[Ver Partes I, II, III, IV, V, VI e VII]
Como o prometido é devido, depois de um merecido descanso, aqui vos deixo toda a história do salvamento da Meg! :)
- O Salvamento –
Depois do fracasso das nossas buscas de ontem, a F. e eu tínhamos combinado encontrarmo-nos esta manhã, por volta das 9h, no café, para falarmos com o tal cigano (que fora visto a roubar a Meg) que dissera que a cadela se encontrava na Alta do Lumiar, num bairro social por detrás da igreja das Galinheiras.
Quando cheguei, o Sr. M estava à porta do café, como é hábito. E a F. já lhe tinha dito que nos poderia acompanhar nas nossas buscas, uma vez que o meu irmão já tinha ido buscar o seu jeep à oficina. Passámos quase uma hora à espera no café e o cigano, que lá costuma ir tomar o pequeno-almoço, não apareceu.
Decidimos, então, ir à Praça falar directamente com ele.
Chegadas à Praça, dirigimo-nos ao tal cigano, com quem a F. falara na véspera. E, muito diplomaticamente, dissemos-lhe que tínhamos andado já por 2 dias no local que nos indicara e a cadelinha não se encontrava lá. Olhou de uma forma suspeita para nós e mandou-nos ir falar com o seu irmão, numa outra banca.
Aí chegadas, o tal irmão disse-nos que a cadela estava, de facto, abandonada nuns estaleiros localizados no bairro PNR 10, por detrás da igreja das Galinheiras. Insistimos, mais uma vez, que lá tínhamos estado ainda na véspera e não a encontráramos. O seu rosto modificou-se, pareceu ter ficado incomodado e afastou-se. Foi então que a sua mulher, com uma criança ao colo, se dirigiu a nós num tom de voz bastante elevado e gesticulando muito com a sua mão direita, falando-nos como se fossemos estúpidas, disse que o bairro PNR 10 é composto por uns prédios amarelos "com umas partes em pedra".
Agradecendo-lhe bastante pela ajuda, saímos dali à procura do Sr. M, para lhe perguntar se nos queria acompanhar. Este encontrava-se junto a dois outros ciganos, no extremo oposto da Praça. Disse-nos que tinha combinado ir mudar uma das rodas da sua cadeira, pois o pneu encontrava-se furado; e não sabia se chegaríamos a tempo de ele apanhar a loja aberta. Aproveitámos, ainda, para questionar um dos ciganos que se encontrava junto ao Sr. M sobre a localização exacta dos tais estaleiros e do bairro PNR 10. Apenas nos disse que esse bairro era muito grande.
Partimos, então, no jeep do meu irmão, acompanhados pela minha mãe, rumo à Alta do Lumiar, para uma zona incerta nas Galinheiras, que nenhum de nós sabia como lá chegar.
Durante cerca de meia hora, andámos um pouco perdidos na zona da Alta do Lumiar, por ruas que nem a F. nem eu nos lembrávamos de ter percorrido na véspera com o tal vizinho taxista da T. Víamos a torre de uma igreja, mas não encontrávamos maneira de lá chegar. Tendo, então, aproveitado para perguntar a um senhor que esperava por um autocarro numa paragem como poderíamos chegar à igreja das Galinheiras. Disse-nos para seguirmos o autocarro nº 17 (destino: Fetais), que acabara de se aproximar da paragem. Começámos a seguir o autocarro quando, subitamente, a F. dá um grito e diz: - "Olhem, não é a Meg?"
A minha mãe, que ia sentada à frente no varro (a F. e eu seguíamos atrás, de onde é sempre mais difícil sair, na medida em que o jeep do meu irmão é um daqueles Land Rover's antigos, com capota de sarja, a qual é preciso levantar para que os passageiros da retaguarda possam sair), saiu e chamou a cadela que, de facto, se assemelhava bastante à Meg, mas era mais gorda e, finalmente, descobrimos que se tratava de um macho.
Entretanto, ao pararmos para verificar esta pista falsa, acabáramos de perder o autocarro nº 17 que, segundo o senhor que esperava na paragem, deveríamos seguir para podermos chegar à igreja.
Decidimos ir em frente e seguir as várias paragens do autocarro nº 17. Até certo ponto o caminho mantinha-se inalterável. Numa curva da estrada, vislumbrámos um enorme edifício amarelo perto de um monte, e ao longe a torre da tal igreja. Seguimos por aí, alcançando um enorme estaleiro de uma obra em construção. Saímos todos do carro e fomos verificar. Não nos parecia ser o local exacto, apesar do tal enorme edifício amarelo, mas a F. ainda gritou uma vez chamando pela Meg. Ouviu-se ao longe um: - "Anda aí gente!..."
Quando nos preparávamos, novamente, para entrar no jeep, alguém nos chamou. Olhámos para trás e vimos um rapaz, que, aparentemente, parecia ser o vigilante da empreitada. Contámos-lhe toda a história, de onde vínhamos e ao que íamos, falámos nos tais prédios amarelos com "umas partes em pedra" do bairro PNR 10 e no estaleiro. Disse-nos que não conhecia, mas que seguindo por uma outra ruela enlameada -que nos indicou logo- iríamos chegar a uns bairros sociais, alguns dos quais se encontravam ainda em construção e onde, eventualmente, existiriam, também, estaleiros.
Agradecemos-lhe pela atenção e, antes de partirmos, como eu vinha munida de 20 exemplares do anúncio do desaparecimento da Meg (com os contactos telefónicos para onde se poderia ligar caso a encontrassem), aproveitei logo para lhe deixar um, não fosse o diabo tecê-las.
Prosseguimos pela rua que ele nos indicara e chegámos a um complexo de prédios enormes despersonalizados e, aparentemente, sem qualquer tipo de vivência de bairro, onde nem lojas sequer existiam.
A minha mãe, a F. e eu saímos do carro, para ali dar umas voltas. Enquanto o meu irmão, algo receoso que lhe roubassem o seu tesouro, se manteve dentro dele.
Chegámos junto de um jardim, tendo a F. dito que já ali estivera na 4ª feira, quando andou com a sua mãe dentro de um táxi à procura da Meg. Passaram por nós 2 casais daquele bairro, tendo um dos homens dito em tom jocoso: -"Sim, sim, 'tá muito bonito o jardim!". Fingimos não ligar e dirigi-me a um rapaz que ali estava com um pitbull sem trela. Perguntei-lhe sobre o tal bairro PNR 10 e expliquei que andávamos à procura de uma cadela que tinha desaparecido. O rapaz afastou o olhar e respondeu que não morava naquele bairro. Entretanto, junto a uma das entradas de um prédio ali perto, uma mulher de idade vendia legumes e algumas pessoas passavam. Inquirimo-los sobre a mesma questão. Um dos homens disse-me que sabia, perfeitamente, onde era o bairro PER 1o e não PNR 10 (afinal de contas, nós é que entendêramos mal o que os ciganos nos tinham dito!). Conduziu-me até ao jardim onde a vista era mais ampla e, colocando-me a sua mão no ombro, apontou para o alto de um morro, onde sobressaíam uns prédios de cor creme. Junto da F. e da minha mãe, uma série de outras pessoas disponibilizavam-se muito solicitamente a tentar indicar-lhes qual o melhor percurso a seguir para lá chegarmos. Metemo-nos no jeep e, ao sairmos, reparei que tínhamos estado no bairro (de realojamento social) PER 13.
