8 horas da manhã.
Termino de me arranjar na casa-de-banho. As minhas manhãs transformaram-se num autêntico corta-mato, para conseguir apanhar o autocarro das 8h11... e demorar 45 minutos até ao emprego, no outro lado da cidade.
Vou até à janela do quarto nas traseiras e preparo-me para estender a toalha de banho, quando, subitamente, me apercebo do vulto de uma vizinha, agachada no seu terraço a espreitar para um dos quintais do lado da minha rua.
Resta dizer que as traseiras de minha casa confluêm com as traseiras dos prédios da rua paralela, formando um aglomerado geométrico de pequenos quintais (como sucede na maioria dos prédios antigos), onde os pássaros começam a cantarolar em uníssono logo de manhãzinha, os gatos vivem numa harmoniosa liberdade e, por breves instantes, sentimos que o campo invadiu a cidade.
Começo a puxar o arame do estendal e apercebo-me então que a dita cuja vizinha do prédio em frente (cujo terraço fica a um nível mais elevado do que o dos restantes quintais, na medida em que se trata do único prédio do pós anos 50/60 ali existente) está a tentar chamar alguém do quintal que se localiza um prédio a seguir ao meu.
Da minha janela, olho para a senhora ao longe. Ela olha para mim e murmura qualquer coisa, de que apenas compreendo a palavra "ladrão" e a frase "veja bem, com duas cadelas e não lhe fizeram nada".
É então que a Dª. L. (vizinha do tal R/c do prédio colado ao meu) aparece no seu quintal, num frenesim e berreiro absolutos, gritando: - "Ladrãaaaao! Ladrão!".
Inicia-se, então, o diálogo da Dª. L. com a vizinha do terraço mais elevado. E, pelo que consegui perceber (dada a distância do meu prédio da ocorrência desta cena), a vizinha do prédio em frente, andava no seu terraço mais elevado a regar as suas inúmeras plantas, quando se apercebe da presença de um homem em cima do seu telheiro.
Assustada gritou-lhe: - "O senhor saia já por onde entrou!".
E o ladrão, desnorteado, saltou para o terraço ao lado, deu alguns passos e, vendo-se num precipício, optou por saltar para o quintal da Dª. L. (o que não queria dizer que tivesse sido por aí que ele entrou), alguns metros consideravelmente mais abaixo.
O dito cujo ladrão teve tanta sorte (apesar da sua notória azelhice para o métier) que, devido à canícula que se fazia sentir nos últimos dias, a Dª. L. deixara a porta de acesso ao quintal aberta, para arejar a casa.
E o ladrão não está de modas e vai de entrar em casa da Dª. L., percorrer todo o corredor até à porta de entrada, meter as mãos à chave, destrancar a porta e sair ligeiro.
E é, precisamente, nesta fase, quando o ladrão abre a porta de sua casa para fugir, que a Dª. L., que dormitava com o marido no seu quarto (mas já andara a estender roupa às 6h30, segundo, mais tarde, haveria de fazer constar na vizinhança), acorda espavorida e começa a berrar.
Salto na história...
E já temos a Dª. L. no seu quintal, após o momento de frenesim e berreiro absolutos, a contar às vizinhas (neste caso, a do terraço mais elevado e eu) o que se passara e como havia tido sorte de não lhe terem feito mal, nem tão pouco roubado o seu ordenado e o telemóvel que deixara pousados na mesa da sala.
Neste ponto, entra em cena a vizinha do 3º andar Dto. do prédio em frente da rua paralela à nossa (minha e da Dª. L.). Mulher muito baixa que, apenas, quando assoma à janela parece crescer um pouco, talvez, devido a algum banco ou acrescento que ali foi feito para que consiga estender a roupa. A sua diminuta estatura é compensada com o elevado grau e proficiência que esta senhora tem para passar horas à janela a ver o que os vizinhos dos prédios em frente andam a fazer (estas duas características terão, certamente, degenerado de família, uma vez que a sua mãezinha também padece de ambas).
Surge então, altaneira, na sua janela a vizinha do 3º Dto. do prédio em frente.
Cá por baixo, ao nivel do terraço mais elevado e do quintal da vizinha visitada pelo ladrão, discute-se a aparência deste último.
-
"Coitado, ele até tinha ar de desgraçado!" - profere a vizinha do terraço mais elevado.
-
"Coitado??? Coitado? Eu dizia-lhe quem é o coitado, com o enxerto de porrada que lhe dava, se o apanhasse!" - vocifera, indignada, a Dª. L.
E a vizinha diminuta do 3º Dto. do prédio em frente: -
"Mas ele era preto?"
Por breves momentos, tive mesmo vontade de largar o meu papel de espectadora de toda aquela cena e perguntar alto e bom som (eu que até costumo falar sempre muito baixinho), da minha janela, se ela achava que o roubo era um qualquer atributo de pessoas de uma cor diferente da nossa.
Mas pensei...
"É melhor não! Deixa-te mas é estar quietinha, porque o tempo está a passar e já te estás a atrasar para ir para o emprego!".
- "Então e não acha melhor apresentar queixa na Polícia, Dª. L.?" - perguntei, então, tentando terminar toda aquela cena que já ia longa.
-
"Para quê? Eles não fazem nada!!" - respondeu-me a Dª. L.
Face a tão elucidativa e peremptória resposta, nada mais havia a fazer. Apenas lhe disse que tivesse calma e que descansasse depois daquele susto. E preparava-me já para me despedir, fechar a minha janela e arrancar para o emprego, quando a Dª. L. se aproxima mais do muro do seu quintal que fica do lado da minha janela, e, numa perfeita metamorfose transfigura o seu rosto, dizendo-me: -
"Sabe, ontem, estavam aí os seus gatos à janela. São tão lindos!".
E eu vou para o trabalho a pensar que, realmente, há coisas que nunca mudam numa vizinhança.