Bairro do Armador, Chelas, 17h...
Enquanto arquivo uns documentos num
dossier, deparo-me
através do espelho (já encerrado para descanso, devido à escassa luz do anoitecer ter feito com que o efeito mágico do espelho desaparecesse, transformando-se em janela aberta aos olhares exteriores) com uma cena verdadeiramente bizarra: atrás do
tripé corre a pitbull velhota (vizinha do mesmo prédio), perseguida por esta
miúda, que lhe bate com uma esfregona.
A B., o ZA e eu saímos lançados para a rua, tentando perceber o que se passava.
Ao
tripé já ninguém o via (tendo, talvez, contornado o prédio, para entrar pela porta principal), mas a
miúda continuava a correr furiosamente atrás da pitbull velhota.
Olhamos uns para os outros, sem saber lá muito bem o que fazer...
E é quando vemos aparecer a avó da
miúda (uma senhora, aparentemente, de ar rude e de poucas conversas, mas que me costuma sempre dar os "bons dias" e, de quando em vez, até nos limpa a calçada por debaixo do nosso gradeamento da janela)... que, provavelmente, deve ter percebido algo de estranho nos nossos rostos, ou então, não percebeu lá muito bem o motivo de tal ajuntamento à nossa porta, e nos pergunta logo num tom grave: -
"A miúda fez alguma coisa?"A B. e eu dirigimo-nos a ela, enquanto o ZA aproveita para voltar para o escritório...
Explicamos-lhe o que víramos...
E é nessa altura que me apercebo que a B. tinha ficado preocupada que a pitbull velhota se virasse à miúda, ao passo que eu temia apenas por mais uma das patinhas do caniche... e a avó apenas pensava que a causa de todo aquele alarido fora a sua neta reguila.
Diz-nos, então, a avó: -
"Não se preocupem, porque ela não faz mal!"
E a B.: -
"Isso nunca se sabe... ouvem-se tantas coisas sobre estes cães!"
Retorque a avó (que costuma passear a sua pitbull velhota, de vez em quando, acompanhada por cachorrinhos, qu desaparecem misteriosamente ao fim de algumas semanas): -
"Mas isso depende da educação que os donos lhes dão."
E eu, a tentar deitar água na fervura: -
"É porque a minha colega não sabia que a menina era sua neta e que a cadela já a conhecia."
E ficámo-nos por ali...