Chegados ao local que nos haviam indicado, não pudemos deixar de reparar, logo à entrada do bairro, num enorme ferro-velho de sucata, com um portão em madeira, que jazia no fundo de um vale. A F. e a minha mãe, dir-me-iam mais tarde que, à porta do tal ferro-velho, se encontrava um rapaz com um pitbull.
Estacionámos logo junto a uns prédios à entrada do PER 10, um bairro social, aparentemente, construído há muito pouco tempo, dado que as paredes exteriores dos edifícios permanecem imaculadas e o jardim com alguns mobiliários urbanos para os jogos das crianças ainda tinha a relva muito verde e bem tratada.
Olhámos em volta e vimos 2 cafés. Dirigimo-nos ao mais próximo, para tentar saber alguma coisa junto dos populares. Entrei e dirigi-me à primeira pessoa que me apareceu à frente, um homem de meia-idade, de óculos, com um cão a seu lado.
Expliquei toda a situação e falei no tal estaleiro que os ciganos na Praça nos tinham mencionado. Pareceu gaguejar, disse que não sabia bem e apontou-me o dono do café, dizendo que, talvez soubesse melhor. Dirigi-me para o balcão, onde um homem acabava de pagar a sua conta e, na outra ponta, um casal jovem bebia café.
O dono do café olhou para mim, sem querer avançar para o que quer que fosse que eu lhe iria dizer. Com os olhos de todas as pessoas que se encontravam no café postos em mim, expliquei-lhe, mais uma vez, toda a situação, mostrei o anúncio do desaparecimento da Meg com os nossos contactos. Menos receoso, aproximou-se e disse que, efectivamente, nos encontrávamos no bairro PER 10, que na entrada do mesmo existia um estaleiro, mas que nunca ali tinha visto a Meg. Agradeci e perguntei se poderíamos ali deixar o anúncio, caso a cadelinha aparecesse. Aceitou-o. Ao sairmos, duas senhoras de idade que estavam sentadas numa das mesas perguntaram-nos se a cadelinha tinha sido roubada. A minha mãe respondeu que sim, em Benfica, e que andávamos à sua procura há cerca de 3 semanas. - "Ah, isso foram os ciganos, esses malvados", proferiu uma das idosas. Agradecemos, mais uma vez, e saímos.
A F., a minha mãe e eu dirigimo-nos, então, ao tal estaleiro, que ficava na entrada do bairro. Um local estranho, que não passava de uma espécie de ferro-velho de sucata e entulho, para onde se entrava descendo uma ravina. Do lado direito, em baixo, permaneciam imóveis, olhando para qualquer coisa que se encontrava junto a uma parede, 3 tipos "brancos" com um aspecto estranho, acompanhados de 1 rapaz cigano muito magro.
Descemos a ravina, aproximando-nos em fila indiana, a F. à frente, eu e a seguir a minha mãe. Ao descer, dissemos por 2 vezes "bom dia" e os fulanos nem sequer responderam, limitando-se a olharem para nós intimidativamente. Quando, finalmente, os alcançámos, ouvimos uns cães ladrarem e apercebemo-nos, então, que estávamos diante de 2 canis construídos em pedra e separados entre si: - num deles, o que era olhado pelos 4 tipos, encontrava-se um rottweiller, rodeado de excrementos, denotando que o local não era limpo há vários dias; - no outro, mais ao longe, tapado por umas tábuas, deveriam estar uma série de cães aparentemente rafeiros, dos quais só vislumbrávamos a cabeça de 2 ou 3, mas que, pelo seu ladrar, percebemos serem muitos (mais tarde, apesar da alegria em rever a Meg, haveria de me lembrar bastante, com alguma mágoa, daqueles pobres cães que ali se encontravam em condições desumanas e utilizados para fins incertos; e que, ao aperceberem-se da nossa presença, ladraram de uma estranha forma, como se estivessem a pedir para os tirarmos dali).
Junto dos 4 fulanos, explicámos toda a história do desaparecimento da Meg, sem nunca acusar ninguém. Dizendo, apenas, que uns ciganos que vendem na Praça de Benfica nos tinham dito que a cadela estava naquele local (neste ponto, aproveitámos para lhes mostrar o anúncio do desaparecimento da Meg). Quem nos respondeu foi o rapaz cigano magro, dizendo que nunca por ali tinha visto tal cadela e que, apenas, tinha aqueles cães que ali se encontravam. Apontou para o rottweiller e disse rindo-se: - "Não é esta, pois não?!". Rimos, também, sem vontade nenhuma, e respondemos negativamente.
O rapaz cigano magro continuou, dizendo que, se quiséssemos, poderíamos verificar no outro canil mais afastado se ela ali se encontrava. Estava, logicamente, a colocar-nos à prova e, felizmente, que nesse exacto momento entre nós as 3 deve ter havido uma qualquer transmissão de pensamento, porque apenas lhe respondemos que não valia a pena, pois acreditávamos na sua palavra.
No entanto, continuámos a insistir, explicando que a cadela nem sequer era de raça pura (aproveitando para questionar -sem qualquer resposta- porque é que alguém a teria levado), que o seu dono estava desgostoso e que todo o bairro onde morávamos andava à procura da cadelinha. Um dos fulanos "brancos", bastante gordo, permanecia imóvel, com um sorriso espelhado nos lábios como se estivesse a gozar com toda a situação.
Entretanto, surgido não sei muito bem de onde, apareceu um outro rapaz cigano, mais novo e mais gordo do que aquele que nos respondia a todas as questões que colocávamos. Juntou-se a nós sem dizer qualquer palavra. Aproveitei e mostrei-lhe o cartaz da Meg, explicando tudo aquilo que já tínhamos dito aos outros 4. Quando lhe dissemos que tinham sido uns ciganos que trabalham na Praça de Benfica a indicar-nos aquele "estaleiro", o cigano novo e gordo descaiu-se e disse-nos que, por vezes, também, ia vender aí. Sem sequer ter lido o anúncio que lhe mostrava, perguntou-nos se havia alguma recompensa pela cadela (tendo, nesta altura, o gordo "branco" que nos olhava em tom de gozo dito: - "Este gajo é sempre a mesma coisa!"). Respondi-lhe que sim, que tal como dizia no anúncio (apontei-lhe o parágrafo), existia uma recompensa pela Meg. Perguntou-me quanto era. Respondi: - "50€". Explicou-nos, então, que se encontrasse a cadela (que, logicamente, nesta altura já estava mais que provado que tinham sido os seus familiares a roubar) isso era muito pouco dinheiro... propôs 100€. A F. disse repentinamente: - “Damos!”. O cigano gordo e novo assentiu com a cabeça. Passei-lhe o anúncio do desaparecimento da Meg para as mãos, pedindo que, caso tivessem alguma notícia, nos telefonassem para um daqueles números de telemóvel. O cigano mais velho e mais magro disse que enviariam um "Call me" (sms gratuito, enviado para um outro número de telemóvel, solicitando que essa pessoa ligue para o telemóvel que enviou este pedido) para o telemóvel da F. que, também, era da rede TMN, como o deles.
