado atentamente), dos risos quentes que noutros tempos me chegavam vindos do seu terraço… e dos olhos das duas gatas que sempre protegeu em vida.







"Quero, um dia, dizer às pessoas que nada foi em vão...
Que o amor existe,
que vale a pena se doar às amizades e às pessoas,
que a vida é bela sim
e que eu sempre dei o melhor de mim...
e que valeu a pena."

Mário Quintana








Rezam as memórias dos mais antigos que, em tempos idos, aqueles quintais haviam sido habitados por um número infindável de gatos, de todas as cores, pelagens e feitios.

Os felinos viviam em paz e tranquilidade nas suas lides quotidianas: ora espraiando-se ao sol quente da tarde, ora vagabundeando monotonamente de quintal em quintal… naquele pátio interior, fruto da confluência das traseiras dos prédios de duas das principais ruas de Benfica.

Dª. Luísa morava no 1º Esq. do prédio amarelo, num andar cuja cozinha terminava com uma imensa varanda fechada de cortinas alvas, que se abria sobre um pequeno terraço.
No seu pequeno terraço, debruado a buganvílias carmim, Dª. Luísa recebia diariamente a visita de inúmeros desses gatos dos quintais, a quem oferecia alimento e abrigo.

A “Rabinho de Raposa” (também conhecida por alguns como Misha) era bebé quando por ali começou a aparecer há muitos anos atrás (cerca de 18 no total), ainda o "Shaka" (cão da Dª. Julieta, a vizinha do lado e grande amiga de Dª. Luísa) era vivo.
Ninguém sabe ao certo de onde a Rabinho de Raposa apareceu, mas a sua pelagem de Bosques da Noruega deixava indiciar que a sua linhagem seria, eventualmente, originária daquele barracão de alumínio e vidro, à frente dos terraços, onde um vizinho do mesmo prédio amarelo fazia criação de gatos de raça para seu sustento.

Shaka, o Bichon Frisé, nascido na África do Sul, a quem haviam concedido nome de rei, não tolerava a presença dos restantes felinos no terraço da vizinha, apenas se predispondo a entendimento com a bela (e quase nobre pela pose) Rabinho de Raposa.

Dª. Luísa era viúva e, apenas de tempos a tempos, recebia a visita de algum familiar. No entanto, tinha uma perfeita adoração por uma das suas sobrinhas, a qual considerava como o seu “Ai Jesus!”.
Com a distância física e o esquecimento moral dos que lhe eram próximos pelo sangue, Dª. Luísa acabou por ter que tecer a sua própria família no prédio onde viveu durante mais de 30 anos (afinal de contas, sempre possuíra veia de artista e tecia tapetes de Arraiolos como ninguém!): Dª. Julieta, a vizinha do lado, era a amiga de todas as ocasiões, com quem compartilhava o seu amor pelos animais; Dª. Helena, a vizinha do 2º andar, a sua confidente dos últimos anos, quando se apaixonara e não sabia o que as restantes vizinhas iriam comentar nas suas costas por receber visitas diárias do seu homem.

Dª. Luísa era, sobretudo, uma mulher muito avançada e emancipada para o seu próprio tempo!...

Apaixonada sim, mas com as devidas distâncias (e cautelas), mantendo-se cada um na sua própria casa – ou não fora o facto de ser Aquariana lhe conceder essa intempestividade quotidiana de quem anseia sempre por mais liberdade interior.

No que diz respeito aos ciclos reprodutivos dos felinos dos quintais, foi, também, Dª. Luísa que, por sua livre auto-recriação, decidiu passar a dar a pílula a todas as gatas, quando descobriu que a maioria dos gatos que ali nasciam das ninhadas sucessivas da “sua” Rabinho de Raposa terminavam os seus dias envenenados num quintal não muito longe do seu pequeno e aprazível terraço.