Depois de termos agradecido toda a ajuda que nos pudessem dar (continuando a conversa diplomática e dúbia em que ambas as partes sabiam quem tinha roubado a Meg e quem estava a acusar quem -que me deu mesmo a volta ao estômago!), saímos daquele estranho local o mais depressa possível!...
Chegadas ao carro do meu irmão, este informou-nos que um dos rapazes que se encontrava no café onde tínhamos ido, lhe tinha vindo dizer que havia um outro estaleiro mais acima, onde também, costumavam estar muitos cães e que pertencia a uns ciganos (afinal de contas, as pessoas que ali vivam no PER 10, apenas, tinham medo de dizer alguma coisa que lhes pudesse vir a trazer graves consequências -na medida em que têm de conviver, diariamente, uns com os outros: bons e maus-, mas quiseram ajudar-nos!).
Quando nos estávamos a enfiar no jeep, avistámos os 2 jovens ciganos, vindo na nossa direcção. O meu irmão aproveitou para lhes falar no outro estaleiro, dizendo-lhes que lá íamos agora verificar. O rapaz cigano mais velho e mais magro olhou para o meu irmão e para a minha mãe e, apenas, lhes disse que não valia a pena, porque o estaleiro era seu e não havia lá nenhum cão parecido com a Meg. Compreendemos a mensagem e quais os seus intentos. E os 2 rapazes ciganos aperceberam-se, também, que tinham sido apanhados em flagrante, quando se dirigiam, demasiado cedo (pensando, talvez, que já nos tínhamos ido embora), para o 2º estaleiro, em busca da "nossa" Meg. Afastámo-nos rapidamente, enquanto eles se dirigiam para o tal outro estaleiro.
Dentro do jeep, regozijámos, ao pensar que os próprios ciganos tinham sido algo parvos e que, finalmente, iríamos reaver a Meg. Pedi ao meu irmão para dar umas quantas voltas ali pela região, de modo a "fazermos tempo" para que os rapazes ciganos nos contactassem com notícias sobre a Meg. Era quase meio-dia e pensei que, estrategicamente, só lá por volta das 13h nos dissessem qualquer coisa. Mas nem sequer tinham ainda passado 10 minutos, desde que abandonáramos o local em viatura, quando a F. recebe um "Call Me". As mãos da F. tremiam de nervosismo ao passar-me o seu telemóvel para as minhas mãos -porque estava sem óculos e não conseguia ler o número. Copiei-o para o meu telemóvel e liguei.
Pareceu-me a voz do cigano mais novo e mais gordo, tendo, subitamente, começado a falar-me o mais magro e mais velho.
- "Ouça, nós encontrámos a cadela! Mas o rapaz que a tem comprou-a por 150€ e não a devolve se não lhe derem esse dinheiro."
Perguntei-lhe se era mesmo a Meg, se tinha o pêlo da barriga rapado, fazendo tempo para que a F. e a minha mãe assentissem no novo preço que nos estavam a pedir. Respondeu-me que sim. Questionei-o, então, sobre se era mesmo aquele preço ou nos iriam pedir mais dinheiro. Respondeu que era esse o preço. Compreendemos (novamente) a mensagem e respondi-lhe que íamos levantar dinheiro e, dentro de 20 minutos, nos encontrávamos no 1º estaleiro onde tínhamos ido. Respondeu-me que não, que era melhor encontrarmo-nos à porta da igreja das Galinheiras (mais tarde, apercebemo-nos que, na véspera, apesar de termos lá ido com um senhor -taxista de profissão-, tínhamos andado a percorrer a zona errada... ou seja, não tínhamos ido para as Galinheiras, mas sim para uma zona próxima da Ameixoeira).
Depois desta conversa telefónica, foi o cronometrar do tempo, à procura de uma caixa multibanco, num local completamente deserto. Levantei 100€ e a F. 50€, porque, como ela se encontra desempregada, não quis que tivesse mais encargos com esta busca.
Chegámos ao ponto de encontro com 5 minutos de antecipação. À porta da igreja, a fazer sinais ao meu irmão que conduzia, encontrava-se o cigano mais novo e mais gordo, sem a Meg. Depois, no curto espaço de tempo em que estacionávamos e saíamos do carro, vimos o outro cigano mais velho e mais magro aproximar-se vindo não se sabe bem de onde (no regresso a casa, alguns minutos mais tarde, compreenderíamos finalmente que os ciganos estavam ainda mais receosos do que nós, pois ficaram com medo que levássemos connosco a Polícia, daí terem marcado o encontro para aquele local e terem se munido de tantas precauções), acompanhado de um 3º cigano já adulto. Este último trazia pela trela improvisada (apenas uma corrente ferrugenta) a "nossa" Meg.
Conforme se aproximaram de nós, a Meg ficou cada vez mais excitada ao ouvir a voz da F. Aproximou-se aos saltos e até me lambeu a cara. O mais caricato de tudo é que os 3 ciganos até nos ajudaram a colocar a Meg dentro do jeep. E só quando ela lá se encontrava, já bem segura, é que lhes passámos o dinheiro para as mãos. Não quisemos saber de mais nada, porque a tinham levado ou o que quer que fosse... apenas queríamos voltar a Benfica e encontrar o Sr. M.
Já dentro do carro, a caminho de Lisboa, a F. e eu chorámos de alegria ao estar com a Meg ali ao nosso lado. Nessa altura, liguei ao Sr. M, para lhe pedir que se encontrasse connosco à porta do café, sem nunca dizer que tínhamos a Meg, para lhe fazer surpresa (mas tive que deixar recado com a T., onde ele deixara o seu telemóvel a carregar a bateria).
Durante o caminho, a Meg vinha muito feliz (até lhe tirei algumas fotos e tudo!) mas, também, algo agitada (até vomitou um bocadinho, com os solavancos do jeep) e cansada (estava constantemente a abrir a boca, com sono), tendo-se deitado por instantes aos meus pés.
Chegados a Benfica, o Sr. M, que estava à porta da loja da T., não se apercebeu logo do que se passava, quando nos viu... mas a Meg saltou-lhe rapidamente para o colo toda contente. O Sr. M, bastante agitado retirou os seus óculos e pediu ao meu irmão que os segurasse por um momento. Abraçou-se à Meg durante alguns minutos, de olhos fechados, como se estivesse a meditar (foi antes disso que lhe pedi autorização para tirar uma fotografia que celebrasse o reencontro -tendo, então, captado uma das imagens mais belas que já tive ocasião de presenciar!).
A Meg, coitadinha, ficou tão nervosa com o reencontro, que ainda fez para ali, no meio do passeio, as suas necessidades (limpas no mesmo instante pela T. e pelo Sr. M). De repente, alguns vizinhos e comerciantes aproximaram-se, ou observavam ao longe a cena... com muitas, imensas questões sobre o reaparecimento da Meg. Mas o Sr. M, o seu dono, deveria ser o primeiro a ser informado. Por isso, enquanto nos aproximávamos da clínica veterinária, onde íamos levar a Meg para verificar o seu estado de saúde, contei-lhe em traços largos toda a história. O Sr. M ficou muito revoltado por termos tido que pagar a quem a roubara (e confirmou-me que o tal cigano mais velho e mais magro, também, participara no roubo da Meg).
Também considerei toda esta história revoltante e injusta, ainda para mais porque tenho a certeza absoluta que os ciganos da Praça de Benfica estiveram o tempo todo do nosso percurso em contacto com os tais ciganos do estaleiro. Mas, como me disse desde o início uma amiga que tem mais experiência nestas coisas, se não pagássemos nunca voltaríamos a ver a Meg! Foi a única solução...
Por outro lado, continuaremos a nunca saber exactamente qual o motivo porque roubaram a Meg ao Sr. M. Apesar de eu continuar a pensar que a queriam oferecer ao tal avô cigano, mas como o Sr. M se antecipou e falou antes com esse patriarca, tendo-se ele comprometido a devolver-lhe a cadela caso lha oferecessem; os tais ciganos que a roubaram devem ter ficado completamente perdidos e sem saberem o que fazer... e, ao fim de 3 semanas de roubo, foi esta a única maneira de resolverem a situação que encontraram.
Mas isso agora, também, não interessa, o que conta é estar sã e salva, de novo com o Sr. M!
Pelo aspecto com que a Meg vinha, deve ter estado sempre dentro de uma casa ou de um local fechado e não a devem ter tratado mal, pois não vinha magrinha (apesar do Sr. M dizer que ela estava muito mal). O veterinário confirmou que, aparentemente, está de boa saúde, porém, convêm esperar 8 dias antes de lhe serem administradas as vacinas (que estavam marcadas para antes do seu roubo), para verificar se ela não estará infectada com parvovirose, dado que não sabemos exactamente se esteve em contacto com outros cães e em que condições.
Quanto ao receio dos ciganos poderem voltar a fazer algo semelhante (por causa do dinheiro do resgate) ou exercerem represálias sobre o Sr. M, não me parece que qualquer das situações venha a ocorrer. Esta tarde, ainda enviaram outro “Call Me” à F. que lhes ligou de volta, queriam saber se tinha corrido tudo bem e se o dono ficara contente de reaver a cadela. Ou seja, basicamente, estavam, mais uma vez a pôr-nos à prova e a tentarem perceber se tinham sido identificados enquanto os verdadeiros ladrões da Meg. Por outro lado, depois do que vimos no tal estaleiro, não me parece que eles voltem novamente a fazer o mesmo... uma vez que sabemos onde estão, o que fazem e poderemos lá voltar com a Polícia.
No final deste pesadelo que durou 3 semanas e começou logo depois do meu aniversário, posso afirmar, sem sombra de dúvida, que me envolvi demasiado nas buscas; "chateei" família, amigos e colegas de trabalho por causa deste roubo; através da internet, coloquei metade da cidade de Lisboa e arredores em busca da Meg; sofri e desesperei em muitas alturas, como se a Meg fosse minha; conheci pessoas extraordinárias, com uma força de vontade e carácter incríveis; vivi uma das mais surreais aventuras, colocando até mesmo a minha vida em perigo (mas já me apercebi que um dos meus defeitos é, precisamente, não ter bem a noção do perigo quando o vivo... só dessa forma se poderá explicar a surpreendente calma e tranquilidade com que esta manhã vivenciei tudo aquilo que aqui descrevi!)...
Mas há recompensas que valem por tudo isso e muito mais: - por mais anos que viva, nunca me hei de esquecer da forma terna como o Sr. M abraçou a Meg, quando a reencontrou... nem da expressão que se esboçou no seu rosto, enquanto olhava para o céu de uma forma contemplativamente religiosa, e nos dizia que lhe tínhamos dado uma razão de viver.
Há coisas que não vale a pena serem agradecidas tantas vezes, Sr. M!...Sempre me ensinaram que, quando ajudamos alguém, não pedimos nada em troca e, apenas, o fazemos porque sentimos compaixão (= sentimos a dor de outrem como se fosse a nossa própria dor) no nosso coração... e queremos a felicidade de alguém!
No final desta história (verdadeira), queria, mais uma vez, agradecer a todos os que aqui nos ajudaram e nos deram algum apoio moral!
Como o prometido é devido, depois de um merecido descanso, aqui vos deixo toda a história do salvamento da Meg! :)
- O Salvamento –
Depois do fracasso das nossas buscas de ontem, a F. e eu tínhamos combinado encontrarmo-nos esta manhã, por volta das 9h, no café, para falarmos com o tal cigano (que fora visto a roubar a Meg) que dissera que a cadela se encontrava na Alta do Lumiar, num bairro social por detrás da igreja das Galinheiras.
Quando cheguei, o Sr. M estava à porta do café, como é hábito. E a F. já lhe tinha dito que nos poderia acompanhar nas nossas buscas, uma vez que o meu irmão já tinha ido buscar o seu jeep à oficina. Passámos quase uma hora à espera no café e o cigano, que lá costuma ir tomar o pequeno-almoço, não apareceu.
Decidimos, então, ir à Praça falar directamente com ele.
Chegadas à Praça, dirigimo-nos ao tal cigano, com quem a F. falara na véspera. E, muito diplomaticamente, dissemos-lhe que tínhamos andado já por 2 dias no local que nos indicara e a cadelinha não se encontrava lá. Olhou de uma forma suspeita para nós e mandou-nos ir falar com o seu irmão, numa outra banca.
Aí chegadas, o tal irmão disse-nos que a cadela estava, de facto, abandonada nuns estaleiros localizados no bairro PNR 10, por detrás da igreja das Galinheiras. Insistimos, mais uma vez, que lá tínhamos estado ainda na véspera e não a encontráramos. O seu rosto modificou-se, pareceu ter ficado incomodado e afastou-se. Foi então que a sua mulher, com uma criança ao colo, se dirigiu a nós num tom de voz bastante elevado e gesticulando muito com a sua mão direita, falando-nos como se fossemos estúpidas, disse que o bairro PNR 10 é composto por uns prédios amarelos "com umas partes em pedra".
Agradecendo-lhe bastante pela ajuda, saímos dali à procura do Sr. M, para lhe perguntar se nos queria acompanhar. Este encontrava-se junto a dois outros ciganos, no extremo oposto da Praça. Disse-nos que tinha combinado ir mudar uma das rodas da sua cadeira, pois o pneu encontrava-se furado; e não sabia se chegaríamos a tempo de ele apanhar a loja aberta. Aproveitámos, ainda, para questionar um dos ciganos que se encontrava junto ao Sr. M sobre a localização exacta dos tais estaleiros e do bairro PNR 10. Apenas nos disse que esse bairro era muito grande.