E foi assim que no seu pequeno terraço passaram a viver (protegidas) apenas a Rabinho de Raposa e uma das suas filhas que nunca dali se afastara (gata a quem nunca apelidara, talvez, por ser arisca; e a quem alguém, meses mais tarde, viria a nomear como Luana, por ter focinho de lua cheia).
Protegidas por entre as buganvílias e outras flores matizadas, Rabinho de Raposa e Luana tinham, também, o privilégio de pernoitar na varanda fechada de Dª. Luísa e, de vez em quando, de entrarem em sua casa.
Rabinho de Raposa, apesar da atitude de princesa e de nunca arranhar nada dentro de casa (ao contrário de Luana), tinha alma de viandante e, tal como a sua protectora, não gostava de se sentir aprisionada... pelo que gostava de ir sempre dar as suas voltinhas pelos quintais, tendo descoberto um outro 1º Esq. onde abundavam as iguarias para felinos.

Com o passar dos anos e os consequentes achaques de saúde, Dª. Luísa teve, um dia, que ser internada no hospital.
Nesse preciso momento, o seu pensamento encontrava-se muito mais distante da doença que a assolara... percorrendo o seu aprazível terraço, implorando às vizinhas que tratassem das duas gatinhas na sua ausência.

Alguns meses mais tarde, Dª. Luísa foi encontrada sentada na sua cozinha, como que adormecida… para todo o sempre (apenas a alguns dias de completar o seu 78º aniversário, no mês de Fevereiro de 2008).
O seu “enorme” e precioso coração, que todos os seres amava e protegia, havia parado bruscamente.

Rezam as memórias mais recentes que, no seu funeral, o seu apaixonado de outros tempos não conseguira evitar o pranto ao vê-la partir; tal como, no seu aprazível terraço, a Rabinho de Raposa ficara com os seus olhos felinos em lágrimas, enquanto dormitava na varanda fechada que fora de Dª. Luísa.

A família de sangue foi célere em arrecadar os bens e pertences de Dª. Luísa, despindo o outrora aprazível terraço de toda a vida vegetal e animal.
Rabinho de Raposa e Luana foram votadas ao abandono e enxotadas para longe, tendo encontrado abrigo no quintal vizinho de Dª. Julieta, que as continuou a proteger por se tratarem da única herança que a amiga de longa data lhe havia deixado.

Em pleno mês de Março, início da Primavera, os quintais estavam impregnados de um odor a flores murchas… como se a própria natureza sentisse a dor da perda deste imenso coração.

Em Abril, após a morte de Dª. Luísa e de um outro casal, a harmonia e beleza da vida nos quintais pareceram, por momentos, conseguir ser arrebatadas pela desumanidade do Homem.

Felizmente, durante o mês de Maio, a natureza e a própria vida conseguiram vingar por onde a agrura se quis instalar...
Os 6 filhotes de Luana nasceram no tanque da vizinha do R/c. Protegidos, durante meses a fio, das chuvas e do frio, pelo corpo e pêlo da Rabinho de Raposa, sua avó; que, mais tarde, ensinaria a sua filha Luana a pegar-lhes pelo cachaço e a trazê-los para o terraço que outrora pertencera a Dª. Luísa.

Rezam as vozes de quem viveu (bem) de perto toda esta história que não há mãe tão protectora e diligente como a Rabinho de Raposa… que só lhe falta saber expressar-se na nossa própria língua.
Há, ainda, quem diga que os animais adquirem as qualidades dos humanos com quem mais convivem!






terça-feira, 15 de julho de 2008

Quadros antigos com Gatos




Há 3 anos que ali vivia e sempre imaginara aquela vizinha do 3º andar do prédio das traseiras como alguém que possuía um elevado grau de proficiência para passar horas à janela a ver o que os vizinhos dos prédios em frente andavam a fazer (em particular, para a observar todas as manhãs e finais de tarde, com olhar suspeito, enquanto dava comida à Ninushka).
Foi por isso, com algum receio, que decidira finalmente ir falar com a dita cuja senhora, por causa dos novos bebés que tinham dado vida aos quintais, depois da (quase) tragédia sucedida em Abril.