Partimos, então, no jeep do meu irmão, acompanhados pela minha mãe, rumo à Alta do Lumiar, para uma zona incerta nas Galinheiras, que nenhum de nós sabia como lá chegar.
Durante cerca de meia hora, andámos um pouco perdidos na zona da Alta do Lumiar, por ruas que nem a F. nem eu nos lembrávamos de ter percorrido na véspera com o tal vizinho taxista da T. Víamos a torre de uma igreja, mas não encontrávamos maneira de lá chegar. Tendo, então, aproveitado para perguntar a um senhor que esperava por um autocarro numa paragem como poderíamos chegar à igreja das Galinheiras. Disse-nos para seguirmos o autocarro nº 17 (destino: Fetais), que acabara de se aproximar da paragem. Começámos a seguir o autocarro quando, subitamente, a F. dá um grito e diz: - "Olhem, não é a Meg?"
A minha mãe, que ia sentada à frente no varro (a F. e eu seguíamos atrás, de onde é sempre mais difícil sair, na medida em que o jeep do meu irmão é um daqueles Land Rover's antigos, com capota de sarja, a qual é preciso levantar para que os passageiros da retaguarda possam sair), saiu e chamou a cadela que, de facto, se assemelhava bastante à Meg, mas era mais gorda e, finalmente, descobrimos que se tratava de um macho.
Entretanto, ao pararmos para verificar esta pista falsa, acabáramos de perder o autocarro nº 17 que, segundo o senhor que esperava na paragem, deveríamos seguir para podermos chegar à igreja.
Decidimos ir em frente e seguir as várias paragens do autocarro nº 17. Até certo ponto o caminho mantinha-se inalterável. Numa curva da estrada, vislumbrámos um enorme edifício amarelo perto de um monte, e ao longe a torre da tal igreja. Seguimos por aí, alcançando um enorme estaleiro de uma obra em construção. Saímos todos do carro e fomos verificar. Não nos parecia ser o local exacto, apesar do tal enorme edifício amarelo, mas a F. ainda gritou uma vez chamando pela Meg. Ouviu-se ao longe um: - "Anda aí gente!..."
Quando nos preparávamos, novamente, para entrar no jeep, alguém nos chamou. Olhámos para trás e vimos um rapaz, que, aparentemente, parecia ser o vigilante da empreitada. Contámos-lhe toda a história, de onde vínhamos e ao que íamos, falámos nos tais prédios amarelos com "umas partes em pedra" do bairro PNR 10 e no estaleiro. Disse-nos que não conhecia, mas que seguindo por uma outra ruela enlameada -que nos indicou logo- iríamos chegar a uns bairros sociais, alguns dos quais se encontravam ainda em construção e onde, eventualmente, existiriam, também, estaleiros.
Agradecemos-lhe pela atenção e, antes de partirmos, como eu vinha munida de 20 exemplares do anúncio do desaparecimento da Meg (com os contactos telefónicos para onde se poderia ligar caso a encontrassem), aproveitei logo para lhe deixar um, não fosse o diabo tecê-las.
Prosseguimos pela rua que ele nos indicara e chegámos a um complexo de prédios enormes despersonalizados e, aparentemente, sem qualquer tipo de vivência de bairro, onde nem lojas sequer existiam.
A minha mãe, a F. e eu saímos do carro, para ali dar umas voltas. Enquanto o meu irmão, algo receoso que lhe roubassem o seu tesouro, se manteve dentro dele.
Chegámos junto de um jardim, tendo a F. dito que já ali estivera na 4ª feira, quando andou com a sua mãe dentro de um táxi à procura da Meg. Passaram por nós 2 casais daquele bairro, tendo um dos homens dito em tom jocoso: -"Sim, sim, 'tá muito bonito o jardim!". Fingimos não ligar e dirigi-me a um rapaz que ali estava com um pitbull sem trela. Perguntei-lhe sobre o tal bairro PNR 10 e expliquei que andávamos à procura de uma cadela que tinha desaparecido. O rapaz afastou o olhar e respondeu que não morava naquele bairro. Entretanto, junto a uma das entradas de um prédio ali perto, uma mulher de idade vendia legumes e algumas pessoas passavam. Inquirimo-los sobre a mesma questão. Um dos homens disse-me que sabia, perfeitamente, onde era o bairro PER 1o e não PNR 10 (afinal de contas, nós é que entendêramos mal o que os ciganos nos tinham dito!). Conduziu-me até ao jardim onde a vista era mais ampla e, colocando-me a sua mão no ombro, apontou para o alto de um morro, onde sobressaíam uns prédios de cor creme. Junto da F. e da minha mãe, uma série de outras pessoas disponibilizavam-se muito solicitamente a tentar indicar-lhes qual o melhor percurso a seguir para lá chegarmos. Metemo-nos no jeep e, ao sairmos, reparei que tínhamos estado no bairro (de realojamento social) PER 13.
Chegados ao local que nos haviam indicado, não pudemos deixar de reparar, logo à entrada do bairro, num enorme ferro-velho de sucata, com um portão em madeira, que jazia no fundo de um vale. A F. e a minha mãe, dir-me-iam mais tarde que, à porta do tal ferro-velho, se encontrava um rapaz com um pitbull.
Estacionámos logo junto a uns prédios à entrada do PER 10, um bairro social, aparentemente, construído há muito pouco tempo, dado que as paredes exteriores dos edifícios permanecem imaculadas e o jardim com alguns mobiliários urbanos para os jogos das crianças ainda tinha a relva muito verde e bem tratada.
Olhámos em volta e vimos 2 cafés. Dirigimo-nos ao mais próximo, para tentar saber alguma coisa junto dos populares. Entrei e dirigi-me à primeira pessoa que me apareceu à frente, um homem de meia-idade, de óculos, com um cão a seu lado.
Expliquei toda a situação e falei no tal estaleiro que os ciganos na Praça nos tinham mencionado. Pareceu gaguejar, disse que não sabia bem e apontou-me o dono do café, dizendo que, talvez soubesse melhor. Dirigi-me para o balcão, onde um homem acabava de pagar a sua conta e, na outra ponta, um casal jovem bebia café.
O dono do café olhou para mim, sem querer avançar para o que quer que fosse que eu lhe iria dizer. Com os olhos de todas as pessoas que se encontravam no café postos em mim, expliquei-lhe, mais uma vez, toda a situação, mostrei o anúncio do desaparecimento da Meg com os nossos contactos. Menos receoso, aproximou-se e disse que, efectivamente, nos encontrávamos no bairro PER 10, que na entrada do mesmo existia um estaleiro, mas que nunca ali tinha visto a Meg. Agradeci e perguntei se poderíamos ali deixar o anúncio, caso a cadelinha aparecesse. Aceitou-o. Ao sairmos, duas senhoras de idade que estavam sentadas numa das mesas perguntaram-nos se a cadelinha tinha sido roubada. A minha mãe respondeu que sim, em Benfica, e que andávamos à sua procura há cerca de 3 semanas. - "Ah, isso foram os ciganos, esses malvados", proferiu uma das idosas. Agradecemos, mais uma vez, e saímos.