Enquanto subia o último lanço de escadas, foi brindada com um: - “Quem é?”
- “Moro aqui nas traseiras e vinha falar com a senhora por causa dos gatinhos bebés que andam aqui nos vossos terraços”.
- “Ai, é a senhora que alimenta os gatos! Nem a reconhecia!” – retorque com um enorme sorriso nos lábios. – “Entre, entre!”
Repete-lhe que não quer entrar para não estar a incomodar, mas a Dª. C. quase a empurra literalmente para dentro de sua casa.
Ao assomar à entrada da casa da Dª. C., não consegue deixar de dar de caras com um gato em madeira artesanal que ali persiste inerte, como que a cumprimentar os visitantes.
Depois de tal visão, pensa para consigo que, afinal de contas, aquela conversa não iria correr tão mal quanto esperara.

Começa por explicar a Dª. C. o que havia sucedido nos quintais em Abril, quando alguém chamara o Canil/Gatil Municipal de Lisboa e 7 gatos haviam sido levados dali.
Daí o seu medo que algo de semelhante aconteça àqueles 6 gatinhos bebés, quando, desesperados, não encontrarem mais comida ali nos terraços, e se comecem a aventurar por outros quintais.
Não consegue viver constantemente com esse receio, nem com a consciência pesada por algo de mal que lhes venha a suceder. Sempre teve gatos desde criança e ama todos os animais, o que faz com que a sua extrema sensibilidade a impeça de conseguir compreender o sofrimento que o Homem inflinge aos mesmos.
Acaba por lhe propôr recolher os gatinhos bebés para adopção e tentar apanhar a gata-mãe para que seja esterilizada.

Dª. C. ouve atenta. E, quando ela termina, apenas lhe diz: - "Nem imagina a senhora como eu e a Dª. H., a vizinha aqui de baixo, andávamos preocupadas com estes animais! Íamos ainda atirando alguma comidita, mas não sabíamos o que fazer!".
Dª. C.
aproveita, ainda, para louvar o facto da sua interlocutora diariamente dar comida às 2 gatas que vivem nos terraços do seu prédio: - "A Dª. H. até me está sempre a dizer que, se a conhecesse, lhe agradecia por todo o bem que faz àqueles animais!"

Depois, sempre muito sorridente, Dª. C. começa a falar-lhe sobre os animais que tivera no Alentejo, antes de ter vindo para Lisboa. Narra-lhe a história de cada um deles em particular, e remata dizendo que gosta muito de gatos e até ficaria de bom grado com um dos bebés, caso o seu neto não fosse tão alérgico aos felinos.
- "A minha filha, como sabe que gosto muito de gatos, está sempre a oferecer-me objectos com eles. Ora veja a senhora estes quadros que ela me deu!"
Ao entrar na sala de Dª. C. não repara naquele pormenor, de tão focalizada que ia na tarefa que tinha de levar a cabo. Encimando uma das paredes da sala, encontravam-se 3 quadros de tamanho médio, com moldura debruada a talha dourada, como que a imitar as pinturas dos grandes mestres da antiguidade; nesses quadros, as figuras animistas de gatos vestidos de humanos ou em brincadeiras.

Ao observar tal cena, não consegue evitar esboçar um sorriso, recordando-se que, durante 3 anos, imaginara que aquela vizinha reprovava o facto de ela alimentar os gatos dos quintais.

Ao sair, Dª. C. ainda lhe pergunta: - "A senhora não leve a mal a pergunta que lhe vou fazer... Mas ainda tem aquela gatinha preta e branca? É que costumava vê-la sempre à janela com ela e, como nunca mais vi, até pensei que lhe tinha acontecido alguma coisa."






domingo, 6 de julho de 2008

Estórias com Gatos - XVI



Em vésperas de aniversário, descarregamos salgados, bolos e bebidas da mala do carro, quando, subitamente, começamos a ouvir miar.
Um miado bem sonoro e firme, como se nos tivesse a chamar. Olhamos para todo o lado, à nossa volta, e nem vivalma de gato.
E o miado lá continua, mais insistente, como que a querer dizer-nos:
- “Aqui, aqui, humanos. Mas não me conseguem ver? Olhem bem para mim!”

De repente, lembro-me de olhar para cima.
E, no primeiro andar, no alto de uma varanda antiga repleta de floreiras, eis um belo exemplar branco e tigrado, de cabeça grande e larga (como há muito tempo já não via!).

E o dito cujo gatarrão a debruçar-se, cada vez mais, para nos ver melhor…
Começo a falar com ele (aquelas palermices simples e espontâneas, que apenas conseguimos dizer a bebés e a animais) e, entre miados, o gatarrão começa a dar marradinhas no ferro que demarca a sua varanda.
Mais uma fotografia que me vai escapar por entre as mãos... ou melhor dizendo, por entre os inúmeros taparueres e caixas (que seguro com ambas as mãos, tentando ajeitar para não caírem).





2ª voltinha para vir buscar ao carro os 1001 taparueres... e preparo-me, antecipadamente, com a minha máquina fotográfica.
Infelizmente, quando chegamos ao largo, o gatarrão falador já não se encontra na janela do 1º andar.
Em sua substituição, uma bela e corpulenta espécie de gato cinza azulado mira-nos com algum desdém.
Depois aparece uma gata branca, que, ao ver-nos cá em baixo, salta para cima de uma das floreiras e começa furiosamente a mordiscar as flores de plástico expostas.

Uma varanda com gatos à qual regressar... para mais fotos em condições!



terça-feira, 24 de junho de 2008

Tudo de novo...



Este final de tarde, enquanto retirava roupa da máquina de lavar para estender à janela, deparo-me com esta imagem, nos quintais das traseiras...





Até me arrepiei, só de pensar que poderá começar tudo de novo!...

A gata que costuma acompanhar a Misha (que, contrariamente a esta última, nunca se aventura por terrenos alheios ao terraço em frente às traseiras do meu prédio, talvez, por medo) deve ter engravidado e parido do gato Mikado (o macho que deambula pelos quintais em estridentes miados procurando as fémeas).

Os quintais ganharam nova vida...
Pena que as pessoas que alimentam estes animais não se consciencializem que os mesmos teriam uma vida muito mais sossegada se fossem esterilizados, evitando, assim, a sobre-população felina e todas as histórias da barbárie humana a elas associadas.




sexta-feira, 30 de maio de 2008

Notas Soltas - 126



- Fotografia jamais tirada... -


... mais uma que me arrependo profundamente de não ter tirado!




18h. Bairro do Armador, Belavista (Chelas).
Alguns jovens de origem africana jogam à bola no meio do passeio. Duas idosas conversam enquanto passeiam os seus fiéis amigos. Na soleira da porta de um dos enormes prédios, um velho olha o jogo dos adolescentes.

E ao longe, como pano de fundo de toda esta cena de vivência de bairro, as normalmente isoladas e sujas colinas da Belavista (finalmente desmatadas há apenas um mês), onde se vislumbra uma infindade de jovens, subindo velozes e em fila indiana em direcção ao Parque.

Cá em baixo, junto ao Feira Nova e ao metro é o caos completo de carros (tentando estacionar onde quer que seja - até mesmo no mal amado Bairro do Armador), polícias nas suas carrinhas de choque e funcionários municipais transportando caixotes de lixo (que dentro em breve estarão repletos das garrafas de cerveja e comida que os jovens que chegam empunham).