A F., a minha mãe e eu dirigimo-nos, então, ao tal estaleiro, que ficava na entrada do bairro. Um local estranho, que não passava de uma espécie de ferro-velho de sucata e entulho, para onde se entrava descendo uma ravina. Do lado direito, em baixo, permaneciam imóveis, olhando para qualquer coisa que se encontrava junto a uma parede, 3 tipos "brancos" com um aspecto estranho, acompanhados de 1 rapaz cigano muito magro.
Descemos a ravina, aproximando-nos em fila indiana, a F. à frente, eu e a seguir a minha mãe. Ao descer, dissemos por 2 vezes "bom dia" e os fulanos nem sequer responderam, limitando-se a olharem para nós intimidativamente. Quando, finalmente, os alcançámos, ouvimos uns cães ladrarem e apercebemo-nos, então, que estávamos diante de 2 canis construídos em pedra e separados entre si: - num deles, o que era olhado pelos 4 tipos, encontrava-se um rottweiller, rodeado de excrementos, denotando que o local não era limpo há vários dias; - no outro, mais ao longe, tapado por umas tábuas, deveriam estar uma série de cães aparentemente rafeiros, dos quais só vislumbrávamos a cabeça de 2 ou 3, mas que, pelo seu ladrar, percebemos serem muitos (mais tarde, apesar da alegria em rever a Meg, haveria de me lembrar bastante, com alguma mágoa, daqueles pobres cães que ali se encontravam em condições desumanas e utilizados para fins incertos; e que, ao aperceberem-se da nossa presença, ladraram de uma estranha forma, como se estivessem a pedir para os tirarmos dali).
Junto dos 4 fulanos, explicámos toda a história do desaparecimento da Meg, sem nunca acusar ninguém. Dizendo, apenas, que uns ciganos que vendem na Praça de Benfica nos tinham dito que a cadela estava naquele local (neste ponto, aproveitámos para lhes mostrar o anúncio do desaparecimento da Meg). Quem nos respondeu foi o rapaz cigano magro, dizendo que nunca por ali tinha visto tal cadela e que, apenas, tinha aqueles cães que ali se encontravam. Apontou para o rottweiller e disse rindo-se: - "Não é esta, pois não?!". Rimos, também, sem vontade nenhuma, e respondemos negativamente.
O rapaz cigano magro continuou, dizendo que, se quiséssemos, poderíamos verificar no outro canil mais afastado se ela ali se encontrava. Estava, logicamente, a colocar-nos à prova e, felizmente, que nesse exacto momento entre nós as 3 deve ter havido uma qualquer transmissão de pensamento, porque apenas lhe respondemos que não valia a pena, pois acreditávamos na sua palavra.
No entanto, continuámos a insistir, explicando que a cadela nem sequer era de raça pura (aproveitando para questionar -sem qualquer resposta- porque é que alguém a teria levado), que o seu dono estava desgostoso e que todo o bairro onde morávamos andava à procura da cadelinha. Um dos fulanos "brancos", bastante gordo, permanecia imóvel, com um sorriso espelhado nos lábios como se estivesse a gozar com toda a situação.
Entretanto, surgido não sei muito bem de onde, apareceu um outro rapaz cigano, mais novo e mais gordo do que aquele que nos respondia a todas as questões que colocávamos. Juntou-se a nós sem dizer qualquer palavra. Aproveitei e mostrei-lhe o cartaz da Meg, explicando tudo aquilo que já tínhamos dito aos outros 4. Quando lhe dissemos que tinham sido uns ciganos que trabalham na Praça de Benfica a indicar-nos aquele "estaleiro", o cigano novo e gordo descaiu-se e disse-nos que, por vezes, também, ia vender aí. Sem sequer ter lido o anúncio que lhe mostrava, perguntou-nos se havia alguma recompensa pela cadela (tendo, nesta altura, o gordo "branco" que nos olhava em tom de gozo dito: - "Este gajo é sempre a mesma coisa!"). Respondi-lhe que sim, que tal como dizia no anúncio (apontei-lhe o parágrafo), existia uma recompensa pela Meg. Perguntou-me quanto era. Respondi: - "50€". Explicou-nos, então, que se encontrasse a cadela (que, logicamente, nesta altura já estava mais que provado que tinham sido os seus familiares a roubar) isso era muito pouco dinheiro... propôs 100€. A F. disse repentinamente: - “Damos!”. O cigano gordo e novo assentiu com a cabeça. Passei-lhe o anúncio do desaparecimento da Meg para as mãos, pedindo que, caso tivessem alguma notícia, nos telefonassem para um daqueles números de telemóvel. O cigano mais velho e mais magro disse que enviariam um "Call me" (sms gratuito, enviado para um outro número de telemóvel, solicitando que essa pessoa ligue para o telemóvel que enviou este pedido) para o telemóvel da F. que, também, era da rede TMN, como o deles.
Depois de termos agradecido toda a ajuda que nos pudessem dar (continuando a conversa diplomática e dúbia em que ambas as partes sabiam quem tinha roubado a Meg e quem estava a acusar quem -que me deu mesmo a volta ao estômago!), saímos daquele estranho local o mais depressa possível!...
Chegadas ao carro do meu irmão, este informou-nos que um dos rapazes que se encontrava no café onde tínhamos ido, lhe tinha vindo dizer que havia um outro estaleiro mais acima, onde também, costumavam estar muitos cães e que pertencia a uns ciganos (afinal de contas, as pessoas que ali vivam no PER 10, apenas, tinham medo de dizer alguma coisa que lhes pudesse vir a trazer graves consequências -na medida em que têm de conviver, diariamente, uns com os outros: bons e maus-, mas quiseram ajudar-nos!).
Quando nos estávamos a enfiar no jeep, avistámos os 2 jovens ciganos, vindo na nossa direcção. O meu irmão aproveitou para lhes falar no outro estaleiro, dizendo-lhes que lá íamos agora verificar. O rapaz cigano mais velho e mais magro olhou para o meu irmão e para a minha mãe e, apenas, lhes disse que não valia a pena, porque o estaleiro era seu e não havia lá nenhum cão parecido com a Meg. Compreendemos a mensagem e quais os seus intentos. E os 2 rapazes ciganos aperceberam-se, também, que tinham sido apanhados em flagrante, quando se dirigiam, demasiado cedo (pensando, talvez, que já nos tínhamos ido embora), para o 2º estaleiro, em busca da "nossa" Meg. Afastámo-nos rapidamente, enquanto eles se dirigiam para o tal outro estaleiro.
Dentro do jeep, regozijámos, ao pensar que os próprios ciganos tinham sido algo parvos e que, finalmente, iríamos reaver a Meg. Pedi ao meu irmão para dar umas quantas voltas ali pela região, de modo a "fazermos tempo" para que os rapazes ciganos nos contactassem com notícias sobre a Meg. Era quase meio-dia e pensei que, estrategicamente, só lá por volta das 13h nos dissessem qualquer coisa. Mas nem sequer tinham ainda passado 10 minutos, desde que abandonáramos o local em viatura, quando a F. recebe um "Call Me". As mãos da F. tremiam de nervosismo ao passar-me o seu telemóvel para as minhas mãos -porque estava sem óculos e não conseguia ler o número. Copiei-o para o meu telemóvel e liguei.
Pareceu-me a voz do cigano mais novo e mais gordo, tendo, subitamente, começado a falar-me o mais magro e mais velho.
- "Ouça, nós encontrámos a cadela! Mas o rapaz que a tem comprou-a por 150€ e não a devolve se não lhe derem esse dinheiro."
Perguntei-lhe se era mesmo a Meg, se tinha o pêlo da barriga rapado, fazendo tempo para que a F. e a minha mãe assentissem no novo preço que nos estavam a pedir. Respondeu-me que sim. Questionei-o, então, sobre se era mesmo aquele preço ou nos iriam pedir mais dinheiro. Respondeu que era esse o preço. Compreendemos (novamente) a mensagem e respondi-lhe que íamos levantar dinheiro e, dentro de 20 minutos, nos encontrávamos no 1º estaleiro onde tínhamos ido. Respondeu-me que não, que era melhor encontrarmo-nos à porta da igreja das Galinheiras (mais tarde, apercebemo-nos que, na véspera, apesar de termos lá ido com um senhor -taxista de profissão-, tínhamos andado a percorrer a zona errada... ou seja, não tínhamos ido para as Galinheiras, mas sim para uma zona próxima da Ameixoeira).
Depois desta conversa telefónica, foi o cronometrar do tempo, à procura de uma caixa multibanco, num local completamente deserto. Levantei 100€ e a F. 50€, porque, como ela se encontra desempregada, não quis que tivesse mais encargos com esta busca.
Chegámos ao ponto de encontro com 5 minutos de antecipação. À porta da igreja, a fazer sinais ao meu irmão que conduzia, encontrava-se o cigano mais novo e mais gordo, sem a Meg. Depois, no curto espaço de tempo em que estacionávamos e saíamos do carro, vimos o outro cigano mais velho e mais magro aproximar-se vindo não se sabe bem de onde (no regresso a casa, alguns minutos mais tarde, compreenderíamos finalmente que os ciganos estavam ainda mais receosos do que nós, pois ficaram com medo que levássemos connosco a Polícia, daí terem marcado o encontro para aquele local e terem se munido de tantas precauções), acompanhado de um 3º cigano já adulto. Este último trazia pela trela improvisada (apenas uma corrente ferrugenta) a "nossa" Meg.
Conforme se aproximaram de nós, a Meg ficou cada vez mais excitada ao ouvir a voz da F. Aproximou-se aos saltos e até me lambeu a cara. O mais caricato de tudo é que os 3 ciganos até nos ajudaram a colocar a Meg dentro do jeep. E só quando ela lá se encontrava, já bem segura, é que lhes passámos o dinheiro para as mãos. Não quisemos saber de mais nada, porque a tinham levado ou o que quer que fosse... apenas queríamos voltar a Benfica e encontrar o Sr. M.
Já dentro do carro, a caminho de Lisboa, a F. e eu chorámos de alegria ao estar com a Meg ali ao nosso lado. Nessa altura, liguei ao Sr. M, para lhe pedir que se encontrasse connosco à porta do café, sem nunca dizer que tínhamos a Meg, para lhe fazer surpresa (mas tive que deixar recado com a T., onde ele deixara o seu telemóvel a carregar a bateria).
Durante o caminho, a Meg vinha muito feliz (até lhe tirei algumas fotos e tudo!) mas, também, algo agitada (até vomitou um bocadinho, com os solavancos do jeep) e cansada (estava constantemente a abrir a boca, com sono), tendo-se deitado por instantes aos meus pés.
Chegados a Benfica, o Sr. M, que estava à porta da loja da T., não se apercebeu logo do que se passava, quando nos viu... mas a Meg saltou-lhe rapidamente para o colo toda contente. O Sr. M, bastante agitado retirou os seus óculos e pediu ao meu irmão que os segurasse por um momento. Abraçou-se à Meg durante alguns minutos, de olhos fechados, como se estivesse a meditar (foi antes disso que lhe pedi autorização para tirar uma fotografia que celebrasse o reencontro -tendo, então, captado uma das imagens mais belas que já tive ocasião de presenciar!).
A Meg, coitadinha, ficou tão nervosa com o reencontro, que ainda fez para ali, no meio do passeio, as suas necessidades (limpas no mesmo instante pela T. e pelo Sr. M). De repente, alguns vizinhos e comerciantes aproximaram-se, ou observavam ao longe a cena... com muitas, imensas questões sobre o reaparecimento da Meg. Mas o Sr. M, o seu dono, deveria ser o primeiro a ser informado. Por isso, enquanto nos aproximávamos da clínica veterinária, onde íamos levar a Meg para verificar o seu estado de saúde, contei-lhe em traços largos toda a história. O Sr. M ficou muito revoltado por termos tido que pagar a quem a roubara (e confirmou-me que o tal cigano mais velho e mais magro, também, participara no roubo da Meg).
Também considerei toda esta história revoltante e injusta, ainda para mais porque tenho a certeza absoluta que os ciganos da Praça de Benfica estiveram o tempo todo do nosso percurso em contacto com os tais ciganos do estaleiro. Mas, como me disse desde o início uma amiga que tem mais experiência nestas coisas, se não pagássemos nunca voltaríamos a ver a Meg! Foi a única solução...
Por outro lado, continuaremos a nunca saber exactamente qual o motivo porque roubaram a Meg ao Sr. M. Apesar de eu continuar a pensar que a queriam oferecer ao tal avô cigano, mas como o Sr. M se antecipou e falou antes com esse patriarca, tendo-se ele comprometido a devolver-lhe a cadela caso lha oferecessem; os tais ciganos que a roubaram devem ter ficado completamente perdidos e sem saberem o que fazer... e, ao fim de 3 semanas de roubo, foi esta a única maneira de resolverem a situação que encontraram.
Mas isso agora, também, não interessa, o que conta é estar sã e salva, de novo com o Sr. M!
Pelo aspecto com que a Meg vinha, deve ter estado sempre dentro de uma casa ou de um local fechado e não a devem ter tratado mal, pois não vinha magrinha (apesar do Sr. M dizer que ela estava muito mal). O veterinário confirmou que, aparentemente, está de boa saúde, porém, convêm esperar 8 dias antes de lhe serem administradas as vacinas (que estavam marcadas para antes do seu roubo), para verificar se ela não estará infectada com parvovirose, dado que não sabemos exactamente se esteve em contacto com outros cães e em que condições.
Quanto ao receio dos ciganos poderem voltar a fazer algo semelhante (por causa do dinheiro do resgate) ou exercerem represálias sobre o Sr. M, não me parece que qualquer das situações venha a ocorrer. Esta tarde, ainda enviaram outro “Call Me” à F. que lhes ligou de volta, queriam saber se tinha corrido tudo bem e se o dono ficara contente de reaver a cadela. Ou seja, basicamente, estavam, mais uma vez a pôr-nos à prova e a tentarem perceber se tinham sido identificados enquanto os verdadeiros ladrões da Meg. Por outro lado, depois do que vimos no tal estaleiro, não me parece que eles voltem novamente a fazer o mesmo... uma vez que sabemos onde estão, o que fazem e poderemos lá voltar com a Polícia.