É pena que a Câmara Municipal de Lisboa só se lembre de limpar a cara da Belavista, transformando-a num local limpo e seguro, de dois em dois anos (acção feita expressamente sem ser para os seus moradores)!!!!
É pena que um grande festival de música, que pretende ser "Por Um Mundo Melhor", não faça mais pelo próprio espaço carenciado que utiliza em Lisboa!!!!

Eu não vou ao Rock in Rio... mas trabalho 4 dias por semana na Belavista!







- Encalacrada no Tempo -


Muito perto destas janelas, escondida por arbustos e árvores...








Ermida de Nossa Senhora da Conceição, junto à Quinta do Pombeiro (Parque da Belavista - Chelas) - construção do século XVIII.
Património da Câmara Municipal de Lisboa.







- Estórias com Gatos - XIV -



Os Herdeiros da Ninushka



Desde que esta história começou, os quintais parecem ter ficado amaldiçoados!...

Na verdade, fazendo agora uma retrospectiva de todos os acontecimentos, tudo começara bem antes disso, quando falecera o casal de idosos que protegia os gatos dos quintais e, mais tarde, quando a dona do Bosques da Noruega morrera também.
A queixa hipócrita e velada para o Canil/Gatil Municipal de Lisboa constituira, apenas, a estocada final do Homem sobre a Natureza!...

Hoje em dia, quando me ponho na janela da cozinha a fumar e olho para aqueles quintais desertos e sem vida, invade-me sempre uma sensação muito estranha e agoniante.

Porém, lá longe, na ponta mais à esquerda das traseiras, resistem ainda 2 colónias com cerca de 4 ou 5 gatos.

Em frente às minhas janelas, nos prédios do outro lado, vivem ainda Misha, Mikado e a gata tigrada (que nunca vem para os quintais do lado do meu prédio).



Misha continua a ir aparecendo por debaixo da janela do meu quarto. E, nos últimos tempos, à semelhança do que sucedera com a Ninushka, mal levanto os estores de manhã, ali está já ele à espera de comida, ou corre apressado na minha direcção (miando, enquanto envio para baixo o comedour preso a uns fios). Depois regressa sempre ao pequeno terraço do outro lado, onde vivera a sua dona.

Ainda não tive ocasião de aqui contar, mas, certo final de dia, andava eu completamente embrenhada no início desta outra história, estou a dar comida ao Misha, quando me deparo com a cabeça de uma senhora a espreitar no terraço em frente à minha janela.
Sorrio porque não havia muito mais a fazer perante tal situação.
E é, precisamente, neste ponto que a dita cuja senhora me pergunta como é que eu estava a dar-lhe comida.
Impossibilitada de visualizar toda a cena, vejo a senhora esgueirar-se para o terraço do lado e começar a observar-me.
E é então que me conta que a dona daquela gata havia falecido, mas que ela a continuava a alimentar.
Surpresa geral… afinal Misha era (e sempre foi) uma gata!
Uma gata já muito idosa, segundo me continua a contar a senhora, que, imagine-se, até chorara quando a sua dona falecera.
Pobre Misha… com mais sentimentos do que muitos humanos!



O Mikado perdera, também, este ano os seus protectores, passando a deambular erraticamente pelos diversos quintais, em busca de fémeas.

Aparece poucas vezes por debaixo da minha janela. Se bem que, nas últimas semanas, fruto de acompanhar a Misha para todo o lado (a quem tem muito respeitinho e deixa sempre comer em primeiro lugar), ou, talvez, por andar mais enfraquecido por "andar às gatas", tem aparecido mais frequentemente.
Esta manhã, por exemplo, mal abri a janela, deparei-me com ele assim...




Até já pensei em falar com a vizinha da dona da Misha, a ver se a senhora consegue apanhar o Mikado (que dorme, também, no seu terraço) e o mandamos castrar. Mas o tempo tem sido pouco para tudo aquilo que tenho tido que fazer (em termos pessoais e profissionais)!...