No final deste pesadelo que durou 3 semanas e começou logo depois do meu aniversário, posso afirmar, sem sombra de dúvida, que me envolvi demasiado nas buscas; "chateei" família, amigos e colegas de trabalho por causa deste roubo; através da internet, coloquei metade da cidade de Lisboa e arredores em busca da Meg; sofri e desesperei em muitas alturas, como se a Meg fosse minha; conheci pessoas extraordinárias, com uma força de vontade e carácter incríveis; vivi uma das mais surreais aventuras, colocando até mesmo a minha vida em perigo (mas já me apercebi que um dos meus defeitos é, precisamente, não ter bem a noção do perigo quando o vivo... só dessa forma se poderá explicar a surpreendente calma e tranquilidade com que esta manhã vivenciei tudo aquilo que aqui descrevi!)...
Mas há recompensas que valem por tudo isso e muito mais: - por mais anos que viva, nunca me hei de esquecer da forma terna como o Sr. M abraçou a Meg, quando a reencontrou... nem da expressão que se esboçou no seu rosto, enquanto olhava para o céu de uma forma contemplativamente religiosa, e nos dizia que lhe tínhamos dado uma razão de viver.
Há coisas que não vale a pena serem agradecidas tantas vezes, Sr. M!...Sempre me ensinaram que, quando ajudamos alguém, não pedimos nada em troca e, apenas, o fazemos porque sentimos compaixão (= sentimos a dor de outrem como se fosse a nossa própria dor) no nosso coração... e queremos a felicidade de alguém!
No final desta história (verdadeira), queria, mais uma vez, agradecer a todos os que aqui nos ajudaram e nos deram algum apoio moral!
14 comentários:
É revoltante ter de recompensar actos criminosos como estes, pois acabam por se tornar vícios. Mas perante sentimentos, o que pode alguem fazer? Parabéns sobretudo pelo esforço feito. Ter conseguido certamente que terá sido inesquecível. Uma história para contar aos filhos e netos.
:*)
Olha, não sei o que dizer...
(Só uma coisa: essa igreja de que falas e cuja torre se vê do PER13, mesmo aqui ao pé de mim, não é a da Charneca? Ontem, mesmo antes de te escrever o sms e já melhor da enxaqueca, ainda andei por lá, com o meu marido, à procura. Fui lá porque me pareceu, desde o início, que estavas a fazer confusão entre as Galinheiras - que eu nem sei onde ficam - e a Charneca...)
Bem, mas o que interessa é que tudo teve um final feliz! :
David, muito obrigada pelo seu comentário!
Infelizmente, também considero tudo isto revoltante... mas duvido que se torne vício no caso de mais um roubo da Meg ou assim; porque, tal como digo no texto do post, nós vimos muita coisa que não era suposto vermos!
Rodrigues, muito obrigada pela tua ajuda!
Se queres que te diga, já nem faço a mínima das ideias por onde é que andámos. Os ciganos falaram-nos, efectivamente, em Galinheiras. E a torre da igreja que se avistava do PER 13 ficava no alto de um morro. Será a da Charneca?
Que confusão! :)
Pronto, lá veio a lágrima ao canto do olho (ainda bem que não é de noite senão vinham também os olhinhos de sapo!).
Felicito-te pela coragem, pela dedicação e pela tenacidade com que abraçaste esta busca!! E fico muito feliz pelo Sr.M!
Muito obrigada, Reticências! :)
É - a igreja é, de facto, a da Charneca. Uma localidade, aliás, muito bonita, com um núcleo antigo e uma igreja (com o seu largo) muito acolhedores. As Galinheiras são, se não me engano, um bairro não muito longe daí... Mas eu ainda faço alguma confusão porque moro aqui há pouco tempo.
Espero que, por esta história toda, não fiques a odiar este sítio. A Alta de Lisboa é uma nova zona de Lisboa cujo planeamento urbanístico promete, por ser (infelizmente - porque devia ser a regra) inovador: vários parques, caminhos pedestres e ciclovias, estádios desportivos, bons acessos, muito comércio, transportes, etc, etc... É claro que as pessoas que aqui moravam antes (nas Musgueiras Norte e Sul) aqui foram também realojadas. Ao contrário do que poderia parecer, e a despeito das notícias alarmistas nos jornais, até agora não tem havido problemas nenhuns. Pelo contrário - são pessoas que vivem mais a rua e a povoam de dia e de noite, o que é óptimo.
:)
R., não te preocupes, porque não fiquei a odiar aí a tua zona (aliás, o meu irmão até esteve para ser teu vizinho e comprar aí casa :)
Sei muito bem destrinçar o bom do mau (que existe em todo o lado, qualquer bairro que seja)... aliás, só para ficares com uma ideia, trabalho no Bairro do Armador, em Chelas, por isso já estou muito calejada nestas coisas de bairros sociais de realojamento ;)
Beijinhos e obrigada pela tua ajuda e dos teus vizinhos!
nao acham que a policia devia saber disto?
parece-me tudo bastante desconcertante. Para essa malta qual e a diferenca entre um animal de estimacao e um carro?
Nao podemos ter pena ou tentar justificar CRIMES.
Esse senhores tem de ser punidos exemplarmente.
Para Anónimo: - caso tivesse lido os vários episódios desta história, teria percebido que o Sr. M é uma pessoa sem-abrigo, que ao longo das buscas foi, por diversas vezes, ameaçado.
Nesse sentido, tivemos algum receio por ele, dado que se encontra na rua e, para além disso, é deficiente físico.
O facto de não termos ido à Polícia não quer dizer que compactuemos com essas pessoas que roubaram a Meg ou que não estejamos já a efectuar diligências para tentar resolver o problema dos inúmeros cães que lá se encontravam.
OLá
Que história!
Ainda bem que teve um final feliz!
Parabéns
Alexa
Como e que estao a ajudar?
Vao resolver as situacoes uma a uma (como a da senhora do boxer). Quantos resgates vao pagar?
Creio que haver alguem com um coracao enorme e maravilhoso, mas ha que fazer mais!
Para Anónimo: - Peço.lhe muitas desculpas mas, infelizmente, não posso falar sobre a forma como estamos a ajudar... dado que, face a toda esta situação, o sigilo é o nosso melhor aliado. mas estamos a fazer qualquer coisa, pode acreditar!
E não, não vamos pagar mais resgates nem resolver a situação da senhora do boxer.
Acho mesmo muita piada as pessoas criticarem tanto o acto de termos pago o resgate e dizerem que poderíamos ter agido de outra forma... mas gostava de ver o que fariam se lhes sucedesse o mesmo com um animal seu!
Estou convosco!
Para vós, todo o meu apreço.:)
Muito obrigada, Rodrigues!
Tu bem te apercebeste do stress em que andei com tudo isto, não é?!
Beijinhos
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